Decidimos ir. Nos preparamos então para o “jantar de gala” do Domingos. Sua simpatia era realmente contagiante. Atravessamos a rua e ficamos esperando o motorista no saguão do Holliday Inn. O motorista foi muito cordial, atravessou toda a cidade e entrou no complexo afastado do hotel Sheraton (na verdade, antigo Sheraton), o tal “5 estrelas” de boca cheia do Domingos. Nosso amigo estava na porta, de terno e gravata, um sorriso contagiante. “Que bom que vocês vieram, estou muito feliz por ter a companhia de vocês”. Domingos foi nos conduzindo pelo hotel explicando cada lugar. Perguntou ao concierge se a nossa mesa estava pronta. Com a negativa, nos conduziu primeiro ao bar, ao mesmo tempo em que explicava todos os detalhes do serviço, como se tivéssemos indo pela primeira vez em nossas vidas num hotel daquele porte. Mas não parecia arrogância dele. Era de fato uma maneira de nos deixar a vontade, demonstrando-se um bom anfitrião. Ele realmente queria que tudo saísse um sucesso. Quando a garçonete estava servindo Amarula e coca-cola, e por distração, se equivocou com os verdadeiros destinatários, Domingos fez a garçonete voltar o ritual e fazer o serviço correto, ao invés de trocar os copos na própria mesa. Dava para ver seu perfeccionismo, mas também transparecia um homem que sabia que estava pagando caro, e queria o serviço justo. O saguão e o bar, de fato muito luxuosos, estavam repletos de gente pomposa e com cara de “business”. Também muitas pessoas conversando e muitos militares passeando pelo saguão. Nosso amigo confirmou que aquele era o hotel preferido de Robert Mugabe e seus militares. Inclusive, um dia antes, Mugabe estava por ali.
Depois de duas doses duplas de Amarula, com gelo e um copo charmoso (veja meu caso, eu não bebo, mas mesmo assim tive que molhar os lábios para agradar o anfitrião. Mesmo para quem não bebe, a taça de Amarula preparada pelo hotel era realmente tentadora), o maître veio nos informar a liberação da mesa. Nesse momento Domingos lembrou muito bem: “Eduardo, você não vai tirar foto? Eduardo, você precisa tirar foto. Esse momento é muito especial. Tenho certeza que lembraremos por nossas vidas! Vocês não imaginam a felicidade que é encontrar vocês. Agora há pouco liguei para minha esposa e ela pediu para registrarmos esse momento”. Depois dos registros, Domingos chamou o garçom e pediu que o mesmo guardasse as bebidas inacabadas de nossa mesa para que continuássemos a beber logo após o jantar (tratavam-se de duas taças inacabadas de Amarula e meio copo de coca-cola). O garçom se atrapalhou um pouco, mas levou os copos. Somente quando fomos para o restaurante do hotel que Domingos deixou claro o que comemorava: o sucesso nos negócios. Para entender quão especial era aquele momento para ele, era necessário entender uma trajetória: cinco anos atrás roubaram meio milhão de dólares de sua casa em Maputo, Moçambique. Praticamente toda suas economias. Para não deixar rastro, os ladrões queimaram a casa. Domingos ficou numa situação difícil financeiramente, com dois filhos quase entrando na adolescência. Morando quase de favor, um belo dia bate em sua porta um rapaz (branco) sem dinheiro e sem nada, dizendo que era sul-africano e que havia viajando de Pretoria a Maputo de carro com os amigos. Esses amigos lhe aplicaram um golpe. Venderam o carro e desapareceram. Por uma semana, Domingos acolheu o rapaz, ao mesmo tempo que tentava encontrar o telefone dos pais ou endereço. Quando conseguiu contatar os pais, 45 minutos depois baixa um helicóptero no terreno dos fundos da sua casa. Enfim, o pai reencontra o filho. Um ano depois, quando Domingos consegue aceitar o convite de visitar a família, no bairro nobre ao norte de Pretória, o pai do rapaz leva o herói para um Shopping para tomar um banho de loja e se tornar um distinto cavalheiro. Logo em seguida, passam por uma loja de carros e o pai do rapaz pede que Domingos escolha o carro que quiser. Domingos escolheu uma Pajero. Como explicação, o senhor disse: “Estou fazendo tudo isso em retribuição ao que você fez ao meu filho. Além disso, meu trabalho é financiar pessoas, e você tem um crédito alto comigo”. A partir dali Domingos, formado em engenharia de alimentos, de alguma forma recebeu um empurrãozinho para iniciar um negócio de comercialização de peixes e camarões: primeiro abastecia o próprio Moçambique; depois África do Sul, Botswana, Namíbia e Zimbábue. O próprio Domingos estava se denominando como um “emergente”. A comemoração especifica de nosso jantar era de que havia fechado naquele dia um contrato que dobraria toda sua venda anual. “Estou me tornando uma multinacional, Eduardo!” No momento em que conversamos no ônibus ele havia acabado de receber a confirmação. O fato é que ele havia ficado muito contente de ter pessoas com cultura muito próxima no momento que ele recebeu a notícia. Para ele, não havia coincidência. Esse encontro tinha algum significado, algo típico de sua cultura. Conversamos até tarde sobre política de Moçambique, Brasil e toda a África, valiosas dicas de expansão do negócio, além de suas viagens pelo mundo para estudar socialismo numa época em que Moçambique estava sob esse regime. Ele já havia visitado Cuba, Argentina e também escapado de um “quase” naufrágio nos Triângulos das Bermudas, o que ele chamou de algo “muito alienígena”. O jantar realmente estava maravilhoso, repleto de iguarias da comida local e pratos internacionais. Domingos deixou claro para nós, seus dois convidados, antes de sentarmos à mesa, depois de cumprimentar todos os garçons, um a um: “podemos ficar à vontade, podemos comer o que quiser. O preço é único, então nós podemos comer muito bem”. O mais interessante de nossa conversa, excluindo todo entendimento do seu negócio de peixes e camarões, foi saber que o povo de Moçambique, que recebe o sinal da rede globo e da TV Record (lembrando que igreja Universal deve ser a maior multinacional brasileira, pois está em toda a África), ficou indignado quando a apresentadora de TV, a Eliana, havia desaparecido da Record. As pessoas queriam ir à embaixada do Brasil para reclamar. Também comentou que se Lula se candidatasse para presidente do seu país, também ganharia fácil. Com o Lula, a relação entre os dois países se fortaleceu e a economia de Moçambique vem melhorando. Já estão falando na extinção do visto entre os dois países, o que na opinião dele, será um grande avanço.
No final da noite, depois de mais fotos, Domingos pediu para que o garçom trouxesse as bebidas guardadas no bar. Reapareceu apenas a coca-cola. Foi uma situação embaraçosa para quem queria tudo perfeito, pagando realmente caro. A discussão amigável entre Domingos e os garçons ajudaram a fechar a noite. Voltamos para o albergue com a certeza de termos um novo amigo. Domingos deixou o contato, e pediu que enviássemos as fotos. “Qualquer coisa que precisem nessas viagens de vocês, podem contar comigo. Aqui está meu telefone”. Na volta para o Albergue, o motorista confirmou a generosidade do Domingos. 
Tínhamos pouco tempo para dormir. Além de armar o bendito, mas indispensável, mosqueteiro, havia muito que preparar para a próxima parada, da qual seguiríamos viagem muito cedo: Zâmbia.
Eu estou simplesmente petrificada, com a história desse Domingos!!!
Se não fosse a foto e credibilidade que deposito nas suas palavras, Edu, juro que não acreditaria em uma linha do que li…rs
A cada dia essa viagem se torna mais emocionante!!!
Deveria virar seriado…hummmm, acho que estou entendendo sua pretensão para o curso de cinema…