Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Lusaka, Zâmbia

Dia de partida do Zimbábue sentido Zâmbia. Todos os ônibus partem pela manhã, justamente para encontrarem a fronteira aberta entre os dois países. Chegamos às 7 da manhã na rodoviária de Harare, enfrentando o assédio insistente dos vendedores de bilhetes. Um verdadeiro mercado de peixes. E muita gente pedindo dinheiro. Havia três ônibus partindo naquele momento de empresas diferentes. Quando eu vi que enfrentaríamos pela frente 8 horas de viagem naquele tipo de ônibus, a July quis entrar em cada um deles a fim de escolher o melhor. Bem, o melhor, só para ter idéia, era um Marcopolo, exatamente igual ao que circula no transporte público nas ruas de São Paulo. Inclusive são importados do Brasil. Nem preciso descrever que a viagem foi ultra confortável, em ônibus urbano, viajando por rodovias, novamente nós dois, encarados como alienígenas. Por outro lado, como a viagem é de dia, é possível ter melhor noção da realidade local pelo interior. Não é novidade. Como já havia comentado, o Zimbábue está ainda numa terrível crise e a miséria espalhada pelo país. Raramente vimos agricultura, apenas a predominância de uma floresta verdinha, não muito fechada, disputando espaço com a savana, com árvores com troncos muito grossos. Uma paisagem repetitiva. O motorista do ônibus colocou o som numa altura desproporcional, mas o pessoal não parecia se incomodar. A paisagem, o som ambiente das músicas tradicionais locais, as pessoas dentro do ônibus, nos remetiam a um clip da MTV. Isso fez o tempo passar. A monotonia acabou quando chegamos na fronteira, onde novamente precisamos enfrentar filas como “refugiados”, muitos pedintes e pessoas querendo de todo o jeito vender moeda local. Fomos assediados a todo o momento. Tivemos de descer as malas do ônibus para serem revistadas. Atravessamos o rio Zambezi às 13:30, a linha fronteiriça entre o Zimbábue e a Zâmbia. Esse rio é famoso por ser o habitat natural de milhares de hipopótamos. Tentei dar uma espiadinha de perto, mas infelizmente fui barrado por uma questão de “segurança nacional”, por se tratar de linha fronteiriça. Depois que passamos por toda a burocracia. Seguimos viagem com uma paisagem um pouco diferente, menos floresta, duas serras, mais savana, alguns bairros miseráveis e sujos pelo caminho, que os locais ousam chamar de cidade. Em uma dessas cidades o ônibus parou para almoço. Ficamos impressionados com a voracidade que as pessoas comiam o Nshima com as mãos, muito rapidamente. Nshima é uma papa branca (bem branca), parece uma massa de pão cru, feita á base de milho. É um prato tão típico quanto é a tapioca no Brasil, e pode ser encontrado em qualquer canto do país, assim como encontram-se uns milhos grande para vender nas ruas das cidades. E come-se com qualquer coisa, o que tiver de “mistura”. Em cada lugar da África tem um nome. Para nós, que não estamos acostumados, é uma cena estranha ver as pessoas pegar a comida no prato com as mãos.

Chegamos em Lusaka, capital da Zâmbia às 16 horas. Novamente na saída da rodoviária tivemos que enfrentar a perseguição de ambulantes, taxistas e trocadores de dinheiro. Somente no meio da avenida, com nossas malas na mão, quando encontramos um militar e fingimos ser amigo dele, é que o pessoal desistiu e voltou para trás. Caminhamos com o policial até a avenida principal da cidade (não vimos muita diferença entre a avenida “não principal” e seguimos caminhando até a nossa hospedaria). Depois de instalados, recusando uma ridícula cabana oferecida para a gente, deixamos as malas e corremos na chuva, procurando um lugar para jantar (finalmente uma chuva para refrescar). Logo que amanheceu, resolvemos reservar o dia para conhecer Lusaka. Uma difícil missão: é uma cidade de acesso complicado, não têm calçadas, tem muito barro (parece que a cidade acaba de sair de uma enchente), muitas pessoas pelas ruas e poucos ônibus. Lusaka mesmo é uma parada para outros destinos muito distantes na Zâmbia. Como é a capital, então todos os vôos seguem conexão por ali. Em nossa pousada conheci um americano que me deu mais energia: ele está fazendo o percurso de bicicleta da Cidade do Cabo, na África do Sul, até Cairo, no Egito. Ele não está nem na metade do caminho. Segundo ele, não existe alternativa para o norte, sem passar por Lusaka. Fizemos literalmente um percurso trivial pela cidade, buscando algum atrativo: visitamos os mercados (tipo mercado Municipal de São Paulo, mas muito precários), uma rua famosa com produtos chineses (uma 25 de março muito piorada) e caminhamos pela avenida principal. Como não haviam pontos turísticos tradicionais, tivemos que improvisar alguns. O melhor deles foi a subida até o último andar de um prédio comercial. Isso depois de ter tentado outros três, e não deixarem a gente subir. Após enfrentarmos uma fila enorme para subir um elevador sinistro (que parava sem mais nem menos entre os andares e abria a porta), conseguimos fazer algumas fotos da cidade de dentro do escritório da diretora de jornalismo do canal americano CBS, que tem filial na Zâmbia, no 23º andar. Ela foi muito generosa.

Apesar de a Zâmbia vir apresentando crescimento de 5% ao ano desde que o seu ditador saiu do poder depois de 27 anos, em 1990, ainda é um país muito pobre. A inflação é bem alta e um microondas custa algo como 1milhão e duzentos kwachas (nome da moeda local), valores expressivos de dizer. Os produtos são bem caros, praticamente tudo é importado. Apesar disso, o país parece ser mais organizado economicamente que o Zimbábue, com uma agricultura levemente mais organizada e os índices de violência de Luzaka muito mais baixos que de Harare. É claro que tem um ou outro contratempo: um rapaz no centro da cidade tentou aplicar exatamente o mesmo golpe que tentaram em Pretoria, aquele papo do “Mandela dizia que ninguém deve brigar…”, e novamente eu consegui me afastar e sair ileso. Porém não sentimos a mesma intimidação pelas ruas que sentimos no Zimbábue. Pelo contrário, as pessoas nos cumprimentavam com um “hello” amigável do tipo “sejam bem vindo”. Talvez andar à noite seja dar muita bandeira, e não tivemos de fato coragem de andar pela cidade. A recomendação era: não “ande por ai”; mesmo que quiséssemos seria impossível devido à falta de iluminação, uma cidade muito escura. Só nos restou confirmar a fama de cidade feia. Realmente a mais feia que estivemos até hoje: sem graça, sem cor, sem estética e sem nenhum esforço mínimo de tentar alguma coisa mais bela, tampouco os tradicionais pioneiros da tentativa de beleza estética: os prédios públicos e igrejas. O catolicismo é a religião preponderante desse lado da África, mas realmente os “arquitetos” do Vaticano não passaram por aqui. Essa herança “não-arquitetônica” que reina em Lusaka parece ser uma herança do tempo que o país experimentou o socialismo. Quando estava escrevendo essa parte, me lembrei do meu irmão Renato, um arquiteto. Ele havia me passado o contato de um colega de classe de um curso que ele fez no Japão, e que mora na Zâmbia, provavelmente Lusaka. Infelizmente o contato não deu certo, ficará para uma próxima. Com certeza essa seria uma grande oportunidade de ter efetivamente a visão de um arquiteto do que significa “Lusaka” no mapa da arquitetura internacional. Para mim, ainda uma incógnita.

Temos pela frente três dias de viagem dentro de um trem. Vamos avançar algumas casas no jogo.

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