Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Adis Abeba, Etiópia

Hoje é dia 25 de fevereiro de 2002. Não estou brincando. Hoje é dia 23 de fevereiro de 2002. Pelo menos aqui na Etiópia. Esse país é tão impar na África, ou melhor, no mundo que tem um calendário próprio. Aliás, também tem horário próprio. São 8 horas de diferença. Ou seja, 8 horas no horário utilizado pelo resto do mundo, para eles é na verdade 2 horas. Isso porque eles contam 2 horas depois do sol nascer, algo como 6 horas da manhã. Da mesma forma, quando são 7 horas da noite, na verdade para eles é 1 hora, ou seja, 1 hora depois que o sol se pôs. É uma confusão. Quando se pergunta quando vai partir o ônibus, por exemplo, tem que ficar atento pois eles comunicam em horário local.

Essa diferença de calendário deve-se ao fato da Etiópia adotar o calendário Juliano (calendário que foi corrigido no século 16 pela igreja católica mas não aceito pela igreja ortodoxa Etíope). Atualmente são 8 anos de diferença, e também significa que eles têm 13 meses no ano (12 meses com 30 e um mês com 05 dias). A Etiópia é toda assim…diferente, literalmente um outro planeta.

Em Adis Abeba, nossa primeira parada nesse país, tivemos a prazerosa oportunidade de visitar dois museus muito interessantes, que nos ajudaram a formar uma imagem mais completa do que significa esse país: o museu nacional, com todas as ilustrações do que é o país e um museu mais etnológico. O primeiro demonstra algo que suplanta qualquer imagem que ainda temos guardado sobre aquele terrível momento de fome dos anos 80. Falar em Etiópia no Brasil é como se fosse sinônimo de pessoa magra. Infame, mas é verdade. Quem não se lembra da música “We are the World”?. Isso porque as imagens chocantes daquela época realmente retratavam uma situação real do país, mas que ocorreu num momento de crise interna.

Aqui vale um parêntesis para entender melhor esse povo e o que realmente aconteceu.

Vamos pelo começo do começo: a Etiópia se auto entitula como o berço da humanidade, ou seja, onde surgiu o Homo Sapiens. Não é uma atitude prepotente, mas uma série de descobertas vem demonstrando isso. No interior da Etiópia foi descoberto a Lucy, um esqueleto de pré-Homo Sapiens, que deve ter algo como 230 mil anos de idade, que está guardada no museu da cidade junto com uma centena de “provas” e fotos de sítios arqueológicos ainda em estudo por instituições internacionais. Esse sim foi passeio que é difícil encontrar pelo mundo. De fato a Etiópia tem bons argumentos para se sentirem na linhagem dos “primeiros” na terra: a terra do Adão e Eva. Que todo mundo veio da África isso todo mundo já havia ouvido, agora é mais preciso dizer que todos viemos da Etiópia.

Contudo ser o berço da humanidade não é algo tão comentado por aqui, pelo menos nas ruas. O que inflama o patriotismo, algo que eles realmente gostam de dizer é que o café foi uma criação da Etiópia. Os árabes passaram por aqui levando o produto e daí foi para o mundo a tal “coffee arábica”. Eles costumam dizer: “O café é um presente da Etiópia para mundo”. Pode até ser, mas não posso atestar ser hoje o melhor café (eles também afirmam isso). Mas posso atestar consistência nessa história: eles bebem muito café, tal como tomamos no Brasil. E é uma honra para qualquer um ser convidado para tomar café na casa do outro. E tem mais: você até pode achar brincadeira: eles tem umas lojas de café em Adis Abeba chamada Kaldi’s Coffee, que tem a fama de ser igual ao Starbucks. Dois fatos interessantes pudemos confirmar: um é que Kaldi´s é realmente uma réplica da Starbucks, escrito com as mesmas cores e letras, inclusive; dois é que eles estão processando a Starbucks por terem copiado duas bebidas deles. É serio, isso virou uma disputa internacional(lembrando que NÃO existem empresas multinacionais tais como as de fast foods na Etiópia).

A Etiópia é o único país da África que não foi colonizado. Isso é um fato que merece ser repetido para se entender o impacto disso: “a Etiópia é o único país da África que não foi colonizado”. Ou seja, todos os demais – não é necessário dizer, mas vale o reforço, todos que passamos até agora – tiveram a influência militar, política, ideológica dos paises europeus, ora escravizando, ora extraindo recursos da natureza e impondo seu jogo capitalista, e mais recentemente, socialista.

Uma pincelada na história recente do país, fatos que marcaram, foi a ocupação italiana no período de 1936 até 1941, pelo regime fascista do Mussolini e que foram expulsos pelos Etíopes. Coincidentemente, chegamos em Adis Abeba num dia de semana. Segundo fontes da internet, não havia feriado na Etiópia em março. Mas como eles estão em calendário próprio, acabou que chegamos em fevereiro, data que eles comemoram a expulsão dos italianos. Na Universidade da Etiópia tivemos o prazer de ver o museu explicando cada detalhe desse momento histórico para eles e encontramos alguns pracinhas pelas ruas. Nesse período de ocupação, o rei da Etiópia, o muito bem relacionado Haile Selassie, ficou muito famoso pelo mundo defendendo seu país nos quatro cantos e se tornou o mártir da vitória contra a Itália. Por esse motivo se tornou um Deus da religião Rastafari, adotado curiosamente do outro lado do mundo na Jamaica. Em 1974, um grupo de esquerda patrocinado pela URSS, na guerra fria, implementou o socialismo no país. Não podemos dizer que antes disso o país estava em boa situação, mas o fato é que com a nova organização política socialista acabou ruindo com a agricultura, o que levou famosa crise de miséria e falta de comida ocorrida nos anos 80 que marcou o mundo. Com essa crise de fome, sob os olhos do mundo todo, acabou levando o país a ter um suporte internacional mais forte, sendo a sede, por exemplo, de organismos internacionais tais como o escritório de Desenvolvimento Econômico das Nações Unidas para a África. Estivemos por lá visitando as instalações. Um guarda muito simpático nos deixou andar pelo moderno prédio que já recebeu diversas personalidades do mundo. Nos anos mais recentes, a Etiópia tenta se desenvolver democraticamente. É uma missão difícil como tem sido com toda a África. Economicamente o país vive da subsistência. A maior parte da agricultura é tocada por uma espécie de “comunas”: as terras são administradas coletivamente por micro zonas, gerando comida para a comunidade. A geografia não ajuda muito, poucas partes do país são férteis. Basta uma seca mais longa e todo mundo pode passar fome. Uma das missões diárias de cada pessoa é conseguir ter comida para o dia. Triste e real. Para tentar gerar riqueza e sair da estagnação o país vem se aproximando muito do Japão e China, tentando se tornar um exportador de matéria prima, ainda muito pouco explorada.

E só para reforçar a “imparidade” da Etiópia, fala-se aproximadamente 83 línguas, isso porque abarca uma séria de etnias, espalhadas pelos seus quatro cantos e que tem um alfabeto bonito de se ver, mas impossível de se compreender. Basicamente o país é dividido em oito grandes grupos étnicos. A língua mais falada é a Amharic (não é o aramaico). Pouquíssimas pessoas falam o inglês, somente aquelas que acessam os turistas, como normalmente acontece em qualquer lugar do mundo. Os mais pobres aprendem o inglês por uma questão de sobrevivência, senão nem mesmo conseguem obter um trocado com os estrangeiros. As diferentes etnias preservam muito da sua cultura, há centenas de anos. No museu e pelas ruas ficou claro que são povos tradicionais, com bagagem histórica bastante rica e que seguem sua cultura a risca. Fiquei encantando com a culinária e a música. Pela primeira vez nessa viagem vimos algo de realmente diferente em termos de comida, música e dança, com todo o respeito aos demais países. Depois de termos nos embrenhados em lugares bastante suspeitos com um taxista (a noite é meio sóbrio andar pelas ruas, explicarei melhor em outro e-mail), ruas de favelas, buscando um restaurante “turístico” que felizmente estava fechado, fomos para um restaurante local, organizado, limpo, mas “não turístico”. Tivemos o prazer de provar um dos pratos mais típicos, a “injera”, que você tem de comer com as mãos. Mas antes de você se servir, duas “garçonetes” trazem um bule de prata, grande e bonito, com água quente para lavar as mãos, enquanto a outra segura uma cesta de palha colorida (muito tradicional na Etiópia), contendo toalhas para secar as mãos. Para pegar a comida utiliza-se uma espécie de massa de panqueca. O jantar é enriquecido com a música local, alternada com danças típicas que a Juliana, quem tem paixão por apreciar e praticar a arte da dança, ficou de queixo caído, e alguns músicos que pareciam cantar de trás para frente.

A religião predominante é o cristianismo, mas também existem uma boa parte de mulçumanos, judeus e crenças tribais. Mas como já disse, a Etiópia é um país que tem um povo de personalidade forte, orgulhoso, logo todas essas religiões tem uma adaptação Etíope. No interior do país, por exemplo, por falta de recursos, o islamismo não é exatamente praticado em mesquitas. E também tem igreja cristã própria, muito forte e com uma prática fervorosa pelas ruas: a Igreja Ortodoxa Etíope. Com papa próprio (na verdade eles chamam de Patriarca) e que fica baseado em Adis Abeba. Isso é bem interessante: quando estivemos em Jerusalém tempos atrás, quando andávamos próximo ao local da crucificação, um lugar muito disputado pelas diferentes vertentes cristãs pelo mundo, nos deparamos com um monastério Etíope, num lugar de destaque. Ficamos muito curiosos: da Etiópia só tínhamos a imagem das pessoas com fome, etc. Um dos motivos para estarmos aqui foi justamente essa ligação com o fato da nossa curiosidade em Jerusalém. Descobrimos aqui uma igreja muito forte, com igrejas espalhadas pela cidade, suntuosas e com uma “missa” muito peculiar: enquanto o “padre” (é que não descobrimos o nome, pode ser um pastor ou talvez um guia espiritual) realiza a missa lá dentro, com um alto falante externo, somente as mulheres ocupam a igreja, descalças, com lenço cobrindo a cabeça, e o restante das pessoas, inclusive as mulheres que não conseguiram entrar, rezam do lado de fora. Muitos beijam as paredes e portões da igreja. De quando em quando, realizam um movimento para frente que dá vontade de imitar. Como as pessoas ficam espalhadas pelo quintal da igreja, cada um no seu canto bastante compenetrados, segurando um terço, fica um desenho meio fantasmagórico em volta da igreja. E isso pode ocorrer ao meio dia, como presenciamos. Se bem que visitamos umas três ou quatro igrejas em outros horários e também presenciamos a mesma cena.

O fato é que o fervor religioso é bastante latente pelas ruas. Acho que isso é proporcional à vida difícil que eles levam por aqui. Boa parte dessa dificuldade está relacionada ao fato da Etiópia ser muito isolada do mundo. É um país de baixa aderência a globalização. Somam-se a instabilidade política, dificulta o acesso de empresas internacionais que poderiam impulsionar alguma coisa. Não existe praticamente supermercado em Adis Abeba. Isso se deve principalmente pela cultura muito própria, por tudo aquilo que já comentei aqui (calendário próprio, diferentes etnias, etc.), o que bloqueia globalizaçao. O fato de o país não ter representatividade no comércio mundial também se deve a sua falta de organização e infra-estrutura para alavancar esse eventual progresso. O insucesso de sua experiência socialista agravou os problemas e levou a um atraso que somente um milagre para que o quadro se reverta no curto prazo. E milagre tem a ver com religião. Daí o fato de a prática religiosa estar crescendo enquanto o país continua estagnado.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Partindo de Nairobi, Quênia

Nairobi está praticamente na linha do equador. Sua altitude é pouco mais de 1400 metros. Desde Johanesburgo o calor vem nos acompanhando, cada vez mais crescente. Aconteceu em Nairóbi um milagre refrescante: além do tempo fechado com chuva, tivemos uma noite e um dia de frio. Talvez tenha alguma coisa a ver com o El Ñino dessa região, mas o fato é que ficamos espantados, e parece que o povo local também, com esse presente de inverno no verão.

Curtimos a cidade com esse clima que literalmente não combina com o lugar. Continuamos tomando os devidos cuidados de evitar qualquer entrada na estatística de Nairobbery, e continuamos nosso tour pela cidade. Dessa vez o passeio foi livre de agentes e pessoas nos perseguindo. Talvez o clima houvesse desanimado o pessoal. E como não havia ninguém atrás da gente ficou mais fácil observar a cidade. Sinceramente, excluindo os lugares realmente tumultuados, nos sentíamos tranqüilos andando pela cidade.

Nesse percurso tivemos algumas surpresas, a principal delas foi visitar o campus da Universidade do Quênia. Além de um lugar de arquitetura agradável, moderna, os gramados muito bem tratados, tornam o ambiente “democrático”, onde alguns tomam sol, outros simplesmente conversam em turmas enquanto outros estudam. Um cenário bem diferente do corre-corre da cidade. Imensas placas dentro do campus indicam “Aqui está livre de corrupção”. Isso faz parte de uma campanha nacional para diminuir as excessivas e escancaradas propinas e subornos. O intrigante é saber quem está atestando o campus de que ele está livre de corrupção….

Depois do Campus, uma visita ao mais importante parque local, o Ibirapuera deles, o “Ururu parque” e logo ao lado o “Central Parque”. Alguns monumentos tentam reservar alguns fatos importantes do país. Um monumento, em especial, chama atenção pelo seu apelo a  justiça, encravado em frente a corte judiciária do Quênia. Uma passada na “City Market”, uma espécie de mercado municipal que “inferniza” turista, tentando vender de tudo. Depois tivemos o imenso “prazer” de se juntar ao rush do final de dia. Isso não foi nada agradável. Milhares de pessoas pelas calçadas e carros que não respeitam a sinalização. Aqui quem pára no farol vermelho toma uma buzinada de quem vem atrás. Atravessar a rua é um verdadeiro safári sem jipe. E as Matatus e os micro ônibus é que não param mesmo. Aliás, nesse horário da tarde o que mais impressiona além do trânsito confuso, é a quantidade de pessoas esperando na fila para pegar o ônibus. Algumas delas é impossível encontrar onde começa. Isso porque até recentemente uma das maiores conquistas do país (veja, do país), foi a regulamentação do transporte público, principalmente as matatus.

Nossa partida da cidade estava marcada para a madrugada do dia seguinte. Antes disso precisávamos encontrar de todo o jeito algum restaurante típico do Quênia. Ficamos impressionados com a recomendação geral sobre um restaurante que fazia um churrasco típico. Não ficamos atraídos nem um pouco, com a certeza de se tratar de uma “armadilha para turista”: algo caro e com baixo retorno. Na noite anterior já havíamos rodado toda a cidade e acabamos comendo num restaurante tradicional chinês. Afinal, como a culinária Queniana parece ter uma grande influência da culinária indiana e um pouco da chinesa, para garantir um bom jantar, acabamos mesmo indo jantar  no chinês recomendado por “chefs” internacionais. Foi saboroso mas nada de mais. Algo que o China in Box também faria. E mais uma vez essa noite rodamos a cidade procurando algo típico. Curiosamente nem mesmo pelas ruas de Nairobi e tampouco pelos lugares que passamos por terra, pelo interior, encontramos alguma comida diferente. Parece estar claro que a culinária dessa região foi fortemente influenciada, e a escassez de produtos (devido à própria condição de miséria e precária agricultura e pecuária) não tem favorecido a criatividade na cozinha. Talvez as tribos, com menos contato com o mundo urbano tenha algo mais típico, mas o acesso até elas é muito difícil e demorado. Não basta chegar lá e dizer “I am from Brazil”, tem que ter um guia, etc.

Era nossa última noite, demos mais uma chance para os quenianos. Mesmo dando mais uma chance, tivemos mesmo que ceder a um prato de comida italiana. Para não ficar em branco estou levando grãos de café e chá. Vamos ver.

Depois do espaguete apimentado, arrumamos as coisas para a partida. Às 11 horas da noite fui procurar um taxista para nos levar ao aeroporto, único meio de transporte naquele horário. Todos os táxis são muito velhos, esse não era diferente. Depois de uma estressante negociação, e ele bastante ansioso em nos levar, colocando as malas apressadamente, saímos cortando as ruas da cidade já muito vazia. Quando o veículo saiu do perímetro urbano o taxista saiu abruptamente da estrada, entrando num posto de gasolina escuro e desativado. Eu e a July nos olhamos: “já era, isso deve ser uma cilada”. Ficamos com o coração na mão, prontos para qualquer coisa. O taxista rodeou o posto, encostando a cabeça no vidro dianteiro como quem busca ler alguma coisa. Depois disso, enfrentou alguns intermináveis metros de terra esburacada, aumentando a nossa apreensão, e voltou para estrada. Por duas vezes repetiu tal movimento em dois postos seguintes. Um deles, inclusive funcionando. Ficamos sem entender. Tentou explicar numa língua incompreensível e seguimos. Fácil perceber que procurava por combustível, mas estranhamos que parecia não conhecer os postos daquela região. E por que não parou para abastecer no posto que estava funcionando? Será que estava pesquisando preço? Para que dar um susto daqueles?

A aventura com o taxista continuou. Bem na entrada do aeroporto, poucos metros antes da chancela do estacionamento, alguns policiais faziam uma blitz. Quando o taxista viu os policiais com a lanterna na mão, balançou a cadeira engolindo seco. Era visível que estava preocupado. Parou o veículo, logo o policial estava em sua janela pedindo para sair do carro. O motorista, todo desconsertado, tinha dificuldade para a abrir a porta. Saiu pelo outro lado. Ele conversou todo o tempo com a cabeça baixa. O policial não parecia estar muito envolvido com a história contada. No momento que o porta-malas se abriu, de dentro do carro dava para ver o dinheiro sendo transferido do taxista para o policial. Estávamos presenciando a corrupção local. Não dá nem para dizer que isso é propriedade exclusiva do Quênia, obviamente, mas é que esta história teve um agravante: Logo que o carro encostou no aeroporto, o pobre taxista, com seu carro todo remendado, novamente foi abordado por mais homem de farda. Pagamos a corrida e fomos saindo de fininho, vendo a situação se repetir e o taxista com o rosto “cheio de lágrimas”. Ainda assim, teve a força e a polidez de dar “boa viagem”, de dentro da jaula dos leões. Infelizmente não podíamos socorrer.

Às 4:30 da manhã, pegamos um vôo da Etiópia Airways para Adis Abeba. Depois de um dia pesquisando como chegaríamos em Adis por terra, descobrimos que seria uma viagem insólita. Quatro dias seria a melhor previsão, enfrentando os piores buracos das estradas do Quênia e as inexistentes estradas da Etiópia.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Nairobi, Quênia

Curioso: Arusha também tem a ver com Ruanda. É uma cidade base para safáris e escaladas do Kilimanjaro. Mas a cidade tem entrado no noticiário internacional por outro motivo. É no centro de convenções de Arusha que foi montado o auditório do julgamento dos criminosos do genocídio de Ruanda. O julgamento é internacional, por isso está fora de Ruanda. Como se tratam de dezenas de acusados, o julgamento vem se estendendo há anos, com prazo para acabar em 2010. Será?

Não pudemos curtir muito a cidade, por dois motivos: pouco tempo e a forte alcunha de cidade “ultra perigosa”. Para se ter idéia do perigo, no inicio da noite, a recepcionista do albergue, a Arishaa (provavelmente se alguma agencia de modelo visse a Arishaa pessoalmente levaria ela para fazer um teste como modelo. Talvez a foto postada ao lado não consiga retratar realmente a sua beleza e altura),uma simpatia de gente, recomendou que pegássemos um táxi para andar menos de duas quadras para chegar a um restaurante. Seguimos a recomendação. Pudemos realmente constatar a sensação de perigo pelas ruas escuras da cidade.

No dia seguinte só houve tempo para tentar trocar toda a dinheirama local em dólares para pegarmos um shuttle para Nairobi, no Quenia. Shuttle é uma palavra bonita, em inglês, que os  “locais” dão para um microônibus velho, apertado e sujo. Numa correria pela cidade, com as malas na mão, chegamos na hora que o tal shuttle estava saindo. Haviam nos informado que a viagem duraria entre 4 e 5 horas. Olhando no mapa, achei até muito. Mas a realidade constatou algo muito pior: as estradas eram péssimas. Havia muitos trechos de terra, no meio da savana, outros trechos com asfalto esburacado e pouco espaço para o carro da outra mão. Mais ou menos uma hora de viagem, tivemos que nos apertar dentro do micro ônibus para comportar os passageiros do ônibus que havia saído antes do nosso e quebrado no caminho. Não bastassem mais pessoas, também havia mais malas. O microônibus viajou arreado mais ou menos umas 8 horas (isso 8 horas!), bem mais do que havia sido prometido. Novamente uma travessia de fronteira sombria e miserável. Muita gente pedindo dinheiro, muitos Maasais tentando vender de tudo. As mãos dos Maasais entravam na van por todas as janelas e frestas. Os muzungus são atormentados a todo o momento. Eles chegam a colocar os produtos em nosso colo e dizem se tratar de um presente. Passa uns 5 minutos gritam “tantos Shillings (moeda da Tanzânia)” e ficamos numa saia justa para devolver o produto.

Novamente, como em boa parte das viagens pelos paises que passamos, a falta de infra-estrutura é parcialmente compensada pela natureza. A paisagem da savana nesse percurso é colorida pelo povo Maasai. Olhando de longe, devido sua vestimenta feita de tecidos enrolados no corpo – tecidos muito próprios deles – com saias, um cajado na mão, alguns carecas, outros com fiapos de cabelo na frente, se sobressaem como uma espécie de “Super-herói” da savana. Alguns, inclusive, usam uma capa de cor laranja. Agora, olhando de perto, os Maasai se tornam anti-herói:  são carrancudos, quase sempre mercenários, não tem um olhar amigável, tampouco gostam de conversar. Ficamos com uma imagem, pode até ser deturpada, de um povo arrogante.

Depois do passeio pelos buracos imensos nas estradas do Quênia, chegamos no final do dia em Nairobi, a capital.

Nossa chegada foi novamente conturbada devidos os insistentes agentes de hotéis, safáris ou de táxi. Algumas vezes, confesso, perco a paciência. Teve um senhorzinho que me perseguiu pela cidade toda. Primeiro esse senhor me ofereceu um tour para não sei onde, daí me pediu para eu passar pelo escritório dele depois que eu me intalasse no hotel. Nos instalamos no hotel, e saímos andando para conhecer a cidade. O senhorzinho apareceu num lugar inusitado, já bem longe, me lembrando que eu deveria passar pela agência dele. Duas horas depois, eu nem me lembrava mais, estávamos no supermercado, novamente apareceu o senhorzinho….

A July acha que eu atraio esse tipo de gente oferecendo coisas. De fato eles não saem do meu pé.

Nairobi é maior cidade do Quênia. Ela está praticamente na linha do Equador. Apesar disso, felizmente, o céu tem ficado nublado e ajudado a refrescar um pouco. Para turistas, Nairobi é conhecida como “Nairobbery”, uma junção de Nairobi com roubo. Todo o cuidado é pouco.

Normalmente a gente só ouve falar em Quênia porque eles vivem ganhando a corrida da São Silvestre. Quem não se lembra de Paul Tergat, vencedor de umas cinco vezes? Apesar desses super corredores, o Quênia é um país pobre, foi colonizado pelos ingleses, e que até 2005 passou por um processo de piora dos indicadores econômicos e sociais impressionante. Isso tudo devido a disputas internas de poder e uma tentativa de transformar o país numa verdadeira democracia. Em 2008 foi necessário uma intermediação internacional para transferir o poder para o presidente eleito. Algo que fiquei surpreso: o país é na verdade uma junção de tribos que migraram para essa região. Foram quatro tribos importantes, onde se inclui os “Maasais”, já comentando por aqui. O curioso é que a maior parte da população está mais inteirada com sua cultura e sua relação com a tribo do que propriamente com o país “Quênia”. E isso é facilmente percebido pelo interior do país, onde está a maior parte da população.

A expectativa de vida é aproximadamente 52 anos, com uma pobreza e falta de saneamento básico bem espalhadas pelo país. Nairobi é uma cidade ligeiramente organizada. Não se vê pela cidade nada internacional, a não ser o hotel Hilton. O centro da cidade é beneficiado pela sede do governo, um centro de conferência e alguns parques que oferecem um charme adicional. Estivemos no topo do centro de conferência, um prédio de um 27 andares. Na recepção, o atendente pegou uma chave velha e nos levou para o topo do prédio, passando por um elevador moderno e três lances de escadas escuras. Fomos parar exatamente no heliporto. Daí sim deu para ter uma noção melhor da cidade.

Depois de um tour pela cidade, partimos para o passeio que havíamos protelado até agora: um safári. Pegamos então uma matuta (como são chamadas as vans no Quênia) em direção ao Parque Nacional de Nairobi, onde os “Big Five”(leão, rinoceronte, búfalo, leopardo e elefante) vivem livremente, em estado selvagem. Mas nesse safári não veríamos elefantes.

Nossa idéia era fazer o safári promovido pela própria empresa “não lucrativa” que administra o parque. Eles oferecem esse tipo de tour (muito bem pago, claro) todos os domingos. Para nossa surpresa, não havia passeio nesse dia por o motorista estava doente. Ficamos na mão. Estávamos na entrada do parque, não podíamos entrar, mas também não queríamos de jeito nenhum desistir. Depois de uma hora de espera aparece um rapaz com o veículo apropriado para o tour. Felizmente outras três americanas estavam na mesma situação e dividiram as despesas com a gente. Pronto, bastava colocar o chapéu de safári e entrar no parque. Esse é um dos passeios com preços mais salgados que já vi em todo o planeta! É desproporcional, tanto o preço do transporte quanto do parque. E é realmente um verdadeiro jogo para ver quem consegue ver um animal. No primeiro kilômetro dentro do parque fica todo mundo tenso, um suspense até vermos o primeiro animal solto. O passeio fica legal quando o motorista levanta o teto e é possível ficar em pé, vendo todos os ângulos. O percurso dura umas 3 horas, felizmente; isso porque realmente demora para encontrar os bichos. Mas quando o negócio esquenta, chega-se a cruzar lagos cheio de hipopótamos, leões passeando despreocupados com a fartura de impalas pelas savanas e rinocerontes aos montes, como se fosse uma fazenda de vacas.

A graça do passeio, pelo menos para mim, foi observar os beduínos. Realmente são muito divertidos. Mas também não se resiste às girafas, que é possível vê-las correndo, algo realmente impossível num zoológico. Nesse tipo de passeio é necessário um binóculo, não só porque os bichos podem estar longe, mas porque dá para ver melhor o que estão fazendo. É possível ver, por exemplo, um leão preparando a caça. O sabor do passeio está nesse jogo e na sensação de estar desprotegido na savana, no meio da “selva”. Esse realmente deveria ser algo que todo mundo deveria ter a oportunidade de fazer um dia.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De Moshi para Arusha, Tanzânia

Curtimos Moshi e a paisagem do Kilimanjaro. Além da parada estratégica nessa cidade, ela também nos serviria de “portão de passagem” para outro país de percurso terrestre muito tortuoso para chegar até ele: Ruanda. O percurso de ônibus seria muito demorado devido a necessidade de contornar o lago Vitória, que divide Ruanda, Uganda, Quenia e Tanzânia. Depois de uma cansativa busca, descobrimos um vôo direto entre Moshi e Kigali, capital de Ruanda. Pelo telefone, fizemos uma reserva para o dia seguinte, às 15 horas, e tratamos de nos preparar para encontrar uma maneira barata de acessar o aeroporto “Kilimanjaro”, cerca de 30 kilômetros de Moshi. Só depois que fizemos a reserva fomos descobrir que o aeroporto não era tão acessível como imaginávamos. Estávamos na mão dos taxistas. Também precisávamos resolver outra questão: o pagamento deveria ser feito no aeroporto, em cash, e em Shilling, moeda da Tanzânia. Fomos correndo (correr aqui é como correr numa sauna) para o único caixa eletrônico que realiza saque internacional. Tendo em vista um valor limite para saque, teria que realizar uns três. Consegui realizar dois. Na terceira tentativa, “cartão bloqueado”. Fomos embora com a certeza que se tratava de um limite máximo do cartão para aquele dia.

No dia seguinte acordamos cedo para ficarmos focados em buscar rapidamente as duas soluções: saque e transporte para aeroporto. Nova tentativa de saque e nada. “Precisamos ligar para o cartão”. Corremos (na sauna) até a central telefônica. O cartão de crédito informa que você pode ligar de qualquer lugar do mundo “a cobrar”. Ficamos mais de uma hora para descobrir que a Tanzânia não faz ligação “a cobrar”. E, sui generis, não existe operadora que realiza a ligação. Tentamos nos controlar. A única maneira foi pagar uma senhorinha que tinha um telefone ligado com o mundo todo, dentro de um cabeleireiro. Pagamos por minuto só para ouvir o óbvio: “Senhor Eduardo, bloqueamos o seu cartão porque o Sr. realizou dois saques seguidos. Pareceu-nos suspeito. Inclusive enviamos um telegrama para sua casa”. Isso porque eu havia informado antes a central do cartão de crédito que estaria nesses paises….Bem, cartão desbloqueado, saque realizado. Sentimos como verdadeiros milionários, com um bolo enorme de dinheiro. Era fácil entender o limite por saque: a máquina não conseguiria fornecer mais notas.

O outro problema, o transporte, contornaríamos em duas fases: pegar uma mini van até a estrada e lá veríamos o que fazer. Comentamos isso com um taxista, um dos zilhões que nos importunavam permanentemente, juntamente com os incansáveis vendedores de tours, e ele aceitou um valor mais justo pela viagem. Esse foi gente fina.

Nos despedimos da hospitalidade do Zebra Hotel, que nos proporcionou uma boa vista da cidade, e saímos. Às 12 horas, uma hora depois, cortando as mais tenebrosas estradas, sob um sol de rachar, conforme havíamos combinado com a agente de viagem da Ruanda Airways (isso mesmo, Ruanda tem uma empresa aérea), estávamos na frente do escritório da empresa, com o bolo de dinheiro na mão, no aeroporto Kilimanjaro. É um aeroporto modesto, quase uma rodoviária de uma cidade pequena no interior do Piauí. Depois de uns 30 minutos aparece o funcionário da empresa. Calmamente ele abre a porta, vai jogando a chave em cima da mesa, senta em frente seu micro e eu digo: “Vim acertar a passagem para Kigali, vôo de hoje à tarde”. E ele: “Olha Sr, tivemos um problema com o vôo e ele partiu essa manhã”. “O quê? Como assim?  E quando sai o próximo?”. “Em três dias”.

Não sabíamos se deveríamos ficar aliviados por não termos pego o vôo, dado que havia dado um problema (e o que seria exatamente esse problema?), mas o fato é que deveríamos decidir rapidamente por alguma alternativa. Um passo havia sido dado: estávamos num aeroporto. Excluindo a tal “Ruanda Airways”, que só teria um vôo em três dias e é a companhia mais barata, as demais empresas são caríssimas. Aceitamos então aumentar o orçamento da viagem para Ruanda, realizando uma conexão em outro lugar. Esperamos até as 17 horas, na lista de espera de todos os vôos: todos lotados. Restou-nos então seguir por terra, outra rota: aproveitamos que uma van da Ruanda Airways seguiria até Arusha, a maior cidade da região, decidimos ir até lá e passar uma noite.

Ir para Ruanda tem um sabor especial para mim. Não estou sendo macabro, tampouco sádico ou infame. O que aconteceu em Ruanda foi uma das maiores tragédias da história recente. Não sei o quanto você conhece sobre o que aconteceu em 1994 em Ruanda. Talvez você tenha assistido o filme “Hotel Ruanda”, ele retrata muito bem aquele momento de horror. Se não assistiu, corre na locadora. Tenho certeza que ainda existe uma fita por lá. Resumidamente, o fato histórico se passa em Kigali, um verdadeiro massacre, um genocídio, onde uma tribo(Huntus) simplesmente tentou dizimar a outra(Tutsis) a base da facada. Mais de 800 mil morreram. Isso ficou conhecido como “genocídio de Ruanda”. O principal hotel da cidade, o Hotel des Mille Collines, se tornou um centro de controle dos estrangeiros, principalmente pessoas envolvidas com ajuda humanitária, que tentavam ajudar os feridos. Naquele momento, todos os paises deram as costas a Ruanda, algo que facilitou as atrocidades, levando o homem a cometer atos de violência beirando a selvageria. Os estrangeiros que prestavam ajuda humanitária já ha certo tempo instalados em Kigali também deixaram o país. O Hotel se tornou uma espécie de zona neutra e tendo essa condição, muitas pessoas buscavam se esconder nele sob o consentimento clandestino do gerente. Muitas dessas pessoas sobreviveram ao massacre.

O sabor especial de visitar Ruanda na atualidade não é desenterrar essa história, mas sim a lição que ela deixou para a humanidade. Como uma espécie de “dor na consciência”, os paises ricos vem tentando reerguer aceleradamente Ruanda. A palavra “genocídio” também obriga as nações unidas a dar um suporte especial. Isso entre outras coisas é que me atraem por lá. Mesmo com todo esse passado, a pergunta que mais ouço por aqui é “você vai ver os gorilas em Ruanda?”. É que Ruanda tem parte dos poucos gorilas que ainda existem no mundo.

Se por um lado não estivemos lá ainda, por outro conheci o Juan, um rapaz de uns 25 anos e vive em Kigali, que também perdeu o vôo “virtual” das 15 horas e estava dentro da van indo para Arusha. A diferença entre eu e ele naquele momento era de que ele havia comprado a passagem e eu tinha apenas uma reserva. Então ele estava sendo suportado pela empresa aérea para ser enviado em um vôo bem mais caro de outra companhia no dia seguinte.

Juan tem uma cicatriz enorme na cabeça, vitima de uma facada no período do genocídio. Procurei não tocar no assunto, mas ele mesmo foi se embrenhando por ele. Disse que o país não fala mais no assunto do terror 1994, mas um museu local retrata muito bem os acontecimentos, com fotos e filmes da época. E que hoje as duas tribos vivem juntas, numa grande harmonia. Olhando para trás, eles não conseguem entender de onde partiu tanto ódio para ter acontecido o que aconteceu. O país é muito agradável para se viver, a criminalidade não existe, as pessoas estão bastante confiantes com o desenvolvimento econômico, a agricultura (uma rara exceção na África) está indo bem, etc. E de fato ele confirmou o suporte internacional por conta de uma sensação de “dor na consciência”.  No fim da nossa conversa, me deixou as portas abertas: “se for a Kigali, por favor, me procure”.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Nos pés do Kilimanjaro

Partimos no dia seguinte cedo para Moshi, norte da Tanzânia. Moshi é uma cidade no pé do Kilimanjaro, um dos maiores picos do mundo. O maior da África. Um anitgo vulcão no meio da savana

Deixamos para trás a cômoda e “ar condicionada” hospedagem do Jambo Inn. Aliás, importante destacar a expressão também muito usada por aqui: “Jambo” (eles pronunciam chambo), algo como “Como vai?”. Também é uma expressão simpática utilizada com turistas, tal como o “Hakuna Matata”. Mas apesar de toda a simpatia, o povo dessa região é avesso à máquina fotográfica. Não descobri de onde exatamente vem isso, as hipóteses são várias, mas o fato é que quando sacamos a máquina, as pessoas levantam, arregalam os olhos, prontas para dizer “no, no, photo no!”. Mediante essa aversão, temos que ser politicamente corretos e perguntar se podemos tirar foto. Na maioria não podemos. Por outro lado, as paisagens estão por ai, mas elas perdem muito do colorido do povo daqui. Eles dão um tom muito diferente, com suas vestimentas, práticas inusitadas e “atuando” pelas ruas, ora comerciando, ora simplesmente conversando. Ou seja, “Jambo” não é um passe livre para um registro. Não interessa quem seja.

A viagem até Moshi durou cerca de 8 horas. Como viajamos de dia, para evitar a impossibilidade de ter uma boa noite de sono, por outro, tivemos novamente a companhia intensa do sol. Sorte que o ônibus estava com todas as janelas abertas e o vento fazia a festa e nosso “refrescar”. A paisagem também nos distraia, uma espécie de savana tropical, com árvores distantes e pouca agricultura, e a companhia de alguns morros muito altos, já anunciando o que veríamos em Moshi. Nenhuma infra-estrutura pelo caminho, pessoas tentando vender de tudo, muita miséria e casas feitas de barro, cobertas com palha. Nas minúsculas plantações, somente mulheres trabalhando, algo que nos surpreendeu. Nas paradas do ônibus só era possível comer algumas migalhas de frutas: bananas muito pequenas e mangas que de tão quente até queimavam a barriga. O fato é que apesar de haver imensas terras, poucas partes são férteis. As frutas são bem caras por aqui, até mesmo para os nativos. Nessa altura da viagem, beber água é mais do que necessário, é praticamente um vício.

Novamente em Moshi tivemos que enfrentar os eufóricos agentes de viagem oferecendo de tudo. Desde pacotes para escalar o pico até uma simples passada numa plantação de café. Como sempre, preferimos seguir com os próprios pés. E nesse sentido tivemos muita sorte. O hotel que pretendíamos ficar estava todo lotado e arriscamos procurar outro, não muito longe dali. Nos ofereceram um quarto no quarto andar, sem elevador. As malas que carregamos são um fardo para mais de um andar. Como estávamos exaustos e não dava muito tempo para sair por ai procurando, resolvemos aceitar. Nem bem chegamos, saímos à procura de comida e ficamos muito surpresos com um restaurante intitulado de “Indotaliano”, ou seja, com uma cozinha combinada entre a indiana e italiana. Além do charme, é um verdadeiro oásis perdido nessa região, tendo em vista a escassez de tudo, o restaurante oferece pratos fartos e deliciosos. E um atendimento autêntico, não “turístico”.  Fomos dormir anestesiados pela comida caprichada (pela primeira vez nessa viagem pedimos dois pratos).

E no dia seguinte…

No dia seguinte, por volta das 6 horas da manhã, eis que acordo, meio que sem orientação do horário, olho para a imensa janela de nosso quarto, um verdadeiro quadro e digo: “July, July, o Kilimanjaro!”.

Ali entendemos porque estávamos no quarto andar e como a recepcionista havia sido realmente generosa. A vista era simplesmente maravilhosa. Do dia anterior, quando havíamos chegado, não nos preocupamos em ver o pico pois percebemos que ele estava encoberto pelas nuvens. E não era possível ter a noção da imensidão e da beleza. As pontas cobertas de neve, sua base rodeada de verde e o céu azul como moldura. Só fomos descobrir depois, conversando com o pessoal da rua, que realmente só é possível ter uma visão do pico entre umas 6  e 7 horas da manhã. Tivemos muita sorte em acordar naturalmente.

Escalar o monte Kilimanjaro é uma obsessão para muitas pessoas. Existem 10 maneiras de escalá-lo, desde o modo “fácil” até o “super complicado”. O modo fácil, para qualquer pessoa, leva em média 6 dias. É obrigatório subir com um guia. Moshi não é a principal cidade de parada dos viajantes, mas sim Arusha, a cerca de 50 kilometros de Moshi. Mas Moshi tem a melhor vista do pico, para quem não vai escalar, como é o nosso caso, faz sentido ficar hospedado aqui.

Além do pico, a cidade em si não tem muitas atrações. O pico é uma atração inteira! Os habitantes são conhecidos como Chagga, uma tribo que vive em volta do pico por centenas de anos. Também vieram para essa região muitos indianos( a TV local é repleta de programas provenientes da Índia). Quando estávamos aguardando arrumarem o acesso à internet num “internet café”, conhecemos o Gifty Clemence, um rapaz de 17 anos, que resolveu nos mostrar a cidade, tamanho seu interesse em conhecer um pouco sobre o Brasil. Sua companhia ajudou a repelir os insistentes “perseguidores” de turistas. Sinceramente eu já estava começando a perder a paciência. Então para tornar o dia interessante, demos uma missão difícil para ele: encontrar alguma pessoa do povo Maasai, que normalmente vive fora da cidade, mas que ainda assim é possível encontrá-los por aqui. Eles tem roupas e vestimentas típicas muito interessantes, muitos brincos, pulseiras e demais ornamentos. Chegamos a encontrar alguns pela cidade, através das “diligências” lideradas pelo Gifty, mas todos queriam cobrar para tirar foto. Uma mamãe Maasai “perfeita” se demonstrou muito mercenária. Gifty defendeu, sempre com razão, mas também criticou a insistência do povo local em tentar arrancar dinheiro do turista a todo o momento. O sol cada vez mais forte tornava a “caça” muito árdua. Passeamos pelo mercado da cidade, um conjunto de barracas com poucas frutas, muita quinquilharias, tudo á céu aberto. E finalizamos a saga. Fizemos realmente um amigo, uma simpatia de gente e muito atencioso. No momento da despedida, “hora de ir para escola”, na maior simplicidade, tirou do bolso um papel amassado, movimentando-se com as mãos lentamente em nossa direção, como quem diz “olha, sei que vocês nunca vão me contatar, mas toma aqui meu humilde endereço na internet”. Mas essa “despretensão” dele se inverteu quando coincidiu de eu pedir para ele o endereço da internet, sem ter visto ainda o que continha no bilhete. Seu entusiasmo nos contagiou. Infelizmente precisávamos ter um tempo isolado, sem outras companhias, para planejarmos friamente os próximos passos da viagem. O Pico e o Indotaliano fazem a graça da cidade.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Dar es Salam, Tanzânia

De Stone Town, Zanzibar, pegamos o Ferry e voltamos para Dar Es Salam, mais 2:30hs de viagem. Claro que antes de sair de Zanzibar negociamos com o gerente do hotel (agora com h minúsculo) uma compensação.

Quando chegamos de volta a Dar es Salam, não perdemos tempo: deixamos as malas novamente no já familiar albergue e partimos para explorar a cidade. Dar es Salam é a maior cidade da Tanzânia, apesar de não ser a capital. É uma cidade portuária, cheira a peixe e é muito menor do que eu imaginava. Talvez por ter tido uma passagem pelo socialismo, os prédios são muito baixos, estilo “Stálin”. Alguns prédios novos estão surgindo, a maioria hotéis. A rua principal, que eles chamam de “avenida dos bancos” não passa de uma rua não muito larga, com prédios feios e baixos. É quase uma rua normal de um bairro normal em São Paulo. Talvez uma rua de comércio da Moóca. Pela primeira vez em uma viagem, resolvi sair pelas ruas com a camisa do Brasil. O assédio não é tão grande como no oriente médio, mas algumas pessoas ainda dão uns gritos de “Kaká”. O fato é que só o fato de ser “muzungu” já é o bastante para eles te tratarem como turista. Por esse motivo, não fiquei preocupado com a camisa. O fato é o que o calor é tão grande que todas as camisetas à mão serão utilizadas, principalmente a da seleção que faz transpirar menos.

Se por um lado a cidade não é tão desenvolvida, por outro tem uma orla magnífica. E, mais interessante, uma orla que não parece ter uma conexão com a cidade. Ela está totalmente intacta, isolada, sem beneficiamentos, comércio, etc. Para citar como exemplo, é o oposto de uma praia de Copacabana: têm a areia, um calçadão com algumas barracas, uma ciclovia, uma avenida e vários prédios disputando a tapa por um pedacinho de vista. Em Dar es Salam é como se o mar não fosse algo atrativo, desconexo. Talvez isso tenha a ver com o caráter tradicionalista do povo local, que normalmente não usa sunga na praia, nunca usa shorts, e não parece ter o costume de fazer “farofa” familiar na areia. Isso nos impressionou muito. Vimos alguns indianos, também imigrantes por ali, fazendo cooper pela orla, e alguns casais de mulçumanos conversando e vendo o por do sol, mais nada. Seguimos nosso percurso contornando toda a orla, passando pelo mercado de peixe, por alguns prédios interessantes do governo local e terminamos o percurso no terraço esplendoroso um hotel cinco estrelas no centro da cidade. Lá pudemos observar toda a cidade, no momento do por do sol.  Levaremos uma vista romântica de Dar es Salam.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Ilha de Zanzibar

Depois de uma noite bem dormida em Dar Es Salam, com a tentação à flor da pele em ver as melhores praias do Oceano Índico, tomamos um café reforçado e passamos a planejar nossa ida para Zanzibar. Imagino que você deve ter ouvido falar da expressão “Hakuna Matata”. Eu só vim conhecer essa expressão aqui. Mas parece que o filme do Rei Leão pegou emprestado essa frase do Swahili, língua oficialmente falada aqui na Tanzânia e também em Uganda, Quenia, Somália e parte de Moçambique (o inglês é considerado segunda língua). Eu não assisti o Rei Leão, então foi uma surpresa para mim. A July conhecia…fiquei por fora nessa. Zanzibar é a terra do “Hakuna Matata”, expressão que significa “tudo bem?” e que os nativos utilizam muito com os turistas pelas ruas. Zanzibar é uma ilha com praias paradisíacas, a mais ou menos 70 kilômetros da costa da Tanzânia, e que tem o tamanho da ilha de Florianópolis ou de Ilha Bela, em São Paulo. Em qualquer lugar que você esteja na Tanzânia, alguém vai te perguntar: você vai para Zanzibar?!(meio que afirmando que você tem ir, não exatamente perguntando). Esse tipo de abordagem acabou criando um interesse nosso por ir até lá. Daí começamos o ritual para chegar lá: em Dar Es Salam, é necessário pegar um ferry boat, uma espécie de barco ônibus de alta velocidade, que cabe umas cerca de 200 pessoas, no centro da cidade e viajar por cerca de 2:30. Para comprar o bilhete, a primeira fase do jogo. Milhões de “cambistas” tentam te empurrar um bilhete, colocando uma taxa de serviço em cima. Vencer esse jogo significa encontrar a bilheteria oficial, sem intermediários. Os taxistas do albergue, alguém que confiamos plenamente, nos levou a tal bilheteria. Sinceramente, pelo atendimento, não posso afirmar que eu não tenha comprado com a tal taxa. A passagem já era originalmente cara, talvez eu tenha comprado com algum acréscimo. Para não haver problema, compramos também o bilhete de volta. Depois, logo saindo dessa bilheteria, carregando malas, enfrenta-se uma fila colossal para entrar no “barco” e diversos candidatos locais a carregadores de malas, sob sol infernal de 43 graus (a média por aqui é de 40 graus), juntamente com turistas “internacionais”, a maioria americanos e europeus. Felizmente a ferry tem ar condicionado (pelo preço, deveria ter piscina e água de coco gelada grátis). Na partida foi possível ver um pouco de Dar es Salam pelo mar, uma cidade que se apresentou muito menor que imaginávamos. Mas valeu algumas fotos.
Nesse percurso conheci o “velho Mussa”, como ele mesmo se denominou. Era um senhor, engenheiro do canal de televisão de Zanzibar. Quando perguntei para ele, “o senhor nasceu em Zanzibar, então o senhor conhece bem aquelas praias?” Ele respondeu “Ishhi, como eu conheço rapaz! Conheço cada canto daquela ilha!”. “Velho Mussa” foi um bom companheiro de viagem. Explicou que Zanzibar é uma ilha autônoma, que não pertence a Tanzânia, tem um presidente próprio, mas faz parte de um espécie de “Tanzânia Unida”, tal como existe os “Estados Unidos da América(pois se trata de um conjunto de estados que estão unidos por uma federação)”. Mas mesmo com essa tal “Tanzânia Unida”, Zanzibar faz questão de se demonstrar independente, tal com por exemplo, exigir visto na entrada da ilha, carimbando passaporte e tudo. Mostrei para Mussa a foto das casas com uma espécie de forno na frente. Na verdade, disse que a própria comunidade faz os tijolos e coloca naquele formato , deixando ele desidratar por um certo tempo. Depois coloca na construção da casa. Foi por esse motivo que vimos muitos “fornos” deformados, o que na verdade tratava-se de tijolos retirados para a construção. E ficou muito contente que havíamos tirado fotos das mulheres do interior da Tanzânia. As mulheres bem vestidas que comentamos, tratam-se nada menos que uma tradicional mulher “Swahili”(ele disse que a pronúncia é Kisuarrili). Depois de mais algumas dicas de passeios, pegamos nossas malas do barco e saímos a caça de um

Jean é um rapaz dono de uma vendinha em Zanzibar. Durante um bate papo, confessou que seu sonho é conhecer o Canadá. Disse que vai acatar a minha dica: guardar um dólar por dia até que junte o suficiente par uma viagem. Um sonho que parecia distante e impossivel, ficou com um prazo mais definido. Mostrou até o cofre de madeira que guardará o dinheiro.

albergue, fugindo dos “agentes” de plantão. Essa “caça” sob o sol de 43 graus teve uma variável amarga: descobrimos quando chegamos na ilha que ela não tem energia elétrica 100% do dia, isso porque recebe energia da Tanzânia, através de um cabo, parecendo algo meio que um favor. E um agravante: em fevereiro é o período com a menor quantidade de energia. Em cada albergue que eu passava, isso por volta do meio dia, as roupas totalmente molhadas pelo suor, a mesma resposta: “energia só às 18 horas, à base de gerador. E sem energia, não conseguimos bombear água! Ah, tem mais um detalhe, como tem escassez de energia, então não tem ar condicionado, só ventilador…”. Resolvemos partir para um hotel: a mesma resposta. Mediante tal situação, tentando amenizar pelo menos o melhor acesso (ficar mais perto do centro, do porto, etc.), resolvemos pagar bem mais e ficar num hotel com cara de “tradicional”, mesmo com a tal restrição. Vimos que os estrangeiros com “pacotes de viagem” também estavam hospedados nele, seguimos então como uma indicação.
Para não perder o espírito da viagem, não deixamos nos abalar. Largamos as malas no quarto, saímos pelas ruas da cidade rindo(para não chorar) do tamanho do ventilador no teto do nosso quarto(algo como 20 centímetro de asa). Além das praias paradisíacas, o forte da ilha é a cidade “Stone Town”. Zanzibar, como está próxima do oriente, teve muita influência do povo árabe. Chegou até a ter um sultão árabe com chefe local. Também passaram por ali os ingleses mais para os anos 1800 enquanto os portugueses estiveram bem antes, nos idos de 1600, buscando escravos e especiarias. O passeio tradicional é caminhar pelos labirintos da arquitetura islâmica de “Stone Town”, a “capital” da ilha, o que pode ser feito também margeando a belíssima, cristalina e verdinho, mar indico da costa, e com os barcos de pescadores e navios como cenário ao fundo. O “making of” desse passeio pela cidade é ter que aturar os insistentes taxistas e agentes de viagem pelo caminho e a orquestra sinfônica de geradores espalhados por todos os cantos da cidade. Nessa ilha, gerador é mais importante do que o próprio eletrodoméstico que usará a energia. Nesse sentido, como economista, eu não podia deixar de visitar o homem mais sorridente da ilha: o dono da empresa que faz manutenção de geradores. Estamos levando uma foto dele. Tendo a arquitetura árabe, o belo mar e simpatia dos habitantes locais com seu permanente “hakuna matata” tornam Stone Town uma cidade agradável. Infelizmente, ainda assim, vimos que é uma economia muito simples, muitos pobres pelas ruas, uma situação desproporcional entre o turista “internacional” e a vida do “local”. É um grande contra-senso: as fachadas das arquiteturas, preparadas para fotos dos turistas, escondem a vida miserável do povo local, apinhados em cortiços e insalubridade. E tudo isso, de fato, uma ilha realmente paradisíaca. Provavelmente alguém, não eles, estão ganhando com isso. Turisticamente falando, busca-se transformar o local num turismo inesquecível, e de fato é. E provavelmente o turista de “pacote” nem observa essa situação. O fato é que 99% das pessoas da ilha estão em situação miserável. Nem por isso, é um local perigoso. Pelo contrário, as pessoas apresentam uma humildade invejável. Isso tem muito a ver com formação religiosa local. Na ilha de Zanzibar a maior parte é muçulmana e assim como no oriente médio, as mulheres também usam o chador. Muitas cobrem o rosto inteiro. Interessante que também pintam as mãos com henna, como forma de ornamento. Diversas mesquitas espalhadas pela cidade. No final de nosso passeio pela cidade, passamos por uma feira de comidas típicas locais, regadas de muito peixe (naturalmente) e pimenta (curiosamente é uma ilha que exporta algumas iguarias de pimentas) e fomos enfim para nosso Hotel (com H maiúsculo).
Tudo ia muito bem com a energia até a hora que chegamos ali. Nem bem havíamos pensado em tomar banho, a energia acabou, tudo escuro. O recepcionista do hotel, como uma flecha, bateu em nossa porta (essa hora deu medo!) oferecendo uma vela: “tivemos problemas com nosso gerador. Já estamos arrumando”. Uma hora em meia depois a luz voltou. Tomamos banho, a luz acabou de novo. “Tivemos novamente o mesmo problema. Já estamos arrumando”. Moral da história: dormimos sem energia, sem ventilador de 20 centímetros, a noite com o calor mais infernal que já passamos + os mosquitos de plantão (esse eu nem comento mais, estão com a gente todo o tempo. Mosquito aqui é como o ar que respiramos).  Pela manhã, mesmo cansados, precisávamos conhecer algumas praias. Pegamos um “Daladala”, uma espécie de mini van local, e fomos para Bububu, praia do norte. Para não ficar no “burburinho” dos turistas, descemos um pouco antes da cidade e nos aventuramos por uma trilha até sairmos numa sim paradisíaca e deserta praia. Fizemos uma bela caminhada e saímos numa área restrita da marinha local. Tomamos um “pito” do exército, fizemos meia volta e voltamos o mesmo percurso. Mesmo assim valeu muito a pena. Realmente de tirar o fôlego. Novamente, quando pegamos outro “daladala” de volta para a cidade, paramos em outra praia para contemplar a beleza. Logo, adiante encontrei o que queria: alguns pescadores, com o barco atracado. Mostrei a foto do que eu estava procurando. Tratavam-se das imensas tartarugas das Tanzânia. Um deles ficou eufórico e disse que nós só as encontraríamos numa tal “Prison Island”, cerca de 30 minutos dali. E ele confirmou algo que eu imaginava: nós podíamos nadar com elas. Negociei um preço, eu já ia quase pagando, mas a Juliana declinou. “Esses barcos não parecem confiáveis”. Deixamos as tartarugas de lado e voltamos para a cidade.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De trem da Zâmbia à Tanzânia

Esse percurso da viagem é de difícil narração. Trata-se de três dias de paisagens exuberantes e duas noites muito mal dormidas, 1900 kilômetros cortando o norte da Zambia e o sul da Tanzânia. Chega-se a passar muito rente entre dois paises: República Democrática do Congo e Malawi (Malawi é o país onde aquele economista brasileiro morreu quando escalava um monte no final do ano passado, lembra?). Mas a dificuldade da narração não está ai, e sim nos emocionantes contatos com as crianças ao longo do percurso. Sim, é aquela imagem difícil. Você dentro do trem e aquelas dezenas de crianças cercando os vagões, fazendo de tudo: vendendo, pedindo, simplesmente olhando, ou acompanhando alguém. Esse contato foi latente a cada parada, isso cerca de 30 minutos ou 1 hora de intervalo, dependo da distancia de um vilarejo ou cidade. No interior dos dois paises, tanto Zâmbia quanto Tanzânia, fica muito difícil dizer se realmente se tratavam de cidades, vilarejos ou até mesmo uma aldeia. Talvez o melhor seria descrever como uma comunidade. Comunidade talvez seja realmente apropriado pois um policial dentro do trem, nascido na Tanzânia me disse que os laços de família são tão fortes por ali que esse conceito se estende entre as famílias, o que fica realmente difícil dizer quem é ou não da mesma família. Outra coisa interessante que ele me contou foi que os irmãos menores são educados rigidamente para respeitar os irmãos maiores. Depois que ele comentou isso ficou evidente: era comum mesmo ver crianças com 7 anos acompanhadas de outra com 4 anos, uma cuidando da outra. Outro fator que fortalece o conceito de “comunidade” é que não existe uma estrutura de ruas, casas, e comércio. É possível ver umas casas feitas de palha, algo como uma óca. Não posso arriscar que sejam, pois não sei se isso é de fato uma tradição antiga ou se se tratava de uma “casa pobre”, ou seja, construída com poucos recursos. Do lado de fora da tal casa, um pequeno cercado de barro(o banheiro). Algumas tinham quintal. Algo nos intrigava, não conseguimos descobrir o que exatamente era: uma construção de tijolos do tamanho de uma garagem, não parecia ser oca o bastante para ser um forno(isso porque vimos algumas sendo desmontadas). Essas casas prevaleceram entre a primeira estação até mais ou menos 100 kilômetros dentro da Tanzânia.

Quando o trem parava, as crianças se espalhavam pela estação. Estávamos na primeira classe. Não pense que era uma maravilha. Tratava-se de dois beliches, como compramos os quatro lugares, então tínhamos toda a cabine para a gente, mais a companhia insistente de pequenas baratas (bem, não vou entrar em detalhes nessas partes negativas da viagem…). No meio do trem havia a segunda classe, com camas menos confortáveis, sempre mulheres em uma cabine, homens na outra. Além disso, havia um vagão restaurante, que nos serviu alguns almoços; e na parte da frente do trem, a terceira classe, bancos comuns, um desconforto descomunal. E esses bancos tinham uma rotatividade imensa. O trem parava, trocava quase todo mundo. Como as crianças sabiam dessa configuração, procuravam rodear a primeira classe. Desde a primeira estação nos acostumamos a sermos chamados de “muzungu”: uma espécie de “branquelos”. Não nos chamavam com agressividade. Era apenas “gente diferente” para eles. Essas crianças têm um olhar diferente. Claro que pesa sobre nossas costas a questão “estamos na África” e já viemos com aquela visão formada de crianças pobres da “África”, etc. Mas seus olhos apontam uma sinceridade, uma “não maldade”. Não quero dizer que são melhores, mas são diferentes das crianças que pedem dinheiro nos faróis de São Paulo. Elas não pareciam pedir coisas forçadas por alguém, ou até mesmo “teatralizando”, ou usando de artimanhas, chantagem ou fazendo cara de pedinte. Era um olhar de índio, inocente, sem nenhuma maldade e sem nenhum entendimento do mundo. Sem raiva, sem ódio, sem drama. Nossa situação sim era desumana e de difícil compreensão, pois estávamos na “primeira classe”. Uma menina com olhos de anjo nos pediu uma caneta, muitas delas nos pediam uma “Bic”. A July se esmoreceu por não ter nenhuma para compartilhar. Fiquei com pena em dobro: pela menina e pela July porque sei que sua bondade é infinita. Nós vimos algumas pessoas jogando alimentos ou garrafa plástica vazia e a cena não era a das melhores. Apesar da “não maldade”, elas se digladiavam amigavelmente (isso porque se uma conseguia pegar, mesmo que uma arrancasse da outra, não havia segundo round, ou seja, não havia rancor: iam para a próxima). Sim ,essa não era uma das melhores cenas. Talvez a pior do mundo. Como sabíamos que em algum momento dessa viagem teríamos que enfrentar esse tipo de situação, então procuramos fazer algo menos individualizado possível. Ou seja, queríamos evitar que se déssemos algo para um, outro ficasse sem, o que seria uma faca no coração. Precisaríamos fazer algo coletivo. Então trouxemos do Brasil três bolas de futebol, “das boas”, com câmara e tudo, coloridas e escritas bem grandes “Brasil”. Enchi a bola com uma bomba que trouxe do Brasil, a Juliana se colocou na posição de câmeraman e quando os meninos se juntaram na parte de baixo da janela, isso numa aldeia nos confins da Zâmbia, mostrei a bola e os olhos deles brilharam. Talvez eu tenha feito algo incorreto: escolhi um menino para receber(a minha idéia é que um ficasse responsável por ela, não tenho idéia se vai funcionar). Ele era o mais quieto, o menos pedinte e com um rosto bem simpático. Mesmo sendo o escolhido foi difícil entregar para ele, os demais ficaram eufóricos (todos não tinham mais que 10 anos). Mesmo assim consegui entregar nas mãos dele, os demais logo pularam em cima e todos foram segurando a bola juntos, saindo da estação, entrando na comunidade. Uma imagem não sai da nossa cabeça: um menorzinho, último do grupo que ia carregando a bola, virou se para nós e ajoelhou-se(fazendo sinal de reza), algo como “muito obrigado” ou “Deus lhe pague”, saindo ainda de joelhos, em tropeços. Sumiram. Eu e a July não nos contivemos. Falamos juntos com a voz embargada: “nossa, sumiram”. O que mais nos deixou emocionados naquele momento foi que eles foram embora, mesmo com o trem ali parado, ainda podendo pegar mais coisas, talvez receber mais comida, mas não, ignoraram e foram embora com a bola como troféu. Quando o trem partiu a grande surpresa que parecia um final de filme: foi possível ver eles já jogando bola, muita gente em volta assistindo, num campo improvisado.

O trem seguia assim sua viagem, com esse tipo de emoções embaixo da janela e com inúmeros “tchauzinhos” simpáticos que recebíamos e concebíamos durante o percurso. De igual maneira, as mães também nos emocionavam: vendiam de tudo, banana, pão ou galinha assada. E mantém o costume local: todas carregam as coisas na cabeça, os filhos nas costas, enrolados em um xale. E, surpreendentemente – não quero tentar transformar a situação de miséria em algo “fashion” – mas todas as mulheres que vimos eram muito elegantes. O colorido de suas roupas, as estampas, os detalhes, não são roupas vestidas de qualquer maneira. Elas procuram a harmonia entre as cores e peças e mantêm uma postura de elegância, mesmo aquelas que trabalham arduamente na lavoura.

Entre uma comunidade e outra, paisagens muito agradáveis. Na Zâmbia vimos muita florestas alternadas com campos de girassóis e com pequenas plantações de milho (só milho). Mesmo assim, vimos pessoas vendendo bananas e abacates nas estações, mas não vimos as plantações. Na Tanzânia a paisagem era predominantemente de florestas, algumas vezes fechadas, outras vezes descampada. Muitas serras e ar fresco nos acompanhavam. Os mosquitos também. Mas era necessário reforçar o repelente. Felizmente o pessoal do Hospital das Clinicas em São Paulo nos indicou um que realmente repele: um tal de “Exposis Extreme”. Segundo eles, esse é usado pelo exército Francês. E funciona mesmo. Mas todo o cuidado é pouco, não se pode deixar um canto sem passar, bem como usar sempre mosqueteiro pela noite. Essas zonas são infectadas de malária.

Nesse percurso, o trem foi um bom companheiro. Tivemos muita sorte, pois não chegou a quebrar nenhuma vez. No albergue em Lusaka a recepcionista Zuia nos disse que normalmente ele quebra e a viagem pode durar mais de três dias. Muito curiosa a existência dessa ferrovia em lugares inimagináveis: uma espécie de Transiberiana dentro da África, essa via foi construída pelos chineses em 1970, períodos ainda que esses paises viviam sob o socialismo. Na época, não havia dinheiro para finalizar a obra, por esse motivo o trem não chega até Lusaka e pára no meio do nada, em Kapiri Mposhi. O problema é que falta uma boa manutenção. Apesar de ser hoje uma companhia privada, ela tenta tirar o máximo do lucro se oferecer serviço melhor. Foram as duas noites mais mal dormidas de nossas vidas. Nos sentíamos dormindo no superjet do playcenter. Um pouco antes de parar em cada estação, o trem dá um tranco que levanta o vagão mais ou menos uns 10 centímetros (cheguei a medir com um papelão, comparando com o vagão da frente). Quando você está deitado a sua sensibilidade aos movimentos do trem aumenta, daí somado ao tal tranco fica parecendo um surfista numa onda que a cada 30 minutos toma um “caldo”. Ou seja, acorda-se a todo o momento. Além disso, para evitar visitas inoportunas durante a noite, é recomendável manter a luz a cessa. Soma-se o barulho de rangido de ferro do trem…bem eu nem vou continuar…porque só piora. Mesmo assim eu recomendo pelos prós da viagem.

Na manhã do segundo dia atravessamos a fronteira. Não foi necessário sair do trem, os próprios oficiais do governo passaram de cabine em cabine realizando os carimbos e burocracia. Para entrar na Tanzânia, como não tínhamos visto, tivemos que pagar 50 dólares cada um.

Na fase final da viagem teve um “vale brinde”: um safári de trem. Isso porque, para chegar em Dar es Salam,  o trem precisa  atravessar uma floresta onde os animais ainda foram preservados em seus aspectos selvagens, soltos, como “desde sempre”. Pela janela do trem é possível ver, dependendo da “coincidência”, os animais muito perto, afinal é uma imensa floresta. Para ser sincero, acordamos no terceiro dia bem cedo, ficamos duas horas com câmera na mão, fazendo um raio X da floresta para fotografarmos girafas e elefantes, mas só realmente vimos zebras, antílope, beduínos e um rinoceronte tomando um belo banho. Mesmo não termos visto nenhum elefante sem cueca e nenhuma girafa sem calcinha, ou seja, sem os aspectos artificiais de um zoológico(com grandes) ou de um safári(de jipe e com a obrigatoriedade de um guia), foi maravilhoso ver os demais animais em seus habitat realmente naturais, muito próximos do trem, sem truques, que dependendo da quantidade, realizavam um desenho muito bonito em algumas fendas na floresta. Ver as zebras e os antílopes correndo pelo campo, em estado selvagem, foi uma imagem inesquecível. Mesmo assim, para não perder o brincadeira, fui lá prestar conta com o policial “meu amigo” que jurou que eu ia ver os “grandes animais”. Ele justificou que como havia chovido pela noite, daí eles se esconderam…

Chegamos a Dar es Salam essa tarde, a maior cidade da Tanzânia. Não é a capital. Dar el Salam fica no Oceano Índico, tem praia e porto. Hoje precisamos relembrar o que é dormir bem.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Kapiri Mposhi, no meio do nada

No dia seguinte, sexta-feira, resolvemos pegar um trem que liga a Zâmbia e Tanzânia. Já havíamos ouvido falar nele, mas não tinha conseguido confirmar sua existência. Mas a garota do albergue nos forneceu todos os detalhes desse nosso próximo passo. Interessantemente o trem não parte de Lusaka, a capital, mas cerca de 70 kilômetros dali, em Kapiri Mposhi. Daí começa um processo ritualístico para chegar até ele: primeiro compramos a passagem no centro de Lusaka, no posto da empresa Tanzara, dona da linha. A bilheteira foi categórica: mulheres e homens não viajam juntos na mesma cabine, a não ser que você compre “primeira classe” e todos os quatros assentos da mesma cabine. Não tivemos escolha. Não sabíamos o que viria pela frente, as condições do trem, etc. Enfrentaríamos 1800 kilômetros, 3 dias de viagem e um pouco de privacidade nessa região cairia bem. Com 4 pedacinhos ridículos de madeira na mão (nossos bilhetes), acordamos às 5:30 para tomar um banho caprichado e seguimos para a rodoviária pegar o ônibus da primeira etapa. A bilheteira do Tazara havia sido enfática: “pegar o África Euro bus”. Logo que entramos na rodoviária entendemos o porquê de tanta força em sua fala: haviam dezenas de ônibus para Kapiri Mposhi e uma centena de homens me empurrando um bilhete. O assédio chegava ao ponto de confiscarem a minha mala para levar para um ônibus do interesse deles. Eu tinha que pegar nossa mala de volta, já dentro do bagageiro. O África Euro era um dos melhores: tratava-se mais uma vez de um Marcopolo (É isso ai Brasil!!). Até que o ônibus não partisse, a July ficava guardando nossos assentos e eu ficava de olho grudado nas malas, no compartimento de baixo. Apesar do índice baixo de Lusaka, não queríamos dar chance para qualquer eventual gatuno de plantão.

Foram duas horas sentados em bancos bem apertados. Meus joelhos tinham que ficar virados para o corredor. Felizmente o desconforto foi compensado por distrações pelo caminho. Primeiro foi um rapaz com uma bíblia na mão, provavelmente um pastor, começou o seu sermão inflamado, tornando seus passageiros seus “fiéis”. Todos ouviam atentamente. Mas apenas um homem, de maneira estranhamente sarcástica, repetia em cada frase do pastor um sonoro e estendido “Amém”. O sermão levou uns bons 30 minutos. Fiquei muito surpreso que na hora de passar a sacolinha todos deram sua contribuição. Ao ponto de o pastor receber dinheiro na ida e na volta do ônibus. Depois disso não vi mais o paradeiro do pregador no emaranhado de gente daquele ônibus. E, como se fosse palco para qualquer um fazer seu show, o rapaz que falava “amém” se levantou e disse “agora é mina vez”, foi caminhando para frente do ônibus e começou um verdadeiro show de “stand up”. Uma piada atrás da outra. Todos riam sem parar. Não consegui captar as piadas, mas as situações criadas por ele pareciam ser as mesmas que geralmente os comediantes se inspiram: religião, família, sogra, etc. Como acordamos muito cedo, caímos no sono e ficamos sem descobrir se o comediante também passou a sacolinha e quanto arrecadou. Tampouco se havia alguma coisa combinada entre ele e o pastor, já que um parecia dar seqüência ao outro. Só acordamos quando o ônibus parou bruscamente no meio do nada. Como ninguém entrava ou saia, resolvi correr na frente e perguntar ao motorista onde estávamos: “Kapiri Mposhi”. Somente nós descemos e ônibus seguiu para outro lugar. Mais uma vez assédio dos taxistas. Um carregou a mala forçosamente para seu carro, ficamos em situação difícil de se reverter, já que não podíamos seguir andando devido à recomendação da bilheteira da Tazara: “lá é realmente perigoso, não vacile”. Dali seguimos para a estação do trem, no meio do nada, numa estrada de terra. Um prédio grande, velho, com uma pequena plantação de milho em volta e alguns ambulantes vendendo pão e banana. Dentro da estação, uma separação desnecessária: no mesmo saguão, numa parte mais alta, a descrição “sala de espera da primeira classe”, com uns sofazinhos detonados, sujos e desnivelados. Ficamos ali esperando por 3 horas nosso trem. Achar internet tem sido muito dificil…

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Lusaka, Zâmbia

Dia de partida do Zimbábue sentido Zâmbia. Todos os ônibus partem pela manhã, justamente para encontrarem a fronteira aberta entre os dois países. Chegamos às 7 da manhã na rodoviária de Harare, enfrentando o assédio insistente dos vendedores de bilhetes. Um verdadeiro mercado de peixes. E muita gente pedindo dinheiro. Havia três ônibus partindo naquele momento de empresas diferentes. Quando eu vi que enfrentaríamos pela frente 8 horas de viagem naquele tipo de ônibus, a July quis entrar em cada um deles a fim de escolher o melhor. Bem, o melhor, só para ter idéia, era um Marcopolo, exatamente igual ao que circula no transporte público nas ruas de São Paulo. Inclusive são importados do Brasil. Nem preciso descrever que a viagem foi ultra confortável, em ônibus urbano, viajando por rodovias, novamente nós dois, encarados como alienígenas. Por outro lado, como a viagem é de dia, é possível ter melhor noção da realidade local pelo interior. Não é novidade. Como já havia comentado, o Zimbábue está ainda numa terrível crise e a miséria espalhada pelo país. Raramente vimos agricultura, apenas a predominância de uma floresta verdinha, não muito fechada, disputando espaço com a savana, com árvores com troncos muito grossos. Uma paisagem repetitiva. O motorista do ônibus colocou o som numa altura desproporcional, mas o pessoal não parecia se incomodar. A paisagem, o som ambiente das músicas tradicionais locais, as pessoas dentro do ônibus, nos remetiam a um clip da MTV. Isso fez o tempo passar. A monotonia acabou quando chegamos na fronteira, onde novamente precisamos enfrentar filas como “refugiados”, muitos pedintes e pessoas querendo de todo o jeito vender moeda local. Fomos assediados a todo o momento. Tivemos de descer as malas do ônibus para serem revistadas. Atravessamos o rio Zambezi às 13:30, a linha fronteiriça entre o Zimbábue e a Zâmbia. Esse rio é famoso por ser o habitat natural de milhares de hipopótamos. Tentei dar uma espiadinha de perto, mas infelizmente fui barrado por uma questão de “segurança nacional”, por se tratar de linha fronteiriça. Depois que passamos por toda a burocracia. Seguimos viagem com uma paisagem um pouco diferente, menos floresta, duas serras, mais savana, alguns bairros miseráveis e sujos pelo caminho, que os locais ousam chamar de cidade. Em uma dessas cidades o ônibus parou para almoço. Ficamos impressionados com a voracidade que as pessoas comiam o Nshima com as mãos, muito rapidamente. Nshima é uma papa branca (bem branca), parece uma massa de pão cru, feita á base de milho. É um prato tão típico quanto é a tapioca no Brasil, e pode ser encontrado em qualquer canto do país, assim como encontram-se uns milhos grande para vender nas ruas das cidades. E come-se com qualquer coisa, o que tiver de “mistura”. Em cada lugar da África tem um nome. Para nós, que não estamos acostumados, é uma cena estranha ver as pessoas pegar a comida no prato com as mãos.

Chegamos em Lusaka, capital da Zâmbia às 16 horas. Novamente na saída da rodoviária tivemos que enfrentar a perseguição de ambulantes, taxistas e trocadores de dinheiro. Somente no meio da avenida, com nossas malas na mão, quando encontramos um militar e fingimos ser amigo dele, é que o pessoal desistiu e voltou para trás. Caminhamos com o policial até a avenida principal da cidade (não vimos muita diferença entre a avenida “não principal” e seguimos caminhando até a nossa hospedaria). Depois de instalados, recusando uma ridícula cabana oferecida para a gente, deixamos as malas e corremos na chuva, procurando um lugar para jantar (finalmente uma chuva para refrescar). Logo que amanheceu, resolvemos reservar o dia para conhecer Lusaka. Uma difícil missão: é uma cidade de acesso complicado, não têm calçadas, tem muito barro (parece que a cidade acaba de sair de uma enchente), muitas pessoas pelas ruas e poucos ônibus. Lusaka mesmo é uma parada para outros destinos muito distantes na Zâmbia. Como é a capital, então todos os vôos seguem conexão por ali. Em nossa pousada conheci um americano que me deu mais energia: ele está fazendo o percurso de bicicleta da Cidade do Cabo, na África do Sul, até Cairo, no Egito. Ele não está nem na metade do caminho. Segundo ele, não existe alternativa para o norte, sem passar por Lusaka. Fizemos literalmente um percurso trivial pela cidade, buscando algum atrativo: visitamos os mercados (tipo mercado Municipal de São Paulo, mas muito precários), uma rua famosa com produtos chineses (uma 25 de março muito piorada) e caminhamos pela avenida principal. Como não haviam pontos turísticos tradicionais, tivemos que improvisar alguns. O melhor deles foi a subida até o último andar de um prédio comercial. Isso depois de ter tentado outros três, e não deixarem a gente subir. Após enfrentarmos uma fila enorme para subir um elevador sinistro (que parava sem mais nem menos entre os andares e abria a porta), conseguimos fazer algumas fotos da cidade de dentro do escritório da diretora de jornalismo do canal americano CBS, que tem filial na Zâmbia, no 23º andar. Ela foi muito generosa.

Apesar de a Zâmbia vir apresentando crescimento de 5% ao ano desde que o seu ditador saiu do poder depois de 27 anos, em 1990, ainda é um país muito pobre. A inflação é bem alta e um microondas custa algo como 1milhão e duzentos kwachas (nome da moeda local), valores expressivos de dizer. Os produtos são bem caros, praticamente tudo é importado. Apesar disso, o país parece ser mais organizado economicamente que o Zimbábue, com uma agricultura levemente mais organizada e os índices de violência de Luzaka muito mais baixos que de Harare. É claro que tem um ou outro contratempo: um rapaz no centro da cidade tentou aplicar exatamente o mesmo golpe que tentaram em Pretoria, aquele papo do “Mandela dizia que ninguém deve brigar…”, e novamente eu consegui me afastar e sair ileso. Porém não sentimos a mesma intimidação pelas ruas que sentimos no Zimbábue. Pelo contrário, as pessoas nos cumprimentavam com um “hello” amigável do tipo “sejam bem vindo”. Talvez andar à noite seja dar muita bandeira, e não tivemos de fato coragem de andar pela cidade. A recomendação era: não “ande por ai”; mesmo que quiséssemos seria impossível devido à falta de iluminação, uma cidade muito escura. Só nos restou confirmar a fama de cidade feia. Realmente a mais feia que estivemos até hoje: sem graça, sem cor, sem estética e sem nenhum esforço mínimo de tentar alguma coisa mais bela, tampouco os tradicionais pioneiros da tentativa de beleza estética: os prédios públicos e igrejas. O catolicismo é a religião preponderante desse lado da África, mas realmente os “arquitetos” do Vaticano não passaram por aqui. Essa herança “não-arquitetônica” que reina em Lusaka parece ser uma herança do tempo que o país experimentou o socialismo. Quando estava escrevendo essa parte, me lembrei do meu irmão Renato, um arquiteto. Ele havia me passado o contato de um colega de classe de um curso que ele fez no Japão, e que mora na Zâmbia, provavelmente Lusaka. Infelizmente o contato não deu certo, ficará para uma próxima. Com certeza essa seria uma grande oportunidade de ter efetivamente a visão de um arquiteto do que significa “Lusaka” no mapa da arquitetura internacional. Para mim, ainda uma incógnita.

Temos pela frente três dias de viagem dentro de um trem. Vamos avançar algumas casas no jogo.