Expedição Yellow Submarine – Galícia, Espanha



Essa não seria uma viagem como as outras. Essa pequena expedição se tratou de uma busca pela história do avô da minha mãe. Prefiro dizer “avô da minha mãe” somente para não dizer outra coisa e passar uma sensação de que é um parente meu muito distante. Bem, para a busca de nossas origens espanholas, tínhamos em mãos uma cópia do documento de chegada de um jovem entre 14 e 16 ou 17 anos no porto do Rio de Janeiro em 1881, com um suposto nome falso. Também tínhamos alguns nomes, provenientes de sua certidão de óbito de 1954: o seu próprio nome e o de sues pais. Além disso, muitas histórias provenientes de pessoas que conviveram com ele até 1954 e outras estórias talvez provenientes da imaginação. São de fato muitas estórias interessantes, que me reservo a não contar aqui porque são realmente extensas ou ainda inacabadas. Além disso, ainda são estórias – até que provemos o contrário. Era justamente o que pretendíamos fazer nessa viagem a região da Galícia, Espanha: tentar encontrar a verdadeira “história”.

Nessa expedição participaram:Eu, Juliana, minha mãe(Joana D´arc Torres e Monique Pereira, minha sobrinha. Essa foi uma viagem realmente planejada, resultado de cuidadosa pesquisa, tendo poucos materiais formais sobre a pessoa a ser encontrada. Então, uma conjunção de dados geográficos(fornecidos pelo tal documento de entrada no país e os comentários de familiares), e diversas trocas de emails entre espanhóis especialistas no assunto,  algumas premissas levaram-me até uma região mais estreita da Galícia, na fronteira com Portugal. Afinal uma busca em toda a Galícia seria uma loucura e levariam muito tempo. Então tínhamos três dias para tentar encontrar vestígios históricos de nossos remotos familiares em locais pré-estabelecidos. Tratava-se portanto, de tentar encontrar a certidão de batismo(naquela época esse era o único registro formal) em algum lugar daquela região.

O nosso percurso “Indiana Jones” começa em Santiago de Compostela. Nosso vôo saiu de Londres as 6 horas da manhã e nos deixou as 9 horas em Santiago. Para facilitar a mobilidade pela região, ignoramos provisoriamente Santiago, alugamos um carro e seguimos diretamente para Tui, uma cidade exatamente na fronteira entre Espanha e Portugal. Se todas as premissas estivessem corretas, a tal certidão deveria estar arquivada em Tui, lugar que por pedido do governo da Espanha deveria armazenar todos os documentos da região  daquela época.

Logo que chegamos no endereço marcado, tivemos uma surpresa e tanto. Era uma igreja medieval, no alto de um morro, com uma vista maravilhosa para o rio Miño, que divide a Espanha e Portugal. Uma igreja com imensas paredes de pedra, parecendo até uma mistura de igreja com Castelo. Como sabíamos que o tempo de pesquisa era curto, entramos quase cambaleando porta adentro, tentando descobrir o tal arquivo. Vendo o nosso desespero, o guardião da igreja nos guiou atravessando a sacristia, passando por duas ou três salas escuras com armários e cabides cheio de vestimentas paroquiais, subindo uma escada dentro de uma torre, onde no alto se encontrava os tais documentos. Roberto, o funcionário guardião dos documentos, nos acomodou em mesas onde outros pesquisadores já estavam sentados realizando complexas anotações. Por duas horas, nos sentimos verdadeiros historiadores, impregnados de pó e tentando decifrar códigos, nomes e qualquer menção ao objeto procurado. Trabalhamos em equipe. As 14 horas, Roberto anunciou o fechamento do local. O local apenas funciona das 10 as 14 horas, quartas e sextas. A continuidade das buscas, pelo menos ali, deveria continuar apenas dois dias depois. Saímos cabisbaixos, não exatamente sentido fracassados, mas sem entender porque haviam tantos nomes, muitos mencionando o tal sobrenome Bolzada, mas nenhum nome fornecendo pista suficiente para uma combinação lógica a nosso favor. Parecia um jogo de loteria. Mas de fato, tudo o que vimos passava a sensação de “está ficando quente, estamos quase achando”.

Almoçamos em Tui e seguimos para Tomiño, uma cidade não muito distante dali. A minha teoria era de o avô de minha mãe teria vivido por alí. As certidões de batismo realizadas em Tomiño haviam sido transferidas para Tui, mas poderia haver alguma outra pista pela cidade. Andando poucos metros pela rua principal é fácil ver a presença de Bolzada por alí. Apenas deixei minha mãe fazer umas compras numa loja e isso foi suficiente para ela realizar algum contato com um suposto Bolzada. Em vinte minutos apareceu um senhor dizendo preservar o brasão da Família por muitos anos. Aqui vale uma ressalva. Bolzada é um sobrenome muito antigo. O que para o brasileiro é uma novidade no idos de 1900, para os espanhóis era algo comum naquela região já há mais de duzentos anos. No caso desse Senhor, por exemplo, segundo ele existem Bolzadas de sua família vivendo no Rio de Janeiro, que chegaram por volta de 1930 e que certamente não apresentam relação com nossa família. Mesmo assim foi um excelente contato e que nos proporcionou um passeio cultural pela sua histórica casa e vinícola. Depois seguimos para a sombria e isolada igreja de Tomiño, colada
num cemitério. O lugar parece parado no tempo. Na porta da igreja, a lista de missas de sétimo dia daquela semana constava dois Bolzadas, só para ter uma idéia. Logo na entrada do Cemitério, lado esquerdo, encontra-se uma cova suntuosa com o desenho do brasão em relevo. Ou seja, mais Bolzadas por alí. Também não havia, aparentemente, nomes relacionados com nossa busca.

Seguimos para um bairro onde o tal documento de entrada no porto mencionava. Percorrendo a rua principal vimos uma construção de pedra datada de 1863. Paramos e chamamos os proprietários. A dona da casa disse que se tratava de uma construção de sua família, que vive ali por muitas gerações. Perguntamos pelos Bolzadas, se ela sabia se havia alguma casa desses familiares. Comentou que a casa dos Bolzadas por alí, no final da rua havia sido demolida e construída uma casa moderna. Por alí, não havia muito mais que perguntar. Como estava ficando muito tarde, seguimos para Vigo, a maior cidade da Galícia. Passamos a noite em Vigo, depois de uma volta em suas simpáticas ruas com o sol das 10 horas da noite.

Pela manhã, voltamos a Tominõ para buscar alguma pista na prefeitura. Fomos orientados a ir ao “Cartório de Paz”. Essa seria mais uma busca arqueológica. O rapaz do cartório foi muito simpático em conceder uma sala apenas para nossa busca. Lemos quase todos os registros de óbitos entre 1881 e 1910, na tentativa de encontrar algo sobre os bisavós da minha mãe. Nada.

Como tudo havia fechado(horário Espanhol). Seguimos para Santiago de Compostela. Não poderíamos ir para aquela região sem conhecer um lugar tão importante para história da Espanha.


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