Expedição Yellow Submarine – Liverpool


Não é possível tamanha coincidência….

A Juliana e eu estávamos planejando passear por Liverpool já há um certo tempo mas sempre havia um compromisso no fim de semana que impossibilitava dedicar um dia inteiro para o passeio. O último fim de semana do meu primo Rômulo em Londres, que estava fazendo um curso de inglês de férias, era motivo que faltava para decidirmos de vez passear pela cidade dos Beatles. Mesmo assim, ficamos durante a semana toda com a dúvida se realmente iríamos. Será que o tempo vai estar bom? Olhar a temperatura é algo sagrado na Inglaterra. Não se faz nada sem ver antes a temperatura. Para ter uma idéia dessa importância, fomos convidados para um evento num sábado a tarde um mês antes do evento. O convite informava que não se sabia se seria um churrasco ou chá da tarde. A decisão dependeria do tempo. Somente uma semana antes recebemos a confirmação por carta de que o evento seria um chá fechado porque a previsão do tempo estava indicando chuva pesada. Bem, esse costume realmente parece fazer sentido, principalmente levando em consideração o fato de que os preços dos percursos de trem na Inglaterra são meio salgados. É realmente necessário planejar bem uma viagem porque o investimento pode realmente não ter o retorno esperado. O outro fator que pesava na decisão era saber se haveria mais coisas para ver em Liverpool além dos lugares relacionados aos Beatles.

A temperatura informada pela BBC era favorável, resolvemos então arriscar. Enfim, sexta feira à noite decidimos finalmente comprar os bilhetes para partirmos no sábado pela manhã. Uma surpresa boa é que estranhamente o preço da passagem havia caído uns 20% em relação ao preço consultado na semana anterior. Normalmente acontece o inverso. O preço vai ficando bem mais caro próximo ao momento da viagem. Sábado pela manhã, exatamente as 8:07 partiu o nosso trem para Liverpool. Em duas horas, trem de alta velocidade, com um design exterior bastante moderno, mas com bancos internos não reclináveis (de fato não era a primeira classe), céu parcialmente nublado, chegamos à estação central da cidade. Logo depois de nos abastecermos de café e croissant amanteigado (butter croissant), saímos à caça de um mapa da cidade vasculhando a estação. Resolvemos então sair pelas ruas seguindo o fluxo. Nossa primeira parada, logo em frente à estação foi um conjunto de prédios antigos formados pela St George’s Hall, um prédio neoclássico imenso inaugurado em 1854 para exposição e apresentações  e pelo Water Art Galery, um local para exposição de artes. O vento gelado, sob o céu nublado, longe dos 19 graus previstos pela BBC, nos empurrava para cruzarmos os prédios e chegamos enfim ao World Museum, um dos museus mais famosos da Inglaterra. Mas nosso objetivo nesse museu não era exatamente uma visita exaustiva pelas exposições tradicionais, regada de grandes dinossauros, animais empalhados e a descoberta da vida, mas sim chegar ao topo do prédio e assistir uma sessão no planetário da cidade. A sessão levou 45 minutos, uma viagem açucarada pelo fato de que Liverpool realmente realizou grandes contribuições a astronomia tais como a descoberta de um planeta…. e, por outro lado, a sessão foi apimentada pela hiperatividade de um menino de cinco anos, que comentava todos os eventos da sessão para desespero das outras pessoas.

Depois do planetário, caminhamos para o centro da cidade em busca de informações dos pontos relacionados aos Beatles. Depois de passarmos num posto de informações e ajudar duas japonesas altamente perdidas, em 15 minutos estávamos em frente ao famoso Cavern Club. Para quem não sabe, o Cavern Club foi o Pub (o bar) em que os Beatles foram descobertos pelo empresário Brian Epstein. O bar foi fechado em 1973 e pouco dele foi preservado. Apenas a entrada principal, que serve apenas para tirar algumas fotos. Na mesma Rua do Cavern Club é possível ver diversos pubs que se utilizam dos Beatles como tema. No final da ruazinha, encostado ao Cavern Wall of Fame, uma boêmica e realista estátua de John Lennon. E na continuação do passeio já saindo da Mathew Street, é possível  ver no caminho prédios baixos com estátuas de Paul, Ringo e George Harrison, distribuídos ao longo da rua pelos topos dos prédios. E nesse percurso a cidade de Liverpool foi se abrindo para nós: um misto de prédios antigos e novos, os Beatles, nos convidavam para um passeio emocionante. A partir daquele ponto a cidade ficou ainda mais encantadora. Depois de uns 20 minutos atravessando um shopping a céu aberto, vimos um movimento intenso de pessoas no alto de uma praça. Subimos seduzidos por uma música que repetia insistentemente a palavra “paz”. Era realmente uma praça e ali parecia realmente acontecer um show, mas cercado por cordas e policiais. Uma grande multidão tentava tirar foto e filmar de todas as maneiras. Não entendemos nada, muito menos porque o coral no palco repetia tanto aquela mesma frase proclamando a paz. Depois de uns 15 minutos na mesma situação, imaginando ser um evento muito particular da Inglaterra ou até mesmo de Liverpool, resolvemos continuar nosso percurso até as Docas da cidade, próxima ao porto. No meio do caminho, contornando a tal praça do evento, fomos abruptamente atravessados por um grupo de pessoas que perseguiam uma tal “celebridade”. Nem pensamos duas vezes e tiramos várias fotos mas sem ter idéia de quem se tratava. Continuamos nosso percurso certos de que era alguém muito local

A primeira doca que encontramos foi a Albert Dock, uma doca restaurada, logo em frente ao mar, onde abriga o museu dos Beatles. Em frente ao museu, havia uma Liverpool Eye, uma roda gigante turística idêntica a que existe em Londres e uma arena com arquitetura futurista ao fundo. A mistura do antigo com o novo é justamente o que atrai tantas pessoas para essa área da cidade e cria o encanto de Liverpool. E a música dos Beatles está sempre na cabeça.

O objetivo mais importante para nós era a o museu. Para acessar o museu tivemos que enfrentar uma fila beatlemaniaca. Valeu muito a pena e com sabor de quero voltar (sempre!).  Acho que eu nunca havia passado por um museu tão honesto quanto o dos Beatles. Honesto no sentido de realmente buscar reproduzir, explicar, apresentar em detalhe  os acontecimentos, sem criar um ar de “não toque em nada”. Difícil dizer qual o melhor momento ou parte do museu é a mais interessante, mas fiquei bastante tocado com a reprodução real do Cavern Club. Alem disso, uma área dedicada ao John Lennon onde era possível ver seu óculos inesquecível, provocava um momento de inspiração intenso a base de “Imagine all the people”. Convido você a ouvir essa musica e fechar os olhos, clicando aqui http://letras.terra.com.br/john-lennon/90/traducao.html

Depois do museu e de uma parada tardia para o almoço, regada a belíssima paisagem das docas, seguimos para o museu marítimo, onde pudemos visitar detalhes da história de grandes naufrágios, incluindo o Titanic, bem como a história das diversas modalidades de navegação, ilustradas por belíssimas miniaturas de navios. O mesmo museu também preserva uma area dedicada aos escravos africanos, com direito a maquetes de grandes fazendas de cana no Brasil de 1800.


O final da tarde ficou reservado para o percurso do canal das docas até a Catedral de Liverpool, o que nos permitiu cruzar exposições espalhadas pela cidade referente a Bienal de Liverpool (que diferentemente do Brasil, não ocorre em apenas um lugar, mas em diferentes pontos da cidade). Essas pequenas paradas nos valia de altas discussões de “é arte” ou “não é arte”, muitas delas questionadas pelo Rômulo. Mas independente disso, a arquitetura da cidade fazia o seu trabalho por si só. A suntuosidade da antiga Catedral Anglicana da Inglaterra, arquitetura antiga, construída a partir de 1903, a maior do país, e da Catedral Católica Romana Cristo Rei, arquitetura ultramoderna, beirando ao Oscar Niemeyer, há mais ou menos 500 metros dali, criam um contraste proposital no cartão posta da cidade, como reflexo histórico de um duelo de duas igrejas, uma Anglicana, outra do Vaticano.


Já estamos no final do dia e o vento gelado de Liverpool nos conduzia para a estação de trem. Mais duas horas no levariam de volta para Londres, nossa morada. Durante o percurso, a paisagem rural, fria e escura do interior da Inglaterra era acalorada pelo bate papo com o Rômulo. E…

Somente a noite, assistindo a BBC fomos entender do que se tratava o evento que presenciamos em Liverpool: a celebração dos 70 anos de John Lennon e inaugarção de um memorial. E a celebridade que havíamos chegado muito perto, menos de um metro, se tratava de Julian Lennon, filho de John em seu primeiro casamento. Julian também é um cantor muito famoso. Lamento a ignorância. Tenho certeza que você já tenha ouvido uma famosa musica dele, a “Too late for Goodbyes” http://letras.terra.com.br/lennon-julian/404401/.  Foi uma sensacional coincidência.

 

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