Expedição África “Hôtel des Mille Collines” – de volta à Johanesburgo, Africa do Sul – última parada

 

África. Terra dos safáris? Lugar onde surgiu o homo sapiens? Região de população negra? Lugar subdesenvolvido? Tribal? Pessoas passando fome? Colonizados?

Essas perguntas tentam pescar as imagens e idéias que nós, brasileiros, temos desse imenso continente. Normalmente falamos “África” como se fosse um único país, como se não houvesse países com características próprias. São aproximadamente 50 países formando esse imenso continente. Com as imagens de fome que já vimos infinitas vezes na televisão, sendo ela em apenas um país da África, automaticamente passamos a dizer que a África toda está passando fome. A copa do mundo, por exemplo, vai se passar em apenas um país, na África do Sul, mas já virou a “Copa da África”.

No percurso que fizemos, cobrindo na maior parte por terra, o sul, leste e norte, esse imenso continente nos levou a viver à “flor da pele” os problemas, a cultura e o meio ambiente que esse povo vive. Muita pretensão dizer que saímos “expert” disso, mas com certa propriedade para afirmar que é um continente bastante perdido no tempo. A herança colonial deixada pelos paises europeus marcou de diferentes maneiras tribos e “países”: como exemplo temos o apartheid da África do Sul e Zimbábue, com feridas que levarão anos para se cicatrizarem, e as “ditaduras” que pipocam de tempos em tempos a todos os cantos do continente. Para os países ricos, a África não passa de um terreno para exploração e, sinais dos novos tempos, levam a uma segunda (ou terceira? ou quarta?) onda nesse sentido. A China e Japão, os maiores necessitados de recursos naturais, vêm se demonstrando os maiores pretendentes. Tropeçamos em chineses por essa viagem. A diferença é que eles estão se aproximando com um “ar” de “ganha-ganha”, ou seja, ao passo que realizarão a exploração, também realizarão investimentos para ajudar o país a gerar empregos e se modernizar. Paises que se apresentarem à África com melhor abordagem de aproximação serão os mais beneficiados. O Brasil, inclusive, vem colhendo frutos nesse sentido principalmente nos paises de língua portuguesa, Angola e Moçambique( meu amigo Domingos confirmou isso). Os Estados Unidos agora tem uma vantagem competitiva imensa. Barack Obama é negro, seu pai é queniano e é possível ver suas fotos pelas ruas nos paises que passamos idolatrando-o como líder. Suas fotos são dispostas ao lado de Mandela.

Felizmente tivemos a oportunidade de andar pelo interior dos países. Somente assim compreenderíamos a vida real. É que 70% do continente vive na zona rural. As pessoas vem se mudando para as cidades, isso vem gerando um crescimento desordenado, uma vez que as cidades, mesmo as capitais, são precárias em infra-estrutura e saneamento básico (presenciamos, inclusive, por diversas vezes falta de luz e energia). Essa mudança para a cidade vem aumentando o interesse pelo consumo por produtos assim como serviços. Pequenos e médios comerciantes começam a aparecer, gerando alguma renda, gerando consumo, aumentando o PIB. Qualquer crescimento é expressivo por si só, dado que a base do cálculo é muito baixa. Os percentuais de crescimento tem chamado a atenção internacional, principalmente das empresas multinacionais. Daí tem se criado a sensação de que a África é uma segunda Índia, ou seja, uma reserva populacional que vai se transformar em consumidores nos próximos anos, uma “mina de ouro” para grandes empresas. Acho que isso vai demorar: a barreira para essa tendência natural continuará sendo as históricas oscilações políticas dessa região e o elevado índice de corrupção. O inconsciente coletivo mais comentado por aqui é que um africano acorda pensando em como ele vai sobreviver naquele dia, ou seja, como ele vai encontrar comida para acordar no dia seguinte. Tendo em vista essa busca pelo suprimento da primeira necessidade, política não está no dia a dia do povo. E quando está, ele tem muito pouca influência. Ela é relegada a pessoas endinheirada, carismática e com patrocínio de países ricos. Pessoas que se utilizam da bandeira de “África para os negros” de maneira que atraem votos com mais facilidade, perpetuando-se no poder. A luta diária, somada a precariedade do saneamento básico, baixa infra-estrutura, falta de oportunidade, leva a um aumento substancial no apego à religião, na fé de que Deus pode lhe resgatar, salvar e tirar dessa situação de sobrevivência na savana. Irônico isso. O lugar onde os primeiros homens lutaram para sobreviver, na busca por alimentos, só que entre animais ferozes (que ainda podem ser reproduzidos em safáris milionários), tem sido o mesmo lugar que o homem vem lutando para sobreviver, agora na era da abundância dos alimentos, só que com o domínio dos animais. Em todos os paises que passamos a religião estava muito presente no dia a dia. A igreja Universal brasileira, por exemplo, vem criando novas filiais com muita facilidade. Na Etiópia, outro exemplo, é difícil dizer o quão enraizado estão os costumes da religião com a vida social diária, no trabalho, na escola e pelas ruas.

Além disso, a vida ultraconservadora do africano, zelando pela família, bons costumes, vestimentas recatadas ajudam a minimizar os problemas da modernidade, atualmente enfrentados por paises do ocidente. Só para citar um exemplo de conservadorismo, os homens nunca usam shorts: usam calças e camisas com manga comprida. As mulheres são bastante respeitadas pelas ruas. Tem se ouvido falar de estupros na África do Sul, mas isso está dentro de um contexto específico, não é generalizado.

Enfim, a religião e a vida historicamente conservadora vêm dando o equilibro para que essas pessoas não entrem no desespero, algo à primeira vista, justo. Nem por estarem nessa situação, perdem a dignidade ou partem para a violência ou crime. Situações como a ocorrida no “Hôtel des Mille Collines” parecem de alguma maneira ter sido uma exceção, algo que os próprios moradores de Ruanda custam a entender. Naturalmente esse tipo de barbárie é patrocinado por interesses políticos, não sendo algo inflamado pelo cidadão comum. Pelo contrário, com um pouco de contato, passamos a ver as pessoas com uma bondade imensa, com uma vontade enorme de ajudar e de mostrar sua cultura, pessoas com vontade de crescer.

Agora, existe uma África complementar: as belíssimas paisagens proporcionadas somente pela natureza, composta pela bela geografia e fauna, e pela herança dos povos antigos, tais como as Igrejas de Lalibela, a Stone Town em Zanzibar e a maneira de viver de civilizações antigas.

E ainda há muito que o mundo pode descobrir de bom nesse imenso continente. Mais um passo, dessa vez “não militar”, foi dado nesse sentido: a copa do mundo de 2010. Não se trata apenas de uma sede para o evento mais assistido do mundo, mas sim uma tentativa de acelerar a cicatrização histórica de muitas coisas, tais como a convivência dos brancos e negros. A copa é apenas um simples passo. Existe uma preocupação global atualmente de que o evento poderá não ser um sucesso. Acho difícil não ser. De qualquer forma, andando por Johanesburgo, a principal sede da copa, onde ocorrerão a abertura e a final, não se vê muita empolgação pelas ruas.

Para voltarmos ao Brasil era necessário voltar a Johanesburgo, depois de um vôo de 7 horas de Adis Abeba. Sendo Johanesburgo nossa primeira e última parada, pudemos por duas vezes checar o clima da copa: o estádio principal não estar pronto ainda; nem mesmo o hotel que a seleção brasileira vai se hospedar está (chegamos até a nos arrumarmos para pegar um táxi e ir visitar o hotel, mas ficamos surpresos quando nos disseram que ele ainda não existe. Vai ser inaugurado em maio).

Como não havia mais monumento da copa para visitarmos, então partimos para entrevistar todas as pessoas que encontrássemos pela frente sobre a expectativa do evento: os brancos disseram que estão mais preocupados com críquete, um esporte mais esporte difundido. Já os negros se demonstraram ligeiramente entusiasmados, mas pouco a par dos jogos e funcionamento do evento. Ninguém que conversei pretende assistir a copa no estádio. Todos acham que talvez o evento ajude no futuro.

Só para um arremate final do clima local: chegamos no aeroporto internacional de Johanesburgo para embarcar para São Paulo e tivemos a surpresa de encontrar a seleção de futebol da África do Sul. Eles também pegaram o mesmo vôo para São Paulo. Desde o check in até a entrada do avião (uma distância de quase um kilômetro, dezenas de pessoas pelos caminhos, dezenas de free shoppings) não houve nenhum tumulto sobre os jogadores. Nem mesmo um pedido de autógrafo ou fotografia. Perguntei aos atendentes e guardas do aeroporto qual o nome de um dos jogadores (confesso que não conhecia) e eles não tinham idéia de quem eram. Procurei o Parreira mas, segundo um dos jogadores que conversei dentro do vôo, ele já havia partido dois dias antes. Esse percurso dos jogadores seria inimaginável com a seleção brasileira. Eu era o único com uma atitude de fanático por futebol. Os jogadores da África do Sul também não me pareceram tão entusiasmados. Devem estar com o peso da copa nos ombros…

Apesar disso, sim, apesar disso, ainda acho que o negócio só vai esquentar quando as seleções começarem a chegar para a copa. A população só vai dar conta quando em tudo quanto é lugar do mundo aparecer a África do Sul na televisão e ai sim vai começar a se envolver, se engajar. O próprio clima dos torcedores estrangeiros, já mais acostumados com esse tipo de evento, ajudará a servir de referência para os torcedores locais. Se em termos de infra-estrutura a “Copa da África” ainda pode ser uma dúvida, por clima e torcedores a copa será um sucesso. Essa é a minha aposta. Vamos ver….

2 comentários em “Expedição África “Hôtel des Mille Collines” – de volta à Johanesburgo, Africa do Sul – última parada

  1. Eduardo,
    Boa tarde,
    É com imensa satisfação que me encontro por ter, finalmente, lido algum material atual, acerca de Lalibela.
    Tenho especial interesse por este local.
    Porém sempre que penso em organizar esta viagem sou desaconselhada por muitos. É muito perigoso..dizem uns, ” Sozinha na Etiópia”? dizem outros.
    Qual a sua opinião? Dá para ir? Você conhece alguma agência que leve?
    Estive em Paris, em julho passado, e encontrei agências locais que levam para diversas países/cidades no continente africano. Mas, ficará muito caro se tiver que ir até ao continente europeu
    Parabéns pelo blog. Belas fotos , um bom texto.
    Ana Sílvia

    1. Ola Silvia,

      Muito obrigado pelo comentário.
      Realmente os pacotes de turismo para essa regiao partem da Europa. Um pacote de turismo vai te garantir uma comodidade em termos de “tudo planejado” e “horario marcado”. Se voce nao gosta de pacotes bem como quer pagar menos, vejo que é plenamente seguro a viagem a Lalibela. O caminho mais barato para chegar a Etiopia partindo do Brasil é via Amsterdam, KLM. Sugiro voce comprar o trecho todo, considerando o voo até Lalibela. Veja, Etiopia nao é um pais muito bem estruturado, mas as pessoas tem um coracao imenso e garanto que a viacao aerea local segue as leis internacionais de seguranca. Nao sei qual a sua experiencia em viagens pelo mundo, mas garanto que Lalibela será uma viagem inesquecivel(reveja no meu blog que voce visitara inevitavelmente duas Lalibela…). Muito importante: como nao é um local ainda muito descoberto pelo mundo turistico, tal como as piramides do Egito, etc, sinceramente, para quem viaja sozinho, nao é um lugar fàcil para se enturmar. Assim, como nao conheco seu grau de aventureira, recomendo que voce nao viaje sozinha: nao por uma questao de seguranca, mas muito mais para o seu passeio nao ficar solitario ao extremo.

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