“Como pode eu ter feito uma reserva 2 horas atrás e o preço já estar 3 vezes mais caro? Essa é a maior inflação do mundo?”. Com essa frase, reproduzida com um tom premeditado para que todos ouvissem dentro do escritório da Ethiopian Airlines em Adis Abeba, chamei a atenção do gerente. Primeiro ele riu, levantou-se e foi direto até o nosso atendente perguntar o que realmente se passava. O sistema havia “caducado” e constava um preço de passagem bem mais alto do que haviam nos informado. Sinceramente creio que a atendente da outra agência havia informado um preço, mas o sistema acusou “estrangeiro” e na prática deveria ser realmente bem mais caro. O atendente explicou a situação e o gerente pediu que entrasse no sistema e nos cadastrasse como cidadãos Etíopes, assim pagaríamos o preço mais baixo do percurso. Fechamos o negócio e seguimos para a saída do escritório às 21 horas – últimos clientes – com os tickets de viagem entre Adis Abeba e Lalibela nas mãos. Essa cidade fica no norte da Etiópia, aproximadamente 600 kilômetros de distância, local onde estão localizadas as “ligeiramente” conhecidas internacionalmente Igrejas de Lalibela, consideradas patrimônio cultural da humanidade. Com um sorriso enorme, na saída não podíamos deixar de dizer que estávamos honrados de ser agora cidadãos daquele país. E ela: “só um detalhe: o vôo parte às 7 horas da manhã, mas vocês devem estar lá duas horas antes”. Logo retruquei: “Mas não é um vôo doméstico?”. “Ouça: duas horas antes”.

No dia seguinte acabamos entendendo: a burocracia para entrar no aeroporto é desproporcional. Checa-se a bagagem diversas vezes. Parte desse “checa-checa” deve-se ao país estar numa guerra fria com um país que está ao norte, a Eritréia. As fronteiras estão fechadas e a Etiópia reivindica uma saída para o mar.
Se fosse um vôo direto, o Fokker 50, que parece movido ainda à hélice, chegaria em Lalibela em uma hora. Mas o vôo foi quase um ônibus “pinga-pinga”: parou em três cidades. Fizemos um verdadeiro tour aéreo pela Etiópia e ficou fácil entender porque uma viagem de 1 hora de avião até nosso destino durariam 2 dias de viagem de ônibus. As montanhas pelo caminho e as estradas semi-deterioradas transformam o percurso numa verdadeira internet discada.
Às 10 horas chegamos ao aeroporto de Lalibela. Apenas nosso avião. Pela primeira vez tivemos o prazer de pegar as malas quase que diretamente no avião. Muito prático. Adorei o serviço. Cada um vai lá e pega o seu. Acho que deveria ser adotado no Brasil. Foi a saída do aeroporto mais rápida que realizamos até hoje. Logo na saída havia uma van do hotel esperando.

Nem bem chegamos ao hotel, deixamos novamente as malas e tentamos buscar informações com o recepcionista de como poderíamos visitar as famosas igrejas. Senti uma tentativa de dificultar as coisas, tentando a todo custo empurrar um guia local ou algum pacote. Ficamos surpresos de ele não poder nos dar um mapa da cidade. Como um milagre apareceram dois franceses perdidos por ali que nos deram uma valiosa dica: desçam essa rua e chegarão lá. Descemos a rua desconfiados de que realmente havia alguma coisa naquele caminho. Lalibela, apesar de ser uma cidade, não passa de um vilarejo muito, mas muito pobre, mas com casas e pessoas muito diferentes para nossos olhares ocidentais. Algumas lojinhas muito caquéticas vendiam alguns souvenires, mas não parecia ser uma estrutura turística montada para os supostos turistas que passavam por ali. Era uma rua normal, ou melhor, uma ladeira bem pesada. Depois de encontrarmos a tal bilheteria e pagar pela entrada com direito a visitar o conjunto de igrejas por 5 dias, algo inegociável, ignoramos a recomendação da cidade de que as igrejas fechariam do meio dia até as 14 horas e seguimos o tour sozinhos.

Ficamos estarrecidos com o que vimos: são 10 igrejas esculpidas na rocha, cada uma representando um mandamento, abaixo do nível da rua. Normalmente se comenta que são 11 igrejas, mas na verdade, segundo os locais, uma delas se desmembra em duas. Uma mais impressionante que a outra, ainda em uso pelos mais conservadores. Justamente nesse tal momento de “horário fechado” ocorriam os cultos e pudemos acompanhar as cerimônias realizadas seguindo à risca a mesma tradição há muitos anos. Entre uma igreja e outra, enfrenta-se diversos labirintos construídos também em pedras, com esconderijos, fendas e buracos que ora servem para moradia para alguns que vivem ali dentro, ora servem de sepulcros. Ficamos embriagados pela sensação de “outro planeta”, caminhando pelos labirintos, túneis, participando das cerimônias e circulando as igrejas por todos os lados. A Etiópia guarda algumas surpresas que realmente nos remetem para outro mundo em poucos instantes. Essas igrejas são relíquias perdidas no meio do nada. Foram construídas há aproximadamente 900 anos atrás, uma tentativa dos reis de criar uma nova Jerusalém só para os Etíopes, pertencentes à Igreja Cristã Ortodoxa local. De alguma maneira deu certo. É uma construção monumental, sem dúvida única no mundo, tem um apelo muito forte para a religião deles.
Entre o percurso de um grupo de igrejas e outro, conhecemos algumas crianças do vilarejo. Como estávamos num percurso fora do roteiro, pudemos conhecer crianças mais distantes do assédio turístico. O bate papo com eles foi se desenvolvendo e fomos ganhando confiança. O menor deles, o John, nos acompanhou informalmente por nosso passeio. Vimos sua casa, sua família. Perguntei aos maiores, muito simpáticos, se eles tinham um time de futebol. Rapidamente disseram que sim. Aproveitando a oportunidade, eu perguntei se podíamos marcar um jogo para as 6 horas da tarde que eu daria uma bola de futebol do Brasil. Saíram em disparada.
Nosso passeio terminou na igreja mais conhecida atualmente, num lugar cinematográfico, no alto de uma montanha, cercada de árvores áridas e alguns lagartos de cabeça e calda azul e corpo cinza. Ao lado, um cemitério sem muro espalhado pelo morro. Durante a noite sonhei (ou talvez foram pesadelos?) com esses inebriantes cenários.















Gente! Vcs são corajosos mesmo.
Só de olhar para esse avião tenho a sensação de adrenalina pura !!!
Bjs,
Cris
Puxa!!!
As imagens postadas de Lalibela, estão incríveis!!!Tem uma “pegada” muito poética…AMEI!!!
As fotos estão muuuuito bonitas!!!! Lindas mesmo!!!! Ainda não li tudo pq é muuuita coisa!!! heheheh…mas dá pra perceber que está sendo uma aventura inesquecível!!! Muito legal mesmo!!! Um grande beijo pra vcs diretamente de Fortaleza!!! heheheh