Partimos no dia seguinte cedo para Moshi, norte da Tanzânia. Moshi é uma cidade no pé do Kilimanjaro, um dos maiores picos do mundo. O maior da África. Um anitgo vulcão no meio da savana
Deixamos para trás a cômoda e “ar condicionada” hospedagem do Jambo Inn. Aliás, importante destacar a expressão também muito usada por aqui: “Jambo” (eles pronunciam chambo), algo como “Como vai?”. Também é uma expressão simpática utilizada com turistas, tal como o “Hakuna Matata”. Mas apesar de toda a simpatia, o povo dessa região é avesso à máquina fotográfica. Não descobri de onde exatamente vem isso, as hipóteses são várias, mas o fato é que quando sacamos a máquina, as pessoas levantam, arregalam os olhos, prontas para dizer “no, no, photo no!”. Mediante essa aversão, temos que ser politicamente corretos e perguntar se podemos tirar foto. Na maioria não podemos. Por outro lado, as paisagens estão por ai, mas elas perdem muito do colorido do povo daqui. Eles dão um tom muito diferente, com suas vestimentas, práticas inusitadas e “atuando” pelas ruas, ora comerciando, ora simplesmente conversando. Ou seja, “Jambo” não é um passe livre para um registro. Não interessa quem seja.
A viagem até Moshi durou cerca de 8 horas. Como viajamos de dia, para evitar a impossibilidade de ter uma boa noite de sono, por outro, tivemos novamente a companhia intensa do sol. Sorte que o ônibus estava com todas as janelas abertas e o vento fazia a festa e nosso “refrescar”. A paisagem também nos distraia, uma espécie de savana tropical, com árvores distantes e pouca agricultura, e a companhia de alguns morros muito altos, já anunciando o que veríamos em Moshi. Nenhuma infra-estrutura pelo caminho, pessoas tentando vender de tudo, muita miséria e casas feitas de barro, cobertas com palha. Nas minúsculas plantações, somente mulheres trabalhando, algo que nos surpreendeu.
Nas paradas do ônibus só era possível comer algumas migalhas de frutas: bananas muito pequenas e mangas que de tão quente até queimavam a barriga. O fato é que apesar de haver imensas terras, poucas partes são férteis. As frutas são bem caras por aqui, até mesmo para os nativos. Nessa altura da viagem, beber água é mais do que necessário, é praticamente um vício.
Novamente em Moshi tivemos que enfrentar os eufóricos agentes de viagem oferecendo de tudo. Desde pacotes para escalar o pico até uma simples passada numa plantação de café. Como sempre, preferimos seguir com os próprios pés. E nesse sentido tivemos muita sorte. O hotel que pretendíamos ficar estava todo lotado e arriscamos procurar outro, não muito longe dali. Nos ofereceram um quarto no quarto andar, sem elevador. As malas que carregamos são um fardo para mais de um andar. Como estávamos exaustos e não dava muito tempo para sair por ai procurando, resolvemos aceitar. Nem bem chegamos, saímos à procura de comida e ficamos muito surpresos com um restaurante intitulado de “Indotaliano”, ou seja, com uma cozinha combinada entre a indiana e italiana.
Além do charme, é um verdadeiro oásis perdido nessa região, tendo em vista a escassez de tudo, o restaurante oferece pratos fartos e deliciosos. E um atendimento autêntico, não “turístico”. Fomos dormir anestesiados pela comida caprichada (pela primeira vez nessa viagem pedimos dois pratos).
E no dia seguinte…
No dia seguinte, por volta das 6 horas da manhã, eis que acordo, meio que sem orientação do horário, olho para a imensa janela de nosso quarto, um verdadeiro quadro e digo: “July, July, o Kilimanjaro!”.
Ali entendemos porque estávamos no quarto andar e como a recepcionista havia sido realmente generosa. A vista era simplesmente maravilhosa. Do dia anterior, quando havíamos chegado, não nos preocupamos em ver o pico pois percebemos que ele estava encoberto pelas nuvens. E não era possível ter a noção da imensidão e da beleza. As pontas cobertas de neve, sua base rodeada de verde e o céu azul como moldura. Só fomos descobrir depois, conversando com o pessoal da rua, que realmente só é possível ter uma visão do pico entre umas 6 e 7 horas da manhã. Tivemos muita sorte em acordar naturalmente.
Escalar o monte Kilimanjaro é uma obsessão para muitas pessoas. Existem 10 maneiras de escalá-lo, desde o modo “fácil” até o “super complicado”. O modo fácil, para qualquer pessoa, leva em média 6 dias. É obrigatório subir com um guia. Moshi não é a principal cidade de parada dos viajantes, mas sim Arusha, a cerca de 50 kilometros de Moshi. Mas Moshi tem a melhor vista do pico, para quem não vai escalar, como é o nosso caso, faz sentido ficar hospedado aqui.
Além do pico, a cidade em si não tem muitas atrações. O pico é uma atração inteira! Os habitantes são conhecidos como Chagga, uma tribo que vive em volta do pico por centenas de anos. Também vieram para essa região muitos indianos( a TV local é repleta de programas provenientes da Índia). Quando estávamos aguardando arrumarem o acesso à internet num “internet café”, conhecemos o Gifty Clemence, um rapaz de 17 anos, que resolveu nos mostrar a cidade, tamanho seu interesse em conhecer um pouco sobre o Brasil. Sua companhia ajudou a repelir os insistentes “perseguidores” de turistas. Sinceramente eu já estava começando a perder a paciência. Então para tornar o dia interessante, demos uma missão difícil para ele: encontrar alguma pessoa do povo Maasai, que normalmente vive fora da cidade, mas que ainda assim é possível encontrá-los por aqui. Eles tem roupas e vestimentas típicas muito interessantes, muitos brincos, pulseiras e demais ornamentos. Chegamos a encontrar alguns pela cidade, através das “diligências” lideradas pelo Gifty, mas todos queriam cobrar para tirar foto.
Uma mamãe Maasai “perfeita” se demonstrou muito mercenária. Gifty defendeu, sempre com razão, mas também criticou a insistência do povo local em tentar arrancar dinheiro do turista a todo o momento. O sol cada vez mais forte tornava a “caça” muito árdua. Passeamos pelo mercado da cidade, um conjunto de barracas com poucas frutas, muita quinquilharias, tudo á céu aberto. E finalizamos a saga. Fizemos realmente um amigo, uma simpatia de gente e muito atencioso. No momento da despedida, “hora de ir para escola”, na maior simplicidade, tirou do bolso um papel amassado, movimentando-se com as mãos lentamente em nossa direção, como quem diz “olha, sei que vocês nunca vão me contatar, mas toma aqui meu humilde endereço na internet”. Mas essa “despretensão” dele se inverteu quando coincidiu de eu pedir para ele o endereço da internet, sem ter visto ainda o que continha no bilhete. Seu entusiasmo nos contagiou. Infelizmente precisávamos ter um tempo isolado, sem outras companhias, para planejarmos friamente os próximos passos da viagem. O Pico e o Indotaliano fazem a graça da cidade.
July, com todo o respeito!
O Du está “gato” com essa barbicha!!!rs
Agora entendo melhor porque ele adota esse visual apenas nas viagens à dois!!!hehehhe
Bejião e boa viagem
Lê
Oi July,
Que lugar lindo !
Bjs
Cris