Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Ilha de Zanzibar

Depois de uma noite bem dormida em Dar Es Salam, com a tentação à flor da pele em ver as melhores praias do Oceano Índico, tomamos um café reforçado e passamos a planejar nossa ida para Zanzibar. Imagino que você deve ter ouvido falar da expressão “Hakuna Matata”. Eu só vim conhecer essa expressão aqui. Mas parece que o filme do Rei Leão pegou emprestado essa frase do Swahili, língua oficialmente falada aqui na Tanzânia e também em Uganda, Quenia, Somália e parte de Moçambique (o inglês é considerado segunda língua). Eu não assisti o Rei Leão, então foi uma surpresa para mim. A July conhecia…fiquei por fora nessa. Zanzibar é a terra do “Hakuna Matata”, expressão que significa “tudo bem?” e que os nativos utilizam muito com os turistas pelas ruas. Zanzibar é uma ilha com praias paradisíacas, a mais ou menos 70 kilômetros da costa da Tanzânia, e que tem o tamanho da ilha de Florianópolis ou de Ilha Bela, em São Paulo. Em qualquer lugar que você esteja na Tanzânia, alguém vai te perguntar: você vai para Zanzibar?!(meio que afirmando que você tem ir, não exatamente perguntando). Esse tipo de abordagem acabou criando um interesse nosso por ir até lá. Daí começamos o ritual para chegar lá: em Dar Es Salam, é necessário pegar um ferry boat, uma espécie de barco ônibus de alta velocidade, que cabe umas cerca de 200 pessoas, no centro da cidade e viajar por cerca de 2:30. Para comprar o bilhete, a primeira fase do jogo. Milhões de “cambistas” tentam te empurrar um bilhete, colocando uma taxa de serviço em cima. Vencer esse jogo significa encontrar a bilheteria oficial, sem intermediários. Os taxistas do albergue, alguém que confiamos plenamente, nos levou a tal bilheteria. Sinceramente, pelo atendimento, não posso afirmar que eu não tenha comprado com a tal taxa. A passagem já era originalmente cara, talvez eu tenha comprado com algum acréscimo. Para não haver problema, compramos também o bilhete de volta. Depois, logo saindo dessa bilheteria, carregando malas, enfrenta-se uma fila colossal para entrar no “barco” e diversos candidatos locais a carregadores de malas, sob sol infernal de 43 graus (a média por aqui é de 40 graus), juntamente com turistas “internacionais”, a maioria americanos e europeus. Felizmente a ferry tem ar condicionado (pelo preço, deveria ter piscina e água de coco gelada grátis). Na partida foi possível ver um pouco de Dar es Salam pelo mar, uma cidade que se apresentou muito menor que imaginávamos. Mas valeu algumas fotos.
Nesse percurso conheci o “velho Mussa”, como ele mesmo se denominou. Era um senhor, engenheiro do canal de televisão de Zanzibar. Quando perguntei para ele, “o senhor nasceu em Zanzibar, então o senhor conhece bem aquelas praias?” Ele respondeu “Ishhi, como eu conheço rapaz! Conheço cada canto daquela ilha!”. “Velho Mussa” foi um bom companheiro de viagem. Explicou que Zanzibar é uma ilha autônoma, que não pertence a Tanzânia, tem um presidente próprio, mas faz parte de um espécie de “Tanzânia Unida”, tal como existe os “Estados Unidos da América(pois se trata de um conjunto de estados que estão unidos por uma federação)”. Mas mesmo com essa tal “Tanzânia Unida”, Zanzibar faz questão de se demonstrar independente, tal com por exemplo, exigir visto na entrada da ilha, carimbando passaporte e tudo. Mostrei para Mussa a foto das casas com uma espécie de forno na frente. Na verdade, disse que a própria comunidade faz os tijolos e coloca naquele formato , deixando ele desidratar por um certo tempo. Depois coloca na construção da casa. Foi por esse motivo que vimos muitos “fornos” deformados, o que na verdade tratava-se de tijolos retirados para a construção. E ficou muito contente que havíamos tirado fotos das mulheres do interior da Tanzânia. As mulheres bem vestidas que comentamos, tratam-se nada menos que uma tradicional mulher “Swahili”(ele disse que a pronúncia é Kisuarrili). Depois de mais algumas dicas de passeios, pegamos nossas malas do barco e saímos a caça de um

Jean é um rapaz dono de uma vendinha em Zanzibar. Durante um bate papo, confessou que seu sonho é conhecer o Canadá. Disse que vai acatar a minha dica: guardar um dólar por dia até que junte o suficiente par uma viagem. Um sonho que parecia distante e impossivel, ficou com um prazo mais definido. Mostrou até o cofre de madeira que guardará o dinheiro.

albergue, fugindo dos “agentes” de plantão. Essa “caça” sob o sol de 43 graus teve uma variável amarga: descobrimos quando chegamos na ilha que ela não tem energia elétrica 100% do dia, isso porque recebe energia da Tanzânia, através de um cabo, parecendo algo meio que um favor. E um agravante: em fevereiro é o período com a menor quantidade de energia. Em cada albergue que eu passava, isso por volta do meio dia, as roupas totalmente molhadas pelo suor, a mesma resposta: “energia só às 18 horas, à base de gerador. E sem energia, não conseguimos bombear água! Ah, tem mais um detalhe, como tem escassez de energia, então não tem ar condicionado, só ventilador…”. Resolvemos partir para um hotel: a mesma resposta. Mediante tal situação, tentando amenizar pelo menos o melhor acesso (ficar mais perto do centro, do porto, etc.), resolvemos pagar bem mais e ficar num hotel com cara de “tradicional”, mesmo com a tal restrição. Vimos que os estrangeiros com “pacotes de viagem” também estavam hospedados nele, seguimos então como uma indicação.
Para não perder o espírito da viagem, não deixamos nos abalar. Largamos as malas no quarto, saímos pelas ruas da cidade rindo(para não chorar) do tamanho do ventilador no teto do nosso quarto(algo como 20 centímetro de asa). Além das praias paradisíacas, o forte da ilha é a cidade “Stone Town”. Zanzibar, como está próxima do oriente, teve muita influência do povo árabe. Chegou até a ter um sultão árabe com chefe local. Também passaram por ali os ingleses mais para os anos 1800 enquanto os portugueses estiveram bem antes, nos idos de 1600, buscando escravos e especiarias. O passeio tradicional é caminhar pelos labirintos da arquitetura islâmica de “Stone Town”, a “capital” da ilha, o que pode ser feito também margeando a belíssima, cristalina e verdinho, mar indico da costa, e com os barcos de pescadores e navios como cenário ao fundo. O “making of” desse passeio pela cidade é ter que aturar os insistentes taxistas e agentes de viagem pelo caminho e a orquestra sinfônica de geradores espalhados por todos os cantos da cidade. Nessa ilha, gerador é mais importante do que o próprio eletrodoméstico que usará a energia. Nesse sentido, como economista, eu não podia deixar de visitar o homem mais sorridente da ilha: o dono da empresa que faz manutenção de geradores. Estamos levando uma foto dele. Tendo a arquitetura árabe, o belo mar e simpatia dos habitantes locais com seu permanente “hakuna matata” tornam Stone Town uma cidade agradável. Infelizmente, ainda assim, vimos que é uma economia muito simples, muitos pobres pelas ruas, uma situação desproporcional entre o turista “internacional” e a vida do “local”. É um grande contra-senso: as fachadas das arquiteturas, preparadas para fotos dos turistas, escondem a vida miserável do povo local, apinhados em cortiços e insalubridade. E tudo isso, de fato, uma ilha realmente paradisíaca. Provavelmente alguém, não eles, estão ganhando com isso. Turisticamente falando, busca-se transformar o local num turismo inesquecível, e de fato é. E provavelmente o turista de “pacote” nem observa essa situação. O fato é que 99% das pessoas da ilha estão em situação miserável. Nem por isso, é um local perigoso. Pelo contrário, as pessoas apresentam uma humildade invejável. Isso tem muito a ver com formação religiosa local. Na ilha de Zanzibar a maior parte é muçulmana e assim como no oriente médio, as mulheres também usam o chador. Muitas cobrem o rosto inteiro. Interessante que também pintam as mãos com henna, como forma de ornamento. Diversas mesquitas espalhadas pela cidade. No final de nosso passeio pela cidade, passamos por uma feira de comidas típicas locais, regadas de muito peixe (naturalmente) e pimenta (curiosamente é uma ilha que exporta algumas iguarias de pimentas) e fomos enfim para nosso Hotel (com H maiúsculo).
Tudo ia muito bem com a energia até a hora que chegamos ali. Nem bem havíamos pensado em tomar banho, a energia acabou, tudo escuro. O recepcionista do hotel, como uma flecha, bateu em nossa porta (essa hora deu medo!) oferecendo uma vela: “tivemos problemas com nosso gerador. Já estamos arrumando”. Uma hora em meia depois a luz voltou. Tomamos banho, a luz acabou de novo. “Tivemos novamente o mesmo problema. Já estamos arrumando”. Moral da história: dormimos sem energia, sem ventilador de 20 centímetros, a noite com o calor mais infernal que já passamos + os mosquitos de plantão (esse eu nem comento mais, estão com a gente todo o tempo. Mosquito aqui é como o ar que respiramos).  Pela manhã, mesmo cansados, precisávamos conhecer algumas praias. Pegamos um “Daladala”, uma espécie de mini van local, e fomos para Bububu, praia do norte. Para não ficar no “burburinho” dos turistas, descemos um pouco antes da cidade e nos aventuramos por uma trilha até sairmos numa sim paradisíaca e deserta praia. Fizemos uma bela caminhada e saímos numa área restrita da marinha local. Tomamos um “pito” do exército, fizemos meia volta e voltamos o mesmo percurso. Mesmo assim valeu muito a pena. Realmente de tirar o fôlego. Novamente, quando pegamos outro “daladala” de volta para a cidade, paramos em outra praia para contemplar a beleza. Logo, adiante encontrei o que queria: alguns pescadores, com o barco atracado. Mostrei a foto do que eu estava procurando. Tratavam-se das imensas tartarugas das Tanzânia. Um deles ficou eufórico e disse que nós só as encontraríamos numa tal “Prison Island”, cerca de 30 minutos dali. E ele confirmou algo que eu imaginava: nós podíamos nadar com elas. Negociei um preço, eu já ia quase pagando, mas a Juliana declinou. “Esses barcos não parecem confiáveis”. Deixamos as tartarugas de lado e voltamos para a cidade.

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