Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Kapiri Mposhi, no meio do nada

No dia seguinte, sexta-feira, resolvemos pegar um trem que liga a Zâmbia e Tanzânia. Já havíamos ouvido falar nele, mas não tinha conseguido confirmar sua existência. Mas a garota do albergue nos forneceu todos os detalhes desse nosso próximo passo. Interessantemente o trem não parte de Lusaka, a capital, mas cerca de 70 kilômetros dali, em Kapiri Mposhi. Daí começa um processo ritualístico para chegar até ele: primeiro compramos a passagem no centro de Lusaka, no posto da empresa Tanzara, dona da linha. A bilheteira foi categórica: mulheres e homens não viajam juntos na mesma cabine, a não ser que você compre “primeira classe” e todos os quatros assentos da mesma cabine. Não tivemos escolha. Não sabíamos o que viria pela frente, as condições do trem, etc. Enfrentaríamos 1800 kilômetros, 3 dias de viagem e um pouco de privacidade nessa região cairia bem. Com 4 pedacinhos ridículos de madeira na mão (nossos bilhetes), acordamos às 5:30 para tomar um banho caprichado e seguimos para a rodoviária pegar o ônibus da primeira etapa. A bilheteira do Tazara havia sido enfática: “pegar o África Euro bus”. Logo que entramos na rodoviária entendemos o porquê de tanta força em sua fala: haviam dezenas de ônibus para Kapiri Mposhi e uma centena de homens me empurrando um bilhete. O assédio chegava ao ponto de confiscarem a minha mala para levar para um ônibus do interesse deles. Eu tinha que pegar nossa mala de volta, já dentro do bagageiro. O África Euro era um dos melhores: tratava-se mais uma vez de um Marcopolo (É isso ai Brasil!!). Até que o ônibus não partisse, a July ficava guardando nossos assentos e eu ficava de olho grudado nas malas, no compartimento de baixo. Apesar do índice baixo de Lusaka, não queríamos dar chance para qualquer eventual gatuno de plantão.

Foram duas horas sentados em bancos bem apertados. Meus joelhos tinham que ficar virados para o corredor. Felizmente o desconforto foi compensado por distrações pelo caminho. Primeiro foi um rapaz com uma bíblia na mão, provavelmente um pastor, começou o seu sermão inflamado, tornando seus passageiros seus “fiéis”. Todos ouviam atentamente. Mas apenas um homem, de maneira estranhamente sarcástica, repetia em cada frase do pastor um sonoro e estendido “Amém”. O sermão levou uns bons 30 minutos. Fiquei muito surpreso que na hora de passar a sacolinha todos deram sua contribuição. Ao ponto de o pastor receber dinheiro na ida e na volta do ônibus. Depois disso não vi mais o paradeiro do pregador no emaranhado de gente daquele ônibus. E, como se fosse palco para qualquer um fazer seu show, o rapaz que falava “amém” se levantou e disse “agora é mina vez”, foi caminhando para frente do ônibus e começou um verdadeiro show de “stand up”. Uma piada atrás da outra. Todos riam sem parar. Não consegui captar as piadas, mas as situações criadas por ele pareciam ser as mesmas que geralmente os comediantes se inspiram: religião, família, sogra, etc. Como acordamos muito cedo, caímos no sono e ficamos sem descobrir se o comediante também passou a sacolinha e quanto arrecadou. Tampouco se havia alguma coisa combinada entre ele e o pastor, já que um parecia dar seqüência ao outro. Só acordamos quando o ônibus parou bruscamente no meio do nada. Como ninguém entrava ou saia, resolvi correr na frente e perguntar ao motorista onde estávamos: “Kapiri Mposhi”. Somente nós descemos e ônibus seguiu para outro lugar. Mais uma vez assédio dos taxistas. Um carregou a mala forçosamente para seu carro, ficamos em situação difícil de se reverter, já que não podíamos seguir andando devido à recomendação da bilheteira da Tazara: “lá é realmente perigoso, não vacile”. Dali seguimos para a estação do trem, no meio do nada, numa estrada de terra. Um prédio grande, velho, com uma pequena plantação de milho em volta e alguns ambulantes vendendo pão e banana. Dentro da estação, uma separação desnecessária: no mesmo saguão, numa parte mais alta, a descrição “sala de espera da primeira classe”, com uns sofazinhos detonados, sujos e desnivelados. Ficamos ali esperando por 3 horas nosso trem. Achar internet tem sido muito dificil…

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