Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De trem da Zâmbia à Tanzânia

Esse percurso da viagem é de difícil narração. Trata-se de três dias de paisagens exuberantes e duas noites muito mal dormidas, 1900 kilômetros cortando o norte da Zambia e o sul da Tanzânia. Chega-se a passar muito rente entre dois paises: República Democrática do Congo e Malawi (Malawi é o país onde aquele economista brasileiro morreu quando escalava um monte no final do ano passado, lembra?). Mas a dificuldade da narração não está ai, e sim nos emocionantes contatos com as crianças ao longo do percurso. Sim, é aquela imagem difícil. Você dentro do trem e aquelas dezenas de crianças cercando os vagões, fazendo de tudo: vendendo, pedindo, simplesmente olhando, ou acompanhando alguém. Esse contato foi latente a cada parada, isso cerca de 30 minutos ou 1 hora de intervalo, dependo da distancia de um vilarejo ou cidade. No interior dos dois paises, tanto Zâmbia quanto Tanzânia, fica muito difícil dizer se realmente se tratavam de cidades, vilarejos ou até mesmo uma aldeia. Talvez o melhor seria descrever como uma comunidade. Comunidade talvez seja realmente apropriado pois um policial dentro do trem, nascido na Tanzânia me disse que os laços de família são tão fortes por ali que esse conceito se estende entre as famílias, o que fica realmente difícil dizer quem é ou não da mesma família. Outra coisa interessante que ele me contou foi que os irmãos menores são educados rigidamente para respeitar os irmãos maiores. Depois que ele comentou isso ficou evidente: era comum mesmo ver crianças com 7 anos acompanhadas de outra com 4 anos, uma cuidando da outra. Outro fator que fortalece o conceito de “comunidade” é que não existe uma estrutura de ruas, casas, e comércio. É possível ver umas casas feitas de palha, algo como uma óca. Não posso arriscar que sejam, pois não sei se isso é de fato uma tradição antiga ou se se tratava de uma “casa pobre”, ou seja, construída com poucos recursos. Do lado de fora da tal casa, um pequeno cercado de barro(o banheiro). Algumas tinham quintal. Algo nos intrigava, não conseguimos descobrir o que exatamente era: uma construção de tijolos do tamanho de uma garagem, não parecia ser oca o bastante para ser um forno(isso porque vimos algumas sendo desmontadas). Essas casas prevaleceram entre a primeira estação até mais ou menos 100 kilômetros dentro da Tanzânia.

Quando o trem parava, as crianças se espalhavam pela estação. Estávamos na primeira classe. Não pense que era uma maravilha. Tratava-se de dois beliches, como compramos os quatro lugares, então tínhamos toda a cabine para a gente, mais a companhia insistente de pequenas baratas (bem, não vou entrar em detalhes nessas partes negativas da viagem…). No meio do trem havia a segunda classe, com camas menos confortáveis, sempre mulheres em uma cabine, homens na outra. Além disso, havia um vagão restaurante, que nos serviu alguns almoços; e na parte da frente do trem, a terceira classe, bancos comuns, um desconforto descomunal. E esses bancos tinham uma rotatividade imensa. O trem parava, trocava quase todo mundo. Como as crianças sabiam dessa configuração, procuravam rodear a primeira classe. Desde a primeira estação nos acostumamos a sermos chamados de “muzungu”: uma espécie de “branquelos”. Não nos chamavam com agressividade. Era apenas “gente diferente” para eles. Essas crianças têm um olhar diferente. Claro que pesa sobre nossas costas a questão “estamos na África” e já viemos com aquela visão formada de crianças pobres da “África”, etc. Mas seus olhos apontam uma sinceridade, uma “não maldade”. Não quero dizer que são melhores, mas são diferentes das crianças que pedem dinheiro nos faróis de São Paulo. Elas não pareciam pedir coisas forçadas por alguém, ou até mesmo “teatralizando”, ou usando de artimanhas, chantagem ou fazendo cara de pedinte. Era um olhar de índio, inocente, sem nenhuma maldade e sem nenhum entendimento do mundo. Sem raiva, sem ódio, sem drama. Nossa situação sim era desumana e de difícil compreensão, pois estávamos na “primeira classe”. Uma menina com olhos de anjo nos pediu uma caneta, muitas delas nos pediam uma “Bic”. A July se esmoreceu por não ter nenhuma para compartilhar. Fiquei com pena em dobro: pela menina e pela July porque sei que sua bondade é infinita. Nós vimos algumas pessoas jogando alimentos ou garrafa plástica vazia e a cena não era a das melhores. Apesar da “não maldade”, elas se digladiavam amigavelmente (isso porque se uma conseguia pegar, mesmo que uma arrancasse da outra, não havia segundo round, ou seja, não havia rancor: iam para a próxima). Sim ,essa não era uma das melhores cenas. Talvez a pior do mundo. Como sabíamos que em algum momento dessa viagem teríamos que enfrentar esse tipo de situação, então procuramos fazer algo menos individualizado possível. Ou seja, queríamos evitar que se déssemos algo para um, outro ficasse sem, o que seria uma faca no coração. Precisaríamos fazer algo coletivo. Então trouxemos do Brasil três bolas de futebol, “das boas”, com câmara e tudo, coloridas e escritas bem grandes “Brasil”. Enchi a bola com uma bomba que trouxe do Brasil, a Juliana se colocou na posição de câmeraman e quando os meninos se juntaram na parte de baixo da janela, isso numa aldeia nos confins da Zâmbia, mostrei a bola e os olhos deles brilharam. Talvez eu tenha feito algo incorreto: escolhi um menino para receber(a minha idéia é que um ficasse responsável por ela, não tenho idéia se vai funcionar). Ele era o mais quieto, o menos pedinte e com um rosto bem simpático. Mesmo sendo o escolhido foi difícil entregar para ele, os demais ficaram eufóricos (todos não tinham mais que 10 anos). Mesmo assim consegui entregar nas mãos dele, os demais logo pularam em cima e todos foram segurando a bola juntos, saindo da estação, entrando na comunidade. Uma imagem não sai da nossa cabeça: um menorzinho, último do grupo que ia carregando a bola, virou se para nós e ajoelhou-se(fazendo sinal de reza), algo como “muito obrigado” ou “Deus lhe pague”, saindo ainda de joelhos, em tropeços. Sumiram. Eu e a July não nos contivemos. Falamos juntos com a voz embargada: “nossa, sumiram”. O que mais nos deixou emocionados naquele momento foi que eles foram embora, mesmo com o trem ali parado, ainda podendo pegar mais coisas, talvez receber mais comida, mas não, ignoraram e foram embora com a bola como troféu. Quando o trem partiu a grande surpresa que parecia um final de filme: foi possível ver eles já jogando bola, muita gente em volta assistindo, num campo improvisado.

O trem seguia assim sua viagem, com esse tipo de emoções embaixo da janela e com inúmeros “tchauzinhos” simpáticos que recebíamos e concebíamos durante o percurso. De igual maneira, as mães também nos emocionavam: vendiam de tudo, banana, pão ou galinha assada. E mantém o costume local: todas carregam as coisas na cabeça, os filhos nas costas, enrolados em um xale. E, surpreendentemente – não quero tentar transformar a situação de miséria em algo “fashion” – mas todas as mulheres que vimos eram muito elegantes. O colorido de suas roupas, as estampas, os detalhes, não são roupas vestidas de qualquer maneira. Elas procuram a harmonia entre as cores e peças e mantêm uma postura de elegância, mesmo aquelas que trabalham arduamente na lavoura.

Entre uma comunidade e outra, paisagens muito agradáveis. Na Zâmbia vimos muita florestas alternadas com campos de girassóis e com pequenas plantações de milho (só milho). Mesmo assim, vimos pessoas vendendo bananas e abacates nas estações, mas não vimos as plantações. Na Tanzânia a paisagem era predominantemente de florestas, algumas vezes fechadas, outras vezes descampada. Muitas serras e ar fresco nos acompanhavam. Os mosquitos também. Mas era necessário reforçar o repelente. Felizmente o pessoal do Hospital das Clinicas em São Paulo nos indicou um que realmente repele: um tal de “Exposis Extreme”. Segundo eles, esse é usado pelo exército Francês. E funciona mesmo. Mas todo o cuidado é pouco, não se pode deixar um canto sem passar, bem como usar sempre mosqueteiro pela noite. Essas zonas são infectadas de malária.

Nesse percurso, o trem foi um bom companheiro. Tivemos muita sorte, pois não chegou a quebrar nenhuma vez. No albergue em Lusaka a recepcionista Zuia nos disse que normalmente ele quebra e a viagem pode durar mais de três dias. Muito curiosa a existência dessa ferrovia em lugares inimagináveis: uma espécie de Transiberiana dentro da África, essa via foi construída pelos chineses em 1970, períodos ainda que esses paises viviam sob o socialismo. Na época, não havia dinheiro para finalizar a obra, por esse motivo o trem não chega até Lusaka e pára no meio do nada, em Kapiri Mposhi. O problema é que falta uma boa manutenção. Apesar de ser hoje uma companhia privada, ela tenta tirar o máximo do lucro se oferecer serviço melhor. Foram as duas noites mais mal dormidas de nossas vidas. Nos sentíamos dormindo no superjet do playcenter. Um pouco antes de parar em cada estação, o trem dá um tranco que levanta o vagão mais ou menos uns 10 centímetros (cheguei a medir com um papelão, comparando com o vagão da frente). Quando você está deitado a sua sensibilidade aos movimentos do trem aumenta, daí somado ao tal tranco fica parecendo um surfista numa onda que a cada 30 minutos toma um “caldo”. Ou seja, acorda-se a todo o momento. Além disso, para evitar visitas inoportunas durante a noite, é recomendável manter a luz a cessa. Soma-se o barulho de rangido de ferro do trem…bem eu nem vou continuar…porque só piora. Mesmo assim eu recomendo pelos prós da viagem.

Na manhã do segundo dia atravessamos a fronteira. Não foi necessário sair do trem, os próprios oficiais do governo passaram de cabine em cabine realizando os carimbos e burocracia. Para entrar na Tanzânia, como não tínhamos visto, tivemos que pagar 50 dólares cada um.

Na fase final da viagem teve um “vale brinde”: um safári de trem. Isso porque, para chegar em Dar es Salam,  o trem precisa  atravessar uma floresta onde os animais ainda foram preservados em seus aspectos selvagens, soltos, como “desde sempre”. Pela janela do trem é possível ver, dependendo da “coincidência”, os animais muito perto, afinal é uma imensa floresta. Para ser sincero, acordamos no terceiro dia bem cedo, ficamos duas horas com câmera na mão, fazendo um raio X da floresta para fotografarmos girafas e elefantes, mas só realmente vimos zebras, antílope, beduínos e um rinoceronte tomando um belo banho. Mesmo não termos visto nenhum elefante sem cueca e nenhuma girafa sem calcinha, ou seja, sem os aspectos artificiais de um zoológico(com grandes) ou de um safári(de jipe e com a obrigatoriedade de um guia), foi maravilhoso ver os demais animais em seus habitat realmente naturais, muito próximos do trem, sem truques, que dependendo da quantidade, realizavam um desenho muito bonito em algumas fendas na floresta. Ver as zebras e os antílopes correndo pelo campo, em estado selvagem, foi uma imagem inesquecível. Mesmo assim, para não perder o brincadeira, fui lá prestar conta com o policial “meu amigo” que jurou que eu ia ver os “grandes animais”. Ele justificou que como havia chovido pela noite, daí eles se esconderam…

Chegamos a Dar es Salam essa tarde, a maior cidade da Tanzânia. Não é a capital. Dar el Salam fica no Oceano Índico, tem praia e porto. Hoje precisamos relembrar o que é dormir bem.

3 comentários em “Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De trem da Zâmbia à Tanzânia

  1. JulY e Du,

    Agora vocês só faltam conhecer a LUA… Essa será a próxima?
    Vocês são verdadeiros aventureiros, ou melhor: vocês são
    uma autarquia, um caminhão carregados de poliglotas!!!
    HAAAAAA!!!!

    Deus lhes encha de muitas felicidades!

    Candinha

    Abraços!

  2. Muito legal tio essa parte. As crianças então… EMOCIONANTE!!
    Interessante que as crianças menores são educadas para
    respeitarem os mais velhos!

    Aqui no Brasil poderia ser assim né?! Porque isso me
    ajudaria bastante!!

    Beijos tio e tia!!!
    Boa Viagem!!

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