Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Harare, Zimbábue

Estávamos saindo da África do Sul com um gosto amargo da separação dos brancos e negros. A ponta de faca em nosso peito foi o último bairro que passeamos em Pretoria. Todos os brancos isolados em seu bem estar social europeu, vivendo uma vida segregada e ainda com um ar de racismo em suas falas. Descobrimos depois que ainda existem restaurantes que não permitem a entrada de negros (obviamente não-legal). A copa do mundo será mais uma tentativa de unir as pessoas, mas a vida cotidiana deverá ser ainda mais afetada para que todos vivam juntos harmoniosamente.

Partimos de Pretoria às 21 horas rumo a Harare, capital do Zimbábue, antiga Rodésia do sul(lembra?). A moça da bilheteria havia sido categórica: “ônibus com ar condicionado”. Duas horas de viagem, nada de “geladinho”, e havia muita gente se cobrindo com cobertor. Daí percebemos que “ar condicionado” na verdade é ventilador, porque de fato no fundo do ônibus dá para ouvir uns barulhos de “ar condicionado” mas na verdade só promove vento que não refresca nada. Os demais passageiros não pareciam se importar muito. Algo curioso para um país tão quente. As 3:30hs da manhã a primeira parada do processo imigratório: o carimbo de saída da África do Sul, na cidade de Beitbridge. Essa região, segundo as instruções que recebemos no setor de “Atendimento ao Viajante” do Hospital das Clinicas em São Paulo, é a de maior propensão para pegar malária. Antes de sair do ônibus passamos repelente até nas roupas para nos proteger. Uma fila enorme, maior que a do brinquedo mais disputado do Playcenter, nos aguardava. Sentíamos-nos num campo de refugiados: um lugar descampado de terra, muita gente, poucos prédios, no meio do nada, muitos ônibus, um pior que o outro, carros carregando de tudo e uma fila imensa. Passando esse processo, fomos para a segunda fase, a entrada no Zimbábue. O cenário era parecido com o da primeira fase, mas com dezenas de pedintes e cegos batendo latas com moedas, esfarrapados, alguns com crianças nuas no colo, cantando, formando um coral macabro, ziguezagueando a nossa fila. Algumas pessoas davam moedas. Sinceramente pode ser infame o que vou escrever: mas fiquei impressionado com o show. Sei que não era de propósito, tampouco as pessoas pedindo esmola tinham idéia do que estavam formando. Mas o fato é que era uma coreografia real (ou teatral) das mais impressionantes que assisti, dado o sincronismo que o coro se formava. Eu e a Juliana nos sentimos extremamente vulneráveis naquela situação. Era difícil, mas tentávamos nos manter transparentes. O anonimato acabava quando os agentes migratórios descobriam que éramos brasileiros. Somente às 6 horas da manhã, depois que inspecionaram todas as bagagens, é que ficamos livres para seguir viagem. Na parte da manhã atravessamos o sul do Zimbábue, praticamente uma savana monótona, pouco agriculturada, mas com pequenas fazendas de gado. Passamos por pequenas cidades muito pobres. Vimos muita gente na beira da estrada vendendo algumas frutas e artesanatos, rodeadas de muita sujeira. Numa parada, um casal da África do Sul veio comentar com a gente que estavam impressionados em ver dois brancos no ônibus. Ficaram felizes em saber que éramos do Brasil. Uma senhora veio perguntar se eu era irmão do “Perrêira”. Naquele momento eu deveria consertar uma situação criada sem querer: quando o ônibus estava partindo em Pretoria, o motorista havia me perguntado algo do “Perrêira”, porque vendo meu sobrenome, pensou que eu era parente dele. Ficou tão tumultuada a conversa que eu disse que “sim” para uma pergunta atravessada. Parecia que eu era irmão do “Perrêira”. É que eles pronunciam “Perrêira” mas estamos falando do técnico Parreira, atual treinador da seleção da África do Sul. Para a senhorinha eu disse que éramos amigos. Ela ficou tão contente que não consegui desmentir. Daí ela me disse que era mãe do Sombra. Também não tive coragem de dizer que não conhecia. Ela fico feliz duas vezes, mas não tenho idéia quem seja.

Mais ou menos duas horas antes de chegar em Harare, ouvimos uma pessoa falando bem alto o português no fundo do ônibus. Pelo sotaque só podia ser do Moçambique ou Angola. Quando ele terminou a ligação pelo celular, depois de uma transação comercial bem longa e que todos os passageiros involuntariamente haviam acompanhado, perguntei em português que horas o ônibus chegaria. Prontamente respondeu “em duas horas”. Passados alguns segundos, o senhor falou bem alto como quem acorda assustando com um pesadelo: “o que, vocês falam português? De onde vocês são?”. Dali começou uma conversa sem fim até a chegada ao terminal. Deixei de tirar umas fotos pelo caminho, mas valeu o bate papo. Domingos é um empresário que distribui peixes e camarão para os países da África que não tem saída para o mar. Ele realmente havia ficado encantado em nos encontrar. Disse que tem uma gratidão enorme a um brasileiro que deu aula de economia em Moçambique e que lhe deu dicas valiosas de negócio. Na saída do ônibus, Domingos ainda eufórico por ter encontrado pessoas falando português, fez questão de pedir ao motorista particular que o aguardava, para nos levar até o nosso hotel. Foi muita gentileza. “Onde vocês ficarão hospedados?” Para facilitar, dissemos que ficaríamos no “Holliday Inn”, porque sabíamos que estaríamos perto dos albergues de costume. “Por que vocês não ficam no Sheraton(na verdade o Sheraton do Zimbabue chama-se atualmente Raibow Towers, isso porque os verdadeiros administradores abandonaram o hotel no período de regime fechado)? É tão bom, a diária já inclui todas as bebidas…. Olha, eu só não mudo aqui para o Holliday Inn para continuar a conversa com vocês porque minha secretária já fez uma reserva no Sheraton…( e sem deixar eu falar, emendou) e ficaria muito feliz se pudéssemos jantar essa noite…posso pedir para meu motorista pegar vocês às 20 horas…? Será uma jantar triunfal! (não deixava a gente responder). Muito bem, às 20 horas ele estará aqui em ponto, na entrada do Holiday Inn”. E  foi embora.

Deixamos para mais tarde para pensarmos no tal jantar. Atravessamos a rua do Holliday e ficamos em uma pousada, justamente aquela que pretendíamos ficar. Foi apenas o tempo de reforçar o protetor solar e o repelente e sair pelas ruas da cidade.

Harare apesar de ser a capital, é uma cidade pequena e muito modesta. Dá para contar nos dedos os prédios altos. A maior parte dos prédios do centro da cidade são públicos. Eu havia ouvido falar que era proibido tirar fotos deles, e a Juliana permanentemente me lembrava disso. Resolvi então entrar num dos prédios mais suntuosos do centro e ir direto perguntar para quem decidia (normalmente primeiro tiramos a foto e depois perguntamos, mas se tratando da maneira que o país estava sendo comandado nos últimos anos, não dava para brincar). E a resposta havia sido confirmada: não pode. Isso significava que o país ainda estava sob os mandos “ditatoriais” de Robert Mugabe. Mugabe é presidente do Zimbábue há quase 30 anos. Por também ser uma pessoa que lutou contra o apartheid, que segundo consta, foi mais forte no Zimbábue que na África do Sul, por certo tempo a figura de Mugabe chegou a se rivalizar internacionalmente com Mandela. Ambos trabalharam a vida toda pela mesma luta e também estiveram presos por muitos anos. Mas ao contrário do Mandela, Mugabe se tornou um presidente linha dura, eliminando impiedosamente seus inimigos ao passo que confiscou as terras dos “brancos” estrangeiros, o que levou o país para uma crise financeira e social das mais perversas do mundo. Eu imaginava encontrar essa crise linha dura pelas ruas e também ter em mãos o meu primeiro bilhão de dólares (é que a moeda local chama-se Zim dólares, e como a inflação é quase 1700% ao ano -a maior do mundo- e chega-se a ter realmente um bilhão de (Zim) dólares na mão). Só que chegamos tarde: recentemente o governo efetivamente dolarizou a economia abolindo a moeda local. Esse foi o primeiro passo na tentativa de recuperar o país, local em que pessoas ainda deixam de comer por dois dias e comem o máximo que podem em um dia, como forma de sobreviver ao longo prazo (a expectativa de vida é de aproximadamente 45 anos). A pobreza é visível nas ruas da capital. No supermercado as prateleiras estão praticamente vazias, mas pessoas me disseram que dois anos atrás era muito pior. Visitamos um famoso mercado chamado “OK”, justamente para entender um pouco a situação. Os preços, mesmo em dólar, são altíssimos: uma lata de coca cola custa 3 dólares. Também me disseram que as pessoas trabalham por qualquer salário. O curioso é que isso não traduz em pior atendimento. Já é da cultura do país um esforço tremendo para agradar o outro. Um povo sofrido, mas muito prestativo. Mesmo na pousada que estávamos, que era muito simples, a recepcionista e o auxiliar eram muito prestativos. Ambos estavam uniformizados, sinceramente não combinava com o local. Mesmo num calor de “Copacabana”, Kevin, o auxiliar, vestido de terno e gravata, uma simpatia de gente, para que não nos perdêssemos, fez questão de nos levar até o supermercado, quatro quarteirões da pousada. Com poucas pessoas que conseguimos conversar, pudermos perceber que encontramos uma Zimbábue melhor do que eu imaginávamos encontrar. Como diminuiu um pouco a repressão ferrenha realizada por Mugabe, e percebemos haver poucos militares nas ruas, as pessoas estão com melhores perspectivas do futuro. Voltamos para o hotel com o tempo necessário para decidir sobre o tal jantar com o Domingos.

4 comentários em “Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Harare, Zimbábue

  1. Estou impressionada com os relatos.
    Imagino viver esta experiência de ver brancos e negros como se fossem espécies qualificadas simplesmente com “adjetivos”, esquecendo-se que são seres humanos, diferenciando-se apenas por causa do pigmento da pele !!! Sentem, tem necessidades, amam, vivem…assim como nós.
    E, no entanto, são chamados de “brancos e negros”…

    Que triste !

    July e Du… afinal, aceitaram o convite para o jantar ??? Estou curiosa.

    Bjs
    Cris

  2. Filha ! Que saudade…

    Du… que bom que vocês fizeram boa viagem.

    Fico mais aliviada em saber que vocês estão bem e que apesar do “medo”, há sempre um anjo da guarda para guiarem e alertarem vocês sobre o perigo.

    Aproveitem o máximo essa viagem.

    Estou acompanhando os relatos junto com a Cris.

    Fiquem com Deus,

    Beijos da mãe e da sogra.

    Luzia

  3. Du!!!
    Eu estaria paralisada até agora…na pele da July, de ter falado pro Domingos que estava no Holiday Inn, sem estar!!!
    …e aí como ficou o jantar???
    …Muito estratégico nos deixar nesse suspense, hehehehe
    Beijão e boa viagem!

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