Chegamos em Zumy Udd às 7 horas da manhã de segunda-feira. A
paisagem lunar do deserto do Gobi nos acompanhou pela tarde do
domingo e pela fria noite (veja foto de estátuas de dinossauros
espalhadas pelo deserto). Novamente, uma hora antes de chegarmos,
a Provodnitsa nos tomava os lençóis sem bem nos acordar apenas
para adiantar o lado dela. Enquanto isso já se formava uma filinha de
maus hálitos na porta do banheiro. O trem tem dois banheiros, mas
era comum um estar sempre trancado. Importante falar um pouco
sobre o funcionamento dos banheiros nos trens: meia hora antes do
trem parar em uma estação e meia hora depois do trem partir, os
banheiros ficam fechados, tudo isso porque o que vai para o
troninho, vai para os trilhos do trem. Dá uma sensação de perda
quando se aciona a descarga, e se abre uma comporta, podendo ver
os trilhos levando um tapa na cara de coisas indevidas… Bem, o
banheiro é bem apertado e a torneira sai pouca água. Não é possível
tomar banho nos trens, quem quiser pode tomar banho de gato, se
lambendo com panos umedecidos de nenê. Os banheiros são
disputados, e a verdade é que mesmo com a tal regra da meia hora,
nunca se sabe quando estão abertos e não há relógio biológico que
se ajuste. Quando abrem, formam-se filinhas. Quando estava nessa
filinha, veio um rapaz conversar comigo, dizendo que a Uelun e a
Bumma haviam pedido para ele me ajudar com a travessia para a
China. Que legal, as meninas nos ajudaram com mais essa! Ficamos
mais despreocupados. Logo que o trem chegou, percebemos que as
pessoas saíram em disparada, parecia uma fuga em massa do trem,
correndo para fora da estação. Pior é que o rapaz também correu e
fomos atrás deles desesperados carregando nossas malas nas costas.
Inicialmente estranhamos que só nós carregávamos malas, mas logo
lembramos que o pessoal estava justamente viajando para o
Paraguai, ou melhor, Paraguai não, China, para comprar produtos e
vender na Mongólia. Logo que saímos da estação, havia uma dezena
de táxis e minivans esperando os viajantes. O rapaz já tinha
garantido o lugar dele sei lá aonde e nem quis me dizer, e passou a
nos ajudar. Tive que comprar a moeda Chinesa porque, mesmo em
território Mongol, o povo dali só aceitava Yuan. Logo que sai do
banco, o rapaz foi me apresentado ao nosso motorista e
banco, ainda na estação por uns 20 minutos, fomos assediados por
outros taxistas (achei muito estranho porque se o nosso taxista já estava
ali em pé com a gente, por que outros taxistas pretenderiam roubar
cliente do amigo?). Depois que todos os carros se foram, o nosso taxista
resolveu se mexer: colocou uns óculos escuros, pegou uma de nossas
malas e foi conduzindo a gente e mais dois rapazes para o seu táxi (com
direção inglesa, claro). Bem, todas as malas (também somando a dos
rapazes) não cabiam no porta-malas. Teve que ir mala dentro do carro,
totalmente lotado, paciência. Ali começava a primeira etapa do processo:
o carro foi atravessando a cidade Zumy Udd, que, diga-se de passagem,
só vale o comentário de que a cidade mais quente da Mongólia, e fomos
percorrendo um misero percurso de 1 kilômetro até o portão de saída da
Mongólia. O portão ainda estava fechado. Na verdade, fechado mesmo
estava o portão da China, no outro lado, que só abriria às 9 horas. No
lado de cá, em frente ao portão de saída, uma centena de Jipes
enfileirados, esperando a hora de abrir. Nosso taxista Ray-Ban parou o
carro há uns 30 metros deles e pediu para todos ficarem ali com as
malas esperando. Aproveitei para andar e entender um pouco qual seria
a próxima etapa, buscando ser discreto porque havia vários militares
mongóis gritando com os motoristas. Nessa caminhada, vários jipeiros
me ofereceram a travessia, então já conclui que a turma toda que estava
na estação estava naqueles jipes. Uns 20 minutos depois o nosso taxista
aparece sem carro e fica ali esperando com a gente. E a Juliana: “Edu,
você tá entendendo? Tá normal isso?”. E fui confortando: “bem, foi o
amigo das meninas da Mongólia que indicaram. Tô confiando!”. Passou
uma meia hora, faltava mais meia hora para a fronteira abrir. Vem um
jovem militar conversar com nosso taxista. O Ray-ban mostra pra ele a
gente e os outros dois rapazes e fica mais um tempão mostrando nossas
big malas. O militar fica olhando pensativo, com cara de durão, põe mão
no queixo, balbucia um Mongoles e os dois se entendem. O militar então
faz o sinal de “vamos”. E todos, inclusive o Ray-ban, juntamos as coisas,
e fomos atrás da autoridade, em direção ao controle de saída (é parecido
com um pedágio de carros), distante uns 100 metros dali. Fomos
andando de cabeça baixa para não despertar a fúria dos jipeiros, afinal
dava a entender que estávamos passando na frente dele. No meio do
caminho, nossa autoridade encontra o superior e fica bem mansinho
Nós ficamos ali, não entendo nada mas também não querendo que o rapaz
perdesse o emprego por um negócio que eu nem sei o que ele estava
fazendo. Mas se estava “se explicando” é porque tinha coisa errada…Mas ele
venceu a barreira, abriu um sorriso (o Ray-ban também) e fomos para a
lateral da cabine (também pensei que ia ser para a cabine). O Ray-ban pediu
para ficarmos atrás de um Jipe que também já estava lá abarrotado de gente
e ficarmos em silêncio. Todo aquele suspense de ficar escondido estava
parecendo os mexicanos atravessando a fronteira com os Estados Unidos de
forma ilegal. Mas o que ainda não entendíamos é porque tudo aquilo se
tínhamos tudo legalizado? Nem bem pensei nas prováveis motivos, o Rayban
gritou um “now!”(agora!), colocou uma mala nas costas e saiu em
disparada. Fizemos o mesmo, correndo atrás dele sem entender nada,
cruzando a avenida. O Jipe saiu em disparada. Do outro lado da avenida,
todos com a língua no chão, o carro do Ray-ban estava nos esperando, com
o militarzinho sentado no volante. As malas foram socadas a força, nos
jogamos no carro e saímos a 140 km por hora para percorrer 2 kilometros.
No fim desse percurso, a verdadeira saída da Mongólia. Com o militarzinho
no volante, foram abrindo passagem e estacionamos em frente à alfândega.
Entramos, sempre correndo e ofegante, preenchemos os formulários de saída
e carimbamos os passaportes. O carro já estava nos esperando do outro lado
para mais uma etapa, agora sim, passar a linha de fronteira e entrar na
China. Fomos muito bem recebidos na entrada da china, provavelmente o
pessoal de fronteira deve estar sendo treinado para as olimpíadas do ano que
vem. Atendimento 100%, com muita educação. Mesmo a nossa pressa, ou
melhor, a pressa imposta pelo Ray-ban, não incomodou o pessoal da Polícia.
È claro que é um tal de preenche aqui, preenche ali e paga taxa (taxa? Eu já
não paguei um visto super caro no Brasil?) de entrada. E enfim, depois de
toda essa correria e sermos tratados como ilegais legalizados, entramos em
Eren, na China. Eu e a Juliana temos teses diferentes sobre o ocorrido, ou
seja, sobre o motivo de tanta correria e a ajuda do militar. Com o problema
da língua, vai ficar difícil saber a causa real. Então, fica para a imaginação.
O taxista nos deixou na rodoviária local, onde a partir dali quem nos ajudaria
eram os dois rapazes que já estavam no táxi e também iam para Pequim.
Eram 9:30, o ônibus sairia as 14:00, aproveitamos para conhecer Eren, uma
cidade grande com comércio voltado para o pessoal que vem da Mongólia ou
Rússia fazer compra. É claro que ali já começava a paisagem cheia de
Depois de darmos uma voltinha por Eren e pagar 6 Reais por um
melão que valia menos de um Real (descobrimos que os ambulantes
chineses cobram preços diferentes para turistas), pegamos o ônibus
às 14 horas com destino a Pequim. Não conseguimos obter a
informação de quando o ônibus chegaria à capital, mas quando
vimos que no ônibus não havia poltronas, mas sim camas, isso
mesmo, camas!, já fomos logo imaginando que passaríamos a noite
nele. Adoro ônibus e fiquei fascinado por este cheio de beliches.
Foram os rapazes que haviam comprado nossa passagem, então
acho que pensaram que estavam escolhendo o melhor lugar para
gente, com a melhor vista, bem na frente, bem próxima do
motorista. Na primeira meia hora tudo era uma maravilha: tudo
novidade e o ônibus apenas manobrando pela cidade. Quando
pegou a estrada, a coisa ficou muito diferente. Os chineses adoram,
mas adoram buzinar. Buzinam para tudo! Qualquer mosca que
passar na frente, buzina. Tem uma bicicleta lá longe, buzina.
As estradas me surpreenderam nessa região, são bem sinalizadas,
com duas pistas, bem diferente do que eu pensava. Logo no inicio
da noite, o motorista deu uma paradinha para todos jantarem e irem
ao banheiro. Muito bem, pensei, é uma preparação para dormirmos
durante a viagem. Ok, cadê o banheiro? Não havia banheiro. O
suposto banheiro ficava fora da parada, no meio do mato, um
cercadinho de concreto ao céu aberto, sem nada. E todo mundo ia
lá, abaixava as calças, normal, todo mundo vendo. Alguns eram
mais discretos e escondiam o calcanhar no matinho, o resto ficava
aparecendo. A Juliana, com razão, ficou desesperada porque era
uma mistura de “falta de banheiro”, cheiro ruim e demora para o
ônibus partir. Tive que hipnotizá-la. O restaurante também era
terrível, muito sujo, mas o pessoal lambia os beiços. O fato é que o
interior da China ainda tem problemas graves de saneamento básico
e higiene. O ônibus seguiu viagem noite adentro, tentamos dormir,
mas a verdade é que foi uma noite infernal. Era como se o ônibus
estivesse na Via Dutra à noite, cortando os caminhões, buzinando,
buzinando muito, muito calor, e ainda, para nossa surpresa,
oi primos é só aventura hen???