Irkutsk a Ullan Battor (Mongólia)

Deixamos Irkutsk pela noite de quinta-feira rumo a Ullan-Battor, capital da

Mongólia. Mais um dia e meio de viagem (36 horas).

A viagem entre Irkutsk e Ullan-Battor foi bastante cansativa. O que

poderia diminuir o cansaço é a oportunidade de contornar metade do lago

Baikal e pelo menos ver pela janela a cidade de Ulan-Ude, capital da

Republica da Buriatia (é bem estranho mesmo: é uma republica

autônoma, mas pertence à Rússia), mas infelizmente não encontramos

passagem para viajar de dia. O cansaço se deveu mais pela burocracia

entre as fronteiras da Rússia e Mongólia do que pela distância. Eu já sabia

que esse seria o momento mais delicado da viagem, pelo fato dos

militares de fronteira Russa criarem problemas só para receberem algum

dinheiro ou por apenas cumprirem tudo literalmente a risca, não deixarem

Entre Irkutisk e Ulan-Ude um rapaz (23 anos) da Mongólia e seus

dois ratinhos dentro da gaiola dividiam a cabine com a gente.

Arranhava um inglês nível 0,5. Ficou muito entusiasmado quando

descobriu que éramos brasileiros e se dispôs a conversar através de

desenho, mímica, o que fosse. Foi uma tarde divertida e novamente

esclarecedora sobre as minhas perguntas enfadonhas sobre o

socialismo e sobre sua cultura.

Além disso, Zaya nos ensinou um pouco de etiqueta Mongoliana

(fizemos questão de aprender porque íamos encontrar uma amiga

do Renato, meu irmão, que estava nos esperando em Ullan Battor).

Entendemos que Zaya é arquiteto e projeta casas de madeira e que

já traz pronta da Buriatia para vender em Ullan Battor. Mesmo sem

falar, dava para ver a pureza de sua alma, o seu entusiasmo pela

vida, pelo seu país (mas não como exatamente um país, no sentido

de economia-política, mas como uma família-Mongólia). Ali eu e a

Juliana começávamos a entender uma pouco mais de que o lugar

que estávamos indo não era só um lugar de passagem, como

imaginávamos, mas um lugar além da geografia. Pensávamos que

teríamos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida

de Zaya na cidade, mas infelizmente, numa varredura prévia da

polícia Russa, Zaya e seus ratinhos “rossa-rossa” tiveram que descer

em Ulan-Ude, a estação seguinte, para regularizar seu visto.

Embarcaria dois dias depois em outro trem. Nesse momento fiquei

emocionado. Assim, deixamos com ele o abraço Mongoliano que

ele nos ensinou (estende-se os braços na frente do outro e se

aperta o inicio do antebraço) e seguimos viagem até a fronteira.

Ficamos cinco horas na fronteira da Rússia (pior é que isso já

estava previsto no tempo de viagem demonstrado no bilhete)

olhando para uma paisagem deserta. Acho que toda essa demora é

proposital só para tudo se tornar um ritual turístico bem marcante:

o fato é que se parece muito com o dia de se apresentar ao exército

brasileiro, lá com nossos 18 anos, para realizar os exames de

admissão. O exército russo faz uma pressão sem igual. Todos ficam

dentro do trem apreensivos, sem saber quando será a sua vez para

receber o carimbo de permissão de entrada. Ninguém explica nada;

de repente vários militares entram no trem e entregam o papel para

dúvida, mas tem medo de perguntar). Consta lá, por exemplo, que devemos declarar dinheiro, mas não determinava um valor mínimo. Essa

dúvida era minha: declaro? Não declaro? Parece até que eu tinha muito dinheiro! Todos devem ficar dentro da cabine, mas parece que de vez em

quando alguém sai com um boato de que podia sair do trem e andar um pouco pela estação fronteiriça. Quando resolvi sair, claro, apareceu

repentinamente vários militares andando rapidamente na direção do meu vagão e gritando para mim apontando o dedo. Obviamente que eu

estava tomando um “FICA NO SEU LUGAR”. Entrei rapidinho dentro do trem na minha cabine e tomei outro sossega leão da Juliana: “eu não falei

para você sossegar aqui, menino?”. E o ritual continuava: fecharam todas as janelas e persianas do trem, formando um ambiente de “vou torturar

e ninguém vai ver” e começa: preenche isso, preenche aquilo, senta, levanta, deixa eu ver se o seu rosto é igual o do passaporte, carimba aqui,

carimba ali, entra guarda, sai guarda, enfim, cinco horas depois, trem liberado. Atravessa a fronteira (eu adoro atravessar fronteiras!!), e paramos

no lado Mongol por mais duas horas. Mesma burocracia mas sem pressão policial. Preenche isso, preenche aqui, deixa ver o visto, carimba,

carimba e carimba. Pode passar. Enfim, trem liberado e noite entrando, a sexta-feira acabando. A chegada em Ullan Battor estava prevista para

sábado pela manhã.

Enfim Irkutsk (Sibéria)

Irkutsk é uma cidade silenciosa, como um chuvisco de neve. Está

localizada no quilômetro 5200 da ferrovia. Nasceu praticamente com a

chegada dela no final de 1800 e se desenvolveu mais com o

aparelhamento estatal no período socialista, especialmente no governo de

Stalin. A arquitetura é formada por uma mistura de prédios Stalinistas

(de no máximo quatro andares) e casas de madeira. Está localizada nas

margens do Rio Angara, rio que nasce no norte da Rússia e deságua no

Baikal. Nessa cidade é que está localizada a famosa prisão que no

ocidente ficou famosa a frase “vou te mandar para a Sibéria”. De fato é

um lugar bastante inóspito mas enigmático.

Chegamos em Irkutsk 3 horas da manhã, horário bem complicado.

Tínhamos apenas dois endereços de albergues, precisamos encontrá-los,

mas não tínhamos nenhum mapa da cidade. Chegamos a andar pela

estação perguntando como fazíamos para chegar aos tais endereços, mas

ninguém entendia por estava escrito com o alfabeto romano. Como o

tempo estava correndo e precisamos dormir um pouco para curtir a

cidade, o jeito foi apelar para táxi. Essa foi a parte que tivemos mais

medo até aqui. Pegamos um motorista parecido com o Frankstein, dentro

de um Lada, um carro bem apertadinho para ele. Negociei com o ele o

valor previamente, apenas mostrando os rublos. Ele não falava nada de

inglês. O carro saiu em disparada da estação, rumo a um dos endereços

que ele parecia conhecer. Primeiro ele ia deixar outro passageiro e

conversavam tanto que em alguns momentos pensamos que iam nos

assaltar. Ficamos gelados, eu e a Juliana, olhando um para o outro no

banco de trás. Deixou o passageiro e foi retornou para o outro lado da

cidade para nos deixar. Foi um tour de alta velocidade, pena que de

madrugada. O carro pára, ele olha no mapa, olha no guia de ruas, olha

em tudo quanto é lugar, esbraveja umas palavras em russo que

aumentava o medo. Repentinamente saia do carro e sumia na escuridão

das calçadas cheias de árvores e pouca iluminação. Quando ele voltava

para o carro, mais esbravejo e olhar de inconformismo. Todo o seu

tamanho, o carro pequeno, tornava uma cena interessante: se contorcia

todo, meio sem jeito, para retomar o volante. O momento mais crítico

para nós foi quando entrou com o carro numa rua de terra no meio do

matagal, andando numa escuridão por uns 200 metros. Mais um pouco,

o terço que a Juliana segurava ia se esmigalhar em suas mãos. Mas tudo

não passava de uma tentativa desesperada de encontrar o tal endereço. 

E Nada. Eu e a Juliana nos olhávamos e estávamos loucos para

dizer para o taxista em Russo: “desculpa aí ter trazido um endereço

tão difícil”. Mas preferimos ficar assobiando e olhando para o lado

como se todo o transtorno não fosse com a gente (não estávamos

entendendo nada do que ele dizia, mesmo). Resumo da história: já

eram 5:30hs, e ele nos deixou num prédio (modelo socialista de

Stalin, construído uns 40 anos atrás) que disse ter certeza que era

lá, mas não havia nada de albergue. Aí a primeira surpresa: o preço

que havíamos negociado era por pessoa…dancei, sem saber.

Dormimos um pouco no hall do prédio até que apareceu um

“camarada” (segunda surpresa: o povo de Irkutsk é bem camarada,

no bom sentido, dos “camaradas” comunistas) que nos levou de

Jipe até o Albergue, uma quadra depois.

Dormimos um pouco pela manhã e fomos enfim conhecer o Lago

Baikal. Para chegar, é necessário pegar um microônibus no centro

de Irkustk, que nos leva até a cidade de Listvyanka, nas margens do

lago. O lago Baikal é o maior lago de quantidade de água doce do

mundo (20% do mundo), menos por sua extensão (600km) mais

pela profundidade. É um vista bonita mas não excepcional. No

inverno deve ser bem diferente. Vimos fotos de carros andando

pelo lago todo congelado. O frio chega a 30 graus abaixo de zero.

Como é verão, pensei até em nadar no lago, mas mesmo assim,

estava muito gelado(faz no máximo 15 graus). Descobrimos então

que o que realmente vale nessa região é caminhar pelos vilarejos

em volta do lago. Simplesmente delicioso e tudo muito simpático.

Andar lá não cansa. Quase 99% dos turistas do mundo que vem

para essa região são praticantes de caminhada de longa distância

(ficam 10 dias acampando entre vilarejos se guiando pelo lago). De

fato, essa foi a parte mais legal: as vilas começam no lago e sobem

sobre as montanhas, as casas sempre com as chaminés saindo

fumaça e cheiro de comidinha (de verdade, não é só para turista

ver!); cachorros bem grandes para avisar a chegada de um, quem

sabe, urso ou raposa. Para se ter uma noção, lembra um pouco

Paranapiacaba exponencialmente maior…(claro que no verão, pois

no frio, é neve até dentro do nariz). Voltamos para o Albergue no

final da noite, depois de perdermos duas horas em vão procurando

o ponto de ônibus. Novamente fomos resgatados por outro “camarada” que se prontificou a nos levar em casa, vendo nosso

desespero. Era tão “camarada” que quando nos deixou, pois a mão no

peito (reverência tradicional na época socialista, quando se encontrava

outra camarada) e abaixando um pouco a cabeça, como algo de “missão

cumprida”.

Em nosso segundo dia em Irkutisk aproveitamos para conhecer a cidade.

O Rio Angara, provavelmente com a largura do Tietê, mas 200% limpo,

traz o encanto para a cidade. A cidade é bem, é bem, é bem… feita para o

frio rigoroso (a cidade fica toda coberta de neve em 80% do ano!!): não

há colorido, as casas são de madeira, bem fechada, as lojas são discretas

e é difícil até encontrar um restaurante. Tudo tem duas portas, uma

seguida da outra, propositalmente para se proteger do frio. Em tudo

quanto é lugar tem água quente: é fácil tomar um chazinho…O transporte

coletivo dentro de Irkutsk é bem antigo, tem de tudo: ônibus elétrico,

Tram(trem com dois vagões andando pelas ruas) e ônibus caindo aos

pedaços. Em compensação são bem baratinhos (uns 30 centavos de Real).

Curioso são os carros: 60% dos carros são provenientes do Japão (eles

compram carros usados, muito mais barato. Vai um Land Rover aí? Um

Land Rover ano 2006 por apenas 27 mil reais…). Mas como se sabe, no

Japão a direção é ao contrário, mas é permitido dirigir na Rússia pelo lado

contrário na mão ocidental. Enfim é uma bagunça…

Moscou-Irkutsk Parte III

Realmente não temos conseguido parar para enviar os e-mails

diariamente, na seqüência de nossos passeios, ora porque não

estamos encontrando internet nos horários mais oportunos ora

porque estamos em trânsito. Então agora estamos enviando uma

seqüência de e-mails. Espero que não percam o

acompanhamento…

Construída ao longo de 25 anos (1891-1916) com trabalho

forçado de milhares de condenados, a Transiberiana foi uma das

grandes obras de engenharia da humanidade no século passado e

continua a ser um desafio para viajantes de hoje, sejam eles os

obstinados moradores da Sibéria ou turistas em busca de um

destino exótico. O fato é que essa ferrovia tem uma

representatividade impar na integração da Rússia, ligando o leste

ao oeste, cidades inóspitas, vilarejos intactos (que descobri que

vivem alheios a política desde os tempos dos Czares). É claro que

a transiberiana não é só para passageiros: o transporte de

passageiros, na verdade não dá lucro (o Russo paga, inclusive,

do que o estrangeiro) e é subsidiado pelo transporte de produtos

manufaturados e matérias primas (a ferrovia está em processo de

privatização). Além disso, torna a Rússia mais próxima do Japão e Coréia e

até mesmo dos Estados Unidos, através do Porto de Vladvostok.

Impressionante: são mais de 9 mil quilômetros de ferrovia! Dimitri ficou para

trás e ficamos com os montes Urais (bem menores do que imaginávamos) na

janela e novos companheiros de cabine: um casal de aproximadamente 55

anos, que falava um inglês 0(zero) ou, como eram siberianos, abaixo de

zero. Mesmo assim, tentamos a comunicação. Tinham o jeitão de gente da

roça brasileira: pessoas muito simples, mas da roça (ou seria melhor dizer da

pesca) da região da Sibéria. Infelizmente ficou difícil anotar seus nomes,

repedidos mais de cinco vezes. Mas temos uma gravação. O trem mal

fechou as portas e o homem abriu uma garrafa imensa de Vodka. Já foi

servindo, colocando um copo cheio até a boca, e dizia “iá”, “iá”,

provavelmente deve ser “toma”, “toma”. Como não bebo nem cerveja, fiz um

pequeno gesto com a mão no estômago como se estive com problema na

barriga e não podia beber. Pra quê? Ele fuçou dentro de uma sacola e achou

dois comprimidos numa embalagem bem esquisita. Entregou-me. Quando

ele virou as costas, não tomei nada e guardei os comprimidos. Passou uns

minutos, iniciou uma conversa como se eu a Juliana fossemos amigos de

longa data e falássemos russo, foi sacando da mesma sacola uns peixes

contorcidos (defumados) e secos (isso é muito comum nessa região, é um

aperitivo com cerveja. Engraçado é que eles carregam de baixo do braço

como quem carrega um jornal). Não teve jeito, tive que experimentar.

Quando acabei um, lançou outro enorme sobre a mesa. Acho que comi

muito rápido o primeiro… Não bastassem os peixes, começou a sessão

Pepino: eles comem pepino igual tomam água. Toda hora, cru e sem cortar.

Novamente fiquei todo empepinado. A Juliana já estava se escondendo…Eles

ficaram até a hora de dormir se divertindo com nosso dicionário de russoportuguês.

Para usá-lo, desenterraram uns óculos do tempo dos czares!!

Também deixamos com eles um postal do Rio de Janeiro e deixaram com a

gente uma foto da família. Exigiram que escrevêssemos alguma coisa em

português porque queriam mostrar para a família. Na madrugada, partiram.

No terceiro dia de viagem, fomos acompanhados por dois estudantes (inglês

nível 3,5) e pela paisagem repetida da Taiga (são árvores longas, galhos

verdes claros, a mata não é fechada como na Amazônia. Dizem que a

Amazônia e a floresta da Taiga são os pulmões do mundo). Como os

estudantes não estavam sozinhos, então nossas conversas não eram tão

intensas. Mas deu para obter mais uma visão sobre os acontecimentos na

lugar para o desfecho teórico e intelectual do trecho, com a

companhia de uma turma de funcionários de uma empresa que

promove o sistema de pagamento bancário na Rússia. Em nossa

cabine um novo e grande amigo: Michael, inglês nível 9,5. Michael, 26

anos, russo de Novasibirk, capital financeira da Sibéria, pai cientista

Russo contratado pela Ford (na Alemanha), estava indo para Ulan-

Ude, cidade depois de Irkutisk, para ensinar aos empresários a

utilização do sistema de pagamentos russo. Ele representa exatamente

o bom momento da Rússia: está progredindo rápido na carreira,

enxerga grandes oportunidades de crescimento e não quer sair da

Rússia nem de Novasibirsk. Para se ter um visão geral do que é a

Rússia hoje, do que pude abstrair dos relatos dessa viagem e

confrontar as estatísticas mostradas pelo Michael e sua clareza sobre a

economia e política, a Rússia é um país que ainda não é exatamente

democrática (tem apenas 20 anos sua democracia), a economia

apresenta grandes oportunidades de crescimento, como abrir um

negócio, mas é necessário pagar as taxas governamentais e ainda

pagar “por fora” o que onera o capital duplamente; crescer na

carreira, através de empresas multinacionais é a grande oportunidade,

mas ainda existe o receio de investimentos no país, por conta da

insegurança; apenas 12% do país pagam impostos!! a economia é

praticamente informal (então, como o governo tem dinheiro?).

Petróleo. Quando o preço vai bem, a economia vai bem; muitos

novos ricos estão surgindo, o que agrava as diferenças sociais; a

escola esta piorando; e só para finalizar, o mais velhos querem voltar

para a época socialista: é fácil de entender o porquê, pois naquela

época o governo dava tudo e não havia exigência no trabalho. Bem,

não dá para fazer uma tese por aqui. É só uns pontos para relato.

Com a turma do Michael, eu a Juliana pudemos experimentar da farta

variedade de frios da Rússia. Eles montaram diversos cafés dentro da

cabine e convidaram a gente. Por sorte, dentre eles, havia uma moça

que já havia visitado o Brasil e que adoraria morar em São Paulo: as

portas estavam mais abertas para gente. Nossos cafés eram

acompanhados pela música saudosista que o Provodnitsa, controlador

do vagão, colocava enquanto ele limpava o tapete do corredor (era

um limpezinha bem meia-boca feita com aspirador de pó, porque o

tapete era muito sujo. Valia mesmo era ver o empenho dele com

aquela música que nos fazia lembrar dos filmes da segunda guerra).

Descemos em Irkutisk e eles seguiram viagem.

Moscou-Irkutsk Parte II

Dimitri foi a primeira surpresa da viagem de Moscou a Irkutsk, na Siberia. Um “camarada” de uns 35 anos, que estava viajando com a família na capital apenas para tratar de assuntos do banco, onde trabalha. Falava um inglês de

entendimento nível 6(não vou falar meu nível, aqui só eu dou a nota para os outros!) e ficou muito interessado em conversar, em saber sobre o Brasil e se prontificou a abrir tudo sobre sua cultura, sobre a vida na cidade do interior e

a responder minhas enfadonhas perguntas sobre o socialismo (importante lembrar que a Rússia era socialista até o início da década de 90). Foi extremamente educado e paciente. Na primeira vez que o trem parou por uns 20 minutos numa estação inusitada, Dimitri sinalizou que podíamos tomar um ar lá fora. As Babuscas (a palavra significa Mãezonas, mas são mulheres que vendem comidas na estação de trem) oferecem de tudo. Se abrir a carteira e comprar uma coisa, todas pulam em cima do comprador para ver se ele quer mais alguma coisa. Elas também vendem comidas prontas (confesso que estava louco para comer e isso já era algo que tinha em mente desde São Paulo. Mas Dimitri, infelizmente, infelizmente relatou como aquilo era feito…ou seja, estragou justamente aquilo que dava o gostinho para a comida). Bem, continuando… nesse meio tempo, Dimitri me disse que era muito comum o transporte de mísseis naqueles trilhos, mas não sabia dizer

de onde vinham para onde iam. Aconselhou-me a sempre tirar foto apenas do nosso trem, para evitar problema com a polícia ou o exército. Além disso, me explicou sobre a situação da Rússia, sobre a economia, como era o período soviético, como era a vida no socialismo, na escola, sobre esporte, religião, etc (esses detalhes vou deixar um pouco para os próximos e-mails) e algumas dicas para durante a viagem de trem: não beba nada que oferecerem (pode ter algum sonífero); não comer nada do que venderem durante as paradas (ninguém sabe do que é feito, como por exemplo, oferecido pelas Babuscas) e a explicação para motivo pelo qual o trem, de quando em quando parava por uns 20 minutos em estações especificas, no meio do

nada: para isso, Dimitri, com toda a paciência, riscou no chão com uma moeda toda a linha transiberiana, e dividiu-a em 10 partes, demonstrando que cada parte significava a mudança de distribuição de energia elétrica dentro da Rússia e, então, a necessária troca de locomotiva. Além disso, essa troca de locomotiva permite que a troca do maquinista, cumprindo sua jornada de trabalho.

Dimitri também se demonstrou bastante otimista com o período “democrático” (como eles costumam dizer sobre o período após o socialismo) e vem obtendo destaque no banco onde trabalha, crescendo na carreira, algo impensável 30 anos atrás. Enquanto conversávamos, sua esposa ficava alheia a nossa conversa: dormia, sai da cabine, andava para os lados e a July acompanhava atentamente pescando as frases que entendia. Tomamos vários chás em família ao longo de nosso primeiro e intenso dia de conversas que não acabavam. Pensávamos ter encontrado bons companheiros de viagem, pelo menos até bem próximo de Irkutsk, mas infelizmente, para nossa surpresa, quando entramos nos montes Urais, lá pelas 21horas(ainda de dia), Dimitri e família desembarcaram. Deixamos com eles um postal do “Reio die Dianeiro” (como eles pronunciam a capital carioca) e nosso mail. Esse postal não é do tamanho postal. É um pouco mais cumprido. No momento que dei para eles, já fora do trem, muitas pessoas que estavam em volta vieram ver, reconhecendo a foto. Ficamos emocionados com o interesse e a expressão de “Bonito, Maravilhoso”, “Brezil”. Ainda faltava pouco mais de três dias de viagem.

Moscou-Irkutsk Parte I

Enfim, depois de quatro dias dentro do trem, chegamos a Irkutsk, cidade no coração da Sibéria, ao lado do Lago Baikal, o maior lago de água doce do mundo. Está sendo muito difícil começar a relatar como foi nossa viagem de quatro dias entre Moscou e Irkutsk. Não é como dizer apenas que “fizemos uma boa viagem”, “a paisagem é muito bonita”, “foi cansativo”, “foi divertido”, etc. Esse é justamente o coração dessa viagem: a oportunidade de se conectar com o “povo” com aquilo que realmente representa cada país. Ok, Moscou é uma cidade conhecida no mundo todo, e é natural todos esperarem que qualquer visitante diga: “o Kremlin é maravilho”; “Existe um Mcdonalds em frente a Praça Vermelha”; “o povo Russo tem cara amarrada”; “as igrejas são maravilhosas”, etc. Mas o fato é que isso não reflete a Rússia, a verdadeira Rússia, assim como o Pão de Açúcar, por si só, não representa o que é o Brasil. Em nosso último dia em Moscou, acordamos bem cedo e fomos para o que eles chamam de “City Moscou” ou a “Nova Moscou”. Trata-se, na verdade de prédios modernos que ainda estão sendo erguidos em sua maioria. A Juliana não gosta muito de velharia e pediu para sair da cidade com uma boa imagem dela. Os prédios são realmente modernos, novas pontes especiais para pedestres (fechadas, com calefação e lojas) estão sendo construídas sobre o rio Moscou. Estava muito calor, como nos dias anteriores, andamos muito a manhã inteira e fomos parar novamente no centro velho para nos despedirmos do Lênin. Ele mandou um abraço para o Hugo Chaves e aproveitamos para comprar umas Matrioskas (são aquelas bonequinhas, uma dentro da outra, todas pintadas à mão, iguaizinhas). O mini-dicionário Russo-Português-Russo nos valeu a primeira economia quando mostramos para o vendedor a palavra “desconto” na língua dele. Ele entendeu rapidinho. Excelente, agora só faltava irmos até o hotel, pegarmos as coisas e embarcarmos no trem das 13h10min horas. Essa ida e vinda do centro até o hotel e hotel até a estação de trem nos valeu uma boa despedida do metrô de Moscou. Eu já estava ficando especialista nas estações… É claro que o trecho entre o Hotel até a estação do trem era o de maior sacrifício: nem todas as estações tinham escada rolante então eu tinha que carregar as malas (duas malas enormes) num sob e desce dentro da sauna (muito quente e eles não usam ar condicionado, lembra?). Bem, chegamos finalmente à estação, claro que com duas horas de antecedência. Eu não poderia perder por nada aquele trem. E cada vez que alguém nos dizia “chega cedo porque entender a estação é meio complicado”, eu aumentava vinte minutos de segurança. Logo reconheci que era a mesma estação de um documentário da Discovery que eu tinha assistido anos atrás em que o jornalista mostrava o aviso luminoso da estação informando: Beijing. Eu havia acreditado muito nisso naquele momento, aqui estávamos para provar isso. Havia muitos policiais averiguando passaporte em todas as entradas da estação. A Juliana estava sempre apreensiva sobre esse assunto, me pedindo sempre para ser discreto nas fotografias, não chamar a atenção porque ela não queria nenhum inconveniente. Mas conseguimos driblar com facilidade, esperando o momento em que todos os policiais estavam ocupados revistando alguém. Era só passar rapidinho, no meio da multidão. Só para ficar mais claro o motivo da preocupação com os policiais é que não tínhamos nada a temer: estamos bem regulamentados, com visto, etc. mas é comum na Rússia o policiais criarem pequenos obstáculos para eles receberem uma gorjeia. Vimos mais de uma vez, um viajante pagando caixa de cigarro para os policiais. O trem estava marcado para 13h10min horas. Duas horas antes, no luminoso já constava o número do nosso trem, mas ainda não constava a plataforma. Sabíamos que o trem sairia no horário e tudo o que pudesse ser feito para não errarmos o vagão e acertarmos nossos lugares, tínhamos que fazer o máximo de antecedência. Mas isso só gerou ansiedade. O número da plataforma só apareceu as 12: 50 horas e toda a multidão, com tudo quanto é tipo de mala foi em arrastão em direção dela. E lá fomos nós 

andando em passos curtos, no meio da

multidão, em direção ao provável lugar onde

deveria parar vagão número 13. O trem ainda

não estava lá, mas íamos contando os vagões

com o trem ao lado. E nessa peregrinação,

carregando nossas malas íamos checando tudo:

“o bilhete ta aí?”,” máquina fotográfica?”, “sacola

de MatriOOOOOOOOOuskas?”. E o trem

finalmente chegou: 13 horas. E veio parando,

parando, parando e fomos observando que

esquecemos o famoso provérbio “os últimos

serão os primeiros”: o vagão número 13 na

verdade era o primeiro, de forma que quando o

trem partisse, ele se tornaria o último. Saímos

em disparada, atropelando todo mundo,

trocando “Sviniti”(desculpa) com “spasiba”(com

licença) e sai da frente “Matrioooooooooouska”!.

Enfim, chegamos, o controlador do vagão,

conhecido como “provodnitsa”, olhou com o

mínimo de detalhes nossos bilhetes e permitiu a

entrada. E daí por diante foi somente a

dificuldade de sabermos onde seria nossa

cabine. Andamos umas três cabines, todas

completas (então não era a nossa) e na terceira

resolvi perguntar à uma moça – dentro da cabine

estava essa moça, o marido e uma menina de

uns 10 anos. Ela olhou com detalhe o bilhete,

re-olhou, olhou para o marido com os olhos

fixos por uns 3 segundos e disse “here” ,”here”,

It´s here”. Aceitamos: entramos na cabine com

nossas coisas, mas ficamos preocupados, não

entendendo todo aquele cruzamento de olhar e

cochichos com a língua Russa… Bem, é muito

por hoje,

continuaremos depois…

MOCKBA BTOPOÑ OCTAHOBKM

Não se preocupe que o título desse e-mail não está errado e nem seu computador está com problema. É apenas a substituição do nosso alfabeto pelo alfabeto cirílico, utilizado pelos russos. O título é “Moscou – segunda parada”. Mas esse é um aperitivo proposital para vocês entenderem nosso drama para encontrarmos os nomes das ruas e das estações de metrô corretas.

Chegamos ontem aproximadamente 6 horas da manhã. Nossa primeira tarefa era sair do aeroporto e encontrar um jeito barato para ir à cidade (é como ir do aeroporto de Guarulhos a São Paulo). A única informação que tínhamos é que a única maneira era de táxi e deveríamos negociar antecipadamente. Outra informação: cuidado com os gatunos. Os valores informados não eram muito convidativos. Então, a técnica era desviar do assédio dos taxistas e sentar um pouco no saguão do aeroporto fingindo esperar alguém, afinal precisávamos entender o terreno. Tempinho depois sai sozinho dando uma volta pelo aeroporto procurando saber outras formas de transporte. Encontrei a mina de ouro e praticamente todos os que estavam no meu avião. Ahhha! Peguei vocês, Hein? Então quer dizer que vocês também não vão de táxi e ninguém veio pegar vocês? “Não se preocupem, minha família também já fez isso comigo”… Então encontrei o mapa da mina: duas linhas de ônibus urbanos, bem escondidinhos, que nos levariam até a estação de metrô mais próxima. Aí ficou fácil, com metrô estaremos em casa!

Busquei a Juliana, e saímos correndo com nossas malas, com nariz empinado, negando todos os taxistas que nos cercavam. Foi difícil negar um passeio pelo Lada antigão, mas foi interessante a viagem de ônibus sanfona entre o aeroporto e a cidade. Sinceramente, não foi muito diferente do ônibus Paraíso -Cidade de Tiradentes em São Paulo. Mas foi em Moscou, com paisagem diferente, sem perigo de assalto, com a expectativa de “onde vamos descer?”. Bem, o fato é que ali dentro daquele ônibus dava para perceber que o povo russo é muito parecido com o brasileiro. Bem, não sei dizer sobre o que falam… mas são bastante conversadores e sorridentes.

Depois que encontramos o hotel, tivemos que dormir no saguão por toda a manhã até liberarem a entrada no quarto. Por mais que o corpo pedisse cama, não podíamos desperdiçar metade do dia. Então saímos pela cidade, quebrando a cabeça com o metrô. Estou gostando muito desse jogo de encontrar as estações: é bem melhor que videogame.

Realmente o metrô de Moscou é surpreendentemente eficiente. Não se compara com a modernidade do Japão. O moderno do Metrô de Moscou é sua experiência. A capacidade de manter qualidade no serviço com “ar” de antiguidade (os trens fazem muito barulho, chegam até apagar a luz entre uma estação e outra). Mas apesar de muito antigo, serve toda a cidade, num emaranhado de linhas, com freqüência de trens espantosa (acho que não chega a 30 segundos) e com tudo muito, mas muito rápido(inclusive as escadas rolantes, as crianças adoram!!!). Além disso, as estações são verdadeiras obras de arte: tem diversas estátuas, cúpulas e túneis que parece até que estamos dentro de esconderijos de um castelo. Todas as estações estão em Russo. Nosso mapa, ao invés de ter o nome em Russo escrito, traz a pronúncia. Então, algumas vezes eu consegui acertar ouvindo o condutor do trem. Outras vezes, vai por tentativa e erro.

Mas a cidade não tem apenas o metrô. Tem o Kremlin, onde fica o presidente e o congresso da Rússia. Na verdade, o Kremlin é uma imensa fortificação erguida em 1150 no centro da cidade (com uma muralha ao redor, parecendo com antigos castelos feudais) repleta de prédios governamentais, palácios e catedral. Nossa tarefa é encontrar o melhor ângulo para tirar uma foto. Infelizmente não existe mais aquela sensação de medo que provavelmente existia no período socialista. A praça vermelha, em frente ao Kremlin, tem um shopping ainda estatal que serve de vitrine para as marcas mais luxuosas do mundo. E bem em frente ao Shopping repousa o corpo embalsamado de Lênin.

Amanhã vamos até lá para ver o corpo do Lênin. Ontem e hoje estava fechado.

Interessante é que a cidade está bastante movimentada de turistas, mas são turistas da própria Rússia. Encontramos os mesmos japoneses de sempre, com máquina fotográfica na mão, sempre correndo, enfileirados, comprando alguma coisa, etc. Tenho certeza que devem ser os mesmos que já encontramos em Foz de Iguaçu ou no Rio de Janeiro, e que vocês já encontraram. Mas a maior parte são os Russos visitando a própria capital. É fácil entender: a Rússia é o maior país do mundo e duas vezes e pouco maior que o Brasil. Viajar para eles é conhecer o próprio país. E isso é interessante porque é fácil perceber que o povo Russo é bastante nacionalista e muito prático. Não existe ainda consumismo, modismo de outros países, ou qualquer admiração à outra cultura. Eles são eles mesmos, buscando criar um país para eles mesmos. É fato que do tamanho que eles são, eles são “o mundo”. Sinceramente, acho pouco provável eles colocarem no currículo algo do tipo “gostaria de conhecer outras culturas”. Eles são assim, sem serem arrogantes.

Como de praxe, hoje andamos muito. E o sol de 30 graus nos acompanhou. Pois é, Moscou com calor, não imaginávamos tanto. Temos sede permanentemente, parece que não vence. Por sorte encontramos um pessoal da Unilever distribuindo Ice Tea na frente do parque Gorki. Valeu uma passadinha mais de uma vez. Hoje também visitamos o teatro Bolshoi (está em reforma) e diversas catedrais. Amanhã ainda andaremos por Moscou pela manhã. No início da tarde partiremos para a Sibéria. Serão quatro dias de viagem dentro de um trem, a primeira parte da Transiberiana. Acho que nesse percurso não conseguiremos enviar nenhum e-mail. Mas em nosso primeiro dia em Irkutsk, na Sibéria, mandaremos notícia. A lembrança que vai ficar de Moscou é a emoção de um Economista estar no primeiro lugar onde nasceu o império socialista, inspirado em Karl Marx; onde começou e terminou a URSS; e onde a história política e econômica ainda se constrói com direito a comentários respeitosos pelo mundo. E a emoção de uma pessoa que sonhava ser bailarina, a Juliana, entusiasmada como uma criança que ganha a primeira bicicleta, vendo o Bolshoi, o sonho de qualquer bailarina.

Apesar de o capitalismo estar em franca expansão, ainda lhe resta a Moscou a arquitetura socialista dos prédios residenciais (estilo ala residencial de Brasília) e um “ar” meio secreto, de mistérios, dos carros pretos de luxo com vidro fumê que entram e saem de ruazinhas silenciosas, misteriosas, dentro da cidade. Essas ruazinhas decodificam muito do que é a Rússia, pelo menos de Moscou, pelo menos na minha imaginação.

Frankfurt – Primeira Parada

..enfim, depois de 12 horas de vôo no primeiro trecho e mais 3 horas no segundo, chegamos a terra do Lênin, Moscou, e onde ainda pousa seu corpo embalsamado. Tudo até aqui, desde que partimos foi muito cansativo(são 8 horas de diferença). Está fazendo muito calor e eles não tem ar condicionado (naturalmente porque estão preparados para o frio). Apesar de ficarmos muito cansados com a viagem de São Paulo a Frankfourt, tínhamos um dia para curtir essa cidade, conhecida como a capital financeira da Alemanha. Além disso, pretendia cortar o cabelo, algo que não havia conseguido fazer no Brasil porque não tive tempo. Desembarcamos 6 horas da manhã, deixamos as malas no guarda-volumes do aeroporto e saímos com mapa na mão. Estávamos esperando encontrar atrações turísticas mirabolantes, mas entendemos logo que não era a vocação dessa cidade. Encontramos uma cidade extremamente organizada (claro, Alemanha), prédios modernos, com um trânsito silencioso, poucas pessoas pelas ruas, uma cidade muito charmosa. Visitar os museus foi muito acessível e rápido: praticamente todos estão localizados na mesma rua. Mas passeamos num cansaço que nos puxava para o chão, para dormir, para cochilar, rrrrrrshiiiiiii. Encontrávamos um gramadinho, uma dormidinha; um banco do ano 1310 exposto no museu, uma cochiladinha, uma cadeira no meio do calçadão, uma fechadinha nos olhos (o garçom do Burger King nos acordou abruptamente: “não pode dormir aqui!”). Eu nem sonhava com o lanche mesmo! A Juliana ficou duplamente cansada: estava com tênis novo, ainda não amaciado. Já dá para entender o que isso significa andando o dia inteiro pela primeira vez.

O passeio por Frankfourt terminou com a finalização de um dos meus objetivos: cortar o cabelo. Vi mais de 1000 alemães andando pelas ruas com o corte que eu queria. Bastava encontrar o cabeleireiro (barbeiro, na verdade, senão ia ficar muito caro) e pedir o mesmo corte, apontando com as mãos (não sei falar alemão). Bem, encontramos um lugar baratinho. Quando chegou a minha vez de cortar não havia ninguém com o corte que eu queria, somente um senhor que havia acabado de cortar o cabelo, mas não exatamente com o mesmo corte. Havia algumas revistas, mas nenhuma com o tal modelo. Então a Juliana me convenceu a apontar para o homem que saia e – imaginei – depois eu poderia pedir para acertar se não ficasse do meu gosto. O alemão carrancudo me fez sentar, colocou uma “espuma” higiênica no meu colarinho e, em volta, foi prendendo a capa para proteger minhas roupas dos pelos.

Muito bem, vai começar, estou sentado numa cadeira de barbeiro como em qualquer barbearia: mas o barbeiro coloca a mão na minha nuca e empurra minha cabeça abruptamente contra uma pia entre eu e o espelho. Minha cabeça desavisada, já dentro da pia, é “lavada como se lava um perro”(cachorro em espanhol). Eu me senti naqueles filmes que o guarda, torturando o bandido, coloca a cabeça do sujeito dentro da privada, deixando ele sem respirar…

Só pude rir comigo mesmo mas a Juliana riu sem precisar pagar o ingresso. Ok, não tem problema, esse cabelo vai ficar “alemão”. Mas quando percebi que o bigodudo já estava terminando e que somente as laterais estavam de acordo, fui logo sinalizando com as mãos as mechas que ficaram em cima. Ele sinalizou um “não se preocupe” (pelo menos foi isso que entendi). Novamente cabeça na pia! Sem aviso, de novo. Estava parecendo programa de torta na cara! Bem, logo ele foi me secando com uma toalha de “perro” e passando uma espuminha, uns pompons com talquinho e tirando a capa. – “Ei”, já fui logo com o dedo em negativa, com cara de “lembra?, dá para tirar mais um pouquinho?”. “NO, NO, GOOD, VERY GOOD!” – ele disse -tentando se comunicar comigo). E foi me tirando da cadeira com tapinhas fortes nas costas, dando por acabado, sem negociação… e é claro: a Juliana rindo sem pagar ingresso!!!!!! E eu ainda tive que pagar pelo corte e por um adicional pela espuminha.

Meu cabelo ficou, ou melhor, está…ridículo. Vou corrigir com um russo e contar essa história para ele só para ele ficar falando mal dos alemães…

Bem, depois desse episódio, como não havia tempo para correção e eu havia estourado o orçamento, fomos para o aeroporto pegar o vôo para Moscou. Viajamos de Aeroflot, empresa conhecida por utilizar o antigo Antonov. Apesar de ainda serem estatal da Russia, viajamos de AirBus, com espaço entre as cadeiras maiores que do Brasil. Nesse percurso, só presenciamos um incidente. No momento da partida, aproximadamente 11 horas da noite, um rapaz do nosso lado foi retirado do avião pela policia alemã, numa discussão interminável. Achei muito estranho que somente eu que não fala alemão, estava observando atentamente toda a discussão. Havia vários policiais e mesmo assim todos os passageiros agiam como se nada estivesse acontecendo: comendo, conversando ou dormindo. Ou 

todos tinham culpa no cartório ou a discussão entre o policial e o rapaz era a mais fútil possível. Ou então, o que eu tenho a ver com a vida dos outros, não é mesmo? Afinal, dezenas de policiais discutindo dentro do avião, com passageiro com cara de carregador de bomba, deve ser encarado com discrição.

Bem, importante é que chegamos a Moscou essa manhã, estamos bem, num excelente hotel (só para compensar o que vem pela frente, nas próximas paradas). Lembrando que estamos a 8horas na frente do Brasil. Amanhã escreverei sobre os dois dias dessa cidade interessante e semi-capitalista. Enviarei também a foto da minha cabeça dentro da pia.

Agatha Crist – Barcelona e Madrid

Caros,
 
A Barcelona de Picasso e Gaudi é um encanto. A herança das olimpiadas foi generosa com essa cidade. As belas praias, os atracadouros de iates. Belissima, uma arquitetura ousada. Ficamos encantados. Boquiabertos. O calor estava um ensaio para a volta ao Brasil.
Ficamos hospedados no bairro conhecido como Gotico, o mais antigo, justamente o menos organizado: e formado por pequenas vielas faceis de se perder. Os espacos sao tao pequenos que a janela do quarto do hotel quase encosta na janela da outra casa do outro lado da rua. E quase uma Veneza seca.
Fomos ansiosos assistir um jogo do Ronaldinho(Barcelona e Valencia) num Pub. Queriamos sentir o orgulho de ser brasileiro.  Pagamos caro, valeu pea discontraçao, mas o Ronaldinho nao jogou porque estava suspenso.
 
De Barcelona fomos para a ultima parada: Madrid.
 
Madrid é calma demais. Tentamos ir para Toledo ou outro lugar, mas precisavamos desacelerar um pouco. Ficamos em Madrid curtindo a monarquia recente, um capuccino na Starbucks, a vitrine da Zara, um Jamon(tem cara de salame, mas tem gosto de galinha) e tortilla(uma especie de omelete feita com batata). Muito bom. Visitamos o meio time brasileiro, o Real Madrid, procuramos assistir um show de dança.
 
Enfim, pegamos o voo essa madrugada. Quando o aviao pousou em São Paulo, felizes, todos os passageiro bateram palmas. Isso fecha a pagina do album de fotos,
 
att
 
July e Edu

Aghata Crist – Amesterdam, Paris e Barcelona

Caros,

Ficamos impressionados com Amesterdam. Ela tem um pregacao a liberdade tao grande, que vimos uma escola infantil(media de quatro anos de idade) com os portoes todos abertos, as criancas atravessavam a rua sozinha para brincar numa praca que tinha um parque. Elas entravam e saiam, espalhadas, sozinhas, livremente…Ficamos um bom tempo observando tentando entender como tudo era tao sem controle.

Andamos muito(isso nao é nenhuma novidade) por Amesterdam. Suas ruas misturadas com os diversos canais e o vento gelado vindo do canal da mancha.

Depois de Amesterdam fomos para Roterdan, onde esta o segundo maior porto do mundo e a segunda sede da Unilever, a parte holandesa da Unilever. Sinceramente, foi surpreendente ver uma cidade com uma arquitetura ultramoderna, Nao imaginavamos. Eles estao investindo muito pesado em arquitetura arrojada. A propria sede da Unilever, um predio recente, é um cartao postal da cidade. Fomos muito bem recebidos lá a base de Ice Tea…

Depois de Roterdan fomos para Bruxelas, uma especie de visita aos anos setenta. Arquitetura muito antiga, charmosa, mas com pessoas com vestimentas mais anos setenta… dificil explicar com rapidez…

E passamos um dia e meio no centro do mundo: Paris, a cidade de sempre, da champs Elise e da torre. Foi romantico passear pelo rio
Sena.

Viajamos noite passada e estamos em Barcelona, cidade de Gaudi e Picasso. Essa noite passamos um pequeno apuro: esta acontecendo uma festa tradicional na cidade, onde pessoas se vestem de dragao e outras parafernalias… estavamos no meio dos tais caras vestidos de dragao quando de repente comecaram a cuspir fogo…isso mesmo…fogo. Uma festa meio agressiva(normal para quem gosta de tourada), mas foi divertido escapar dequele fogarel. Roupas queimadas vao para o lixo.

Abracos

Aghata Crist – Berlim

Caros,
 
Berlim esta em construcao. Todo mundo vem para ca para ver o antigo muro, mas ele nao existe mais. Tem alguns pedacinhos espalhados em museu, mas nao da nem para ficar muito entusiasmado. O interessante mesmo foi ver os espacos em branco deixados pelo muro e observar a arquitetura e as pessoas dos dois lados. E diferente. Andamos por muito tempo sobre o espaco deixado pelo muro e foi bastante interessante. E tem construcao para tudo quanto e lado. Andamos pelos principais pontos turisticos mas foi muito dificil. As calcadas estavam cobertas de neve, escorregamos muito e o vento chuvoso contribuiu para dizermos ” que cidade mais chata”… Mas nao posso ser injusto. E uma cidade belissima, com uma mistura historica impressionante. Pensamos encontrar coisas somente sobre as duas grandes guerras. Na verdade isso foi apenas um pedacinho da historia deles. A cidade e muito rica no antes da guerra. Lembram-se da Prussia? Do periodo imperial germanico? etc, etc…
 
E fomos ao  estadio que sera o primeiro e esperamos(ultimo) jogo do Brasil na Copa do mundo. A grande final ser no estadio olimpico de Berlim. Entramos dentro do estadio, impoloramos ao porteiro e ele deixou. Sensacional. Berlim tem muita foto sobre o Brasil…
 
Ontem a noite pegamos o trem e estamos na capital da Holanda, Amesterdam. A cidade mais livre do mundo. Pode-se fumar macanha na rua, as prostitutas sao legalizadas e tem banheiro ao ceu aberto da rua. Saimos ontem a noite para conhecer a vida noturna da cidade. Sinceramente, estamos impressionados… e tomamos um chocolate quente, bem quente para nos acalmarmos.
 
abracos