Expedição ao Oriente Médio- Primeira parada: Irã

Saímos sexta-feira rumo a nossa expedição ao Oriente médio. Depois de 10 horas de viagem chegamos em Amsterdã as 11 horas da manhã de sábado e aguardamos o vôo para Teerã as 15:30 horas. Antes de nos juntarmos definitivamente ao grupo que ia embarcar em nosso vôo, passamos duas vezes por eles para analisar qual o comportamento, as roupas e se as mulheres já estavam usando o “chador”, aquele véu que cobre o rosto das mulheres, obrigatório em solo Iraniano. Vimos que só as mulheres mais velhas usavam. A Juliana preferiu segurar o kit(ou melhor, o “chador” – véu e capa preta que vai até o tornozelo) enrolado debaixo dos braços, como se fosse para uma piscina segurando uma toalha.

O vôo foi pontual, pelo menos em sua partida. Duração prevista para 6 horas de viagem, e com as quatro horas de fuso entre São Paulo e Amsterdã, somariam ainda mais 2 horas de fuso. Vôo tranqüilo, com excelente serviço de bordo mas… na metade do caminho, já havíamos cruzado toda a Alemanha, o piloto informou que o avião apresentava um “problema técnico” e que voltaria para o ponto de origem, retornando as 3 horas percorridas. O clima ficou meio tenso…, as aeromoças passavam de fileira em fileira acalmando os mais velhos. “Que problema técnico?” “Se tem problema, por que não pousa imediatamente?” “Por que voltar tudo para trás?” Eu já havia ouvido falar que pela lei Européia(não sei se é mundial) que qualquer problema em vôo, a aeronave deveria voltar ao país de origem. Claro que vai depender do problema técnico, sob julgamento do piloto.

Em nenhum momento o problema foi explicado, mas o piloto parecia seguro de que estava fazendo a coisa certa.

Quando chegamos em Amsterdã, havia outro avião a nosso espera. Partimos lá pelas 22 horas e chegamos em Teerã no final da madrugada, 4 graus e nada para espiar pela janelinha durante o pouso. Felicidade geral, “chegamos em nossa terra, Alá”.

Nenhum contratempo. Aeroporto novo, muito moderno e bom atendimento. Fica a uma hora de Teerã e é mais uma das centenas de homenagens ao Aiatolá Khomeini.

Esse nome é familiar, não? Um dos objetivos dessa expedição é tentar tirar a imagem formada por centenas e dezenas de “Jornais Nacionais” da Rede Globo sobre o oriente médio mostrando imagens de homens bombas, Aiatolá do não sei o quê, Hussens, Palestina, Gaza…um monte de palavras relacionadas ao medo e terror.

O Aiatolã Khomeini foi o líder da revolução islâmica do Irã de 1979. Ou seja, ele tomou o poder e implantou uma republica islâmica,  a primeira do mundo, um país governado por lideres islãmicos. O país também tem presidente, mas ele é comandado por esses líderes.

No próprio aeroporto trocamos dólares por moeda local. Saímos com um pacote enorme de dinheiro pensando que estávamos ricos: o dólar vale muito, mas o fato é que o Irã não corta os zeros faz muito tempo. Para ter uma idéia, 1 dólar vale 9000 Rial(moeda do Irã, com pronuncia muito parecida com nosso Real). Não descobrimos nenhum ônibus urbano que nos levassem para a cidade, então usamos a estratégia de tomarmos um táxi até a estação de metro mais próxima. Já no táxi pudemos ter um pequeno aperitivo do que vinha pela frente em relação ao o comportamento dos motoristas da cidade. Sem cinto de segurança e altíssima velocidade. Estrada muito boa. Quando estamos chegando à estação, ao lado dela, vimos um monumento gigantesco que era impossível não comparar com a Aparecida do Norte. O guia de mão informava a nossa suspeita de que ali se tratava de um ponto turístico que já poderíamos aproveitar para ganhar tempo. O negócio era deixar o sono de lado e carregar as malas até lá. Para ganhar tempo, mesmo com as nossas malas, andamos até lá. Tratava-se do maior complexo islâmico do mundo, um lugar de reza e que também guarda os restos mortais do Khomeini. Tinha várias entradas e as únicas explicações em persa. Na primeira tentativa de entrada, encontramos uma padaria onde os pães eram feitos abertamente, muito próximos aos clientes. Eram fabricados diversos tipos de pães, mas um deles era o mais vendido. Era uma massa fina, parecida com massa de pizza, mas bem mais fina e com bolhas, mas em tamanhos enormes. As pessoas compravam grande quantidade, levando folhas e folhas nos braços, sem nenhuma proteção. Comecei a filmar aquela produção. Logo um dos rapazes me pediu para filmar ele e outro lá no fundo me pegou pelas mãos e me levou para trás do balcão. Quando disse a palavra mágica “Brasil” o negócio virou uma festa. “Ronaldo”, “Ronaldinho” “Kaka”. Colocaram um pão e um confeito de cada tipo dentro de um saco e me entregaram. Nos deliciamos num pic-nic –caminhada as deliciosas amostras.

Não havia muitas pessoas em volta da imensa mesquita, mas já era possível ver a movimentação de mulheres com roupas negras e somente os olhos aparecendo. Na porta havia um guarda volumes e guarda sapatos. A entrada era separada entre homens e mulheres. Lá dentro havia um imenso espaço preenchido por tapetes(persas, claro), quase que como um campo de futebol. No meio do campo, ou melhor, do salão, repousa os restos mortais do Aiatolã, morto em 1989(lembra?)

Depois do templo, com cúpulas maravilhosas, ainda ao lado da estação, passamos pelo cemitério dos combatentes da guerra Irã –Iraque (lembra? Aquela guerra sem fim dos anos 80?). Pois é, são mais de cem mil pessoas mortas…

Depois de passeio, pegamos o metrô e fomos até o cento da cidade em busca no nosso Hotel(não existe albergue no Irã. Tentamos ficar na casa de algumas pessoas, mas elas não nos aceitaram na útlima hora por conta das preparações de ano novo, que virá daqui a dez dias, segundo o calendário milenar – muito antes de Cristo – do calendário Persa).

À primeira vista, logo que colocamos a cabeça para fora da estação, bem no meio do centro da cidade, parecia que o país havia sido tomado pelos moto-boys de São Paulo, numa revolução. É moto para tudo quanto é lugar, para todo o lado, inclusive calçada e contramão. Somam-se a isso, os carros em alta velocidade, um atrás do outro, sem parar. Não existe semáforo, ou isso é raridade aqui. Atravessar a rua é uma constante roleta russa. Ninguém pára na faixa. A única maneira é ir se jogando aos poucos no meio do trânsito, caso contrário vai ficar no mesmo lugar o dia inteiro. O trânsito é caótico e vítima da gasolina barata(nem vou escrever o preço para ninguém ficar com inveja. Lembre-se que o Irã é o segundo maior produtor de petróleo do mundo).

Depois de idas e vindas e dificuldade de decifrar as ruas com nomes persas, finalmente chegamos ao nosso hotel, que de estrela só tem o Mr Musavi, recepcionista. Enquanto aguardávamos a liberação do quarto(só depois das 14 horas) fomos para nossa primeira experiência com a comida local (rúcula com nabo, pão para umas 20 pessoas!, arroz com galinha e tempero local. O mais interessante é que o charme do prato é que a rapa do arroz, aquela crosta do fundo da panela é colocada sobre o prato, de cabeça para baixo) e passamos por um parque tipo “Ibirapuera”. O que mais nos chama a atenção é a combinação do verde das árvores e jardins com as mulheres em roupas pretas, todas cobertas em grupos, fazendo pic-nic. Nesse nosso primeiro dia pudemos perceber que esse é um povo que gosta de viver enturmado, que as mulheres andam em sua maioria sempre em grupo. No transporte público as mulheres e homens não se misturam. Há sempre um vagão do metro só para homem e outro para mulheres. No ônibus, na parte da frente ficam os homens na de trás, as mulheres.

Á noite fomos ver a famosa e antiga embaixada(fechada) dos EUA(com pinturas contra os EUA, claro!). Nesse primeiro dia pudemos perceber que os iranianos não gostam de ser chamados de árabes, mas sim de persas. “Persas”, ok, vamos parar com “Irã” – isso já é um bom começo para tirarmos a imagem ruim dessa região. Então, voltando, estamos aqui conhecendo os persas…

Hong Kong à Londres e Bye Frankfurt

Quando deixamos a cidade de Hong Kong domingo à tarde, imaginávamos

ter terminado nosso passeio pela China. Havíamos esquecido, na verdade,

que o aeroporto também era um ponto turístico. Marco da arquitetura do

século 20, o aeroporto internacional de Hong Kong destaca-se pela escala

monumental, alta tecnologia e velocidade de construção. Tudo isso

construído em uma ilha artificial. Isso mesmo, uma ilha imensa aterrada

pelo homem. Chek Lap Kok, que tem 6 km de comprimento por 3,5 km de

largura. Apenas 25% dessa área existia antes da construção. Todo o

restante foi conquistado com aterros sobre o mar – o que exigiu 197

milhões de m3 de material. E o aeroporto é todo rodeado de vidro, é

possível ver as montanhas, o mar e os aviões levantando vôo. Nosso vôo

atrasou 2 horas e ganhamos vale refeição. Aproveitamos esse adicional

repentino no orçamento para desfrutarmos de quitutes de frivolidades com

vista para arquitetura moderna. Nos empaturramos de Starbucks!

A viagem de Hong Kong a Londres durou 14 horas, voltando 7 horas de

fuso horário. Passou muito rápido porque a tecnologia dentro da

companhia inglesa nos surpreendeu. Todos os assentos têm uma tela e

uma espécie de controle remoto(com uma infinidade de programas de

televisão, filmes e documentários)+joistick-de-videogame(isso mesmo, é

possível jogar videogame!)+telefone(isso mesmo, é possível ligar para casa

em qualquer lugar do mundo a preços salgados, claro! Ou até mesmo ligar

para alguém de outra poltrona). O serviço de bordo excepcional.

Chegamos em Londres pela manhã, aproveitamos para descansar mais

pela tardinha, para andar pela margem do Rio Tamisa, algo impagável.

Nos dois dias seguintes, aproveitamos para visitar o Museu da Guerra e

Museu Britânico (eu já havia dito isso quando vim pela primeira vez a

Londres, mas gosto de repetir: A Inglaterra tem o mundo nesse museu. Se

alguém vai á China, como nós fomos, tem de dar uma passadinha na volta

em Londres para completar a viagem, porque com certeza a maior parte da

China está no Museu Britânico). Além disso, passamos pelo Big Bang,

Londres é um espetáculo ao céu aberto, temos de admitir. Uma

cidade que encanta 24 horas, sempre com movimento e seu ônibus

e metro ultra-eficientes. Visitamos também a Harolds, tradicional

loja de departamento e pudemos experimentar umas das delicias de

sua confeitaria.

No final de nosso terceiro dia, a volta para Frankfurt, para daí sim,

voltarmos ao Brasil. Para esse percurso havíamos comprado um

bilhete aéreo de 1 dólar. Isso mesmo, 1 dólar. Explico: trata-se de

empresas aéreas que ganham o dinheiro com outros serviços, tais

como venda de produtos dentro do avião (elas não oferecem

alimentação dentro do vôo, só pagando), taxas de serviços

aeroportuário e excesso de bagagem (ai vem o grande problema: só

15 kilos por mala e uma bagagem de mão por pessoa, caso

contrário o pagamento por kilo adicional torna a viagem mais cara

do que a passagem mais cara de outra companhia aérea normal).

Bem, em relação a bagagem ficamos em situação complicada.

Nossas bagagens estavam pesando 23 e 21 quilos cada, sem contar

a bagagem de mão. Tínhamos que chegar em 15 quilos cada, sendo

que cada um deveria ter uma bagagem de mão com 10 quilos no

máximo e que deveria caber dentro de um padrão misero de

medidas. Outro detalhe, o aeroporto não fica em Londres, mas 2

horas de distância (tivemos que pegar um ônibus de viagem de

Londres até o aeroporto, mas isso já estava computado no

orçamento com parte da passagem). Nosso plano era tentar arrumar

a mala no aeroporto, para evitar o excesso. Para nossa surpresa, já

existe uma área toda reservada com balanças e informações para as

pessoas arrumarem malas. Ajudou muito. Ficamos lá mais de duas

horas tentando montar o quebra cabeça. Pesa calça, pesa camisa,

tudo e fomos retirando coisas da mala, de olho em nossas mochilas de

mão. Resultado: Fora do aeroporto estava frio, mas dentro estava

quente, bem quente e como não bastasse… tive que usar três camisas

(alguém já viu alguém ter três colarinhos? Era o meu caso), uma blusa,

com uma mochila, e uma jaqueta por cima para cobrir a mochila; duas

calças e uma bermuda; no bolso da jaqueta, duas camisas; cachecol e

ainda carregar um guarda-chuva (ué, vai que chove no avião? rsrsrs) e

dois guias de viagens (tenho que ler…). Tivemos que jogar fora nossas

toalhas, não colou a desculpa de que estavam molhadas e íamos

O clima de controle sobre o peso era total. Em todo momento olhavam

nossas coisas nas filas, nos embarques, dentro do avião. Natural, era o

ganha pão deles.

Bem, com todo o desconforto do mundo e um pouco irritado com tanta

intolerância sobre os pesos das malas, em duas horas de viagem

chegamos a Frankfurt. Claro que em aeroporto também distante. Foi

bom, pois tivemos que pegar outro ônibus de viagem e curtir a

agricultura alemã, extremamente desenvolvida. Nosso vôo estava

marcado para a parte da manhã, mas a Varig, com toda a naturalidade,

Aproveitamos para re-passearmos por Frankfurt, desta vez, com o cabelo maior, mas sem arriscar nenhum cabeleireiro alemão. Em Frankfurt

nos permitiu um dia para relembrarmos de toda a nossa trajetória até aqui, e que todo o cansaço que gerado pelos translados, carregamento

de malas, chegada e saída de aeroporto e trem, foram amplamente compensados pelas paisagens, pela oportunidade de viver outras culturas

e conhecer outras pessoas. Cruzamos a Rússia, a Mongólia, China e nos enveredamos por Londres e Frankfurt. De fato, foi um sair da rotina e

tanto. Prometo que na próxima viagem dividiremos mais com vocês nossas fotos, algo que ainda estamos aprendendo a lidar. O tempo para

o relato estava ficando apertado em detrimento de aproveitar cada novo momento.

Daqui, mais nenhuma novidade. Somente a volta para o Brasil, com escala em São Paulo , parada para troca de avião no Rio de Janeiro e com

outro vôo direto para Recife. Talvez não pareça, mas nem tudo nessa viagem foi tão planejado.

Hong Kong

O fato é que Hong Kong espanta. É difícil descrever, mas é fácil encontrar

elementos de outros paises para explicar. Hong Kong tem a geografia do

Rio de Janeiro, isso inclui o calor, os morros (mas morros sem favelas e

com florestas intactas); a paisagem de mar de Angra dos Reis

(barquinhos e diversos tipos de embarcação); a orla de Mônaco (nunca

fui até lá, mas já vi nas corridas de fórmula 1); a organização interna

(transporte, tráfego, sinalização, etc) da Inglaterra (afinal, era uma

colônia Inglesa); o consumo fervoroso (mas muito fervoroso!) de Nova

York. Isso também inclui os arranha-céus. E, por último, a quantidade de

pessoas da China.

HK é dividido em duas grandes partes: Kowloon e a ilhinha de HK. Nosso

hotel estava situado bem próximo da avenida principal, Nadan Road, em

Kowloon. Em torno dessa avenida, tenho certeza, deve ser o consumo

mais fervoroso de eletrônicos e roupas do mundo. São milhões de

painéis eletrônicos de diversas marcas e uma infinidade de lojas. O

atendimento é bem melhor que na China continental. Hong Kong é, na

verdade, um shopping a céu aberto. Em tudo quanto é lugar, nos menos

imagináveis, é possível encontrar um shopping. Dentro de uma luta

constante entre apenas conhecer a Hong Kong consumista (e consumir, é

em nosso primeiro dia, antes dos luminosos funcionarem, fomos até

o Pico Vitória. Para chegar lá, primeiro, pegamos um metro que

atravessou por túnel o canal, e depois pegamos um funicular, parecido

com o do Corcovado, mas com inclinação duas vezes maior, parece

que vai tombar para trás (fica todo mundo apreensivo). Lá em cima é

possível ter uma vista maravilhosa, mas o tempo estava meio nublado.

E, claro, lá também tem um shopping enoooorme. A nossa agradável

surpresa foi descobrirmos um caminho de terra que circula o pico em

aproximadamente 3 quilômetros. Valeu toda a viagem. Foi um passeio

encantador, pode-se ver toda a cidade, os barquinhos, a baia, os

arranha-céus, e os moradores fazendo cooper nessa floresta intacta!

Descemos o pico e andamos pela ilha HK, driblando os arranha-céus e

se encantando com a paisagem da baia. Tudo é muito limpo,

organizado e escrito em três línguas: inglês, mandarim e cantonês.

Realmente é confuso olhar para os prédios, e logo atrás, os morros, e

não pensar que está numa Rio de Janeiro segura. E isso se amplia

quando de repente se encontra brasileiros pela rua, também comum

por aqui. É que HK é uma cidade de conexões de empresas aéreas.

Boa parte dos vôos provenientes da Ásia em direção a Europa ou EUA

Pela noite, voltamos de barco para a Kowloon, o que vale uma vista dos prédios todos iluminados, com muito mais quantidade do que os

prédios de Xangai. É que aqui, o negócio está mais adiantado que Xangai.

Nosso último dia foi de preparativos para a volta à Europa, onde aí sim, é possível voltar ao Brasil. Planejamos ficar descansando, tudo bem

calmamente. Foi difícil: ficamos arrumando malas para não pagar excesso e tratando de burocracias de passagens, liga para cá, liga para lá,

tentando resolver obrigações de check in exigidos pelas empresas aéreas dessa região. Nossa próxima parada, Londres, nos retornará mais 7

horas de fuso horário em 14 horas de viagem.

Sul da China: de Shangai a Hong Kong

Tem sido difícil encontrar tempo para escrever. Vamos dormir mais

de uma da manhã e acordamos muito cedo. Tudo é tão diferente e

os pontos turísticos ainda estão sendo descobertos. A verdade é que

o turismo para nós brasileiros é menos os indicados nos guias de

viagem e mais andar pelas ruas e descobrir sozinhos coisas

diferentes.

Depois de mais de 18 horas de viagem, mais um trem, deixamos

Xangai rumo a Hong Kong, completando assim, toda a costa da

China. Nosso último passeio em Xangai foi uma visita a torre

GiMAO, o terceiro maior prédio do mundo. Não subimos ao topo, o

tempo estava muito nublado, mas valeu a visita as suas instalações

luxuosas, sede inclusive da Vale do Rio Doce na China. O que nos

encantou muito em nosso último dia foi o Museu Xangai, onde

interessantemente, ao contrário de um tradicional museu, neste caso

a maior parte do que o museu mostra ainda acontecerá. É que dos

cinco andares, três são dedicados ao futuro: gigantescas maquetes,

detalhando os novos arranha-céus e pontes fabulosas de como será

a Xangai 2010(será e está sendo feito, não é promessa de campanha

eleitoral) e a organização da reunião mundial dos paises. Está sendo

construído um complexo mais de 10 vezes maior que o Anhembi

para comportar todos os países. Também pela manhã, no centro da

cidade, havia um senhor ameaçando se jogar de um prédio (mais o

menos do oitavo andar). Logo que o bombeiro chegou, começou o

aglomerar da multidão. Armaram um colchão inflável gigante

enquanto ocorria a negociação. Tem acontecido muito o suicídio nas

grandes cidades chinesas por conta da falta de emprego. Não vimos

o desfecho da história, ficamos por lá uma hora. Já estávamos

mendigos: com brutalidade, expulsando-os das lojas com gritos e

força física. Nesse evento do centro da cidade, vimos os chineses

rindo da situação.

Em nosso albergue conhecemos o Santiago, um advogado

colombiano com um Q de Che Guevara (ou talvez, mais parecido

com o Gael Garcia Bernal, ator mexicano), que já veio a trabalho

para China algumas vezes e resolveu ficar uns dois meses estudando

mandarim, língua falada na China. Carrega sempre consigo um

livrinho relacionado ao comunismo e mantem fotos do Fidel Castro e

de sua esposa nos poucos espaços de sua beliche. Uma pessoa

bastante sóbria, calma e de bom coração. Nessa viagem, veio

comprar um barco encomendado por um empresário colombiano

(que ele pressupõe ser envolvido com a droga). Depois da compra e

do despacho, realizado em Hong Kong, foi para Xangai procurar o

melhor curso de mandarim. Para sua surpresa, o curso na verdade

tem duração de um ano. Resolveu ficar. Em nosso último dia entrou

todo feliz no albergue porque havia encontrado finalmente um

apartamento ao lado do curso para ser dividido com um chinês. No

final do dia se mudaria para lá. “Foi Deus, não?”, nos disse parado

em nossa frente, muito calmamente em seu espanhol sem vírgulas.

“Por Deus!”. “Vocês acreditam em Deus, não?”. Logo depois de

falamos sobre nossa religiosidade, a Juliana perguntou se ele estava

com saudades da esposa. Ainda não havia se movimentado,

mantinha a mesma face da última pergunta. Pensou um pouco e

logo se via que ainda não era algo resolvido internamente, seus

olhos apenas se encheram dágua. Cinco minutos depois, quando fui

ao banco trocar dinheiro, o ouvi conversar em espanhol ao telefone.

Mais quinze minutos, voltando do banco, pela rua, cruzo com o

já se misturando como fumaça no meio da multidão. Não o vimos

mais. Era quinta-feira, nosso último dia, partimos pela tarde rumo a

Hong Kong. Infelizmente desistimos de visitar a Unilever Xangai pois

descobrimos que a única maneira seria pegar um táxi, pois não havia

acesso de ônibus, metro, bicicleta e também a pé (é que fica cercada

de rodovias, mesmo dentro da cidade). Só que táxi ficaria muito caro.

A paisagem entre Xangai e Hong Kong torna a viagem rápida. Há

muito que ver pela janela, compensando a dificuldade da língua dentro

do trem (e os chineses são bem reservados, só querem saber de

talharim de manhã, tarde e noite). O sul da china é a região mais

industrializada, justamente onde o trem corta fora a fora. O que se vê é

uma mescla de agricultura, com milhares de camponeses (o famoso

camponeses chinês, com seus chapéus lig-lig e barracas para dormir) e

galpões industriais. Além disso, o trem também passa na terceira

maior cidade chinesa, a Guangdong, onde estão concentradas 90% das

indústrias de falsificação. Hong Kong está situado, na verdade em uma

continente. Internacionalmente, Hong Kong é conhecida hoje como a

China Capitalista (ou china democrática) e o restante da China

conhecida como a Republica popular(ou China continental). É

importante saber um pouco sobre alguns elementos históricos sobre

Hong Kong: em XX, depois de uma guerra com a Inglaterra, a

Inglaterra ficou apenas com o território de Hong Kong. Em 1997, a

colônia foi devolvida a China, com a condição de que a China não

poderia mudar o sistema econômico local por 50 anos. A partir de

1970, Hong Kong se torna um dos tigres asiáticos, grupo de paises

com crescimento anual muito rápido.

A minha idéia original era ir até Hong Kong, depois voltar 2 horas de

viagem até Guangdong. Mas logo que saímos de Xangai fomos

avisados que nosso visto já não valia mais para voltar à China. Deveria

requerer outro, pois eles tratam a China continental ainda como algo

separado de Hong Kong. Requerer outro é muito caro e demorado.

Estamos espantados com Hong Kong.

Shangai e “Chapéu” Chinês

Com chuva paulista, o calor tem dado uma trégua aqui em Xangai. Até a quinta-feira ficaremos aqui para tentarmos conhecer também as cidades

onde está instalado o porto de Pernambuco). Eles têm um escritório aqui para

aumentar a movimentação do porto no Brasil. Esse escritório pertence a um

chinês, Dr. Chen, que viveu no Brasil por uns 17 anos, e que foi o pioneiro em

levar a acupuntura para nossa terra. Ele nos mostrou uma série de

reportagens de revistas brasileiras com entrevistas com ele. Não conhecíamos

ninguém nesse escritório tampouco havíamos ligado antes agendando nossa

visita. Só tínhamos o endereço. Quando abriram a porta e souberam que

éramos brasileiros, nos convidaram imediatamente para tomar um café (sim

um café, não chá) e ficamos a tarde toda conversando. Tem um brasileiro

trabalhando com eles, o Rodrigo, um rapaz muito bacana, que se dispôs a

conversar um pouco sobre o trabalho deles em detalhes, desvendando mais

um pouco sobre o quebra-cabeça chinês. O escritório faz a intermediação

entre empresas brasileiras interessadas em comprar produtos da China. A

fórmula deles é a seguinte: a esposa do Dr. Chen, a Lou, mulher de uma

fineza milenar, fecha a negociação com as fábricas chinesas e o Rodrigo é

responsável pelo contato com o brasileiro, povo que ele conhece bem.

Fizeram questão de nos levar para jantar num restaurante Brasileiro, o Latino,

que já teve a presença de famosos como o Airton Senna, Pelé e a seleção

brasileira. A Juliana aproveitou para tirar o gosto de comida chinesa

apimentada, se deliciando com pão de queijo e salada brasileira. Foi uma

noite muito agradável. Andar com nativo é outra coisa. Levaram-nos de carro

no final da noite e ficaram surpresos com o preço do nosso hotel (na verdade

um Albergue), felizmente muito bem localizado.

Segundo o Rodrigo, todos têm uma história para contar de algum “chapéu”

tomado de um chinês. É ditado popular entre os brasileiros que se relacionam

com os chineses de que “ninguém sabe nada sobre os chineses, mas eles

sabem tudo sobre nós”. Ele estava se referindo a área de negócios,

especificamente em negociação de preços, de falta de qualidade de alguns

produtos, de apropriação indevida de idéias, etc. De fato, é difícil entender

esse povo com detalhe, para saber se estão te enrolando.

Na China eu e a Juliana nos sentimos pop stars. É muito comum os chineses

ficarem olhando os estrangeiros com olhares como se nunca tivesse visto um

e sempre cochicham entre eles. Para eles ainda é uma novidade. Perdemos as

contas das vezes que meninas pedem para tirar fotos com a gente. No inicio

chegamos a achar estranho, mas depois entendemos que para eles é como

um autógrafo, algo que eles vão mostrar na escola, no grupo de amigos.

Interessante também é quando fazemos as nossas fotos: eles copiam tudo,

querem fazer a mesma pose, no mesmo lugar, com os mesmos gestos.

comum tentarem trocar algumas frases em inglês e quando a

gente entende, eles dão uns pulinhos de alegria. Todo mundo, até

o mais velhos, quando fala um “thanks”, fica maravilhado. É uma

cena interessante.

Ontem eu e a Juliana estávamos numa livraria e apareceram duas

estudantes. Meninas simpáticas, usando frases básicas do inglês,

interessadas no Brasil. Todas essas estudantes demonstram um ar

de ingenuidade, de desconhecimento do mundo, mas sempre

defendendo sua pátria. Ficamos ali conversando um tempão, já

eram umas 8 horas da noite. Uma delas nos convidou para o “TIM

Festival”, que segundo elas, já ia começar, ali perto de onde

estávamos. Eu e a July adoramos a idéia. Perguntamos quem ia

cantar. Elas disseram “Não, não é TIM Festival” é “Tea Festival”, ou

seja, um festival de chá. Segundo elas isso é bem tradicional e

acontece a cada 4 anos. Bem, estávamos no calçadão da cidade e

não estávamos fazendo nada mesmo, vamos lá para ver.

Continuamos nossa conversa até chegarmos à casa de chá, bem

localizada, arquitetura chinesa com jovem com roupa lig-lig como

recepcionista. Sentamos numa mesa para 4 pessoas, numa sala

bem decorada, com vários vidros com diferentes ervas de chá

dentro sobre a mesa. Não parecia haver mais ninguém no local,

estranho para um festival tão tradicional. Tudo bem requintado,

mas “qual o preço?”, perguntei. Um silêncio de estranheza. Só a

Juliana não estranhou. Uma das meninas me explicou como seria:

em cada rodada seria servido um tipo de chá e o preço por pessoa

seria 20 reais, cada rodada. Seriam dezenas de rodadas. Ali me

lembrei de um famoso golpe no Brasil conhecido como “Boa noite

Cinderela”. Trata-se de colocar sonífero na bebida e depois

acontece o roubo. Mas era uma sensação confusa porque

estávamos, desde Frankfurt, totalmente livres de desonestidade, já

acostumados. E as tais estudantes, tão gentis… Mas pesou a

brasilidade: “Bem, meninas, We LOOOOOOOOOOOOve Tea, love,

love, love but”(ou seja, amamos chá)…bem, disse que tínhamos

que ir embora, agradecemos e saímos. Saímos com o gosto da

dúvida. Precisávamos tomar um chá de esquecimento. Quando

chegamos ao Albergue, logo na entrada, no primeiro painel, um

amigáveis levam estrangeiros para tomar chá num suposto Festival de Chá e no final a conta fica exorbitante”. Ficamos aliviados porque não tínhamos mais

dúvida. Acho que o chapéu que tomamos dos chineses, seguindo a frase do Rodrigo, ficou com o melão que pagamos 6 reais na fronteira da China com

Mongólia, sendo que valia menos de um real. Hoje à noite, novamente algumas meninas queriam tirar foto com a gente. Só tiramos porque logo apareceu

a mãe delas sorridente. Só falta estarem colocando a mãe também no festival do Chá, aí já é demais…

Hoje de manhã, perdemos a manhã inteira procurando a Unilever Xangai. Não quero trabalhar nas férias, mas trata-se de um prédio modernista que

estava muito curioso em conhecer. Perdemos a curiosidade. Com o mapa na mão, encontramos a rua, mas não encontramos o prédio. E ninguém

conhecia. É tão moderno o prédio que ele deve ser invisível; existem todas as numerações na rua mas não existe o número do prédio da Unilever. A

chuva e falta de orelhão público nos expulsaram de outras tentativas. Bom mesmo é ficar olhando os prédios futuristas dessa cidade. Impressionante

saber que 20 anos atrás Xangai era apenas uma cidade rural.

Shangai e Entendendo a China

Sábado, último dia em Pequim. Na sexta-feira pela noite, seguindo

todas as recomendações de todos os guias de viagem e o apelo dos

cartazes em todos os lugares espalhados pela cidade, inclusive no

Albergue, resolvemos ceder e ir até uma ópera. Calma aí. Não é uma

ópera estilo Teatro municipal de São Paulo. Ópera aqui tem de tudo:

uma mistura de canto, dança, mímica e acrobacia. O preço é de

Broadway. É um espetáculo muito antigo e tradicional. Segundo o

nosso guia, o lugar recomendado, uma casa de Chá, tinha

apresentações 4 vezes ao dia, sendo a última as 21:30. Junto com a

apresentação, um chá bem servido e com a seguinte descrição do

autor: “um teatro-salão de chá de onde se ouvem risos: são

palhaços, acrobatas, mágico, todos envolvidos em uma alegria

geral.”. Da mesma forma que o Pinóquio caia nas mesmas

armadilhas, seduzido pelos interceptadores de plantão, eu e a Juliana

fomos até o teatro às 21 horas para tentarmos pegar a última

sessão. Adoramos teatro, vale o investimento caro. Na recepção,

conforme o mesmo guia, um rapaz a caráter China in Box: “Hello

(alegremente)Can I help you?”. Expliquei o que queríamos e me

disse que na verdade só existia uma sessão por dia e que a última já

estava terminando, faltava apenas meia hora para acabar. Se

estivéssemos interessados em comprar o ingresso para o dia

seguinte, poderíamos subir e tomar um chá enquanto o espetáculo

terminava. A casa é bem bonita, bem caracterizada, todo mundo

vestido lig-lig e com fotos de vários estadistas. O salão estava cheio,

todo mundo fotografando e bebendo chá. Logo vimos do que se

tratava pelos descompassos dos acrobatas: um show para turista.

Dos 30 minutos que assistimos não havia nada de sofisticado,

apenas pulos encenados e muito show de iluminação. Se é só para

tirar foto, tudo bem, também tiramos. Ficamos decepcionados com o

guia, mas pelo menos saiu barato.

Dia seguinte, sábado, acordamos mais tarde para termos um dia

Templo dos Lamas, um palácio de 1964 com cinco pátios

simboliza os laços com o Tibet. É considerado o templo budista

mais importante da China, com uma estatua do Buda que está no

Guiness Book devido ao seu tamanho. Tudo protegido por mais de

100 monges. É um lugar muito bonito, arborizado, calmo mas

com muita fumaça de incenso. Felizmente, em nosso último dia o

calor deu uma trégua e o dia estava nublado. Fez muito calor nos

últimos dias e um calor abafado.

Voltando para o Albergue para pegar nossas malas, passamos

antes para nos despedir do Mao Tse-Tung embalsamado. Após a

sala onde repousa, é chocante a quantidade de quinquilharias que

vendem com sua imagem. Fazem capitalismo com ele, justamente

ele, “O Grande Timoneiro”, líder da revolução comunista de 1949.

Um último passeio de Trici (bicicletas táxi) entre o Albergue e o

Metro. Muito romântico: para nossa surpresa, o “Senhorzinho” fez

um caminho entre vielas de casas que nos remeteram a Veneza,

totalmente diferente dos cheiros e desvios de pessoas no caminho

tradicional. Pagamos a mais, por recompensa.

Ficamos estarrecidos com a quantidade de gente na estação de

trem. Era como se estivéssemos saindo com as malas no final do

jogo entre Flamengo e Fluminense no Maracanã. Muuuuuuita

gente. E o Chinês não respeita fila, não respeita faixa de pedestre,

tem costume de cuspir na rua a toda hora, de arrotar sem rodeios,

de soltar pum no elevador denunciando a autoria… Tudo normal.

Perguntei umas 50 vezes para mais 50 chineses onde eu deveria

pegar o trem. Chegamos lá. Para nossa surpresa, salão de

embarque bem chique. O trem e a estação bem diferentes da

Rússia, e muito mais parecida com o Europeu. Trem silencioso,

moderno e de alta velocidade, mas os assentos não eram camas.

Não deu para ver nada lá fora. Foram 12 horas de viagem até

controlador de ticket averiguando meu bilhete e falando várias coisas

em chinês (o chinês tem essa mania, fala, fala, fala e depois parece

que não serve para nada). Concordei com tudo e tentei dormir.

Chegamos em Xangai hoje pela manhã. Já no percurso do albergue

sentimos os ares da Megalópole. Xangai, a capital financeira da

China, é uma megalópole com arranha-céus, porto, trem de altavelocidade

e paisagem futurista. Nosso Albergue fica bem pertinho

dos dois principais pontos turísticos, a rua Bund e Nanjing.. A Bund

tem a melhor vista dos arranha-céus. O Terceiro maior prédio do

mundo está aqui, junto com a torre de televisão. A paisagem é bem

futurista e com visita obrigatória de dia e de noite. A noite é como

uma festa de ano novo. Tudo iluminado com milhares de pessoas na

margem do rio. A Nanjing o centro de consumo. Hoje é domingo

mas parecia uma segunda-feira normal, milhares de pessoas pelas

ruas, um consumo fervoroso.

A cidade de Xangai é a cidade que mais cresce no mundo, com

velocidade exponencial. Os prédios brotam da noite para o dia. Não

tem nada a ver com Pequim. Aqui não se constrói prédio por

construir; todos são diferentes, revolucionários e imponentes, sem

perder os conceitos básicos chinês do Feng Shui e o dragão na

entrada. Esse foi nosso passeio por hoje.

Vale entender um pouco mais sobre a China…

Acho que é importante todos entenderem um pouco o que está

realmente por trás de tanto desenvolvimento. Por que afinal tantos

países ricos estão preocupados com o desenvolvimento da China e

por que esse país poderá ser o mais rico no futuro? A minha idéia é

dar uma visão de dentro para fora, ou seja, da China para fora,

baseado no quebra-cabeça que estou tentando montar aqui in loco.

Os chineses sofreram muito nos séculos 19 e 20: passaram por

diversas guerras, incluindo a Segunda Guerra Mundial e disputas

mais específicas com a Inglaterra e Japão, e uma Revolução

Comunista em 1949. O que está no inconciente coletivo atual é que o

povo não quer mais sofrer, agora ele quer bem estar e construir o

futuro. A partir de 1978, com a morte de Mão Tse-Tung, o governo

chinês começou a permitir a criação de empresas, com a condição de

mínimo de participação de 51% para investidor local chinês e

máximo de 49% para empresa estrangeira. A China tem uma

de pessoas e devido essa massa de gente, o salário é muito baixo

(o Brasil tem 1,7 milhões de habitantes). A negociação salarial é

praticamente entre o empregado e o investidor, não existe salário

mínimo e nem limite de horas trabalhadas (existe problema

também nas condições de trabalho). Os Chineses trabalham muito

sob o lema de serem “melhores em tudo”. Essa é a propaganda

que mais se vê por aqui: a propaganda do governo estimulando o

patriotismo e a “serem melhores em tudo”, principalmente melhor

que o Japão, país que eles declaradamente odeiam, sem rodeios.

Enfim, como o custo é baixo, a capacidade intelectual muito alta

(escola do Estado gratuita e muita gente estudando fora do país), a

vontade de trabalhar muito alta (não há greve e o lema “melhor

em tudo”) e a posição geográfica da China, as empresas

multinacionais vêm transferindo sua produção para cá. Depois

disso, o governo, informalmente, estimula as empresas locais a

copiarem esses produtos. Isso mesmo, copiarem: a mesma

máquina que faz o Nike original é a mesma máquina que faz a

cópia em outra fábrica, praticamente ao lado. Em alguns casos, a

cópia é feita na mesma fábrica. Como o governo estimula as

empresas copiarem? Concedendo crédito e fingindo que não está

vendo (afinal é ilegal dentro do comércio internacional). Por que o

governo estimula a cópia? Primeiro porque é necessário arrumar

emprego para muita gente; segundo porque depois que essa

empresa aprende a fazer a cópia, ela aperfeiçoa (o Ipod cópia é

mais avançado que o original), ganha o know-how e lança a

própria marca e passa a vender, no primeiro instante, ao mercado

consumidor chinês (não se esqueça: 1,4 bilhões de consumidores

potenciais) de forma legalizada. Ou seja, nasce teoricamente ilegal

e depois legaliza a empresa. E esse estímulo à cópia está em tudo,

literalmente tudo: copiam eletrônicos, calçados, roupas, plantação

de flores, frutos e até adereços de carnaval. Tudo. O governo

patrocina viagens para chineses saírem copiando pelo mundo. Isso

é a forma de gerar o desenvolvimento para o futuro. Ironicamente,

o que o governo chinês está fazendo em relação as processo de

cópias não foi diferente do que o Japão fez no século XX.

Além do desenvolvimento industrial (inclusive dos falsificados),

justamente onde estou indo, o governo também criou política de crédito

(taxas muito baixas de longo prazo) para quem quer investir em

pequenos negócios(serviço, turismo, etc). Hoje é muito comum estar na

periferia de uma grande cidade, como Xangai, e pensar que está no

centro da cidade, de tantas lojas e quantidade de consumidores. De fato,

o consumo é fervoroso. Claro, também porque ficou reprimido por muito

tempo. Os McDonalds e as lojas (inclusive de marcas) estão sempre

lotadas. Além do salário ganho em grandes quantidades de horas

trabalhadas (férias apenas 1 semana por ano), o governo concede crédito

a taxas muito baixas. Fácil o porquê: as pessoas guardam em poupança

30% do que ganham, é um costume geral. Logo, os bancos (só o

governo chinês tem banco aqui) ficam abarrotados de dinheiro (muito

dinheiro, juros baixos). As empresas crescem 10% ao ano (lembre-se,

parte das empresas detêm 51% da sociedade com a multinacional e

outras são 100% chinesas), muitas praticamente devido ao crescimento

de consumo dentro da China. Com o dinheiro, constroem prédios

gigantescos de escritórios e sedes de empresas. Com taxa de crescimento

de 10% ao ano, a bolsa de valores chineses atrai muitos investimentos

externos e vale dizer que o modelo de bolsa criado pelos chineses é mais

seguro do que os de outros lugares do mundo.

O governo tem o controle de tudo. Controle da natalidade: ainda uma

família só pode ter um filho. Controle sobre a informação: não se pode,

por exemplo, acessar blogs na internet (é verdade, não consigo acessar!).

O país é um misto de comunismo com capitalismo. Só é permitido ter

propriedade privada nas cidades. No campo, tudo pertence ao governo. O

governo concede licença para pequenos produtores rurais e decide tudo o

que deve ser plantado (existe um preocupação enorme com a alimentação

e desenvolvimento de saneamento básico nessas regiões). A taxa de

analfabetismo ainda é uma informação desencontrada. Já encontrei zero e

também 15%. 80% dos chineses acreditam em crenças populares, não

tem religião. O comunismo tentou aniquilar tudo.

Só existe um partido político, o partido comunista. Não existe eleição para

nada e o povo chinês tem um respeito enorme pela autoridade. Quando a

oposição e não se fala em política nas ruas. É fato que o Chinês

está muito ocupado com trabalho e trabalho e melhoria de vida.

Esse é o motor da China e que toda essa conjunção somada a força

desse povo milenar e ancestral, poderá levar esse país

aceleradamente a maior potência mundial.

“E o Paraguai?” “E a 25 de março?” Talvez alguns de vocês devem

estar se perguntando. Os produtos que entram no Paraguai são

importados via Taiwan. Taiwan é uma ilha ao lado da China e a

China se declara dona de Taiwan. Taiwan não aceita, mas também

não reclama. Quem vai reclamar com um dos maiores exércitos do

mundo? Bem, Taiwan trás da China os produtos que vão para o

Paraguai. O Paraguai compra Containeres fechados de produtos

(parte é falsificado, parte original mas que está quase fora de linha,

são produtos sem garantia) que vem da China meio que por vista

grossa da polícia. É um mercado que funciona assim: vai pagar a

vista? Então leva esse container agora e fechado. O Paraguai leva.

Existe uma tese de que isso é uma lavagem de dinheiro chinês. O

chinês precisa girar rápido o dinheiro para justificar algum negócio,

então vende containeres fechado a preço barato. Faz sentido pelo

seguinte: o preço de uma máquina digital da Sony (que tem 70%

de chance de ser uma cópia) na 25 de março é de 600 reais (eu fui

lá e cotei) e o preço da mesma máquina aqui na China é de….600

reais (convertendo claro). Deveria ser mais barato na China, não?

O fato é que a China vende para o Paraguai o container fechado a

preço muito convidativo, o Paraguai importa pelo porto de Santos e

coloca a venda na Cidade Del Leste, ao lado de Foz do Iguaçu. O

Brasileiro vai lá e traz para vender na 25 de março sem pagar

imposto.

Bem essas são minhas impressões econômicas até aqui.

Sinceramente, precisei vir pessoalmente para ter certeza de

algumas coisas. Vou enviando as peças do quebra-cabeça,

conforme conseguir encontrar.

Enfim Pequim

Chegamos 3 da manhã em Pequim. Como já comentei, horário muito

ruim para se chegar em um lugar desconhecido. Novamente, só fomos

encontrar o albergue lá pelas 6 horas da manhã, depois que resolvemos

recorrer àqueles táxis-bicicleta. Ficamos mais de duas horas no mesmo

lugar procurando a rua e ele chegou lá em menos de 5 minutos. Achei até

que ele estava me enganando. É realmente difícil andar por Pequim sem

saber falar chines.

Nem chegamos a dormir, tamanha nossa ansiedade em conhecer a

cidade. O Albergue é bem localizado, está próximo da Praça da Paz

Celestial e Cidade proibida. Mas o negócio de proximidade aqui é muito

relativo, tudo é meio duplamente distante devido aos longos quarteirões e

a grande quantidade de túneis debaixo das vias. No mapa o percurso é

simples, mas no real, chegamos até desistir de alguns desvios de percurso

quando víamos algo interessante: demorava muito para chegar lá.

O número de pessoas pelas ruas é impressionante. Tem chinês em tudo

quanto é lugar e fazendo de tudo (haja emprego para tanta gente). Teve

uma vez que fui dar descarga, saiu um chinês de trás da porta com um

balde d’água…brincadeirinha.

É um mundaréu de gente, de bicicleta, de carros, táxi-bicicleta, de

camelôs. A impressão que estou tendo é de que Pequim é uma 25 de

março permanentemente na época de natal. E de fato é isso mesmo, aqui

é uma 25 de março do mundo, é o Brás do Mundo, é a José Paulino do

Mundo e também a Oscar Freire dos falsificados do Mundo. Aqui existe

um shopping legalizado só de produtos falsificados. Até Ice Tea vendido

nas ruas é falsificado.

Tudo pelas ruas é muito barato! Mas é necessário pechinchar e isso dá

trabalho. O preço começa com 100 reais e você tem que ter saliva para

virar 5 reais. E é uma choradeira dos dois lados que cansa, desestimula a

compra. Eles procuram não colocar preço, propositalmente. Nas ruas,

tudo é vendido com dois preços: para o chinês e para o turista, nada tem

preço marcado. Dá trabalho comprar quando não tem preço. Encontramos

por aqui um mercadinho Dia% do Carrefour que está nos servindo bem

com produtos tabelados super-baratos. O Mcdonalds é menos da metade

do preço do Brasil.

É impossível fugir das compras, elas estão em todos os lugares com os

Chineses. Mas também visitamos os pontos turísticos mais famosos, como

a Cidade Proibida (palácios incríveis, são 9 mil salas) o palácio de verão

Muralha, essa sim, um passeio realmente incrível, que fala por si só

(levou 2000 anos pra construí-la). O passeio leva um dia porque a

Muralha fica aproximadamente umas duas horas de Pequim. Ela é

dividida em vários trechos. Nós caminhamos um bom pedaço da

muralha na cidade de Badaling, algo como uns dois quilômetros. A

verdade é que ela é uma imensa escadaria, num sob desce bem

cansativo, mas a paisagem compensa e muito. Também é necessário

aumentar o depósito de paciência devido a grande quantidade de

chineses e ressaltar que 99% dos turistas são os próprios chineses de

outras regiões. O fato é que os chineses só começaram a ter dinheiro

para turismo depois que a China se tornou parcialmente uma economia

de mercado, no inicio dos anos 90. A China ainda é um país governado

pelos comunistas e bastante antidemocrático (só existe um partido no

país e existe censura), mas permite a abertura de empresa, propriedade

privada em certas regiões, herança, etc. Por outro lado, o governo

continua muito forte na economia, mantendo empresas e criando

outras, algo típico de governos socialista. A mão de obra chinesa é

muito barata, fácil entender: a população é 7 vezes maior que do Brasil.

Então as pessoas tentam vender de tudo em Pequim. E os ambulantes,

vendedores e tudo quanto é gente vivem falando “Hello” para tentar

atrair o turista. A rua do nosso albergue é bem interessante: é uma rua

estreita, com muita gente pelas ruas, com restaurante que fazem a

comida na calçada, alguns pequenos comércios com comidas bem

estranhas (escorpião no espeto, pato com cabeça, pé de galinha no

espeto, ovo dentro do balde, melão no espeto, e uma série de comidas

difíceis de descrever) com camelôs vendendo tranqueiras de tudo

quanto é tipo de barulho de brinquedo.

A Pequim vem perdendo sua arquitetura própria antiga para a

arquitetura ocidental. Vejo muitos ambulantes pelas ruas e pouca

meditação. A pobreza está misturada com a cidade sendo erguida. É

impressionante a quantidade de prédios sendo erguidos e a beleza do

centro olímpico (fizemos uma visita ao estádio conhecido como “grande

ninho”, maravilhoso!). Pequim está se preparando para as olimpíadas do

ano que vem treinando todo mundo com inglês (ainda não está dando

resultado) e investindo pesado. Fico imaginando que se nesse verão já

está sendo bem difícil andar pela cidade (e ela não é bem servida de

Amanhã será nosso último dia por aqui. Vamos visitar um templo budista pois queremos ter um dia mais calmo para nos prepararmos para

nossa próxima etapa, Xangai. Partiremos para a capital financeira da China amanhã pela noite. Nossa meta por lá será visitarmos uma fábrica de

produtos falsificados e entendermos de perto a lógica dessa economia.

Fronteira Mongólia e China

Chegamos em Zumy Udd às 7 horas da manhã de segunda-feira. A

paisagem lunar do deserto do Gobi nos acompanhou pela tarde do

domingo e pela fria noite (veja foto de estátuas de dinossauros

espalhadas pelo deserto). Novamente, uma hora antes de chegarmos,

a Provodnitsa nos tomava os lençóis sem bem nos acordar apenas

para adiantar o lado dela. Enquanto isso já se formava uma filinha de

maus hálitos na porta do banheiro. O trem tem dois banheiros, mas

era comum um estar sempre trancado. Importante falar um pouco

sobre o funcionamento dos banheiros nos trens: meia hora antes do

trem parar em uma estação e meia hora depois do trem partir, os

banheiros ficam fechados, tudo isso porque o que vai para o

troninho, vai para os trilhos do trem. Dá uma sensação de perda

quando se aciona a descarga, e se abre uma comporta, podendo ver

os trilhos levando um tapa na cara de coisas indevidas… Bem, o

banheiro é bem apertado e a torneira sai pouca água. Não é possível

tomar banho nos trens, quem quiser pode tomar banho de gato, se

lambendo com panos umedecidos de nenê. Os banheiros são

disputados, e a verdade é que mesmo com a tal regra da meia hora,

nunca se sabe quando estão abertos e não há relógio biológico que

se ajuste. Quando abrem, formam-se filinhas. Quando estava nessa

filinha, veio um rapaz conversar comigo, dizendo que a Uelun e a

Bumma haviam pedido para ele me ajudar com a travessia para a

China. Que legal, as meninas nos ajudaram com mais essa! Ficamos

mais despreocupados. Logo que o trem chegou, percebemos que as

pessoas saíram em disparada, parecia uma fuga em massa do trem,

correndo para fora da estação. Pior é que o rapaz também correu e

fomos atrás deles desesperados carregando nossas malas nas costas.

Inicialmente estranhamos que só nós carregávamos malas, mas logo

lembramos que o pessoal estava justamente viajando para o

Paraguai, ou melhor, Paraguai não, China, para comprar produtos e

vender na Mongólia. Logo que saímos da estação, havia uma dezena

de táxis e minivans esperando os viajantes. O rapaz já tinha

garantido o lugar dele sei lá aonde e nem quis me dizer, e passou a

nos ajudar. Tive que comprar a moeda Chinesa porque, mesmo em

território Mongol, o povo dali só aceitava Yuan. Logo que sai do

banco, o rapaz foi me apresentado ao nosso motorista e

banco, ainda na estação por uns 20 minutos, fomos assediados por

outros taxistas (achei muito estranho porque se o nosso taxista já estava

ali em pé com a gente, por que outros taxistas pretenderiam roubar

cliente do amigo?). Depois que todos os carros se foram, o nosso taxista

resolveu se mexer: colocou uns óculos escuros, pegou uma de nossas

malas e foi conduzindo a gente e mais dois rapazes para o seu táxi (com

direção inglesa, claro). Bem, todas as malas (também somando a dos

rapazes) não cabiam no porta-malas. Teve que ir mala dentro do carro,

totalmente lotado, paciência. Ali começava a primeira etapa do processo:

o carro foi atravessando a cidade Zumy Udd, que, diga-se de passagem,

só vale o comentário de que a cidade mais quente da Mongólia, e fomos

percorrendo um misero percurso de 1 kilômetro até o portão de saída da

Mongólia. O portão ainda estava fechado. Na verdade, fechado mesmo

estava o portão da China, no outro lado, que só abriria às 9 horas. No

lado de cá, em frente ao portão de saída, uma centena de Jipes

enfileirados, esperando a hora de abrir. Nosso taxista Ray-Ban parou o

carro há uns 30 metros deles e pediu para todos ficarem ali com as

malas esperando. Aproveitei para andar e entender um pouco qual seria

a próxima etapa, buscando ser discreto porque havia vários militares

mongóis gritando com os motoristas. Nessa caminhada, vários jipeiros

me ofereceram a travessia, então já conclui que a turma toda que estava

na estação estava naqueles jipes. Uns 20 minutos depois o nosso taxista

aparece sem carro e fica ali esperando com a gente. E a Juliana: “Edu,

você tá entendendo? Tá normal isso?”. E fui confortando: “bem, foi o

amigo das meninas da Mongólia que indicaram. Tô confiando!”. Passou

uma meia hora, faltava mais meia hora para a fronteira abrir. Vem um

jovem militar conversar com nosso taxista. O Ray-ban mostra pra ele a

gente e os outros dois rapazes e fica mais um tempão mostrando nossas

big malas. O militar fica olhando pensativo, com cara de durão, põe mão

no queixo, balbucia um Mongoles e os dois se entendem. O militar então

faz o sinal de “vamos”. E todos, inclusive o Ray-ban, juntamos as coisas,

e fomos atrás da autoridade, em direção ao controle de saída (é parecido

com um pedágio de carros), distante uns 100 metros dali. Fomos

andando de cabeça baixa para não despertar a fúria dos jipeiros, afinal

dava a entender que estávamos passando na frente dele. No meio do

caminho, nossa autoridade encontra o superior e fica bem mansinho

Nós ficamos ali, não entendo nada mas também não querendo que o rapaz

perdesse o emprego por um negócio que eu nem sei o que ele estava

fazendo. Mas se estava “se explicando” é porque tinha coisa errada…Mas ele

venceu a barreira, abriu um sorriso (o Ray-ban também) e fomos para a

lateral da cabine (também pensei que ia ser para a cabine). O Ray-ban pediu

para ficarmos atrás de um Jipe que também já estava lá abarrotado de gente

e ficarmos em silêncio. Todo aquele suspense de ficar escondido estava

parecendo os mexicanos atravessando a fronteira com os Estados Unidos de

forma ilegal. Mas o que ainda não entendíamos é porque tudo aquilo se

tínhamos tudo legalizado? Nem bem pensei nas prováveis motivos, o Rayban

gritou um “now!”(agora!), colocou uma mala nas costas e saiu em

disparada. Fizemos o mesmo, correndo atrás dele sem entender nada,

cruzando a avenida. O Jipe saiu em disparada. Do outro lado da avenida,

todos com a língua no chão, o carro do Ray-ban estava nos esperando, com

o militarzinho sentado no volante. As malas foram socadas a força, nos

jogamos no carro e saímos a 140 km por hora para percorrer 2 kilometros.

No fim desse percurso, a verdadeira saída da Mongólia. Com o militarzinho

no volante, foram abrindo passagem e estacionamos em frente à alfândega.

Entramos, sempre correndo e ofegante, preenchemos os formulários de saída

e carimbamos os passaportes. O carro já estava nos esperando do outro lado

para mais uma etapa, agora sim, passar a linha de fronteira e entrar na

China. Fomos muito bem recebidos na entrada da china, provavelmente o

pessoal de fronteira deve estar sendo treinado para as olimpíadas do ano que

vem. Atendimento 100%, com muita educação. Mesmo a nossa pressa, ou

melhor, a pressa imposta pelo Ray-ban, não incomodou o pessoal da Polícia.

È claro que é um tal de preenche aqui, preenche ali e paga taxa (taxa? Eu já

não paguei um visto super caro no Brasil?) de entrada. E enfim, depois de

toda essa correria e sermos tratados como ilegais legalizados, entramos em

Eren, na China. Eu e a Juliana temos teses diferentes sobre o ocorrido, ou

seja, sobre o motivo de tanta correria e a ajuda do militar. Com o problema

da língua, vai ficar difícil saber a causa real. Então, fica para a imaginação.

O taxista nos deixou na rodoviária local, onde a partir dali quem nos ajudaria

eram os dois rapazes que já estavam no táxi e também iam para Pequim.

Eram 9:30, o ônibus sairia as 14:00, aproveitamos para conhecer Eren, uma

cidade grande com comércio voltado para o pessoal que vem da Mongólia ou

Rússia fazer compra. É claro que ali já começava a paisagem cheia de

Depois de darmos uma voltinha por Eren e pagar 6 Reais por um

melão que valia menos de um Real (descobrimos que os ambulantes

chineses cobram preços diferentes para turistas), pegamos o ônibus

às 14 horas com destino a Pequim. Não conseguimos obter a

informação de quando o ônibus chegaria à capital, mas quando

vimos que no ônibus não havia poltronas, mas sim camas, isso

mesmo, camas!, já fomos logo imaginando que passaríamos a noite

nele. Adoro ônibus e fiquei fascinado por este cheio de beliches.

Foram os rapazes que haviam comprado nossa passagem, então

acho que pensaram que estavam escolhendo o melhor lugar para

gente, com a melhor vista, bem na frente, bem próxima do

motorista. Na primeira meia hora tudo era uma maravilha: tudo

novidade e o ônibus apenas manobrando pela cidade. Quando

pegou a estrada, a coisa ficou muito diferente. Os chineses adoram,

mas adoram buzinar. Buzinam para tudo! Qualquer mosca que

passar na frente, buzina. Tem uma bicicleta lá longe, buzina.

As estradas me surpreenderam nessa região, são bem sinalizadas,

com duas pistas, bem diferente do que eu pensava. Logo no inicio

da noite, o motorista deu uma paradinha para todos jantarem e irem

ao banheiro. Muito bem, pensei, é uma preparação para dormirmos

durante a viagem. Ok, cadê o banheiro? Não havia banheiro. O

suposto banheiro ficava fora da parada, no meio do mato, um

cercadinho de concreto ao céu aberto, sem nada. E todo mundo ia

lá, abaixava as calças, normal, todo mundo vendo. Alguns eram

mais discretos e escondiam o calcanhar no matinho, o resto ficava

aparecendo. A Juliana, com razão, ficou desesperada porque era

uma mistura de “falta de banheiro”, cheiro ruim e demora para o

ônibus partir. Tive que hipnotizá-la. O restaurante também era

terrível, muito sujo, mas o pessoal lambia os beiços. O fato é que o

interior da China ainda tem problemas graves de saneamento básico

e higiene. O ônibus seguiu viagem noite adentro, tentamos dormir,

mas a verdade é que foi uma noite infernal. Era como se o ônibus

estivesse na Via Dutra à noite, cortando os caminhões, buzinando,

buzinando muito, muito calor, e ainda, para nossa surpresa,

Ullan Battor (Mongólia)

Estava previsto a chegada do trem às 7 horas da manhã em Ullan-

Battor. As 5:30 fomos acordados pela Provodnitsa, pedindo os

lençóis e já tomando os travesseiros. Ela queria adiantar a parte dela

para chegar já com o trem organizado. Logo abrimos as cortinas na

cabine e vimos o que não esperávamos: uma paisagem

permanentemente cartão postal. Já estávamos em terras Mongóis por

umas boas horas, mas infelizmente passamos a maior parte pela

noite. O que víamos era um campo verdinho, montanhas

arredondadas com gramado bem acertado (parece um imenso, mas

imenso campo de golfe de clube milionário). Em espaços muito

distantes um do outro havia uma cabana branca em formato circular

com um grupinho de gado e cavalo pela porta. Algumas cabanas

continham camelos. Estávamos diante daquilo que nos apaixonamos

nessa viagem: o Gher. O fato é que mais de 50% da população da

Mongólia é nômade e vive em Ghers, ou seja, cabanas que,

dependendo da estação do ano ou do clima, mudam de lugar

quando bem entendem: é livre. Lembrando que a Mongólia também

era socialista até o inicio dos anos 90, o Estado continua sendo dono

da maior parte das terras do país. Praticamente não existe

agricultura, a terra não é boa e o clima não ajuda e a Mongólia tem a

mais baixa densidade demográfica do mundo. O Gher encanta pela

sua liberdade, e pelo casamento da sua arquitetura e organização

com a paisagem natural. Nesse pequeno percurso até chegarmos a

Ullan-Battor ficamos admirando a paisagem com aparecimento do sol

Logo que saímos do trem encontramos a Bumma, mongoliana colega

de classe do Renato no curso que ele fez no Japão dois meses atrás.

Foi fácil identifica-la, ela estava com um cartaz imenso com a

impressão dos nossos passaportes (a primeira página do passaporte e

o visto) que eu havia enviado por mail tempo atrás para ela comprar o

passe de trem para a Pequim. Com aquele cartaz com foto de

documento parecíamos muito mais procurados pela polícia…mas isso

era a minha maldade brasileira.

A Bumma é uma simpatia. Tem um inglês 1,5, mas isso não impediu

nem um pouco nossos entendimentos. Logo ela foi convidando a gente

para um carro onde havia um rapaz esperando no volante.

Entendemos pelas poucas palavras dela que ele era um motorista

particular. Mostramos o endereço do albergue e eles nos levaram até

lá, foi ótimo porque teríamos que andar por muito tempo com aquelas

malas e dificilmente encontraríamos um albergue tão escondido,

apesar de ficar no centro da cidade. Dias antes, a Bumma, tentando

ajudar, havia me enviado umas opções de hotéis com preços módicos,

segundo ela, de aproximadamente uns 80 dólares a diária. Ela quase

caiu para trás quando eu disse que o albergue custava 4 dólares por

noite… e esse albergue era bem legal, estava cheio de viajantes do

mundo inteiro, bem localizado e com um atendimento amigável. Os

preços começam a deixar os valores altos que enfrentamos na Rússia…

Teríamos dois dias pela Mongólia, infelizmente meu visto durava

pouco e não havíamos encontrado passagem para Zamyn-Uud,

da Mongólia com a China, para mais dias. Todo mundo dessa região quer

ir para China para fazer compras ou passear. Além disso, é verão…

A Bumma convidou a gente para um passeio, e nos pegou no Albergue

às 11 da manhã. Não pude conter a alegria quando ela disse que iríamos

ao parque nacional do Terelj, distante uns 100 km da capital. Já estamos

planejando fazer esse passeio, mas íamos desistir porque o transporte até

esse lugar é muito caro e de difícil acesso para quem não vai por pacote.

Agora, fazer o passeio com nativo é outra história. Então, a Bumma e o

motorista nos levaram até Terejl. Fizemos questão de pagar a gasolina e

a entrada no parque. Foi difícil convencê-los. O passeio foi maravilhoso,

o parque é maravilhoso. Ele conta com uma paisagem fantástica e

novamente os Ghers espalhados. Como disse, com nativo é outra

história: andamos de camelo, fomos até um templo budista no alto de

um morro, andamos a cavalo (lembrando que a Mongólia ama cavalo,

eles são especialistas nesse animal), almoçamos num restaurante com

comida típica (ali eu perguntei para a Bumma se ela tinha irmãos e ela

apontou para o motorista, ou seja, a comunicação tarda mas não falha),

bebemos leite de égua (difícil de falar que é gostoso, mas eles bebem

isso a todo instante) e visitamos um Gher de verdade, não Gher para

turista ver. Ficamos a tarde toda com eles, tirando fotos e bebendo

iogurte e andando a cavalo. São pessoas simples, de muito bom coração.

Adoramos essa parte. Isso sim é o socialismo puro! O nômade do Gher

vive com família, mantem a tradição (a cabana tem uma divisão interna

idêntica com outras cabanas, com disposição dos móveis e

responsabilidades bem definidas). Sua subsistência vem dos animais: se

come ou se comercializa. E quando quer, muda de lugar. Antes de

sairmos do parque a Bumma e o irmão nos levaram até a construção da

estátua do Gengis khan (primeiro rei da Mongólia conquistou um império

que ia da China até a Europa; por favor, sei que é difícil, mas não façam

referência irônica com aquele antigo grupo musical, alíás o Mongoliano

vive corrigindo a pronúncia, a pronúncia correta é algo como “Rengis

Rã”). No final da noite, se juntou com a gente outra amiga do Renato, a

Uelun, e fomos conhecer uma discoteca e claro, tocaram uma música

brasileira: “esse samba é misto de maracatu, é samba de preto velho, é

samba de preto tu”. Acho que as meninas que pediram…ficamos até de

madrugada.

No dia seguinte saímos para conhecer Ullan-Battor. Interessante é que

essa cidade cresceu mesmo após o fim do socialismo e as pessoas, por

Até 20 anos atrás, segundo a Uelun, também outra pessoa muito

simpática, com nível de inglês 5, a cidade se resumia a uns quatro

quarteirões de prédios residenciais modelo Stálin e um quarteirão com

a sede do governo e serviços estatais. Ela mesma morava num desses

quarteirões porque o pai dela era envolvido com o governo.

Novamente enchi de perguntas enfadonhas sobre o período socialista,

e foi bem interessante ouvir o ponto de vista arquitetônico.

Subimos num mirante para ver a cidade, fomos até o museu de

história natural (tem diversos dinossauros montados com ossos

encontrados no deserto do Gobi, no sul da Mongólia. Segundo consta,

esse foi o último habitat de vida de dinossauros na terra). Sem dúvida,

um museu que valeu a pena visitar. Almoçamos novamente num

restaurante típico: sempre começa com chá misturado com leite

(sempre no finalzinho sobram um pozinho fino), depois uma sopa com

trouxinhas com carne de carneiros e o prato final, quatro pastéis de

carne de vaca. A Juliana tomou uma sopinha de galinha bem básica e

um peixe padrão. Antes de embarcamos para Zamyn Uud, a Bumma e

Uelun nos levaram para um templo budista (80% dos mongolianos

são budistas, 5% são ateus e 5% outros) e nos presentearam um

maravilho quadro que aparece um Gher no meio do deserto. A

despedida foi difícil e emocionante. Ficamos dois dias maravilhados

com a soma de bondade, simplicidade e paisagem. A maior parte dos

turistas endinheirados de toda parte do mundo que encontramos vem

para cá se aventuram por uns 20 dias pela Mongólia, viajando a

cavalo, morando em Gher, algo que realmente vale a pena. Sabíamos

que estávamos deixando para trás outras paisagens não exploradas,

mas que ficarão para uma próxima vez. Além disso, ficamos muito

sensibilizados com a hospitalidade das meninas e preocupação

permanente em nos agradar (felizmente era um fim de semana).

Sabíamos que era impossível manter o nível de cordialidade que o

Renato tem com as pessoas, mas nos esforçamos com as boas

maneiras ensinadas pelo Zaya, inclusive com o abraço ensinado por

ele. O trem partiu às 16 horas do domingo rumo a Zumy Udd, muitas

pessoas na estação se despedindo, a imagem intrigante foi o trem já

andando e de quando em quando, algumas pessoas pegando algum

líquido dentro de um vidrinho com colher e espalhando ao vento.

Pensamos ser algo para dar sorte e precisávamos: teríamos pela frente

a viagem até a fronteira, para depois tentar atravessar até a China e

depois chegar em Pequim, mas ainda não sabíamos como.