Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – O jantar com o Domingos

Decidimos ir. Nos preparamos então para o “jantar de gala” do Domingos. Sua simpatia era realmente contagiante. Atravessamos a rua e ficamos esperando o motorista no saguão do Holliday Inn. O motorista foi muito cordial, atravessou toda a cidade e entrou no complexo afastado do hotel Sheraton (na verdade, antigo Sheraton), o tal “5 estrelas” de boca cheia do Domingos. Nosso amigo estava na porta, de terno e gravata, um sorriso contagiante. “Que bom que vocês vieram, estou muito feliz por ter a companhia de vocês”. Domingos foi nos conduzindo pelo hotel explicando cada lugar. Perguntou ao concierge se a nossa mesa estava pronta. Com a negativa, nos conduziu primeiro ao bar, ao mesmo tempo em que explicava todos os detalhes do serviço, como se tivéssemos indo pela primeira vez em nossas vidas num hotel daquele porte. Mas não parecia arrogância dele. Era de fato uma maneira de nos deixar a vontade, demonstrando-se um bom anfitrião. Ele realmente queria que tudo saísse um sucesso. Quando a garçonete estava servindo Amarula e coca-cola, e por distração, se equivocou com os verdadeiros destinatários, Domingos fez a garçonete voltar o ritual e fazer o serviço correto, ao invés de trocar os copos na própria mesa. Dava para ver seu perfeccionismo, mas também transparecia um homem que sabia que estava pagando caro, e queria o serviço justo. O saguão e o bar, de fato muito luxuosos, estavam repletos de gente pomposa e com cara de “business”. Também muitas pessoas conversando e muitos militares passeando pelo saguão. Nosso amigo confirmou que aquele era o hotel preferido de Robert Mugabe e seus militares. Inclusive, um dia antes, Mugabe estava por ali.

Depois de duas doses duplas de Amarula, com gelo e um copo charmoso (veja meu caso, eu não bebo, mas mesmo assim tive que molhar os lábios para agradar o anfitrião. Mesmo para quem não bebe, a taça de Amarula preparada pelo hotel era realmente tentadora), o maître veio nos informar a liberação da mesa. Nesse momento Domingos lembrou muito bem: “Eduardo, você não vai tirar foto? Eduardo, você precisa tirar foto. Esse momento é muito especial. Tenho certeza que lembraremos por nossas vidas! Vocês não imaginam a felicidade que é encontrar vocês. Agora há pouco liguei para minha esposa e ela pediu para registrarmos esse momento”.  Depois dos registros, Domingos chamou o garçom e pediu que o mesmo guardasse as bebidas inacabadas de nossa mesa para que continuássemos a beber logo após o jantar (tratavam-se de duas taças inacabadas de Amarula e meio copo de coca-cola). O garçom se atrapalhou um pouco, mas levou os copos. Somente quando fomos para o restaurante do hotel que Domingos deixou claro o que comemorava: o sucesso nos negócios. Para entender quão especial era aquele momento para ele, era necessário entender uma trajetória: cinco anos atrás roubaram meio milhão de dólares de sua casa em Maputo, Moçambique. Praticamente toda suas economias. Para não deixar rastro, os ladrões queimaram a casa. Domingos ficou numa situação difícil financeiramente, com dois filhos quase entrando na adolescência. Morando quase de favor, um belo dia bate em sua porta um rapaz (branco) sem dinheiro e sem nada, dizendo que era sul-africano e que havia viajando de Pretoria a Maputo de carro com os amigos. Esses amigos lhe aplicaram um golpe. Venderam o carro e desapareceram. Por uma semana, Domingos acolheu o rapaz, ao mesmo tempo que tentava encontrar o telefone dos pais ou endereço. Quando conseguiu contatar os pais, 45 minutos depois baixa um helicóptero no terreno dos fundos da  sua casa. Enfim, o pai reencontra o filho. Um ano depois, quando Domingos consegue aceitar o convite de visitar a família, no bairro nobre ao norte de Pretória, o pai do rapaz leva o herói para um Shopping para tomar um banho de loja e se tornar um distinto cavalheiro. Logo em seguida, passam por uma loja de carros e o pai do rapaz pede que Domingos escolha o carro que quiser. Domingos escolheu uma Pajero. Como explicação, o senhor disse: “Estou fazendo tudo isso em retribuição ao que você fez ao meu filho. Além disso, meu trabalho é financiar pessoas, e você tem um crédito alto comigo”. A partir dali Domingos, formado em engenharia de alimentos, de alguma forma recebeu um empurrãozinho para iniciar um negócio de comercialização de peixes e camarões: primeiro abastecia o próprio Moçambique; depois África do Sul, Botswana, Namíbia e Zimbábue. O próprio Domingos estava se denominando como um “emergente”. A comemoração especifica de nosso jantar era de que havia fechado naquele dia um contrato que dobraria toda sua venda anual. “Estou me tornando uma multinacional, Eduardo!” No momento em que conversamos no ônibus ele havia acabado de receber a confirmação. O fato é que ele havia ficado muito contente de ter pessoas com cultura muito próxima no momento que ele recebeu a notícia. Para ele, não havia coincidência. Esse encontro tinha algum significado, algo típico de sua cultura. Conversamos até tarde sobre política de Moçambique, Brasil e toda a África, valiosas dicas de expansão do negócio, além de suas viagens pelo mundo para estudar socialismo numa época em que Moçambique estava sob esse regime. Ele já havia visitado Cuba, Argentina e também escapado de um “quase” naufrágio nos Triângulos das Bermudas, o que ele chamou de algo “muito alienígena”. O jantar realmente estava maravilhoso, repleto de iguarias da comida local e pratos internacionais. Domingos deixou claro para nós, seus dois convidados, antes de sentarmos à mesa, depois de cumprimentar todos os garçons, um a um: “podemos ficar à vontade, podemos comer o que quiser. O preço é único, então nós podemos comer muito bem”. O mais interessante de nossa conversa, excluindo todo entendimento do seu negócio de peixes e camarões, foi saber que o povo de Moçambique, que recebe o sinal da rede globo e da TV Record (lembrando que igreja Universal deve ser a maior multinacional brasileira, pois está em toda a África), ficou indignado quando a apresentadora de TV, a Eliana, havia desaparecido da Record. As pessoas queriam ir à embaixada do Brasil para reclamar. Também comentou que se Lula se candidatasse para presidente do seu país, também ganharia fácil. Com o Lula, a relação entre os dois países se fortaleceu e a economia de Moçambique vem melhorando. Já estão falando na extinção do visto entre os dois países, o que na opinião dele, será um grande avanço.

No final da noite, depois de mais fotos, Domingos pediu para que o garçom trouxesse as bebidas guardadas no bar. Reapareceu apenas a coca-cola. Foi uma situação embaraçosa para quem queria tudo perfeito, pagando realmente caro. A discussão amigável entre Domingos e os garçons ajudaram a fechar a noite. Voltamos para o albergue com a certeza de termos um novo amigo. Domingos deixou o contato, e pediu que enviássemos as fotos. “Qualquer coisa que precisem nessas viagens de vocês, podem contar comigo. Aqui está meu telefone”. Na volta para o Albergue, o motorista confirmou a generosidade do Domingos.

Tínhamos pouco tempo para dormir. Além de armar o bendito, mas indispensável, mosqueteiro, havia muito que preparar para a próxima parada, da qual seguiríamos viagem muito cedo: Zâmbia.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Harare, Zimbábue

Estávamos saindo da África do Sul com um gosto amargo da separação dos brancos e negros. A ponta de faca em nosso peito foi o último bairro que passeamos em Pretoria. Todos os brancos isolados em seu bem estar social europeu, vivendo uma vida segregada e ainda com um ar de racismo em suas falas. Descobrimos depois que ainda existem restaurantes que não permitem a entrada de negros (obviamente não-legal). A copa do mundo será mais uma tentativa de unir as pessoas, mas a vida cotidiana deverá ser ainda mais afetada para que todos vivam juntos harmoniosamente.

Partimos de Pretoria às 21 horas rumo a Harare, capital do Zimbábue, antiga Rodésia do sul(lembra?). A moça da bilheteria havia sido categórica: “ônibus com ar condicionado”. Duas horas de viagem, nada de “geladinho”, e havia muita gente se cobrindo com cobertor. Daí percebemos que “ar condicionado” na verdade é ventilador, porque de fato no fundo do ônibus dá para ouvir uns barulhos de “ar condicionado” mas na verdade só promove vento que não refresca nada. Os demais passageiros não pareciam se importar muito. Algo curioso para um país tão quente. As 3:30hs da manhã a primeira parada do processo imigratório: o carimbo de saída da África do Sul, na cidade de Beitbridge. Essa região, segundo as instruções que recebemos no setor de “Atendimento ao Viajante” do Hospital das Clinicas em São Paulo, é a de maior propensão para pegar malária. Antes de sair do ônibus passamos repelente até nas roupas para nos proteger. Uma fila enorme, maior que a do brinquedo mais disputado do Playcenter, nos aguardava. Sentíamos-nos num campo de refugiados: um lugar descampado de terra, muita gente, poucos prédios, no meio do nada, muitos ônibus, um pior que o outro, carros carregando de tudo e uma fila imensa. Passando esse processo, fomos para a segunda fase, a entrada no Zimbábue. O cenário era parecido com o da primeira fase, mas com dezenas de pedintes e cegos batendo latas com moedas, esfarrapados, alguns com crianças nuas no colo, cantando, formando um coral macabro, ziguezagueando a nossa fila. Algumas pessoas davam moedas. Sinceramente pode ser infame o que vou escrever: mas fiquei impressionado com o show. Sei que não era de propósito, tampouco as pessoas pedindo esmola tinham idéia do que estavam formando. Mas o fato é que era uma coreografia real (ou teatral) das mais impressionantes que assisti, dado o sincronismo que o coro se formava. Eu e a Juliana nos sentimos extremamente vulneráveis naquela situação. Era difícil, mas tentávamos nos manter transparentes. O anonimato acabava quando os agentes migratórios descobriam que éramos brasileiros. Somente às 6 horas da manhã, depois que inspecionaram todas as bagagens, é que ficamos livres para seguir viagem. Na parte da manhã atravessamos o sul do Zimbábue, praticamente uma savana monótona, pouco agriculturada, mas com pequenas fazendas de gado. Passamos por pequenas cidades muito pobres. Vimos muita gente na beira da estrada vendendo algumas frutas e artesanatos, rodeadas de muita sujeira. Numa parada, um casal da África do Sul veio comentar com a gente que estavam impressionados em ver dois brancos no ônibus. Ficaram felizes em saber que éramos do Brasil. Uma senhora veio perguntar se eu era irmão do “Perrêira”. Naquele momento eu deveria consertar uma situação criada sem querer: quando o ônibus estava partindo em Pretoria, o motorista havia me perguntado algo do “Perrêira”, porque vendo meu sobrenome, pensou que eu era parente dele. Ficou tão tumultuada a conversa que eu disse que “sim” para uma pergunta atravessada. Parecia que eu era irmão do “Perrêira”. É que eles pronunciam “Perrêira” mas estamos falando do técnico Parreira, atual treinador da seleção da África do Sul. Para a senhorinha eu disse que éramos amigos. Ela ficou tão contente que não consegui desmentir. Daí ela me disse que era mãe do Sombra. Também não tive coragem de dizer que não conhecia. Ela fico feliz duas vezes, mas não tenho idéia quem seja.

Mais ou menos duas horas antes de chegar em Harare, ouvimos uma pessoa falando bem alto o português no fundo do ônibus. Pelo sotaque só podia ser do Moçambique ou Angola. Quando ele terminou a ligação pelo celular, depois de uma transação comercial bem longa e que todos os passageiros involuntariamente haviam acompanhado, perguntei em português que horas o ônibus chegaria. Prontamente respondeu “em duas horas”. Passados alguns segundos, o senhor falou bem alto como quem acorda assustando com um pesadelo: “o que, vocês falam português? De onde vocês são?”. Dali começou uma conversa sem fim até a chegada ao terminal. Deixei de tirar umas fotos pelo caminho, mas valeu o bate papo. Domingos é um empresário que distribui peixes e camarão para os países da África que não tem saída para o mar. Ele realmente havia ficado encantado em nos encontrar. Disse que tem uma gratidão enorme a um brasileiro que deu aula de economia em Moçambique e que lhe deu dicas valiosas de negócio. Na saída do ônibus, Domingos ainda eufórico por ter encontrado pessoas falando português, fez questão de pedir ao motorista particular que o aguardava, para nos levar até o nosso hotel. Foi muita gentileza. “Onde vocês ficarão hospedados?” Para facilitar, dissemos que ficaríamos no “Holliday Inn”, porque sabíamos que estaríamos perto dos albergues de costume. “Por que vocês não ficam no Sheraton(na verdade o Sheraton do Zimbabue chama-se atualmente Raibow Towers, isso porque os verdadeiros administradores abandonaram o hotel no período de regime fechado)? É tão bom, a diária já inclui todas as bebidas…. Olha, eu só não mudo aqui para o Holliday Inn para continuar a conversa com vocês porque minha secretária já fez uma reserva no Sheraton…( e sem deixar eu falar, emendou) e ficaria muito feliz se pudéssemos jantar essa noite…posso pedir para meu motorista pegar vocês às 20 horas…? Será uma jantar triunfal! (não deixava a gente responder). Muito bem, às 20 horas ele estará aqui em ponto, na entrada do Holiday Inn”. E  foi embora.

Deixamos para mais tarde para pensarmos no tal jantar. Atravessamos a rua do Holliday e ficamos em uma pousada, justamente aquela que pretendíamos ficar. Foi apenas o tempo de reforçar o protetor solar e o repelente e sair pelas ruas da cidade.

Harare apesar de ser a capital, é uma cidade pequena e muito modesta. Dá para contar nos dedos os prédios altos. A maior parte dos prédios do centro da cidade são públicos. Eu havia ouvido falar que era proibido tirar fotos deles, e a Juliana permanentemente me lembrava disso. Resolvi então entrar num dos prédios mais suntuosos do centro e ir direto perguntar para quem decidia (normalmente primeiro tiramos a foto e depois perguntamos, mas se tratando da maneira que o país estava sendo comandado nos últimos anos, não dava para brincar). E a resposta havia sido confirmada: não pode. Isso significava que o país ainda estava sob os mandos “ditatoriais” de Robert Mugabe. Mugabe é presidente do Zimbábue há quase 30 anos. Por também ser uma pessoa que lutou contra o apartheid, que segundo consta, foi mais forte no Zimbábue que na África do Sul, por certo tempo a figura de Mugabe chegou a se rivalizar internacionalmente com Mandela. Ambos trabalharam a vida toda pela mesma luta e também estiveram presos por muitos anos. Mas ao contrário do Mandela, Mugabe se tornou um presidente linha dura, eliminando impiedosamente seus inimigos ao passo que confiscou as terras dos “brancos” estrangeiros, o que levou o país para uma crise financeira e social das mais perversas do mundo. Eu imaginava encontrar essa crise linha dura pelas ruas e também ter em mãos o meu primeiro bilhão de dólares (é que a moeda local chama-se Zim dólares, e como a inflação é quase 1700% ao ano -a maior do mundo- e chega-se a ter realmente um bilhão de (Zim) dólares na mão). Só que chegamos tarde: recentemente o governo efetivamente dolarizou a economia abolindo a moeda local. Esse foi o primeiro passo na tentativa de recuperar o país, local em que pessoas ainda deixam de comer por dois dias e comem o máximo que podem em um dia, como forma de sobreviver ao longo prazo (a expectativa de vida é de aproximadamente 45 anos). A pobreza é visível nas ruas da capital. No supermercado as prateleiras estão praticamente vazias, mas pessoas me disseram que dois anos atrás era muito pior. Visitamos um famoso mercado chamado “OK”, justamente para entender um pouco a situação. Os preços, mesmo em dólar, são altíssimos: uma lata de coca cola custa 3 dólares. Também me disseram que as pessoas trabalham por qualquer salário. O curioso é que isso não traduz em pior atendimento. Já é da cultura do país um esforço tremendo para agradar o outro. Um povo sofrido, mas muito prestativo. Mesmo na pousada que estávamos, que era muito simples, a recepcionista e o auxiliar eram muito prestativos. Ambos estavam uniformizados, sinceramente não combinava com o local. Mesmo num calor de “Copacabana”, Kevin, o auxiliar, vestido de terno e gravata, uma simpatia de gente, para que não nos perdêssemos, fez questão de nos levar até o supermercado, quatro quarteirões da pousada. Com poucas pessoas que conseguimos conversar, pudermos perceber que encontramos uma Zimbábue melhor do que eu imaginávamos encontrar. Como diminuiu um pouco a repressão ferrenha realizada por Mugabe, e percebemos haver poucos militares nas ruas, as pessoas estão com melhores perspectivas do futuro. Voltamos para o hotel com o tempo necessário para decidir sobre o tal jantar com o Domingos.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Seguda Parada: Pretoria

Enviando por internet discada!!!!

Nossa segunda parada foi Pretoria, capital executiva da África do Sul. Também será uma das sedes da copa do mundo. Logo cedo, juntamos as coisas e fomos para a rodoviária de Johannesburgo para comprarmos uma passagem para o Zimbábue, mas com escala em Pretória. Como o ônibus para a o Zimbábue só partiria pela noite e passaria por Pretoria, consegui convencer a empresa a me colocar em ônibus para que passássemos o dia pela cidade e somente à noite nos juntaríamos aos demais passageiros. Nem bem compramos a passagem, a mocinha do guichê saiu em disparada pela rodoviária, gritando para acompanhássemos ela. Ela passou de ônibus em ônibus para ver se algum deles nos daria um carona até Pretoria. Depois de rodarmos por uns 5 ônibus, enfim conseguimos encontrar um lugar a sobra. Em mais ou menos 1 hora de viagem, numa moderna rodovia que serve de endereço para centenas de fábricas de grandes multinacionais, estávamos cruzando os bem conservados parques na entrada da cidade. Essa entrada triunfal deu a impressão que encontraríamos uma cidade bem mais desenvolvida que Johannesburgo. A companhia de ônibus Greyhound chegou até a nos oferecer um local para guardarmos nossas malas enquanto passeássemos pela cidade, mas pelo volume de gente que entrava e saia por ali, resolvemos não arriscar. Logo que saímos da rodoviária, demos de cara com o Hotel Vitória. Na recepção, um senhor branco, quase sem dente, se demonstrou solicito em guardar nossas malas e ainda disse que poderíamos ficar pelo saguão, usar o banheiro, ser precisássemos. Andamos um pouco pelo hotel, muito antigo, cheio de ornamentos estilo indiano, demos meia volta saímos pela cidade. O ponto mais conhecido da cidade é a “Church Square”, uma praça coração da cidade, rodeada de pequenos prédios que servem de administração de governo e com a estátua do ex-presidente Kruger. Presidente de uma época antiga, antes mesmo da formação do país, entre os anos 1899- 1902. Logo em seguida, sob o sol 35 graus, com sensação térmica de 50(o nosso melhor companheiro de viagem tem sido o guarda chuva), demos uma passadinha rápida na antiga casa do Kruger, algo dispensável, e fomos direto para o zoológico da cidade, onde tomamos um teleférico e pudemos avistar toda a cidade. Esse sim um passeio bem generoso. Antes disso, no caminho, numa calçada movimentada, um rapaz esbarrou em mim e, como olhei para trás, na busca de pedir desculpas, ele me olhou, riu e veio na minha direção, com as mão prontas para me cumprimentar ao mesmo tempo que disse “Mandela disse nunca deve brigar, nunca! Caso alguém esbarre em alguém, branco ou negro, deve voltar, pedir desculpas e cumprimenta-la, sempre buscando a harmonia”. Enquanto ele dizia isso, me abraçava, mas começou a exagerar, dizendo:”inclusive, se alguém pisa no pé do outro, também tem que pedir desculpas(e simulou uma pisada no meu pé)”. Daí comecei a desconfiar. Agradeci e fui saindo, imaginando que poderia ser um “mão leve”. Duas quadras depois, um rapaz gritou “tome cuidado por aqui, aqueles rapaz conversando com você estava mau intencionado”. Felizmente não chegou a levar nada, eu havia protegido bem os bolsos. Mas aumentamos ainda mais nossas precauções. Mesmo assim tínhamos seguir caminho até o zoológico. Tínhamos ido até lá por causa da vista, não planejávamos visitar os animais, mas logo na entrada mudamos de idéia: havia uns carrinhos de golfe pela bagatela de 10 reais a hora. Foi nosso brinquedo naquela tarde e uma disputa por quem iria dirigir primeiro. Mais ou menos 3 da tarde já havíamos percorrido os principais pontos da cidade. Com o ônibus só sairia 20 horas resolvemos praticar algo que de costume em todas as viagens: pegar um ônibus de rua qualquer e descer no ponto final e voltar. O ônibus, muito antigo, atravessou pela cidade rumo ao norte, local que meu mapa nem cobria. Fomos parar num bairro de classe média alta, com casas estilo inglês, um gueto dos brancos (importante frisar que, assim como em Johannesburgo, também não vimos pessoas brancas andando por Pretoria). Resolvemos descer antes do ponto final para ver uma criançada, com seus pais, aprendendo kricket. Voltamos para o ponto aguardando o ônibus no sentido inverso. Mais de uma hora e nada de ele aparecer. Perto do ponto ninguém sabia informar quando o ônibus passaria. Começamos a ficar preocupados. Resolvemos caminhar e tentar encontrar algum lugar para perguntar. No caminho, encontramos uma senhora com sua filha, e ela nos informou que não havia mais ônibus naquele horário e que deveríamos ir até algum lugar e pedir um táxi, mas “nunca pegue táxi ou micro ônibus com um negro, é extremamente perigoso”. Seguimos em frente com desespero começando a bater em nossa porta, pois precisávamos voltar urgente para a rodoviária. Encontramos um comércio que confirmou que não havia mais ônibus e que talvez pudéssemos caminhar até uma avenida, umas seis quadras dali e tentar pegar um micro ônibus. “Vocês devem ir logo pois quanto mais tarde, mais perigoso”. Quando estávamos no meio do caminho, correndo feito loucos, pára uma caminhonete pilotada pelo rapaz que trabalha no supermercado. “Entra ai, eu levo vocês até o microônibus”. O rapaz e seu ajudante nos salvaram daquela. Um micro ônibus nos levou de volta para a cidade. Pegamos o ônibus sentido Harare, capital do Zimbábue.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Primeira parada: Johannesburgo II

Segundo dia em Johannesburgo. Noite passada eu havia conversado um pouco com o dono do albergue, rodeado de seus dois cachorros (que pelo tamanho um deve ser da raça “cavalo” e o outro da raça “leão”, ambos andam soltos pela casa, desengoçados e com muita sede), sobre a minha missão no domingo: visitar o Soweto. Soweto (que significa South West Township) é um bairro afastado da cidade que ficou famoso por se tornar um dos maiores guetos do mundo, local onde os negros se apinharam dura te o apartheid, se fortalecendo no período de resistência, uma espécie de “Cidade de Deus”. Depois do fim do apartheid em 1993, o governo passou a tentar desenvolver a região, com casas populares, infra-estrutura, etc. Hoje é uma espécie de favela do Heliópolis, com algumas casas de classe média na entrada do bairro, com pinceladas de peculiaridades como o morro da mangueira. Assim como no morro da mangueira, de acordo com a instrução do dono do Albergue, deveríamos fazer uma visita com um guia. Na manhã de hoje, partiria um tour programado que passaria por diversos pontos do Soweto e que voltaria no final do dia. “Tour? Isso não me agrada muito”. O tour passou pelo albergue e ficamos para trás. Ligamos para um “carro particular” que havia nos transportado no centro da cidade ontem(o que seria um táxi no Brasil) mas o motorista disse que só passaria para nos pegar ao meio dia. Perderíamos duas horas. Resolvemos ir com as próprias pernas. Deixamos tudo de valor para trás e só levamos o essencial. Novamente pegamos a lotação Van(curiosamente eles chamam aqui de “táxi”) e fomos para o centro. No centro, uma mocinha muito simpática nos guiou até a próxima lotação que ia até o Soweto. O percurso é bem longo e tivermos a oportunidade de passar em frente ao Soccer City, onde será a abertura e final da copa(ainda em construção). Quando ficar pronto ficará realmente muito bonito. A aposta do governo é que o estádio vai ajudar a desenvolver a região(realmente vai precisar de muito desenvolvimento). A lotação entrou no bairro famoso e nos deixou no começo da rua da antiga casa do Nelson Mandela, hoje um museu. Subimos a rua rapidinho, procurando o aglomerado de turistas que estavam realizando visitas em grupo ou com guia. O guia do museu foi muito simpático e se demonstrou realmente interessado em explicar a vida do Mandela: “Vocês conhecem o Mandela?”, perguntou. “Sim”. “Então, quando ele nasceu?”. “Bem…”. “É já vi que vocês não conhecem…”. E começou a bibliografia de frente para trás e trás para frente, ao mesmo tempo que mostrava os cômodos da casa. Mandela e sua família viveram ali antes de ser preso. Foi uma parada importante aquela. Saímos pela rua pensando como seguiríamos para o próximo passo. De fato o que eu mais ouvia era de que era muito difícil explorar o imenso bairro sem ter um guia. Resolvemos subir a rua do Mandela a esmo, sem destino. Logo encontramos uma escola e ficamos no portão observando que algumas pessoas vestidas com trajes típicos estavam entrando por ali. O pessoal passava pela gente e para nossa surpresa todos nos cumprimentavam com um “olá” ou “sejam bem vindos”. Ali começamos a sentir uma África do Sul diferente. A última pessoa que estava entrando, um rapaz, foi um dos mais enfáticos e parecia realmente preocupado em ser acolhedor. Resolvi abordá-lo. “Como podemos conhecer os outros pontos do Soweto?” Awmanda foi muito simpático e disse que nos levaria até a casa da Winie, ex-mulher de Nelson Mandela. Desceu a rua com a gente, cumprimentando os amigos da rua, entrou a direita e foi subindo um morro bem estranho. Seguimos ele na mesma confiança das pessoas que estavam com ele entrando na escola. Atravessamos o morro e demos de cara com a mansão e mais uma dezena de crianças que pularam no nosso colo pedindo água e dinheiro. Era uma mistura de carência com miséria. Era uma situação complicada.

As criancas pulavam em nosso colo…nao era turismo.

Elas literalmente pulavam em nosso colo e queriam andar com a gente, descendo o morro. A Juliana carregava no colo uma menina enorme. Eram crianças adoráveis, literalmente não sabíamos lidar com a situação. Tiramos várias fotos. Ao mesmo tempo, estávamos muito preocupados com o lugar que o Awmanda estava nos levando e das pessoas aparentemente estranhas que encontrávamos pelo caminho literalmente ermo. Por outro lado, o morro nos proporcionava uma belíssima vista, para todo o Soweto e para o bairro Orlando, ao lado. A situação se agravou quando o nosso amigo disse que ninguém passeava pelo Soweto da maneira que nós estávamos indo, assim como “free-lancer” . E passou a caminhar pelo bairro, pelos pontos importantes como o museu do conflito que ficou famoso internacionalmente devido a disputa entre estudantes do Soweto e a polícia quando o governo havia decido oficializar o Africaner como língua oficial no ensino, em substituicao ao ingles, sendo que os estudantes lutavam para que as duas linguas fossem oficiais. Aproximadamente 700 estudantes foram massacrados em1976 e o local do massacre, um simbolo forte do inicio da resistencia ao apartheid e que virou um museu. Dizem que esse evento deu ainda mais força para Mandela quando ele esteve na prisão(só lembrando que Mandela ficou 27 anos preso, saiu da prisão em 1993 e se tornou presidente em 1994. Mandela tem uma das vidas mais incríveis do século, e ganhou um Nobel da paz incontestável). Awamanda também nos levou a antiga casa do Bispo da igreja anglicana Desmond Tutu que também ganhou um prêmio Nobel, e que também morou na mesma rua do Mandela. Isso é raro e histórico: dois prêmios Nobel no mesmo lugar. Outros passeios ficaram de brinde: demos uma passadinha para cumprimentar dois amigos moçambiquenhos do Awmanda: um que tem uma barbearia e outro que tem uma barraca de frutas. Ambos trabalham 24 horas por dia para tentar juntar alguma coisa e enviar para suas famílias em seus paises. Do Soweto, pegamos uma lotação para Orlando, que tambem havia sido palco das disputas com estudantes. Lá encontramos um cartão postal da Africa do Sul: dois tanques de energia enormes, coloridos. De fato era impossível caminhar por aquela região sem ter um guia ou um “local” acompanhando. Felizmente, alem da companhia, Awmanda se demonstrou uma pessoa bastante esclarecida e muito a par da economia e política. Comentou que estava começando um curso de marketing na universidade de Johannesburgo, uma excecao para moradores do bairro, segundo ele. No momento que o encontramos na escola, ele estava indo para uma reunião da igreja católica sobre programas sociais da comunidade. Em nosso bate papo foi enfático em afirmar que o apartheid ainda existe: o desemprego no Soweto é enorme e brancos só empregam brancos. Até mesmo negros muitas vezes empregam brancos. Segundo ele, Johannesburgo está dividida agora em ricos e pobres, mas os pobres são negros. Alguns negros se tornaram ricos. Mas não existe branco pobre. Locais que os pobres freqüentam, tais como a cidade antiga, os brancos e negros ricos não freqüentam, nem mesmo de carro. Eles estão confinados em bairros ricos, bem distante da cidade. Tendo esse contexto como pano de fundo, a mistura dos brancos e negros poderá acontecer, mas será uma jornada longa e, por enquanto, a diferença econômica é uma barreira enorme para isso. Continuamos nossa jornada pelo bairro, caminhando entre os morros sob o peso do sol escaldante nas costas e reserva de agua na mao e encontrando muitos pobres e falta de infra-estrutura pelo caminho. Eu já nem perguntava mais o que as pessoas achavam da copa do mundo. Sinceramente comecei a ficar envergonhado. Percebi que era uma evento que as pessoas não têm a noção do que vai se passar por ali, muito perto deles: um paradoxo tão grande, quanto o circuito de fórmula 1 em São Paulo se passar ao lado de uma favela em Interlagos: um evento ULTRA capitalista com milhares e milhares de pobres em volta, a menos de 100 metros. O que para nós pode ser uma festa, para eles é um evento que passa ao largo dos seus problemas diários. Pelo menos pelo percebi isso caminhando por Johannesburgo. Talvez com o periodo da copa o negocio seja diferente. Continuando o percurso, o nosso amigo ficou para trás mas sem antes garantir que realmente estivessemos na lotação que nos levaria a um passeio que tinhamos muita expectativa. Nossa peregrinação pelo lado oeste da cidade finalizara no mais terrível dos museus do mundo: o Museu do Apartheid. Logo na entrada, para chocar as pessoas, duas entradas: um para brancos, outros para negros. Tudo foi feito para chocar: muros enormes com arames farpados, enormes identidades com classificação de etnias “brancas” ou “negras”. Apesar de chocantes, ainda assim saí com a sensação de “pegaram leve” com os ingleses. Isso porque o objetivo do museu não era exatamente mostrar quem provocou a terrível situação, mas sim ser uma mensagem de paz, de tolerância, de reconciliação, democracia, ou seja, algo que seja melhor pela frente e não ficar mostrando os detalhes da desgraça para trás. Até porque, se olharmos os negros ainda vivendo na miséria e apinhados em lugares com falta de infra-estrutura, ficará bem mais claro a constatação do Awmanda. No final do dia aproveitamos para conhecer o Sandton, bairro no norte da cidade, justamente onde nos informaram ser o “gueto” dos ricos. Ficamos impressionados com a suntuosidade do lugar: parques maravilhosos, conjuntos residenciais luxuosos e diversos shoppings de luxo desde Channel até Gucci. Nesse lugar encontramos os turistas profissionais, aqueles que simplesmente pegam o avião até Johannesburgo e automaticamente entram em outro vôo para o safári mais próximo.

Estatua Nelson Mandela no bairro ultra rico. Ironia.

E talvez até saiam dizendo por ai que visitaram a cidade andando por Sandton. Quem cai de para quedas nesse bairro pensa que a África é maravilhosa, da mesma forma que muitos desavisados passeiam pelos jardins em São Paulo e pensam que conheceram todo o Brasil. Na volta para o Albergue todo a problemática do dia anterior: pegar uma lotação até o centro da cidade e tentar encontrar aquela que nos levaria realmente de volta. Já estava tarde. O risco era ainda maior. Tivemos a feliz companhia de um policial (ou segurança, não descobrimos) que estava na mesma van e ouviu o nosso desespero para chegar até o outro ponto de lotação. Logo que saímos da van, numa multidão estilo “Rua General Carneiro”, sua voz enfática: “não precisa de pânico”, e abriu o jaleco mostrando seu distintivo e sua arma. Fomos com ele até o ponto, desviando das pessoas pelo caminho, cruzando umas 5 ou 6 quadras. Um santo. Voltamos para o Albergue para nos prepararmos para o dia seguinte.

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Primeira parada: Johannesburgo

Caros,

“Sedex dez” é 10! Exatamente às 10 horas da manhã sexta-feira, data da partida, a Juliana recebeu das mãos do entregador dos correios nossos passaportes vindos de Brasília. Alessandro, meu irmão, mais uma vez nos ajudava a obter os vistos numa sucessão de embaixadas, que talvez ele mesmo nem imaginasse que existisse. Inteligentemente Alessandro colocou no “sedex dez” para ser entregue em São Paulo, casa dos meus pais, justamente para garantir que chegasse em nossas mãos na sexta-feira. Tendo em vista os problemas que o Correio estava enfrentando durantes as sucessivas chuvas, eles não garantiam a entrega em outro lugar no prazo “anunciado”. Como não havia ninguém na casa dos meus pais para receber a encomenda, Juliana ficou de plantão a manhã toda e me ligou por volta das 9:45: “Du, são quase 10 horas e nada ainda, acho que vamos ter que acionar o plano B”. Felizmente nem precisou. Devemos essa ao Alessandro.

Enfim, depois de quase 10 horas de viagem, saímos de São Paulo pela sexta-feira, final da tarde e chegamos em Johannesburgo sábado pela manhã. Um vôo tranqüilo mas com uma temperatura muito quente dentro do avião. Ficamos sem saber se a South Africa Airways estava economizando energia ou se realmente os africanos não gostam de ar condicionado (isso porque, apesar de ser bem moderno, também não havia ar condicionado no aeroporto de Johannesburgo). E o clima de copa do mundo? Bem, mesmo no aeroporto, que é um lugar “welcome turist” não sentimos um clima de “está chegando a hora”. Claro que é possível encontrar diversas propagandas dos patrocinadores, mas em termos de assistência ao turista, o negócio ainda é bem amador: é até possível encontrar algumas pessoas treinadas para oferecer instruções ao turista, mas conversando com elas podemos perceber que tem muito mais boa intenção do que exatamente proporcionar boa informação.

Como sempre, a maior dificuldade quando se chega em grandes cidades é transportar-se de maneira barata entre o aeroporto internacional e a cidade. Como sempre, procuramos pegar um transporte público. Contudo, segundo havíamos nos informado já no Brasil, não era nada seguro sair andando de malas para fora do aeroporto. Dessa vez entrei em contato com um Albergue que dizia fornecer um “transfer” gratuito. Logo que chegamos entramos em contato acordando o suposto motorista. Disse para esperarmos na “plataforma” e que ele viria com um carro branco, mas não disse quanto tempo levaria para ele chegar lá. Ficamos esperando mais ou menos 1 hora, com terrível sensação de que o motorista já havia passado por ali e não havia nos visto. Abordamos praticamente todos os carros brancos que passavam e foi uma experiência e tanto: nem todo mundo falava inglês. O fato é que a África do Sul não tem uma língua oficial: eles falam 11 línguas. Em Johannesburgo, especificamente, a maioria fala inglês e é sim uma espécie de língua oficial, mas na prática o negócio é outro: deparamos, inclusive, com muitas pessoas que falam inglês aprendido na fase adulta. O percurso até o albergue levou uns 25 minutos pela auto-estrada. O albergue fica no lado leste da cidade, no fim de uma viela de uns 500 metros, cheia de casas relativamente bem ajeitadas e protegidas por tudo quanto é tipo de arames e circuitos de segurança. Muitas pessoas pensam que Johannesburgo é capital da África do Sul. Na verdade ela é capital econômica, tal com São Paulo está para o Brasil. O país tem na verdade 3 capitais: uma executiva (Pretória), legislativa(Cidade do Cabo) e legislativa(Bloemfontein). Fácil entender: isso foi uma estratégia para distribuir poder entre o país de forma a mantê-lo unido. Como se sabe, África do Sul é uma mescla de culturas, da herança histórica da colonização, o que resultou na separação de branco e negros, no famoso (e lamentável) apartheid, diferentes línguas e religiões. Daí fica fácil entender porque muitas pessoas acabam viajando para cá e se tornar inevitável descrever pessoas como brancas ou negras, não exatamente porque isso é preconceito ou resquício de apartheid, é justamente porque ainda existe uma separação, ou o que se chama de apartheid teórico. A África do Sul, assim como o Brasil, é bastante conhecida também por sua violência. Antes de chegarmos aqui imaginávamos ter todos os treinamentos necessários para andar pela cidade justamente por vivermos em São Paulo. Bem, logo que deixamos as malas no albergue e saímos peregrinando pela cidade, vimos que a coisa era muito, mas muito diferente: Primeiro foi o SERMÃO, isso mesmo, um sermão em letras maiúsculas do dono do Albergue sobre não andar pelo centro da cidade porque, segundo ele era perigoso. Juro que ouvi o sermão com um certo ar de “esse cara não tem idéia de que São Paulo é a mesma coisa”. Somo “craques” em tomar cuidado por aí. Descemos a viela do albergue até a avenida principal sob o peso dos arames farpados duas vezes maiores que São Paulo. Logo na avenida, mão inglesa, diga-se de passagem, esperamos por uns 10 minutos por uma van (exatamente igual a uma lotação em São Paulo). Não havia ponto de ônibus, o passageiro acena e ela para em qualquer lugar. “Aonde vocês vão?”, perguntou o motorista, com a van lotada. “Centro da cidade: Carlton building”. Entra aí. Na van só haviam negros, e sinceramente não gostaram nada nada da nossa companhia. Tive que ir na frente porque não havia espaço atrás. Além do motorista, havia um rapaz ao lado, que imaginei que fosse o cobrador por estar recebendo o dinheiro do pessoal. Na verdade descobri depois que quem ia na frente dava uma mão para o motorista. Esse suposto cobrador praticamente me fuzilou com os olhos durante toda a viagem. Abriu as pernas para ocupar todo o espaço e ainda por cima me deu o troco com a maior animosidade do mundo. Para tentar quebrar o gelo, quando vi no caminho uma moça usando a camisa do Brasil, apontei  e disse Brasil! Simplesmente me ignoraram. Realmente o clima dentro da van não era bom. Quando chegamos no destino, uma espécie de praça da Sé com rua direita, fomos logo subindo o tal “topo da África”, um mirante estilo “Terraço Itália” bem no centro da cidade, em cima do Carlton, prédio com 50 andares. A vista é maravilhosa. É possível ver muito bem os quatro cantos da cidade, inclusive os dois estádios sedes da copa do mundo( só por curiosidade, a África do Sul tem com exceção pelo fato de ter dois estádios sedes na mesma cidade), daí dá para entender a importância econômica que tem a cidade de Johannesburgo; Depois dessa vista maravilhosa, passeamos por um shopping dentro do mesmo prédio e resolvemos sair na rua, caminhando pela rua direita. Ficamos espantados pois não encontramos nenhum branco. O centro estava bem movimentado, mas somente negros, com a exceção de alguns gatos pingados de turistas no topo do prédio. O calçadão não passava de um shopping a céu aberto, com lojas populares e muita gente. Alguns olhavam para gente com certa estranheza, mas nenhum situação de assédio turístico ou qualquer outra manifestação. Nos sentíamos andando pela cidade, tal como fazemos em São Paulo. Somente umas três quadras depois resolvi sacar a máquina e bater uma foto da July em frente a um prédio. Não demorou 5 segundos e apareceram dois policiais desesperando. “Onde vocês estão indo?” “Posso ajudá-los?”, praticamente ofegantes. “Bem estamos andando pela cidade…”. “Saiam daqui imediatamente, aqui não é seguro para vocês!”. Daí voltou novamente a imagem de São Paulo e a tal da expertise…e logo emendei: “mas que tipo de problemas podemos enfrentar?””; “Com certeza vocês serão roubados, será através de arrastão ou individualmente”. Se não foi até agora, vai ser daqui para frente.”. O policial praticamente nos obrigou a entrar num táxi particular e pediu para o motorista nos levar a um lugar seguro. Disse que eu queria ir para a zona financeira e lá chegamos em uns 10 minutos. Na avenida principal da zona bancária, uma rua charmosa, prédios típicos de bancos, paramos para tomar um café numa esquina charmosa. Nos sentíamos presos. E agora: não podemos andar? Vamos ter que viver de táxi? Resolvemos chamar  o Richard, um rapaz negro e muito simpático para conversar. Ele nos afirmou categoricamente que se fossemos para o sul não teríamos problema. E assim saímos em caminhada novamente pelo centro da cidade até o outros pontos turísticos populares. Nesse percurso ficamos impressionados pela quantidade de mendigos por duas praças que passamos. De fato, áfrica do Sul vem enfrentando uma recessão forte, desde junho de 2009 e o índice de desemprego vem subindo. Mesmo com a afirmação do Richard, era impossível andar com tranqüilidade. A sensação de permanente  “barra pesada” nos acompanhava pelo percurso. Para evitar qualquer contratempo, abandonamos as calçadas e passamos a andar pela rua, desviando dos carros e das pessoas. Evitávamos ruas vazias, tentávamos nos esconder dentro das roupas. Era engraçada a sensação de que estávamos na África e que deveríamos estar com medo da savana, cheia de leões, mas estamos com medo das pessoas. Foi um passeio bastante desconfortável mas inevitável. Quando chegamos ao Theater Market, um teatro charmoso com cafés e complexo artístico muito antigo, planejamos nossa volta ao Albergue. Tínhamos na cabeça que deveríamos estar de volta antes do anoitecer. Precisávamos antes passar pela estação rodoviária para planejar os nossos próximos passos de viagem. Um policial, muito simpático mas também com pouco inglês, fez questão de colocar o treinamento “copa do mundo em prática”, e nos levou até a lotação que nos levaria até a estação. Depois de um tour pelos guichês da rodoviária, saímos para realizar o processo de volta para o lar. Daí começou a bater o desespero. O sol praticamente partindo e não encontrávamos a van que nos levaria de volta, tampouco um lugar seguro aberto que nos acolhesse. Quando vimos estávamos justamente no lugar onde o policial havia nos expulsado, e passamos a correr pelas ruas, perguntando para todas a lotações que passavam se elas nos levariam até o bairro do albergue. E o clima de “barra pesada” ia aumentando. Quando chegamos até a van, finalmente, já era noite. Uma cena me marcou. Antes de entrar na van, coloquei a mão no bolso para pegar o endereço. Dois rapazes que passavam me viram fazendo o movimento e pararam para olhar se se tratava de algo de valor, suponho. Felizmente o coordenador da van abriu a porta e nos jogamos no fundo, garantindo dois lugares. Voltamos caladinhos e sem movimentos. O silêncio da van só foi quebrado quando eu gritei “stop”, no lugar mais próximo da viela do Albergue, lugar completamente escuro. Nem vou comentar a velocidade que corremos para chegar a nossa fortaleza. Havia um grupo de viajantes fazendo um churrasco e o dono do albergue ficou. Na maneira que fomos recepcionados pelo dono do Albergue deu a impressão que éramos os últimos que haviam chegado e que já havíamos passado do limite segurança.

Ainda estou com uma pulga atrás da orelha. Será mesmo que a cidade é tão perigosa ou tudo está sendo ampliado pelo zelo excessivo e pela nossa imaginação? Na site da BBC de hoje, coincidentemente, tem uma entrevista com a secretária de administração de Johannesburgo alegando que existe um exagero imaginar que a cidade é perigosa. Ela admite que o perigo é de uma cidade grande, num país subdesenvolvido (a África do Sul tem expectativa de vida de 50 anos, é efetivamente um país pobre, com economia dependendo da extração do ouro e diamante, coisa que vem produzindo a mais de 200 anos e de turismo, principalmente gerado pelos safáris), mas que é muita coisa é preocupação exagerada. O fato é que, com violência ou não, é possível ver claramente os resquícios históricos do relacionamento brancos e negros, fortalecidos pelo lamentável apartheid.

Abracos

Expedição ao Oriente Médio – Cairo, Egito – última parada

Salam,

Em nossa primeira noite no Cairo, deixamos as malas no albergue e fomos direto para o mercado Khan el Kalili, um centro de bazares que fica no meio do antigo bairro islâmico (estranho essa separação, já que o país é todo islâmico). Andar pela cidade a noite não é um coisa fácil. O comércio fica aberto até de madrugada, parece uma 25 de março permanente até umas 3 horas da manhã, em larga escala, tomando a cidade, com movimento de carro (e muitas buzinas) como se fosse de dia. Em nossa primeira noite de sono, tivemos a impressão de que o país havia ganhado a copa do mundo e passou a noite comemorando. Tudo parece funcionar até tarde. O nosso albergue fica num prédio de uns 20 andares no centro da cidade. No andar do albergue tem alguns consultórios de dentistas. Eram mais ou menos 23:30 e haviam pacientes aguardando na sala de espera, como se fosse 6 horas da tarde. Como já havíamos conhecido diversos mercados nas cidades que já havíamos visitado, o Khan el Kalili que normalmente é uma grande novidade, ficou meio que uma agenda cumprida, apesar das diversas mesquitas pelo caminho. Como o bazar é imenso e de difícil entendimento onde se está, acabamos nos perdendo e fomos parar num lugar que tirou a monotonia: uma rua de periferia, cheia de bares de narguilés, comidas típicas, carros velhos, lugar nada turístico. No Brasil certamente nunca entraríamos nessa rua, era quase uma favela. Infelizmente o Egito não está vivendo um bom momento financeiro. Os salários são muito baixos, e praticamente mantidos por gorjetas. Para tudo o eu fazem, pedem gorjeta. O guarda que dá uma simples informação, também espera um troquinho. O turismo diminuiu para bem menos da metade do que havia 3 ou 4 anos atrás, isso devido aos ataques terroristas aos turistas provocados por grupos que querem tirar o presidente do poder. A maior parte da economia está baseada no turismo. Além disso, a população cresce rapidamente, para se ter uma idéia a população atual é de 80 milhões de habitantes para um país do tamanho do Pará ou Mato Grosso, sendo que a maior parte do país é região de deserto. Andamos por meia hora por esse labirinto, insistindo em não perguntar para ninguém onde era a saída quando deparamos com uma imensa muralha construída para proteger a cidade no período medieval.

No dia seguinte, sexta-feira, um domingo para o mundo islâmico, fomos enfim visitar as pirâmides. Ir até lá ou é de táxi, ou é de táxi. Para evitar as exaustivas intervenções dos egípcios, contratamos um taxista indicado pelo albergue. Favorecidos pelo trânsito ligeiramente mais calmo do “domingo”, o senhor muito simpático, que fez diversas estratégicas para obtermos as melhores vistas da cidade: o imenso rio Nilo, enormes mesquitas, e as pirâmides, observadas cerca de uns 5 quilômetros da cidade. Quando chegamos ao parque das pirâmides, o nosso amigo nos levou para um escritório, todo fechado com um mapa do parque Giza (onde ficam as pirâmides) pregado na parede. Um rapaz, com uma ponteira na mão, foi nos acomodando no sofá e começou uma aula sobre o percurso, enfatizando as distâncias entre as pirâmides, etc. Já no finalzinho da aula: “Então, o senhor e a senhora percorrerão de camelo esses 200 metros , depois mais 50 metros de cavalo…”. Tava com cara de cilada para turista… “Muito obrigado, mas adoramos andar a pé”. Infelizmente, dizer isso e ir embora não foi suficiente. Eles nos acompanharam, insistiram, alegaram que você vai ter câimbra, que vai ter insolação, etc. Esse lado da viagem pelo Egito realmente é bem estressante, estou apenas relatando um caso aqui. Dali para frente, ficou por conta dos nossos pés, até realmente decidirmos e negociamos dar uma voltinha de camelo em frente as pirâmides. Nessa experiência rápida, já pude prever uma das próximas viagens: atravessar o Saara até a Líbia, de camelo.

As pirâmides são maiores do que imaginávamos, realmente uma obra de construção tão intrigante quanto as muralhas da China. A paisagem ao fundo é recheada pelas areias do Saara. Depois das pirâmides, não se vê mais nada, apenas dunas e dunas de areia. O calor nos acompanhou no percurso. Depois de 2 horas, quando estávamos fazendo o caminho de volta ao portão de entrada, começou literalmente uma tempestade no deserto. A areia veio com muita força. O negócio era fechar a boca e os olhos, ficar parado esperando as ondas de ventos passarem e depois caminhar um pouco. O cabelo chegou a ficar duro. Na parte da tarde visitamos Saqara, com outras pirâmides e mais um cemitério imenso de sarcófagos.

Cairo é o final de percurso dessa expedição. Passando pelo mundo árabe, ficou uma sensação de permanente irmandade entre eles. Quando um taxista não conhece uma rua, ele pára o carro, grita para um vendedor lá no fundo da loja “Salam Aleiko” e o sujeito vem rapidamente ajudá-lo, ou de onde estiver. Eles se ajudam de uma maneira como se formassem uma família estendida, como se se conhecessem há muito tempo. Adoram negociar, barganhar e discutir preço, mas não parecem ter o espírito de competitivade á flor da pele. Não vai convencê-los  se você disser que o visinho tem um preço mais barato. São pessoas temerosas a Deus e ritualísticas: para se ter uma idéia, durante uma negociação com o dono de uma loja, ele parou e disse que precisava ir, pedindo desculpas e tal, e vimos ele entrando na Mesquita logo após a musica tradicional. Ficamos sozinhos na loja. Fomos embora, claro.

Considerando todas as invasões e intervenções que os paises do Ocidente já realizaram no oriente médio (veja o caso recente dos EUA no Iraque), eles têm medo constante do ocidente, tal qual o ocidente tem medo deles (levando em consideração os ataques terroristas). Com exceção de Israel, mais desenvolvido, os paises que passamos são pobres, mas tal como o Brasil, reservam áreas de luxo onde os ricos tem suas horas de prazer; o poder pelas armas e pela ideologia é muito grande: com exceção de Israel, todos os outros paises espalham por todos os lados a foto do presidente o do chefe de estado. Vamos sentir falta da sensação de clipe da MTV em tempo real, uma somatória de música e paisagem em movimento: dentro do táxi, ou dentro do ônibus, andando pela cidade ao som de música árabe, das musicas das mesquitas chamando o povo para rezar, e das buzinas constantes dos carros. As paisagens naturais entre uma cidade e outra vieram de brinde nessa viagem; ou melhor, já valeria a viagem toda. As paisagens de tirar o fôlego foram as colinas em Teerã, o leste da Turquia, o deserto entre Aleppo e Damasco na Síria, os Montes do Líbano, a vista do Monte Nebo, o deserto de Negev e o Mar vermelho na orla de Eilat, em Israel, o monte Sinai (impressionante) e o mar mediterrâneo em Beirute. Lidamos com situações que conflitavam com nossa cultura, com nosso esquema de viagem: a bondade do povo e a relação capitalista: mais de uma vez, tanto no Irã quanto na Síria, o taxista, dentro de sua simplicidade, feliz por estar com um estrangeiro (ou brasileiro), falando poucas palavras do inglês, no final da corrida quando eu perguntava o preço, ele dizia: “me dê qualquer coisa”; isso quando não dizia, não precisa pagar nada. A quantidade de “welcome” que recebemos foi incontável. Vamos sentir falta dos mercados, fascinante observar o que vendem e como negociam; delicioso observar como se comportam, como abastecem o estoque, como tratam o cliente: primeiro uma hospitalidade calorosa e fraterna, depois se houver a venda, ótimo; caso contrário, ficarão feliz do mesmo jeito. Somente o Egito e parte de Jerusalém, pelo volume de turistas, estão mais contaminados com o esquema lojas “Babuch”, tentando vender a qualquer custo.  Vamos sentir falta da impressionante e surpreendente multicultural, multiarquitetural, multireligionsa Jerusalém. Eu até pensei em dizer “esqueça Paris, esqueça Roma, esqueça Barcelona, visite primeiro Jerusalém”. Mas pensando bem, numa crescente, Jerusalém, para não tornar as demais cidades em atrações menores, Jerusulém tem que ficar mesmo mais para o final. Pegamos o vôo de volta ao Brasil hoje, com conexão em Amsterdã.

Salam

Expedição ao Oriente Médio – Israel – Tel Aviv & Eilat – Caminho para Egito

Salam,  

Passamos a noite em Tel Aviv apenas para descansarmos e partirmos para o sul de Israel. Andamos um pouco pela cidade à noite e sentimos bem menos luxo do que imaginávamos encontrar, mas encontramos muito modernismo. Tel Aviv é capital financeira de Israel, completamente oposta a Jerusalém, e já foi bombardeada algumas vezes, dentre elas na guerra com o Líbano e na guerra do Golfo. Ficamos hospedados num bairro de grande concentração de arquitetura moderna, bastante influenciada pela escola de Bauhaus, da Alemanha, e conotam um prazeroso passeio pelo bairro com vistas para prédios com certa geometria artística e tecnológica. Tel Aviv tem, em comparação com o resto do mundo, a maior concentração de prédios com essa influência. Logo pela manhã, pegamos um ônibus apara Eilat, 5 horas de viagem. Durante o percurso, avistamos novamente o mar morto, agora pelo lado de Israel, cruzamos o deserto lunar de Negev e encontramos diversos Kibutz pelo caminho. O ônibus também entrou numa cidade chamada Bersheva, a mais desenvolvida dessa região, e que até o mês passado estava sendo bombardeada durante o conflito com a Faixa de Gaza. Aliás, Gaza está uns 70 kilômetros dali. Eilat é um a cidade que pretende ser uma Miami dessa região. Diversos luxuosos resorts e hotéis internacionais se instalaram ali, proporcionando um luxuoso aproveitamento do Mar Vermelho. Ela é a ultima cidade ao sul do Israel e faz fronteira com a Jordânia e o Egito. Chegamos no final da tarde na cidade, num calor de Manaus. Corremos até a parte fronteiriça com a cidade jordaniana de Aqaba, onde a cerca de fronteira atravessa a praia. Nesse trecho é possível ver um contraste interessante: as mulheres do lado de Israel com maravilhosos biquínis e as do lado da Jordânia completamente cobertas. Curtimos o por do sol nesse local, acompanhados de dezenas de fotógrafos, com máquinas fotográficas ultra-potentes tentando tirar fotos de um bando de pássaros. Pelo que entendemos, os pássaros (não descobrimos o nome) se movimentam juntos, bem no final do dia, realmente fazendo um desenho bonito pelo céu. O final do dia passeamos pela orla no estilo passeio na feirinha de praia. Ao lado do nosso albergue curiosamente um restaurante de Carne Brasileira. Tratava-se de um israelense que morou no Brasil e tenta realizar o mesmo corte de churrasco brasileiro.

Pela manhã partimos para o Egito. Novamente todo o ritual de travessia, só que dessa vez amenizada pela vista maravilhosa do mar vermelho e as montanhas ao fundo. O mar tem um cor especial (não é vermelha): em suas bordas, cerca de uns cinco metros (isso deve variar conforme a maré) tem uma cor azul bem clarinha; para dentro um azul bem escuro, maravilhoso! Depois da travessia a pé, já novamente no mundo árabe, em 5 minutos caminhando estávamos na cidade chamada Taba, bem na base do monte Sinai, onde segundo o velho testamento, Moisés recebeu os dez mandamentos. Pegamos um ônibus em direção a Cairo, 7 horas de viagem. Tanto o percurso de Tel Aviv a Eilat, quanto o de Taba até Cairo, escolhemos viajar de dia: todas as paisagens são de tirar o fôlego. Esse último trecho, em particular, viajamos quase em pé, de tanto que ficávamos tentávamos aproveitar a vista dos dois lados: subimos o monte Sinai, um desfiladeiro entre rochas enormes, que quando atingimos o topo, ganhamos uma vista panorâmica para o Mar Vermelho. Atravessamos o deserto do Sinai, passamos pelo Canal de Suez, famoso por separar a Ásia da África e por ligar navios com rapidez entre a Europa e Ásia. Chegamos em Cairo no final do dia e já pudemos perceber uma cidade bem mais desorganizada, com transito caótico, e muitos ambulantes espalhados. Na saída da rodoviária, paramos o primeiro táxi que vimos pela frente: um Lada preto, antigo, bem pequeno. O taxista abriu a porta malas e eu já ia colocando as malas quando ele fez sinal para parar e percebi que o step já ocupava todo o espaço. Pensei: “Uh vou ter que pegar outro táxi, esse aí perdeu a corrida”. O taxista, mudo, na maior naturalidade, pegou as duas malas hiper-pesadas e colocou em cima do carro, ultrapassando o tamanho do teto. Ele pegou uma corda, amarrou e “vamos embora”. Tentamos não rir, mas foi difícil segurar. Ficou um clima meio sem graça dentro do carro até o nosso albergue no centro de Cairo.

Algumas gafes dessa viagem, desde o Irã até aqui:

 Em Eilat encontramos um mestre cuca holandês, que mora uns 20 anos na cidade, e durante um bate papo, ele se interessou em saber qual é o prato mais famoso do Brasil e como se faz. Eu não sei fazer, mas arrisquei explicar. Depois de um tempão explicando, qual a origem do prato, onde se come, e eu já estava na metade da receita quando então chega na cereja do bolo do prato: os pertences do porco, pois se tratava de uma feijoada; daí ele disse: “veja bem, judeu não come porco….”

Só me restou entregar para ele meu último saquinho de massa preparada de pão de queijo. Dá para uns 40 pãezinhos. Ele foi embora entusiasmado.

Outra gafe foi em Aman, na Jordânia. É muito comum no mundo árabe, colocar a foto do patriarca da família dentro do recinto comercial. Para criar um clima de familiaridade, eu costumo perguntar quem é a pessoa da foto. Ele normalmente diz “é meu pai” e a pessoa enche o peito de orgulho, às vezes até conta um pouco a história da família, muito interessante. Em Aman, eu sabia que a pessoa da foto nesse caso não era pai da pessoa, era de fato uma pessoa conhecida. Eu sabia quem supostamente era, mas não sabia se estava viva, se era o pai ou o filho, etc. A pergunta não deveria ser essa mas foi :“Quem é essa pessoa?”, perguntei para o recepcionista do hotel. Ele, que também era o dono disse: “Como ‘quem é essa pessoa’, eu me nego a responder tamanha a obviedade”. Era o rei da Jordânia.

Outra foi uma tentativa de encurtar o ensinamento do Islamismo sem ter um vínculo familiar de longa data. Perguntei para um rapaz qual o primeiro passo para uma pessoa se tornar mulçumana. Ele gaguejou e disse não entender a pergunta. Deixei para lá. Perguntei a outro rapaz em outra oportunidade. Também desconversou. Só depois, lendo algo sobre “como se relacionar com o povo árabe”, uma dica era nunca perguntar como se tornar um mulçumano. Eles só respondem para quem eles tem um relacionamento de confiança duradoura.

Essa gafe não foi minha: no hall de entrada de Israel, área de liberação de vistos, numa fila havia um senhor bem velhinho Jordaniano, com a cabeça coberta de xadrez vermelho e branco e tudo, com passaporte na mão e calças arreadas, praticamente cobrindo o sapato. O que, calças arreadas aqui? Ficamos olhando a cena com estranheza um tempão. Ele até chegou a olhar para gente, sem nenhuma expressão. Ficamos sem entender. Só depois vieram dois rapazes – acreditamos que eram seus filhos – e imaginamos que disseram “pai, suas calças estão quase no chão” e foram levantando a calça dele. O que ocorreu é que o senhor havia esquecido o cinto no detector de metais que ele havia passado antes da fila e esqueceu de colocar de volta. Que figura.   Salam

Expedição ao Oriente Médio – Israel – Nazaré e Galiléia

Salam,

Chegamos debaixo de muita chuva na pousada indicada pelo dono da pizzaria. Fomos transportados por um militar de folga, um rapaz de uns 18 anos orgulhoso de seu trabalho e com seu pagamento como soldado. Todos em Israel devem, de alguma maneira (pelo menos se preparam sobre conhecimentos militares), servir o exército. Os jovens militares estão por toda a parte, inclusive em trabalhos burocráticos em repartições de vistos de fronteira.  Quando estávamos no quarto, liguei para a recepção para saber quando o ônibus para Nazaré passaria pela manhã, quando descobri que estávamos hospedados, por pura coincidência, num famoso Kibutz. Kibutz é uma comunidade socialista, que ser organizam para plantar e dividir os ganhos. Essa forma organizada de comunidade foi decisiva para o desenvolvimento de Israel, principalmente após sua fundação, em1948. Um Kitutz carrega um conhecimento econômico que comprova a possibilidade de socialismo na prática, o oposto do ocorrido na Rússia. Atualmente, estudantes de agronomia, interessados em aprender Hebreu ou até mesmo economistas, procuram viver nessas comunidades por um certo tempo, além de aprender algum oficio.

Pela manhã conhecemos rapidamente a fazenda e partimos para Nazaré. No caminho passamos em frente ao monte Tabor, lugar em que ocorreu a transfiguração de Jesus e ele se revelou como Deus para 3 de seus apóstolos, fato que ocorreu 40 dias antes de sua crucificação. Em Nazaré consta um dos lugares mais importantes para os cristãos, a Igreja da Anunciação. Também é um local comprovado arquiologicamente. A igreja é muito bonita e possui dois níveis. O nível de baixo preserva a gruta onde o Anjo Gabriel apareceu para Maria pela primeira vez, para anunciar que ela seria mãe de Deus.

Pela tradição judaica (Jose e Maria eram Judeus), a festa de casamento dura uma semana (ainda é assim para judeus e mulçumanos), mas antes existe toda uma preparação para o casamento: uma pessoa é prometida para a outra, passa um tempo, o casal é apresentado, depois eles organizam o lar, etc. No caso de Maria e José, ainda muito jovens, já haviam passado alguma dessas fases quando o anjo Gabriel apareceu. Maria recebeu o Espírito Santo. José posteriormente recebeu a visita do anjo Gabriel, o que foi importante para confortá-lo diante da missão. O local que visitamos é justamente a gruta onde Maria recebeu o anjo Gabriel. Do ponto de vista antropológico, esse é o ponto que diferencia o cristianismo de todas as outras religiões: a de que Deus veio a terra como homem. A título de conhecimento, já que essa também é uma viagem pela história, como já havia escrito, Jesus é aceito pelos judeus e mulçumanos, mas como um profeta, não como Deus. Quando saímos da gruta, tivemos a feliz coincidência de encontrar uma brasileira católica (do Ceará) que mora em Israel há dois anos e cumpre a missão de preservar a gruta, ao lado dos franciscanos. Deixamos com ela três quilos de massa pré-preparada de pão de queijo, diretamente do Brasil. Ela quase desmaiou de alegria. Atrás da basílica, visitamos a carpintaria de José, também tomada por uma área de escavação arqueológica. Atravessando uma rua de mercado, encontramos uma sinagoga que preserva o lugar que Jesus costumava se reunir com os apóstolos. E a uns 300 metros, um monumento que marca a única fonte de água da região na época, indicando que Maria retirava água daquela fonte para a sagrada família. Atualmente é conhecida como a Fonte da Virgem. Deixamos Nazaré e partimos para Caná, mesmo carregando nossas malas e mochilas, subimos um morro para visitar o lugar do primeiro milagre. Trata-se da transformação da água em vinho, episódio que ocorreu numa festa de casamento. Um fato histórico para nós aconteceu nessa simples, mas aconchegante igreja: um franciscano, muito simpático, promoveu a renovação do nosso casamento. Ou seja, trocamos novamente as alianças, e repetimos todas as falas tradicionais do matrimônio em italiano, o que aumentou o clima de romantismo. Ganhamos certificados e tudo. Depois de renovados, partimos para fase final do percurso “Terra Santa”: o Mar da Galiléia. Quando o ônibus se aproximou do mar, na verdade um lago , ficamos impressionados com o verdadeiro oásis, um paraíso. Entramos na vila Tabga (atualmente bairro da cidade Tabga), lugar em que Jesus realizou alguns de  seus milagres, e visitamos o lugar do milagre da multiplicação dos peixes, hoje uma igreja. Ao lado, cerca de uns 100 metros, a igreja de Primazia de Pedro, construída exatamente em cima (consta a rocha lá e tudo) onde Jesus apareceu pela terceira vez aos seus apóstolos após sua ressurreição. Não houve tempo para visitarmos a igreja das Beatitudes, que foi construída no local do Sermão da Montanha. Mas houve tempo para contemplar o monte.

Mais uma vez voltamos em silêncio, com a cabeça cheia de informação em pouco espaço de tempo. Recebemos todo o tipo de informação, várias visões sobre o mesmo fato, várias interpretações, várias construções arquitetônicas (construídas, destruídas e reconstruídas). Estou deixando de relatar toda a obra arquitetônica dos lugares sagrados que passamos. Arquitetura influenciada pelos Bizantinos, pelas cruzadas, pelos romanos e pela arquitetura moderna. Estou deixando de narrar o entendimento histórico de outras igrejas, até mesmo dentro da católica. Para citar um exemplo, a igreja católica ortodoxa alega que existe outra igreja da Anunciação em Nazaré. Estou deixando de narrar a quantidade enorme de sítios arqueológico demonstrando que muitas coisas ainda estão por vir. Estou deixando de narrar que alguns lugares sagrados estão misturados e incorporados na vida cotidiana do mundo árabe ou judeu como um lugar qualquer, bem como outras estão devidamente destacadas e reservadas para visitação. A igreja da Primazia de Pedro está rente à margem do mar da Galiléia, um convite para molhar a mão, chutar levemente as pedras e sentir a brisa sonorizada. O som é o que te repete para o passado.

Partindo de Tiberíades, no final da noite, pegamos um micro-ônibus para Tel-Aviv.

Salam

Expedição ao Oriente Médio – Israel – Jerusalém e Belém

Salam,  

Depois de uma noite muito bem dormida no silêncio sagrado da velha Jerusalém e de um café da manhã reforçado, atravessamos a muralha da velha cidade para visitamos o monte Sião. Nossa primeira parada foi a Igreja da Dormição, que marca o local do sono eterno de Maria, lugar que ela ficou logo depois da crucificação de Jesus. Ao lado da igreja, visitamos o local da última Ceia e a igreja St Peter in Gallicantu, como o nome já sugere, local do canto do galo quanto da negação de Pedro. Entre o Monte Sião e Monte das Oliveiras, uma caminhada de cerca de 1 hora, abriga diversos cemitérios Cristãos, Judeus e mulçumanos justamente por ali ter alguma áurea diferenciada. Nesse percurso também passamos pela cidade do Rei David, a parte mais antiga de Jerusalém (construída cerca de 20 séculos a.C.), pelo túmulo do Schindler (lembra do filme “A lista de Schindler”?) e por ruínas impressionantes. Atravessando todo um vale, vigiado pelo imenso muro da antiga Jerusalém, chegamos ao Jardim do Gethsemani, na base do monte das Oliveiras. A basílica da Agonia, também conhecida como Igreja de todas as nações (porque uns grupos de paises ajudaram a reconstruí-la),  marca o local do Jardim do Gethsemani, onde reserva parte de uma rocha, identificado como o local onde Jesus orou sozinho no jardim na noite em que foi aprisionado.

Em volta da igreja, maravilhosas oliveiras e uma visão espetacular de Jerusalém. Do outro lado da Igreja, visitamos o local onde Jesus pregava aos seus discípulos, e logo ao lado, o local onde Maria foi enterrada. Subindo mais ainda ao Monte, visitamos a “Dominus Flevit”, igreja que preserva a pedra em que Jesus contemplou a cidade e chorou prevendo sua destruição. O arquiteto dessa igreja, um italiano, foi muito inteligente. Dentro da igreja é possível ter uma vista maravilhosa de Jerusalém, provavelmente a mesma de Jesus, logo atrás do altar.  Ou seja, é possível assistir uma missa com uma pintura real colorindo sagradamente o ambiente. No alto do morro reserva a Igreja Pater Noster, local onde Jesus ensinou o Pai Nosso. Dentro é possível ler o Pai-nosso em 60 línguas. A vista de cima do Monte das Oliveiras é umas das mais belas que já vimos. Coincidentemente, logo que chegamos ao topo, começou a musica da mesquita da cidade velha, chamando os árabes para a reza diária. Essa música ao fundo, como clipe em tempo real, nos fez refletir sobre a complexidade de Jerusalém: é uma cidade impressionante, onde diversas religiões se entrelaçam nos fatos históricos e na arquitetura, misturados num espaço de terra tão pequeno, onde diversos sítios arqueológicos a céu aberto disputam espaço com os lugares sagrados de visitação, onde os milicianos (soldados que andam armados com metralhadora, circulam por toda a Jerusalém tentando garantir ordem e evitar qualquer ataque), a vida normal da cidade no que se refere ao comércio, a mistura de vestimentas entre os religiosos e árabes, etc. Sem dúvida, uma cidade de tirar o fôlego, mais do que uma Paris ou Roma.

Na parte da tarde, pegamos um ônibus para Belém. Descobrimos que o ônibus não entrava na cidade. Acho que já relatei que Israel está construindo um muro em torno da Cisjordânia. Belém fica no lado palestino, e tivemos que atravessar o imenso muro (lembra do Muro de Berlim? Então, é muito parecido. Já ouviu falar dos guetos judeus da Europa? Então, também é muito parecido com que os Judeus agora estão fazendo com os palestinos). A sensação de atravessar o muro não é muito boa. O clima é bem pesado e parecido com uma entrada de presídio, com muitos armamentos pesados e checagem de identificação. Somente palestinos e turistas podem passar. Logo que atravessamos já percebemos que o clima de primeiro mundo havia acabado. No centro de Belém visitamos a maravilhosa Igreja da Natividade, local comprovado arqueologicamente que Jesus nasceu (essa gruta foi descoberta 160 d.C), preservando a “Gruta da Natividade”. Lugar de conotação muito especial, realmente inspirador e que te atrai para ficar ali o dia inteiro. Ao lado da igreja, visitamos o local em que São Jerônimo traduziu a bíblia para o latim durante 30 anos por volta de 360 d.C. Ficamos muito contentes com o respeito que as pessoas têm nestes lugares sagrados. Um silêncio que torna o lugar muito mais aconchegante e seu contato com a reflexão muito maior. Vimos pessoas compenetradas, rezando, refletindo, uma áurea boa para o lugar. Não muito distante dali um lugar muito especial: onde Maria e José, também comprovado arqueologicamente, se esconderam da perseguição de Herodes. A gruta é um lugar acolhedor, tal como o seio familiar, chamado “Gruta do Leite”. Jesus começa ali a deixar o eterno legado da importância da família. Pessoalmente, com o silêncio dos antigos acontecimentos, sinto que é impossível, durante essa visita, na gruta de arquitetura natural, totalmente de pedra, não nos lembrarmos da nossa família, fazendo de Maria, ali amamentado seu menino, a imagem de nossa mãe, acolhedora, preocupada com nossos desejos de criança(das delicias que fazem para a gente, da palavra de confiança, da costura com as mãos, do leite quente,), algo único e inseparável por toda a nossa vida. Nesse momento, algo não muito científico, mas creio que o valor a família se multiplica.

Nossa volta para Jerusalém foi silenciosa.

Cruzamos novamente o muro, sentimos o sofrimento dos palestinos, percebemos que o muro, já bastante pichado com protestos é apenas o começo de uma separação. Difícil prever os próximos acontecimentos  sobre isso. Voltamos à pousada para nos preparamos para conhecermos o lugar onde Jesus passou a maior parte de sua vida, dos 7 aos 30 anos: Região da Galiléia. Nosso ônibus nos deixou às 23 horas em Afula, 15 minutos de Nazaré. Tão perto mas tão longe. Não havia ônibus até lá e começou uma chuva de alagar a cidade. Afula é uma cidade bem interiorana, quase ninguém fala o inglês. O único hotel que encontramos, fomos atendidos por um senhor muito mal humorado e que não negociava um preço mais baixo de jeito nenhum. O clima não estava bom, resolvemos tentar outro lugar. Andamos, a chuva atrapalhou muito. Numa pizzaria, o dono era um rapaz com cara de “quero realmente ficar rico com pizzarias”, disse que seu sonho era conhecer São Paulo, lugar que de fato se consome o maior numero de pizzas por habitantes no mundo. Como ele queria entender a fórmula do sucesso e São Paulo, tentei dar algumas pistas para ele, e ele nos retribuiu com uma oportuna sugestão: “vou pedir para levarem vocês para um lugar para vocês se hospedarem bem, e logo pela manhã vocês partem para Nazaré”. Foi o que fizemos.  

Salam