Decidimos ir. Nos preparamos então para o “jantar de gala” do Domingos. Sua simpatia era realmente contagiante. Atravessamos a rua e ficamos esperando o motorista no saguão do Holliday Inn. O motorista foi muito cordial, atravessou toda a cidade e entrou no complexo afastado do hotel Sheraton (na verdade, antigo Sheraton), o tal “5 estrelas” de boca cheia do Domingos. Nosso amigo estava na porta, de terno e gravata, um sorriso contagiante. “Que bom que vocês vieram, estou muito feliz por ter a companhia de vocês”. Domingos foi nos conduzindo pelo hotel explicando cada lugar. Perguntou ao concierge se a nossa mesa estava pronta. Com a negativa, nos conduziu primeiro ao bar, ao mesmo tempo em que explicava todos os detalhes do serviço, como se tivéssemos indo pela primeira vez em nossas vidas num hotel daquele porte. Mas não parecia arrogância dele. Era de fato uma maneira de nos deixar a vontade, demonstrando-se um bom anfitrião. Ele realmente queria que tudo saísse um sucesso. Quando a garçonete estava servindo Amarula e coca-cola, e por distração, se equivocou com os verdadeiros destinatários, Domingos fez a garçonete voltar o ritual e fazer o serviço correto, ao invés de trocar os copos na própria mesa. Dava para ver seu perfeccionismo, mas também transparecia um homem que sabia que estava pagando caro, e queria o serviço justo. O saguão e o bar, de fato muito luxuosos, estavam repletos de gente pomposa e com cara de “business”. Também muitas pessoas conversando e muitos militares passeando pelo saguão. Nosso amigo confirmou que aquele era o hotel preferido de Robert Mugabe e seus militares. Inclusive, um dia antes, Mugabe estava por ali.
Depois de duas doses duplas de Amarula, com gelo e um copo charmoso (veja meu caso, eu não bebo, mas mesmo assim tive que molhar os lábios para agradar o anfitrião. Mesmo para quem não bebe, a taça de Amarula preparada pelo hotel era realmente tentadora), o maître veio nos informar a liberação da mesa. Nesse momento Domingos lembrou muito bem: “Eduardo, você não vai tirar foto? Eduardo, você precisa tirar foto. Esse momento é muito especial. Tenho certeza que lembraremos por nossas vidas! Vocês não imaginam a felicidade que é encontrar vocês. Agora há pouco liguei para minha esposa e ela pediu para registrarmos esse momento”. Depois dos registros, Domingos chamou o garçom e pediu que o mesmo guardasse as bebidas inacabadas de nossa mesa para que continuássemos a beber logo após o jantar (tratavam-se de duas taças inacabadas de Amarula e meio copo de coca-cola). O garçom se atrapalhou um pouco, mas levou os copos. Somente quando fomos para o restaurante do hotel que Domingos deixou claro o que comemorava: o sucesso nos negócios. Para entender quão especial era aquele momento para ele, era necessário entender uma trajetória: cinco anos atrás roubaram meio milhão de dólares de sua casa em Maputo, Moçambique. Praticamente toda suas economias. Para não deixar rastro, os ladrões queimaram a casa. Domingos ficou numa situação difícil financeiramente, com dois filhos quase entrando na adolescência. Morando quase de favor, um belo dia bate em sua porta um rapaz (branco) sem dinheiro e sem nada, dizendo que era sul-africano e que havia viajando de Pretoria a Maputo de carro com os amigos. Esses amigos lhe aplicaram um golpe. Venderam o carro e desapareceram. Por uma semana, Domingos acolheu o rapaz, ao mesmo tempo que tentava encontrar o telefone dos pais ou endereço. Quando conseguiu contatar os pais, 45 minutos depois baixa um helicóptero no terreno dos fundos da sua casa. Enfim, o pai reencontra o filho. Um ano depois, quando Domingos consegue aceitar o convite de visitar a família, no bairro nobre ao norte de Pretória, o pai do rapaz leva o herói para um Shopping para tomar um banho de loja e se tornar um distinto cavalheiro. Logo em seguida, passam por uma loja de carros e o pai do rapaz pede que Domingos escolha o carro que quiser. Domingos escolheu uma Pajero. Como explicação, o senhor disse: “Estou fazendo tudo isso em retribuição ao que você fez ao meu filho. Além disso, meu trabalho é financiar pessoas, e você tem um crédito alto comigo”. A partir dali Domingos, formado em engenharia de alimentos, de alguma forma recebeu um empurrãozinho para iniciar um negócio de comercialização de peixes e camarões: primeiro abastecia o próprio Moçambique; depois África do Sul, Botswana, Namíbia e Zimbábue. O próprio Domingos estava se denominando como um “emergente”. A comemoração especifica de nosso jantar era de que havia fechado naquele dia um contrato que dobraria toda sua venda anual. “Estou me tornando uma multinacional, Eduardo!” No momento em que conversamos no ônibus ele havia acabado de receber a confirmação. O fato é que ele havia ficado muito contente de ter pessoas com cultura muito próxima no momento que ele recebeu a notícia. Para ele, não havia coincidência. Esse encontro tinha algum significado, algo típico de sua cultura. Conversamos até tarde sobre política de Moçambique, Brasil e toda a África, valiosas dicas de expansão do negócio, além de suas viagens pelo mundo para estudar socialismo numa época em que Moçambique estava sob esse regime. Ele já havia visitado Cuba, Argentina e também escapado de um “quase” naufrágio nos Triângulos das Bermudas, o que ele chamou de algo “muito alienígena”. O jantar realmente estava maravilhoso, repleto de iguarias da comida local e pratos internacionais. Domingos deixou claro para nós, seus dois convidados, antes de sentarmos à mesa, depois de cumprimentar todos os garçons, um a um: “podemos ficar à vontade, podemos comer o que quiser. O preço é único, então nós podemos comer muito bem”. O mais interessante de nossa conversa, excluindo todo entendimento do seu negócio de peixes e camarões, foi saber que o povo de Moçambique, que recebe o sinal da rede globo e da TV Record (lembrando que igreja Universal deve ser a maior multinacional brasileira, pois está em toda a África), ficou indignado quando a apresentadora de TV, a Eliana, havia desaparecido da Record. As pessoas queriam ir à embaixada do Brasil para reclamar. Também comentou que se Lula se candidatasse para presidente do seu país, também ganharia fácil. Com o Lula, a relação entre os dois países se fortaleceu e a economia de Moçambique vem melhorando. Já estão falando na extinção do visto entre os dois países, o que na opinião dele, será um grande avanço.
No final da noite, depois de mais fotos, Domingos pediu para que o garçom trouxesse as bebidas guardadas no bar. Reapareceu apenas a coca-cola. Foi uma situação embaraçosa para quem queria tudo perfeito, pagando realmente caro. A discussão amigável entre Domingos e os garçons ajudaram a fechar a noite. Voltamos para o albergue com a certeza de termos um novo amigo. Domingos deixou o contato, e pediu que enviássemos as fotos. “Qualquer coisa que precisem nessas viagens de vocês, podem contar comigo. Aqui está meu telefone”. Na volta para o Albergue, o motorista confirmou a generosidade do Domingos. 
Tínhamos pouco tempo para dormir. Além de armar o bendito, mas indispensável, mosqueteiro, havia muito que preparar para a próxima parada, da qual seguiríamos viagem muito cedo: Zâmbia.
Estávamos saindo da África do Sul com um gosto amargo da separação dos brancos e negros. A ponta de faca em nosso peito foi o último bairro que passeamos em Pretoria. Todos os brancos isolados em seu bem estar social europeu, vivendo uma vida segregada e ainda com um ar de racismo em suas falas. Descobrimos depois que ainda existem restaurantes que não permitem a entrada de negros (obviamente não-legal). A copa do mundo será mais uma tentativa de unir as pessoas, mas a vida cotidiana deverá ser ainda mais afetada para que todos vivam juntos harmoniosamente.

Harare apesar de ser a capital, é uma cidade pequena e muito modesta. Dá para contar nos dedos os prédios altos. A maior parte dos prédios do centro da cidade são públicos. Eu havia ouvido falar que era proibido tirar fotos deles, e a Juliana permanentemente me lembrava disso. Resolvi então entrar num dos prédios mais suntuosos do centro e ir direto perguntar para quem decidia (normalmente primeiro tiramos a foto e depois perguntamos, mas se tratando da maneira que o país estava sendo comandado nos últimos anos, não dava para brincar). E a resposta havia sido confirmada: não pode. Isso significava que o país ainda estava sob os mandos “ditatoriais” de Robert Mugabe. Mugabe é presidente do Zimbábue há quase 30 anos. Por também ser uma pessoa que lutou contra o apartheid, que segundo consta, foi mais forte no Zimbábue que na África do Sul, por certo tempo a figura de Mugabe chegou a se rivalizar internacionalmente com Mandela. Ambos trabalharam a vida toda pela mesma luta e também estiveram presos por muitos anos. Mas ao contrário do Mandela, Mugabe se tornou um presidente linha dura, eliminando impiedosamente seus inimigos ao passo que confiscou as terras dos “brancos” estrangeiros, o que levou o país para uma crise financeira e social das mais perversas do mundo. Eu imaginava encontrar essa crise linha dura pelas ruas e também ter em mãos o meu primeiro bilhão de dólares (é que a moeda local chama-se Zim dólares, e como a inflação é quase 1700% ao ano -a maior do mundo- e chega-se a ter realmente um bilhão de (Zim) dólares na mão). Só que chegamos tarde: recentemente o governo efetivamente dolarizou a economia abolindo a moeda local. Esse foi o primeiro passo na tentativa de recuperar o país, local em que pessoas ainda deixam de comer por dois dias e comem o máximo que podem em um dia, como forma de sobreviver ao longo prazo (a expectativa de vida é de aproximadamente 45 anos). A pobreza é visível nas ruas da capital. No supermercado as prateleiras estão praticamente vazias, mas pessoas me disseram que dois anos atrás era muito pior. Visitamos um famoso mercado chamado “OK”, justamente para entender um pouco a situação. Os preços, mesmo em dólar, são altíssimos: uma lata de coca cola custa 3 dólares.
Também me disseram que as pessoas trabalham por qualquer salário. O curioso é que isso não traduz em pior atendimento. Já é da cultura do país um esforço tremendo para agradar o outro. Um povo sofrido, mas muito prestativo. Mesmo na pousada que estávamos, que era muito simples, a recepcionista e o auxiliar eram muito prestativos. Ambos estavam uniformizados, sinceramente não combinava com o local. Mesmo num calor de “Copacabana”, Kevin, o auxiliar, vestido de terno e gravata, uma simpatia de gente, para que não nos perdêssemos, fez questão de nos levar até o supermercado, quatro quarteirões da pousada. Com poucas pessoas que conseguimos conversar, pudermos perceber que encontramos uma Zimbábue melhor do que eu imaginávamos encontrar. Como diminuiu um pouco a repressão ferrenha realizada por Mugabe, e percebemos haver poucos militares nas ruas, as pessoas estão com melhores perspectivas do futuro. Voltamos para o hotel com o tempo necessário para decidir sobre o tal jantar com o Domingos.

Segundo dia em Johannesburgo. Noite passada eu havia conversado um pouco com o dono do albergue, rodeado de seus dois cachorros (que pelo tamanho um deve ser da raça “cavalo” e o outro da raça “leão”, ambos andam soltos pela casa, desengoçados e com muita sede), sobre a minha missão no domingo: visitar o Soweto. Soweto (que significa South West Township) é um bairro afastado da cidade que ficou famoso por se tornar um dos maiores guetos do mundo, local onde os negros se apinharam dura te o apartheid, se fortalecendo no período de resistência, uma espécie de “Cidade de Deus”. Depois do fim do apartheid em 1993, o governo passou a tentar desenvolver a região, com casas populares, infra-estrutura, etc. Hoje é uma espécie de favela do Heliópolis, com algumas casas de classe média na entrada do bairro, com pinceladas de peculiaridades como o morro da mangueira. Assim como no morro da mangueira, de acordo com a instrução do dono do Albergue, deveríamos fazer uma visita com um guia. Na manhã de hoje, partiria um tour programado que passaria por diversos pontos do Soweto e que voltaria no final do dia. “Tour? Isso não me agrada muito”. O tour passou pelo albergue e ficamos para trás. Ligamos para um “carro particular” que havia nos transportado no centro da cidade ontem(o que seria um táxi no Brasil) mas o motorista disse que só passaria para nos pegar ao meio dia. Perderíamos duas horas. Resolvemos ir com as próprias pernas. Deixamos tudo de valor para trás e só levamos o essencial. Novamente pegamos a lotação Van(curiosamente eles chamam aqui de “táxi”) e fomos para o centro. No centro, uma mocinha muito simpática nos guiou até a próxima lotação que ia até o Soweto. O percurso é bem longo e tivermos a oportunidade de passar em frente ao Soccer City, onde será a abertura e final da copa(ainda em construção).
Quando ficar pronto ficará realmente muito bonito. A aposta do governo é que o estádio vai ajudar a desenvolver a região(realmente vai precisar de muito desenvolvimento). A lotação entrou no bairro famoso e nos deixou no começo da rua da antiga casa do Nelson Mandela, hoje um museu. Subimos a rua rapidinho, procurando o aglomerado de turistas que estavam realizando visitas em grupo ou com guia. O guia do museu foi muito simpático e se demonstrou realmente interessado em explicar a vida do Mandela: “Vocês conhecem o Mandela?”, perguntou. “Sim”. “Então, quando ele nasceu?”. “Bem…”. “É já vi que vocês não conhecem…”. E começou a bibliografia de frente para trás e trás para frente, ao mesmo tempo que mostrava os cômodos da casa. Mandela e sua família viveram ali antes de ser preso. Foi uma parada importante aquela.
Saímos pela rua pensando como seguiríamos para o próximo passo. De fato o que eu mais ouvia era de que era muito difícil explorar o imenso bairro sem ter um guia. Resolvemos subir a rua do Mandela a esmo, sem destino. Logo encontramos uma escola e ficamos no portão observando que algumas pessoas vestidas com trajes típicos estavam entrando por ali. O pessoal passava pela gente e para nossa surpresa todos nos cumprimentavam com um “olá” ou “sejam bem vindos”. Ali começamos a sentir uma África do Sul diferente. A última pessoa que estava entrando, um rapaz, foi um dos mais enfáticos e parecia realmente preocupado em ser acolhedor. Resolvi abordá-lo. “Como podemos conhecer os outros pontos do Soweto?” Awmanda foi muito simpático e disse que nos levaria até a casa da Winie, ex-mulher de Nelson Mandela. Desceu a rua com a gente, cumprimentando os amigos da rua, entrou a direita e foi subindo um morro bem estranho. Seguimos ele na mesma confiança das pessoas que estavam com ele entrando na escola. Atravessamos o morro e demos de cara com a mansão e mais uma dezena de crianças que pularam no nosso colo pedindo água e dinheiro. Era uma mistura de carência com miséria. Era uma situação complicada.
Lá encontramos um cartão postal da Africa do Sul: dois tanques de energia enormes, coloridos. De fato era impossível caminhar por aquela região sem ter um guia ou um “local” acompanhando. Felizmente, alem da companhia, Awmanda se demonstrou uma pessoa bastante esclarecida e muito a par da economia e política. Comentou que estava começando um curso de marketing na universidade de Johannesburgo, uma excecao para moradores do bairro, segundo ele. No momento que o encontramos na escola, ele estava indo para uma reunião da igreja católica sobre programas sociais da comunidade. Em nosso bate papo foi enfático em afirmar que o apartheid ainda existe: o desemprego no Soweto é enorme e brancos só empregam brancos. Até mesmo negros muitas vezes empregam brancos. Segundo ele, Johannesburgo está dividida agora em ricos e pobres, mas os pobres são negros. Alguns negros se tornaram ricos. Mas não existe branco pobre. Locais que os pobres freqüentam, tais como a cidade antiga, os brancos e negros ricos não freqüentam, nem mesmo de carro. Eles estão confinados em bairros ricos, bem distante da cidade. Tendo esse contexto como pano de fundo, a mistura dos brancos e negros poderá acontecer, mas será uma jornada longa e, por enquanto, a diferença econômica é uma barreira enorme para isso. Continuamos nossa jornada pelo bairro, caminhando entre os morros sob o peso do sol escaldante nas costas e reserva de agua na mao e encontrando muitos pobres e falta de infra-estrutura pelo caminho. Eu já nem perguntava mais o que as pessoas achavam da copa do mundo. Sinceramente comecei a ficar envergonhado. Percebi que era uma evento que as pessoas não têm a noção do que vai se passar por ali, muito perto deles: um paradoxo tão grande, quanto o circuito de fórmula 1 em São Paulo se passar ao lado de uma favela em Interlagos: um evento ULTRA capitalista com milhares e milhares de pobres em volta, a menos de 100 metros. O que para nós pode ser uma festa, para eles é um evento que passa ao largo dos seus problemas diários. Pelo menos pelo percebi isso caminhando por Johannesburgo. Talvez com o periodo da copa o negocio seja diferente. Continuando o percurso, o nosso amigo ficou para trás mas sem antes garantir que realmente estivessemos na lotação que nos levaria a um passeio que tinhamos muita expectativa. Nossa peregrinação pelo lado oeste da cidade finalizara no mais terrível dos museus do mundo: o Museu do Apartheid. Logo na entrada, para chocar as pessoas, duas entradas: um para brancos, outros para negros. Tudo foi feito para chocar: muros enormes com arames farpados, enormes identidades com classificação de etnias “brancas” ou “negras”. Apesar de chocantes, ainda assim saí com a sensação de “pegaram leve” com os ingleses. Isso porque o objetivo do museu não era exatamente mostrar quem provocou a terrível situação, mas sim ser uma mensagem de paz, de tolerância, de reconciliação, democracia, ou seja, algo que seja melhor pela frente e não ficar mostrando os detalhes da desgraça para trás. Até porque, se olharmos os negros ainda vivendo na miséria e apinhados em lugares com falta de infra-estrutura, ficará bem mais claro a constatação do Awmanda. No final do dia aproveitamos para conhecer o Sandton, bairro no norte da cidade, justamente onde nos informaram ser o “gueto” dos ricos. Ficamos impressionados com a suntuosidade do lugar: parques maravilhosos, conjuntos residenciais luxuosos e diversos shoppings de luxo desde Channel até Gucci. Nesse lugar encontramos os turistas profissionais, aqueles que simplesmente pegam o avião até Johannesburgo e automaticamente entram em outro vôo para o safári mais próximo.
Caros,
Enfim, depois de quase 10 horas de viagem, saímos de São Paulo pela sexta-feira, final da tarde e chegamos em Johannesburgo sábado pela manhã. Um vôo tranqüilo mas com uma temperatura muito quente dentro do avião. Ficamos sem saber se a South Africa Airways estava economizando energia ou se realmente os africanos não gostam de ar condicionado (isso porque, apesar de ser bem moderno, também não havia ar condicionado no aeroporto de Johannesburgo). E o clima de copa do mundo? Bem, mesmo no aeroporto, que é um lugar “welcome turist” não sentimos um clima de “está chegando a hora”. Claro que é possível encontrar diversas propagandas dos patrocinadores, mas em termos de assistência ao turista, o negócio ainda é bem amador: é até possível encontrar algumas pessoas treinadas para oferecer instruções ao turista, mas conversando com elas podemos perceber que tem muito mais boa intenção do que exatamente proporcionar boa informação.
Tive que ir na frente porque não havia espaço atrás. Além do motorista, havia um rapaz ao lado, que imaginei que fosse o cobrador por estar recebendo o dinheiro do pessoal. Na verdade descobri depois que quem ia na frente dava uma mão para o motorista. Esse suposto cobrador praticamente me fuzilou com os olhos durante toda a viagem. Abriu as pernas para ocupar todo o espaço e ainda por cima me deu o troco com a maior animosidade do mundo. Para tentar quebrar o gelo, quando vi no caminho uma moça usando a camisa do Brasil, apontei e disse Brasil! Simplesmente me ignoraram. Realmente o clima dentro da van não era bom. Quando chegamos no destino, uma espécie de praça da Sé com rua direita, fomos logo subindo o tal “topo da África”, um mirante estilo “Terraço Itália” bem no centro da cidade, em cima do Carlton, prédio com 50 andares. A vista é maravilhosa. É possível ver muito bem os quatro cantos da cidade, inclusive os dois estádios sedes da copa do mundo( só por curiosidade, a África do Sul tem com exceção pelo fato de ter dois estádios sedes na mesma cidade), daí dá para entender a importância econômica que tem a cidade de Johannesburgo; Depois dessa vista maravilhosa, passeamos por um shopping dentro do mesmo prédio e resolvemos sair na rua, caminhando pela rua direita. Ficamos espantados pois não encontramos nenhum branco.
O centro estava bem movimentado, mas somente negros, com a exceção de alguns gatos pingados de turistas no topo do prédio. O calçadão não passava de um shopping a céu aberto, com lojas populares e muita gente. Alguns olhavam para gente com certa estranheza, mas nenhum situação de assédio turístico ou qualquer outra manifestação. Nos sentíamos andando pela cidade, tal como fazemos em São Paulo. Somente umas três quadras depois resolvi sacar a máquina e bater uma foto da July em frente a um prédio. Não demorou 5 segundos e apareceram dois policiais desesperando. “Onde vocês estão indo?” “Posso ajudá-los?”, praticamente ofegantes. “Bem estamos andando pela cidade…”. “Saiam daqui imediatamente, aqui não é seguro para vocês!”. Daí voltou novamente a imagem de São Paulo e a tal da expertise…e logo emendei: “mas que tipo de problemas podemos enfrentar?””; “Com certeza vocês serão roubados, será através de arrastão ou individualmente”. Se não foi até agora, vai ser daqui para frente.”. O policial praticamente nos obrigou a entrar num táxi particular e pediu para o motorista nos levar a um lugar seguro. Disse que eu queria ir para a zona financeira e lá chegamos em uns 10 minutos. Na avenida principal da zona bancária, uma rua charmosa, prédios típicos de bancos, paramos para tomar um café numa esquina charmosa. Nos sentíamos presos. E agora: não podemos andar? Vamos ter que viver de táxi? Resolvemos chamar o Richard, um rapaz negro e muito simpático para conversar. Ele nos afirmou categoricamente que se fossemos para o sul não teríamos problema. E assim saímos em caminhada novamente pelo centro da cidade até o outros pontos turísticos populares. Nesse percurso ficamos impressionados pela quantidade de mendigos por duas praças que passamos. De fato, áfrica do Sul vem enfrentando uma recessão forte, desde junho de 2009 e o índice de desemprego vem subindo. Mesmo com a afirmação do Richard, era impossível andar com tranqüilidade. A sensação de permanente “barra pesada” nos acompanhava pelo percurso. Para evitar qualquer contratempo, abandonamos as calçadas e passamos a andar pela rua, desviando dos carros e das pessoas. Evitávamos ruas vazias, tentávamos nos esconder dentro das roupas. Era engraçada a sensação de que estávamos na África e que deveríamos estar com medo da savana, cheia de leões, mas estamos com medo das pessoas. Foi um passeio bastante desconfortável mas inevitável. Quando chegamos ao Theater Market, um teatro charmoso com cafés e complexo artístico muito antigo, planejamos nossa volta ao Albergue.
Tínhamos na cabeça que deveríamos estar de volta antes do anoitecer. Precisávamos antes passar pela estação rodoviária para planejar os nossos próximos passos de viagem. Um policial, muito simpático mas também com pouco inglês, fez questão de colocar o treinamento “copa do mundo em prática”, e nos levou até a lotação que nos levaria até a estação. Depois de um tour pelos guichês da rodoviária, saímos para realizar o processo de volta para o lar. Daí começou a bater o desespero. O sol praticamente partindo e não encontrávamos a van que nos levaria de volta, tampouco um lugar seguro aberto que nos acolhesse. Quando vimos estávamos justamente no lugar onde o policial havia nos expulsado, e passamos a correr pelas ruas, perguntando para todas a lotações que passavam se elas nos levariam até o bairro do albergue. E o clima de “barra pesada” ia aumentando. Quando chegamos até a van, finalmente, já era noite. Uma cena me marcou. Antes de entrar na van, coloquei a mão no bolso para pegar o endereço. Dois rapazes que passavam me viram fazendo o movimento e pararam para olhar se se tratava de algo de valor, suponho. Felizmente o coordenador da van abriu a porta e nos jogamos no fundo, garantindo dois lugares. Voltamos caladinhos e sem movimentos. O silêncio da van só foi quebrado quando eu gritei “stop”, no lugar mais próximo da viela do Albergue, lugar completamente escuro. Nem vou comentar a velocidade que corremos para chegar a nossa fortaleza. Havia um grupo de viajantes fazendo um churrasco e o dono do albergue ficou. Na maneira que fomos recepcionados pelo dono do Albergue deu a impressão que éramos os últimos que haviam chegado e que já havíamos passado do limite segurança.

Salam,
Em volta da igreja, maravilhosas oliveiras e uma visão espetacular de Jerusalém. Do outro lado da Igreja, visitamos o local onde Jesus pregava aos seus discípulos, e logo ao lado, o local onde Maria foi enterrada. Subindo mais ainda ao Monte, visitamos a “Dominus Flevit”, igreja que preserva a pedra em que Jesus contemplou a cidade e chorou prevendo sua destruição. O arquiteto dessa igreja, um italiano, foi muito inteligente. Dentro da igreja é possível ter uma vista maravilhosa de Jerusalém, provavelmente a mesma de Jesus, logo atrás do altar. Ou seja, é possível assistir uma missa com uma pintura real colorindo sagradamente o ambiente. No alto do morro reserva a Igreja Pater Noster, local onde Jesus ensinou o Pai Nosso. Dentro é possível ler o Pai-nosso em 60 línguas. A vista de cima do Monte das Oliveiras é umas das mais belas que já vimos. Coincidentemente, logo que chegamos ao topo, começou a musica da mesquita da cidade velha, chamando os árabes para a reza diária. Essa música ao fundo, como clipe em tempo real, nos fez refletir sobre a complexidade de Jerusalém: é uma cidade impressionante, onde diversas religiões se entrelaçam nos fatos históricos e na arquitetura, misturados num espaço de terra tão pequeno, onde diversos sítios arqueológicos a céu aberto disputam espaço com os lugares sagrados de visitação, onde os milicianos (soldados que andam armados com metralhadora, circulam por toda a Jerusalém tentando garantir ordem e evitar qualquer ataque), a vida normal da cidade no que se refere ao comércio, a mistura de vestimentas entre os religiosos e árabes, etc. Sem dúvida, uma cidade de tirar o fôlego, mais do que uma Paris ou Roma.
Na parte da tarde, pegamos um ônibus para Belém. Descobrimos que o ônibus não entrava na cidade. Acho que já relatei que Israel está construindo um muro em torno da Cisjordânia. Belém fica no lado palestino, e tivemos que atravessar o imenso muro (lembra do Muro de Berlim? Então, é muito parecido. Já ouviu falar dos guetos judeus da Europa? Então, também é muito parecido com que os Judeus agora estão fazendo com os palestinos). A sensação de atravessar o muro não é muito boa. O clima é bem pesado e parecido com uma entrada de presídio, com muitos armamentos pesados e checagem de identificação. Somente palestinos e turistas podem passar. Logo que atravessamos já percebemos que o clima de primeiro mundo havia acabado. No centro de Belém visitamos a maravilhosa Igreja da Natividade, local comprovado arqueologicamente que Jesus nasceu (essa gruta foi descoberta 160 d.C), preservando a “Gruta da Natividade”. Lugar de conotação muito especial, realmente inspirador e que te atrai para ficar ali o dia inteiro. Ao lado da igreja, visitamos o local em que São Jerônimo traduziu a bíblia para o latim durante 30 anos por volta de 360 d.C. Ficamos muito contentes com o respeito que as pessoas têm nestes lugares sagrados. Um silêncio que torna o lugar muito mais aconchegante e seu contato com a reflexão muito maior. Vimos pessoas compenetradas, rezando, refletindo, uma áurea boa para o lugar. Não muito distante dali um lugar muito especial: onde Maria e José, também comprovado arqueologicamente, se esconderam da perseguição de Herodes. A gruta é um lugar acolhedor, tal como o seio familiar, chamado “Gruta do Leite”. Jesus começa ali a deixar o eterno legado da importância da família. Pessoalmente, com o silêncio dos antigos acontecimentos, sinto que é impossível, durante essa visita, na gruta de arquitetura natural, totalmente de pedra, não nos lembrarmos da nossa família, fazendo de Maria, ali amamentado seu menino, a imagem de nossa mãe, acolhedora, preocupada com nossos desejos de criança(das delicias que fazem para a gente, da palavra de confiança, da costura com as mãos, do leite quente,), algo único e inseparável por toda a nossa vida. Nesse momento, algo não muito científico, mas creio que o valor a família se multiplica.