Expedição Yellow Submarine – Escócia

Escócia. Escócia. Escrevo duas vezes “Escócia” e leio calmamente para tentar resgatar o que havia em minha memória antes ter visitado a “Eeeeee-ssss-cóo-ciiiiiiiiiiiiiiiiii-a. Vem em minha mente as mais óbvias imagens: um lugar onde vivem os milionários, pessoas realmente muito nobres, o “whisky” escocês (algo que nunca provei, mas sei que existe), cenas do filme “Coração Valente”, a palavra “castelo”(sem uma imagem clara), e homens de saia, claro. Estou fazendo questão de tentar trazer essas lembras justamente para praticar o exercício da quebra de imagens pré-definidas que temos de um lugar, muitas vezes criada pela televisão ou por “pacotes turísticos”. A Escócia foi uma experiência fantástica, muito além do que realmente imaginávamos…

Saímos de Londres na sexta feira, vôo direto do Heathrow até Edimburgo, capital da Escócia. Para entender bem a geografia política, a Escócia, assim como a Inglaterra, País de Gales e Irlanda do Norte fazem parte do Reino Unido. A capital do Reino Unido é Londres. Mas cada “país”, se podemos assim dizer, tem a sua capital. Mas todos pertencem a mesma administração geral do Reino Unido, preservando suas nacionalidades. Geralmente as pessoas confundem o Reino Unido, chamando-o de Inglaterra e vice e versa. O fato é que não parece que os Escoceses gostam de serem chamados de Inglês, definitivamente. E ficou bem claro em nossa visita que os Escoceses fazem um esforço enorme para manterem sua cultura e sua história bastante distinta da Inglaterra. O vôo até Edimburgo levou aproximadamente uma hora. Como só tínhamos o fim de semana de carnaval (apenas dois dias, já que não tem carnaval no Reino Unido, rs), então resolvemos alugar um carro, tendo em vista que o transporte de trem ficaria muito mais caro. Seguindo a indicação de uma amiga da July ficamos hospedados num hotel simples e aconchegante próximo ao centro da cidade. A multi-tarefeira dona do Hotel, dona Tereza, nos recepcionou como se nos conhecêssemos há anos, explicando calmamente todos os procedimentos do hotel, horários, etc…sempre finalizando as frases com o “oukey?”(na verdade, querendo dizer “ok”). Sentimos um tratamento diferenciado, um calor humano tentando ser extravasado, algo diferente do que sentimos normalmente dos  ingleses em Londres. Deixamos as coisas no hotel e já saímos para conhecer a cidade e encontrar um lugar para jantar. Ali já começávamos a ter nossas primeiras impressões de Edimburgo, andando pela cidade naquela noite de sexta feira. O clima estava frio (máximo de 7 graus de dia, provavelmente calor para os escoceses) e zero a noite.

Por volta das 20 horas, era um silencio de feriado.  Edimburgo é uma cidade medieval, atualmente capital da Escócia, um centro financeiro muito importante.  Afinal a Escócia é um grande produtor de petróleo, proveniente do Mar do Norte. Aqui viveu Adam Smith, o pai da economia.

Pelas ruas esbarra-se por muitas estátuas de figuras ilustres da história..No centro está localizado o Castelo de Edimburgo, o ponto turístico definitivamente mais importante. Do castelo é possível ter uma vista privilegiada da cidade. Não é uma cidade grande, mas há muito para se explorar. Mas é necessário caminhar em toda a sua volta, tendo o castelo como o centro para encontrar os seus encantos. O ponto que mais gostei foi a vista do Princess Street Garden. É possível ver um maravilhoso jardim, a linha férrea e o Castelo no alto, com um frio bucólico. O castelo está situado sobre uma imensa pedra vulcânica(algo que os escoceses gostam de ressaltar!). Essa combinação nos remonta para fora da realidade. Percorrer esse jardim em toda sua extensão é de tirar o fôlego. Vale todo o passeio. 

Edimburgo é uma cidade medieval. Mas podemos dividi-la em duas partes. Um antiga, medieval, e uma mais nova(não tão nova, algo como desenvolvido próximo de 1800). A parte medieval, o seu centro é o castelo e a High Street. Percorremos a high street tanto a noite quanto de dia justamente para capturarmos as duas impressões. Durante a noite é mais festiva, muitos jovens pela rua, vida noturna. Partindo do Castelo, passamos pelo Hub, uma igreja antiga que foi transformada em lugar para eventos  – aliás, transformar igrejas antigas em lugares diferentes é algo comum no Reino Unido. Esse foi o único lugar que ouvimos a tradicional musica da escócia, tocada com Gaita de foles e homens vestidos de saia), até chegarmos no palácio Holyrood House, casa da Família Real quando eles estão hospedados em Edimburgo. Em frente ao Palácio, encontra-se o parlamento Escocês. Um prédio modernista que parece estar no lugar errado, não combinando com sua localização, já que ao fundo encontram-se a arquitetura antiga.

Um lugar que me surpreendeu bastante foi o museu da cidade. Muito bem organizado e estruturado. Nesse museu ficou bem claro uma outra preocupação nacional:  diminuição da população, algo que já vem de longa data e por variados motivos.

O dia seguinte foi todo dedicado a conhecer as famosas Highlanders Escocesas. Esperamos o cronometrado café da manhã da dona Tereza (não sai da nossa cabeça “o café será servido exatamente das 8 as 9 horas, nem antes, nem depois, “oukey”?). Afinal estávamos ansiosos em conhecer o café da manhã escocês. Valeu a pena. Partimos reforçados para nossa expedição ao norte. Nossa primeira parada começou com uma visita à estátua do Robert de Bruce, localizado na cidade chamada Stirling. Robert de Bruce teve um papel
fundamental na história da Escócia, na luta pela independência por volta de 1300.  Alguns dizem que sem a insistência de Robert talvez a Escócia não existisse hoje. Depois, sob o céu encoberto, mas um dia claro, corremos para o  monumento de Willian Wallace, mais ou menos uns 10 minutos do monumento de Robert. William Wallace foi justamente o papel que o Mel Gibson desempenhou no filme Coração Valente. Trata-se de um herói para os escoceses, pelo fato de ele ter lutado contra os ingleses e ter praticamente criado a Escócia. E todo mundo passa por esse lugar só para tirar uma foto da estátua que è a cara do Mel Gibson. Não foi o nosso caso, chegamos lá e o parque que abriga a estátua ainda estava fechado e como o dia era longo, não podíamos esperar. Como havíamos ganhado um certo tempo, preferimos então investir numa vista privilegiada do castelo de Stirling. O primeiro daquele passeio pelas higlinders.

Retomamos à estrada e definitivamente o passeio começou a tomar outra cara. Pensávamos que encontraríamos apenas lugares antigos, castelos e mais castelos, mas o que nos chamou a atenção mesmo foi a natureza. Ficamos impressionados com as paisagens belíssimas que se sucederam. Tínhamos o privilégio de passear por um lugar que muitas vezes está tomado de neve. Muitas placas no caminho advertiam sobre, “em caso de neve, esse trecho será bloqueado.” Além disso cruzamos diversos lagos, uma mais maravilhoso que o outro, verdadeiros oásis, até chegarmos a pequena vila de Glencoe, onde ocorreu um terrível massacre em 1692. O massacre ficou muito famoso na Escócia, mas confesso que não consigo explicar 100% o que de fato aconteceu e o que causou o massacre. Mas sei que a vilazinha foi uma passeio silencioso bem agradável. Tivemos a oportunidade de conhecer um café, com vista para belíssimas montanhas, e almoçar com a companhia sempre amigável dos Escoceses. Depois partimos continuamos nosso percurso pelo norte, visitando a base do “Ben Nevis”, o pico mais alto do Reino Unido, no coração das Highlanders. E finalmente, chegamos ao Lago Ness… para fazer nossa parte na história, e procurar o famosos “Monstro do Lago Ness”. Apesar de  o governo da Escócia ter decretado que o monstro não existe, andar por volta do lago com essa fama, não é uma atividade muito tranqüila, até porque a vida bucólica em volta do lago ajuda bastante a estimular a criatividade. Daí, fizemos o caminho de volta a Edimburgo, mas não o mesmo caminho que viemos. Novamente belíssimas paisagens não nos deixavam seguir caminho. Parávamos a todo momento para curtirmos maravilhosas e imensas pinturas panorâmicas.

Regressando a Edimburgo, aproveitamos para jantar no café que J.K.Rowling escreveu o primeiro livro do Harry Potter. Pelo que se sabe ela era pobre(mas tinha casa)  e andava pelas ruas tentando fazer a filha dormir no carrinho, daí entrava no Café para escrever o livro numa máquina de escrever. Um ambiente acolhedor o clima da Escócia (imagina a neve caindo na janela no inverno) e o silêncio medieval parecem ser uma combinação perfeita  para ter inspirado tantos intelectuais por essa área do mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Expedição Yellow Submarine – Londres

Passamos uma tarde na Kinetica Fair, uma feira techno-Art, realizada anualmente em Londres, e que reúne artistas que desenvolvem trabalhos que misturam arte com tecnologia, resultando em peças com cara de aplicativo. À primeira vista, os trabalhos passam a impressão de aplicativos sofisticados e úteis, tal como se você estivesse passeando por uma loja da Apple, apreciando o design dos equipamentos e descobrindo suas funcionalidades. O interessante da Kinetica é que essa ação intuitiva da mente é interrompida, isso por que os equipamentos aparentemente hightech estão ali a serviço da arte, ou seja, servem puramente de entretenimento, um objeto que pode inspirar novas idéias, um objeto de reflexão critica, decoração, etc. Bem, vamos lá, tire você mesmo suas conclusões.




Pela manhã havíamos feito um passeio exploratório ao ExCel London – Centro de Exibições de Londres – um imenso complexo de espaços e serviços capaz de promover dezenas de feiras internacionais ao mesmo tempo. É uma espécie de shopping de imensas feiras, estrategicamente localizado próximo ao aeroporto (de vôos domésticos) e o novo centro olímpico, a sede da  Olimpíadas de 2012. O local impressiona pela arquitetura interna e pelo cenário externo, como fundos para o rio Tamisa.

Expedição Yellow Submarine – Brighton


Mais uma vez nos deparávamos com a oportunidade de alugar um carro. A história desse aluguel é uma longa história. Havíamos resolvido trazer a nossa televisão do Brasil para Londres. Sabíamos que era um risco, incompatibilidade, etc. Mas como se tratava de uma Sony novinha, última geração, parecia que era um modelo universal. Balela. Meu objetivo com essa televisão era simples: apenas assistir a BBC, um canal aberto. Mas o tempo demonstrou que esta é a mais difícil das missões. O primeiro obstáculo foi a entrada da antena, modelo diferente do Brasil. O primeiro passo foi cassar um adaptador. Felizmente aqui em Londres tem uma loja que tem tudo quanto é adaptador que se possa imaginar e um serviço ótimo, explicando detalhadamente o funcionamento e tal. Adaptador na mão, volta para casa, teste e nada. Não funcionou. Ah, já sei: acho que a saída da antena da sala não está funcionando. Carregamos a TV pesada por toda a casa, testando de tudo quanto é jeito, em vão. A segunda tentativa foi a compra de uma antena pequena “ultrapoderosa”, segundo a caixa do produto, colocada atrás da TV.  Um passeio de domingo  foi uma pretexto para a compra. E mais uma vez testamos, e nada. A terceira tentativa foi a compra de um conversor digital. Compra feita, mais um passeio de domingo e nada. Conversor comprado em vão. Não posso deixar de comentar que liguei mais de uma vez para a Sony perguntado se essa TV funcionaria em Londres e recebi a confirmação tanto da Sony Europa quanto a Sony brasileira que sim. Então, o caso já não era mais financeiro, pois toda os gastos já estavam começando a compensar comprar uma TV nova e mais moderna. Era um problema pessoal entre a TV e eu. E ela tinha que funcionar na marra ou eu não me chamaria mais Eduardo. A July já havia me aconselhado a desistir dizendo vamos usar a TV apenas para assistir vídeo, etc. Mas esperei ela viajar para o Brasil nas férias e chamei um taxi para levar a televisão na autorizada da Sony, um lugarbem distante da cidade. O preço da rodada ficou salgado e sabia que ainda assim precisaria trazê-la de volta. Dias depois recebi a ligação do simpático indiano da autorizada me informado que meu sonho de assistir a BBC só seria realizado se eu  comprasse um outro aparelho adaptador, isso porque de fato o problema todo estava localizado no modelo de sinal digital do Brasil e Inglaterra, ambos extremamente diferentes. Mais investimento? Como o valor do aparelho era alto, desisti, pedi a TV de volta e faltava então  a parte mais chata: buscar a teimosa. Daí veio a oportunidade de alugarmos um carro novamente. Era mais barato o aluguel  do que pagarmos um taxi para pegar a TV. Saímos de manhã bem cedo, pegamos o carro, pegamos o GPS emprestado de um amigo, atravessamos toda a Londres até chegamos no norte e dar de cara com  a TV sem BBC. Dali mesmo saímos para nosso passeio, seguindo as instruções engraçadas do GPS falante do meu amigo, levando no banco de traz a nossa TV.  Mais ou menos 20 minutos depois atravessamos pela primeira vez o estádio onde será sediada as Olimpíadas de Londres de 2012. Todo o entorno do estádio está em construção, um shopping enorme na frente e estações de metro em fase final de acabamento. A verdade é que tudo nessa região está em construção. Tratava-se de uma área degradada, sendo agora reurbanizada e desenvolvida com tudo que há de mais moderno e charmoso. Aqui uma interessante consciência. Foi exatamente no lugar onde esta sendo construído o estádio onde tive um episódio anos antes não muito agradável. Esse episódio eu descrevi  no post https://geografianospes.wordpress.com/2004/07/21/expedicao-o-capital-6/

Episódio a parte, o fato é que o lado leste de Londres em geral é mais moderno,  e parece estar sempre em permanente construção e expansão. E nosso passeio seguiu  pelas auto estradas rumo a Brighton, cidade localizada na beira do Canal da

Mancha. Por um lado, cidade veraneio, com praias e tal, e também cidade dormitório. Esta cerca de 1 hora de trem de Londres.  Como cidade veraneio já da para imaginar que no frio ela tem outra cara. O vento gelado do mar serve como um animador de circo para quem está dentro dos cafés na beira da praia tomando chocolate quente. Para quem está lá fora buscando conhecer a cidade é necessário tentar esquecer o frio e sorrir para as fotos. Nossa primeira visita foi ao centro da cidade, onde a atração principal é o Píer, hoje abrigando um parque de diversão e uma feirinha bem simples e tradicional de qualquer praia do mundo. Depois do Píer, uma passadinha no Royal Pavilion, o palácio Real construído no século XIX, e uma visita ao museu de

Brighton. O Palácio Real, dentre todos os palácios da Inglaterra, guarda uma arquitetura surpreendente: tem uma influência forte dos indianos, principalmente na sua parte exterior. E, por outro lado, na parte interior remete a uma arquitetura e decoração da China e Mongólia. Já o Museu, além de preservar a história da cidade, partindo desde o seu começo como bairro de pescadores, passando por uma cidade para tratamento de saúde, e mais recentemente, cidade veraneio, o museu também preserva a arte moderna da região. Entre os dois eventos, o mais interessante é o

museu. Mas vale uma menção honrosa ao jardim separando as duas construções, uma com os fundos para o outra. O jardim guarda uma serenidade mesclada com o antigo que até merece um piquenique filosófico com duração de um dia. As árvores secas do inverno, o vento gelado, a suntuosidade do palácio e o silêncio dos transeuntes, te transporta para fora do cotidiano, como uma terceira dimensão.  Sim, não fosse o frio e a velocidade com que o dia caia, ficaríamos ali mais por um bom tempo.

E como a nossa maior missão era chegar ao local indicado pelo meu amigo brasileiro em Londres: “não deixe de ir a The Seven Sister”, lá fomos nós perguntando para todos os lados, onde ficava o tal lugar. Pegamos o carro e saímos para o norte, beirando a costa, correndo contra o por do sol. Nenhuma placa avisava sobre The Seven Sister. No caminho, garantimos uma passada na Marina de Brighton, um local onde são guardados os iates, mas tratava-se de um verdadeiro

bairro de luxo, com uma garagem de barco, ao invés de uma garagem de carro. Dali continuamos nossa jornada rumo ao norte. Meia hora depois uma pista das “Sisters”. Pegamos uma

estrada pitoresca, com passagem de um carro só, fazendas repletas de ovelhas, estradade terra e novamente encontramos o mar. Aí ficou

fácil entender a dica. Havíamos encontrado as sete irmãs. Maravilhoso.  Tratavam-se de sete imensas falésias, verdadeiras muralhas em frente ao mar. Entre os imensos barrancos, as areais de pedras grossas completam o charme dessa impressionante obra da natureza. Ver os castelos da Inglaterra, obra dos homens, são ótimas lembranças. Mas ver suntuosidade da natureza é outra coisa. O respeito é outro, a lembrança é outra.  Brincamos como crianças nas areias grossas e as pedras sobressalentes da beira do mar. Esquecemos o frio, o vento gelado da encosta. Aproveitamos as The Seven Sister nesse fim de inverno.  Já agendamos a volta no alto verão e no alto inverno. Deve ser inesquecível passar por ali coberto de neve bem como também com o sol escaldante….

 

 

Expedição Yellow Submarine – Bath and Stonehenge

 

Stonehange não valeu…tá, você vai ver o porquê. Em compensação de passeamos bastante por Bath. Nosso passeio a Bath começou cedo.  Dessa vez resolvemos alugar um carro em Londres, fugindo um pouco do tradicional ônibus e trem. Havia um propósito: com o carro ficaria viável passear por dois lugares relativamente próximos mas fora de mão no mesmo dia.  Esse foi o primeiro carro que dirigimos na Inglaterra. Naturalmente a parte mais divertida ficou por conta do aprendizado de dirigir ao contrário. Dentro do estacionamento da locadora em Londres, foi uma confusão. Não sabíamos para qual lado sair e ficamos travados em diversos momentos. Logo que tomamos a estrada o negócio ficou ainda mais divertido.  Além da falta de jogo de vista, o que mais atrapalha é a mudança de marcha com a mão esquerda. Mas tudo isso honestamente é compensado pelo charme de dirigir ao contrário e com a vista maravilhosa das estradas da Inglaterra. Como alugamos o carro sem GPS o outro passatempo ficou por conta do acompanhamento das placas das estradas com sinalização numéricas. Sem GPS e sem mapa, tínhamos que acompanhar algumas anotações rabiscadas em um post it, tudo isso para tornar o percurso ainda mais desafiador. O percurso de Londres até Bath, mais ou menos uma hora e meia de Londres, foi razoavelmente fácil. Mas dentro de Bath, como não tínhamos um mapa, foi uma confusão. Era a primeira vez dentre todas as nossas viagens pelo mundo que tínhamos que encontrar um lugar para estacionar o carro. Confesso que, apesar da imponência do veículo, tive vontade de me livrar dele. Se por um lado havia o conforto, por outro havia o transtorno de estacioná-lo. Tudo era muito caro e quase todas as ruas ¨proibidas¨. Ironicamente, o lugar que se demonstrou mais acessível foi a estação de trem de Bath: preço fechado para um dia.

Deixamos então o carro na Estação e passamos a explorar a cidade. Bath é uma cidade no oeste da Inglaterra que foi explorada pelos romanos por volta do ano 40 d.c.. O romanos se instalaram nesse local com o intuito de explorar o poder medicinal e místico das águas termais encontradas no local. Daí o nome Bath (banho, ou caldas, tal como em Caldas Novas, no Brasil).  Devido a sua história e arquitetura medieval e georgiana, a cidade foi considerada patrimônio histórico da humanidade. A atração principal da cidade é justamente o  “The Roman Baths”, lugar onde os romanos realizavam os banhos.O lugar é um museu, bem no meio do centro da cidade, e preserva algumas partes da construção
original complementada pela construção mais recente (não tão recente, mas depois da ocupação romana). Logo depois do passeio pelo Roman Bath, entramos na Bath Catedral ( ou Bath Abbey), uma belíssima igreja construída em 1499 e que pertence a igreja anglicana da Inglaterra. Se você ficar mais de uma hora nessa igreja provavelmente sairia corcunda, pois as seu teto( ou sua nave) chama a atenção pelos efeitos do desenho geométrico em toda a sua extensão.

 

Depois da igreja andamos pelas ruas pitorescas de Bath enfrentando um frio de zero grau se distraindo com lanche tradicional de atum para ganhar tempo. Depois de passar pelo aquecimento do jogo do time de Rugby do Bath contra “não sei quem”, e nos perderm
os pela rua Great Pulteney, a que preserva boa parte da arquitetura Georgiana, devido ao vento gelado-petrificador, voltamos para o calorzinho do nosso carro. Como planejávamos seguir caminho até a próxima parada, Stonehenge, resolvemos pegar o carro na estação e acelerar a visita pelos demais pontos de Bath.  E mais uma vez seguimos girando pela cidade tentando entender as direções e enfim encontrar os famosos “Círculo” de Bath, uma espécie de conjunto de construções georgianas que circulam uma praça e o “Royal Crescente”, também um prédio imenso que forma uma meia lua. O tempo corria….e o dia procurava desaparecer. Nessa época do ano, os dias são bem curtos na Inglaterra. O sol se põe 3 ou 4 horas da tarde. Seguimos nosso rumo com a dura missão de chegarmos a Stonehenge antes do anoitecer e atravessando diversos “vire a esquerda” e “vire a direita” logo após tal cidadezinha ou farol. Sem mapa o negócio ficou difícil. As anotações no papel não foram suficientes e algumas abordagens pelos Pubs ingleses(como são chamados os bares por aqui) para perguntar sobre o melhor caminho  custaram algum tempo de entendimento. Interessante é que os ingleses são atenciosos para passar a informação, mas são atenciosos demais: geralmente as explicações sobre o caminho são muito extensas o que confunde muito o interessado. Ele não se contenta em apenas dizer, vire na segunda a esquerda. Mas ele prefere dizer “logo que passar duas ruas, sendo que na primeira rua vai ter um supermercado na esquina e na outra vai ter uma lavanderia, você dá a seta para esquerda, pára do lado esquerdo e vira a esquerda, tentando não


atropelar ninguém”. Contando essa história toda o ouvinte fica confuso onde deveria realmente entrar..imagine essa historia em outra língua com varias gírias….Nos perdemos por duas vezes nesses caminhos tortuosos. Chegamos uns 20 minutos atrasados em Stonehenge. Foi possível, a olho nu, ver a atração principal (e única na verdade). Trata-se de pedras imensas sobrepostas como um dominó gigante. Ninguém sabe como isso foi parar aí e existe dúvida de quando foi colocado. Os arqueólogos acreditam que sua construção possa ter ocorrido por volta de 3000 a.c. Se por um lado alguns dizem que foram os povos antigos, por outro até há quem diga que foi feito por extraterrestre. Infelizmente nossa foto não ficou tão boa, por isso não vamos postá-la aqui, mas temos certeza que voltaremos lá um dia. A escuridão do local onde cerca a famosas pedras nos expulsou de volta para Londres. Curtimos a viagem de volta, por um caminho diferente. Muito mais longo que na ida, mas ficamos com o sabor agradável de passear de carro europeu nas ruas charmosas de Londres.


Expedição Yellow Submarine – Liverpool


Não é possível tamanha coincidência….

A Juliana e eu estávamos planejando passear por Liverpool já há um certo tempo mas sempre havia um compromisso no fim de semana que impossibilitava dedicar um dia inteiro para o passeio. O último fim de semana do meu primo Rômulo em Londres, que estava fazendo um curso de inglês de férias, era motivo que faltava para decidirmos de vez passear pela cidade dos Beatles. Mesmo assim, ficamos durante a semana toda com a dúvida se realmente iríamos. Será que o tempo vai estar bom? Olhar a temperatura é algo sagrado na Inglaterra. Não se faz nada sem ver antes a temperatura. Para ter uma idéia dessa importância, fomos convidados para um evento num sábado a tarde um mês antes do evento. O convite informava que não se sabia se seria um churrasco ou chá da tarde. A decisão dependeria do tempo. Somente uma semana antes recebemos a confirmação por carta de que o evento seria um chá fechado porque a previsão do tempo estava indicando chuva pesada. Bem, esse costume realmente parece fazer sentido, principalmente levando em consideração o fato de que os preços dos percursos de trem na Inglaterra são meio salgados. É realmente necessário planejar bem uma viagem porque o investimento pode realmente não ter o retorno esperado. O outro fator que pesava na decisão era saber se haveria mais coisas para ver em Liverpool além dos lugares relacionados aos Beatles.

A temperatura informada pela BBC era favorável, resolvemos então arriscar. Enfim, sexta feira à noite decidimos finalmente comprar os bilhetes para partirmos no sábado pela manhã. Uma surpresa boa é que estranhamente o preço da passagem havia caído uns 20% em relação ao preço consultado na semana anterior. Normalmente acontece o inverso. O preço vai ficando bem mais caro próximo ao momento da viagem. Sábado pela manhã, exatamente as 8:07 partiu o nosso trem para Liverpool. Em duas horas, trem de alta velocidade, com um design exterior bastante moderno, mas com bancos internos não reclináveis (de fato não era a primeira classe), céu parcialmente nublado, chegamos à estação central da cidade. Logo depois de nos abastecermos de café e croissant amanteigado (butter croissant), saímos à caça de um mapa da cidade vasculhando a estação. Resolvemos então sair pelas ruas seguindo o fluxo. Nossa primeira parada, logo em frente à estação foi um conjunto de prédios antigos formados pela St George’s Hall, um prédio neoclássico imenso inaugurado em 1854 para exposição e apresentações  e pelo Water Art Galery, um local para exposição de artes. O vento gelado, sob o céu nublado, longe dos 19 graus previstos pela BBC, nos empurrava para cruzarmos os prédios e chegamos enfim ao World Museum, um dos museus mais famosos da Inglaterra. Mas nosso objetivo nesse museu não era exatamente uma visita exaustiva pelas exposições tradicionais, regada de grandes dinossauros, animais empalhados e a descoberta da vida, mas sim chegar ao topo do prédio e assistir uma sessão no planetário da cidade. A sessão levou 45 minutos, uma viagem açucarada pelo fato de que Liverpool realmente realizou grandes contribuições a astronomia tais como a descoberta de um planeta…. e, por outro lado, a sessão foi apimentada pela hiperatividade de um menino de cinco anos, que comentava todos os eventos da sessão para desespero das outras pessoas.

Depois do planetário, caminhamos para o centro da cidade em busca de informações dos pontos relacionados aos Beatles. Depois de passarmos num posto de informações e ajudar duas japonesas altamente perdidas, em 15 minutos estávamos em frente ao famoso Cavern Club. Para quem não sabe, o Cavern Club foi o Pub (o bar) em que os Beatles foram descobertos pelo empresário Brian Epstein. O bar foi fechado em 1973 e pouco dele foi preservado. Apenas a entrada principal, que serve apenas para tirar algumas fotos. Na mesma Rua do Cavern Club é possível ver diversos pubs que se utilizam dos Beatles como tema. No final da ruazinha, encostado ao Cavern Wall of Fame, uma boêmica e realista estátua de John Lennon. E na continuação do passeio já saindo da Mathew Street, é possível  ver no caminho prédios baixos com estátuas de Paul, Ringo e George Harrison, distribuídos ao longo da rua pelos topos dos prédios. E nesse percurso a cidade de Liverpool foi se abrindo para nós: um misto de prédios antigos e novos, os Beatles, nos convidavam para um passeio emocionante. A partir daquele ponto a cidade ficou ainda mais encantadora. Depois de uns 20 minutos atravessando um shopping a céu aberto, vimos um movimento intenso de pessoas no alto de uma praça. Subimos seduzidos por uma música que repetia insistentemente a palavra “paz”. Era realmente uma praça e ali parecia realmente acontecer um show, mas cercado por cordas e policiais. Uma grande multidão tentava tirar foto e filmar de todas as maneiras. Não entendemos nada, muito menos porque o coral no palco repetia tanto aquela mesma frase proclamando a paz. Depois de uns 15 minutos na mesma situação, imaginando ser um evento muito particular da Inglaterra ou até mesmo de Liverpool, resolvemos continuar nosso percurso até as Docas da cidade, próxima ao porto. No meio do caminho, contornando a tal praça do evento, fomos abruptamente atravessados por um grupo de pessoas que perseguiam uma tal “celebridade”. Nem pensamos duas vezes e tiramos várias fotos mas sem ter idéia de quem se tratava. Continuamos nosso percurso certos de que era alguém muito local

A primeira doca que encontramos foi a Albert Dock, uma doca restaurada, logo em frente ao mar, onde abriga o museu dos Beatles. Em frente ao museu, havia uma Liverpool Eye, uma roda gigante turística idêntica a que existe em Londres e uma arena com arquitetura futurista ao fundo. A mistura do antigo com o novo é justamente o que atrai tantas pessoas para essa área da cidade e cria o encanto de Liverpool. E a música dos Beatles está sempre na cabeça.

O objetivo mais importante para nós era a o museu. Para acessar o museu tivemos que enfrentar uma fila beatlemaniaca. Valeu muito a pena e com sabor de quero voltar (sempre!).  Acho que eu nunca havia passado por um museu tão honesto quanto o dos Beatles. Honesto no sentido de realmente buscar reproduzir, explicar, apresentar em detalhe  os acontecimentos, sem criar um ar de “não toque em nada”. Difícil dizer qual o melhor momento ou parte do museu é a mais interessante, mas fiquei bastante tocado com a reprodução real do Cavern Club. Alem disso, uma área dedicada ao John Lennon onde era possível ver seu óculos inesquecível, provocava um momento de inspiração intenso a base de “Imagine all the people”. Convido você a ouvir essa musica e fechar os olhos, clicando aqui http://letras.terra.com.br/john-lennon/90/traducao.html

Depois do museu e de uma parada tardia para o almoço, regada a belíssima paisagem das docas, seguimos para o museu marítimo, onde pudemos visitar detalhes da história de grandes naufrágios, incluindo o Titanic, bem como a história das diversas modalidades de navegação, ilustradas por belíssimas miniaturas de navios. O mesmo museu também preserva uma area dedicada aos escravos africanos, com direito a maquetes de grandes fazendas de cana no Brasil de 1800.


O final da tarde ficou reservado para o percurso do canal das docas até a Catedral de Liverpool, o que nos permitiu cruzar exposições espalhadas pela cidade referente a Bienal de Liverpool (que diferentemente do Brasil, não ocorre em apenas um lugar, mas em diferentes pontos da cidade). Essas pequenas paradas nos valia de altas discussões de “é arte” ou “não é arte”, muitas delas questionadas pelo Rômulo. Mas independente disso, a arquitetura da cidade fazia o seu trabalho por si só. A suntuosidade da antiga Catedral Anglicana da Inglaterra, arquitetura antiga, construída a partir de 1903, a maior do país, e da Catedral Católica Romana Cristo Rei, arquitetura ultramoderna, beirando ao Oscar Niemeyer, há mais ou menos 500 metros dali, criam um contraste proposital no cartão posta da cidade, como reflexo histórico de um duelo de duas igrejas, uma Anglicana, outra do Vaticano.


Já estamos no final do dia e o vento gelado de Liverpool nos conduzia para a estação de trem. Mais duas horas no levariam de volta para Londres, nossa morada. Durante o percurso, a paisagem rural, fria e escura do interior da Inglaterra era acalorada pelo bate papo com o Rômulo. E…

Somente a noite, assistindo a BBC fomos entender do que se tratava o evento que presenciamos em Liverpool: a celebração dos 70 anos de John Lennon e inaugarção de um memorial. E a celebridade que havíamos chegado muito perto, menos de um metro, se tratava de Julian Lennon, filho de John em seu primeiro casamento. Julian também é um cantor muito famoso. Lamento a ignorância. Tenho certeza que você já tenha ouvido uma famosa musica dele, a “Too late for Goodbyes” http://letras.terra.com.br/lennon-julian/404401/.  Foi uma sensacional coincidência.

 

Expedição África “Hôtel des Mille Collines” – de volta à Johanesburgo, Africa do Sul – última parada

 

África. Terra dos safáris? Lugar onde surgiu o homo sapiens? Região de população negra? Lugar subdesenvolvido? Tribal? Pessoas passando fome? Colonizados?

Essas perguntas tentam pescar as imagens e idéias que nós, brasileiros, temos desse imenso continente. Normalmente falamos “África” como se fosse um único país, como se não houvesse países com características próprias. São aproximadamente 50 países formando esse imenso continente. Com as imagens de fome que já vimos infinitas vezes na televisão, sendo ela em apenas um país da África, automaticamente passamos a dizer que a África toda está passando fome. A copa do mundo, por exemplo, vai se passar em apenas um país, na África do Sul, mas já virou a “Copa da África”.

No percurso que fizemos, cobrindo na maior parte por terra, o sul, leste e norte, esse imenso continente nos levou a viver à “flor da pele” os problemas, a cultura e o meio ambiente que esse povo vive. Muita pretensão dizer que saímos “expert” disso, mas com certa propriedade para afirmar que é um continente bastante perdido no tempo. A herança colonial deixada pelos paises europeus marcou de diferentes maneiras tribos e “países”: como exemplo temos o apartheid da África do Sul e Zimbábue, com feridas que levarão anos para se cicatrizarem, e as “ditaduras” que pipocam de tempos em tempos a todos os cantos do continente. Para os países ricos, a África não passa de um terreno para exploração e, sinais dos novos tempos, levam a uma segunda (ou terceira? ou quarta?) onda nesse sentido. A China e Japão, os maiores necessitados de recursos naturais, vêm se demonstrando os maiores pretendentes. Tropeçamos em chineses por essa viagem. A diferença é que eles estão se aproximando com um “ar” de “ganha-ganha”, ou seja, ao passo que realizarão a exploração, também realizarão investimentos para ajudar o país a gerar empregos e se modernizar. Paises que se apresentarem à África com melhor abordagem de aproximação serão os mais beneficiados. O Brasil, inclusive, vem colhendo frutos nesse sentido principalmente nos paises de língua portuguesa, Angola e Moçambique( meu amigo Domingos confirmou isso). Os Estados Unidos agora tem uma vantagem competitiva imensa. Barack Obama é negro, seu pai é queniano e é possível ver suas fotos pelas ruas nos paises que passamos idolatrando-o como líder. Suas fotos são dispostas ao lado de Mandela.

Felizmente tivemos a oportunidade de andar pelo interior dos países. Somente assim compreenderíamos a vida real. É que 70% do continente vive na zona rural. As pessoas vem se mudando para as cidades, isso vem gerando um crescimento desordenado, uma vez que as cidades, mesmo as capitais, são precárias em infra-estrutura e saneamento básico (presenciamos, inclusive, por diversas vezes falta de luz e energia). Essa mudança para a cidade vem aumentando o interesse pelo consumo por produtos assim como serviços. Pequenos e médios comerciantes começam a aparecer, gerando alguma renda, gerando consumo, aumentando o PIB. Qualquer crescimento é expressivo por si só, dado que a base do cálculo é muito baixa. Os percentuais de crescimento tem chamado a atenção internacional, principalmente das empresas multinacionais. Daí tem se criado a sensação de que a África é uma segunda Índia, ou seja, uma reserva populacional que vai se transformar em consumidores nos próximos anos, uma “mina de ouro” para grandes empresas. Acho que isso vai demorar: a barreira para essa tendência natural continuará sendo as históricas oscilações políticas dessa região e o elevado índice de corrupção. O inconsciente coletivo mais comentado por aqui é que um africano acorda pensando em como ele vai sobreviver naquele dia, ou seja, como ele vai encontrar comida para acordar no dia seguinte. Tendo em vista essa busca pelo suprimento da primeira necessidade, política não está no dia a dia do povo. E quando está, ele tem muito pouca influência. Ela é relegada a pessoas endinheirada, carismática e com patrocínio de países ricos. Pessoas que se utilizam da bandeira de “África para os negros” de maneira que atraem votos com mais facilidade, perpetuando-se no poder. A luta diária, somada a precariedade do saneamento básico, baixa infra-estrutura, falta de oportunidade, leva a um aumento substancial no apego à religião, na fé de que Deus pode lhe resgatar, salvar e tirar dessa situação de sobrevivência na savana. Irônico isso. O lugar onde os primeiros homens lutaram para sobreviver, na busca por alimentos, só que entre animais ferozes (que ainda podem ser reproduzidos em safáris milionários), tem sido o mesmo lugar que o homem vem lutando para sobreviver, agora na era da abundância dos alimentos, só que com o domínio dos animais. Em todos os paises que passamos a religião estava muito presente no dia a dia. A igreja Universal brasileira, por exemplo, vem criando novas filiais com muita facilidade. Na Etiópia, outro exemplo, é difícil dizer o quão enraizado estão os costumes da religião com a vida social diária, no trabalho, na escola e pelas ruas.

Além disso, a vida ultraconservadora do africano, zelando pela família, bons costumes, vestimentas recatadas ajudam a minimizar os problemas da modernidade, atualmente enfrentados por paises do ocidente. Só para citar um exemplo de conservadorismo, os homens nunca usam shorts: usam calças e camisas com manga comprida. As mulheres são bastante respeitadas pelas ruas. Tem se ouvido falar de estupros na África do Sul, mas isso está dentro de um contexto específico, não é generalizado.

Enfim, a religião e a vida historicamente conservadora vêm dando o equilibro para que essas pessoas não entrem no desespero, algo à primeira vista, justo. Nem por estarem nessa situação, perdem a dignidade ou partem para a violência ou crime. Situações como a ocorrida no “Hôtel des Mille Collines” parecem de alguma maneira ter sido uma exceção, algo que os próprios moradores de Ruanda custam a entender. Naturalmente esse tipo de barbárie é patrocinado por interesses políticos, não sendo algo inflamado pelo cidadão comum. Pelo contrário, com um pouco de contato, passamos a ver as pessoas com uma bondade imensa, com uma vontade enorme de ajudar e de mostrar sua cultura, pessoas com vontade de crescer.

Agora, existe uma África complementar: as belíssimas paisagens proporcionadas somente pela natureza, composta pela bela geografia e fauna, e pela herança dos povos antigos, tais como as Igrejas de Lalibela, a Stone Town em Zanzibar e a maneira de viver de civilizações antigas.

E ainda há muito que o mundo pode descobrir de bom nesse imenso continente. Mais um passo, dessa vez “não militar”, foi dado nesse sentido: a copa do mundo de 2010. Não se trata apenas de uma sede para o evento mais assistido do mundo, mas sim uma tentativa de acelerar a cicatrização histórica de muitas coisas, tais como a convivência dos brancos e negros. A copa é apenas um simples passo. Existe uma preocupação global atualmente de que o evento poderá não ser um sucesso. Acho difícil não ser. De qualquer forma, andando por Johanesburgo, a principal sede da copa, onde ocorrerão a abertura e a final, não se vê muita empolgação pelas ruas.

Para voltarmos ao Brasil era necessário voltar a Johanesburgo, depois de um vôo de 7 horas de Adis Abeba. Sendo Johanesburgo nossa primeira e última parada, pudemos por duas vezes checar o clima da copa: o estádio principal não estar pronto ainda; nem mesmo o hotel que a seleção brasileira vai se hospedar está (chegamos até a nos arrumarmos para pegar um táxi e ir visitar o hotel, mas ficamos surpresos quando nos disseram que ele ainda não existe. Vai ser inaugurado em maio).

Como não havia mais monumento da copa para visitarmos, então partimos para entrevistar todas as pessoas que encontrássemos pela frente sobre a expectativa do evento: os brancos disseram que estão mais preocupados com críquete, um esporte mais esporte difundido. Já os negros se demonstraram ligeiramente entusiasmados, mas pouco a par dos jogos e funcionamento do evento. Ninguém que conversei pretende assistir a copa no estádio. Todos acham que talvez o evento ajude no futuro.

Só para um arremate final do clima local: chegamos no aeroporto internacional de Johanesburgo para embarcar para São Paulo e tivemos a surpresa de encontrar a seleção de futebol da África do Sul. Eles também pegaram o mesmo vôo para São Paulo. Desde o check in até a entrada do avião (uma distância de quase um kilômetro, dezenas de pessoas pelos caminhos, dezenas de free shoppings) não houve nenhum tumulto sobre os jogadores. Nem mesmo um pedido de autógrafo ou fotografia. Perguntei aos atendentes e guardas do aeroporto qual o nome de um dos jogadores (confesso que não conhecia) e eles não tinham idéia de quem eram. Procurei o Parreira mas, segundo um dos jogadores que conversei dentro do vôo, ele já havia partido dois dias antes. Esse percurso dos jogadores seria inimaginável com a seleção brasileira. Eu era o único com uma atitude de fanático por futebol. Os jogadores da África do Sul também não me pareceram tão entusiasmados. Devem estar com o peso da copa nos ombros…

Apesar disso, sim, apesar disso, ainda acho que o negócio só vai esquentar quando as seleções começarem a chegar para a copa. A população só vai dar conta quando em tudo quanto é lugar do mundo aparecer a África do Sul na televisão e ai sim vai começar a se envolver, se engajar. O próprio clima dos torcedores estrangeiros, já mais acostumados com esse tipo de evento, ajudará a servir de referência para os torcedores locais. Se em termos de infra-estrutura a “Copa da África” ainda pode ser uma dúvida, por clima e torcedores a copa será um sucesso. Essa é a minha aposta. Vamos ver….

Expedição África “Hôtel des Mille Collines” – A outra Lalibela, norte da Etiópia

No fim da história, Lalibela se apresentou como duas cidades. A primeira já narrei no relato anterior, as impressionantes igrejas de Lalibela, ainda não descoberta por nenhum filme do “Indiana Jones”, tal como a cidade de Petra, na Jordânia já foi descoberta.

Agora vamos para a segunda cidade.

Quando chegamos ao aeroporto de Lalibela pegamos uma van para a cidade, no topo de uma montanha. Nessa van, que também haviam outras pessoas que estavam no único vôo para a cidade, tivemos a oportunidade de conhecer o Peter Bachmann, um milionário suíço, um senhor com certa idade, que tem uma fundação com vários projetos beneficentes em Lalibela e outras cidades da Etiópia. Enquanto a van subia o vale até a cidade (ela fica no alto de uma colina), Peter dizia, com seu alemão puxado, tentando praticar seu espanhol: “Ediuarrdo, veja essas pessoas pelas ruas: elas têm que carregar as coisas nas costas numa distância de quase 20 kilômetros. Tenho um projeto especifico para aumentar o número de burricos pela cidade”. No meio do caminho, Peter fez questão de visitar uma vila a qual também oferecia suporte. Entramos em uma casa feita de barro, circular, coberta de palha. Algumas mulheres em volta secando sementes que não conseguimos reconhecer. Visitamos uma barbearia também instalada em uma casa de barro, muito pequena e escura, que Peter disse estar ajudando. “Eduardo, você sabe, você é economista: você precisa gerar uma “faísca” econômica, criando comércio, oferecendo serviços, etc.”.  De fato Peter tem razão e parabenizamos sua atitude e contribuição, bastante generosa. Também sentimos ele transparecer um certo orgulho em ser o centro das atenções pelo fato de estar ajudando as pessoas, uma espécie de personalidade local.  O fato é que a cena da barbearia me chocou. Cortando o cabelo, um rapaz com uma máquina de cortar cabelo na mão acertando o cabelo de um local, na mais simples e precária situação; ao lado, em pé, o Peter Bachmann, um senhor de cabelo branco, ouvindo algo do seu assistente local da fundação. Na minha cabeça rapidamente veio a geografia: “estamos diante do país mais rico e mais pobre do mundo: Suíça e Etiópia”. Algo me tocou naquela situação. Ainda inexplicável. Seguimos o percurso com a postura expansiva do Peter, sua mulher e sua equipe. Visitamos outros projetos pelo caminho. Contudo, como estávamos muito interessados em visitar as tais igrejas, não pudemos acompanhar Peter em supervisão a todos os projetos. Tivemos que nos separar.

No final da tarde fomos perceber que o jogo marcado para as 6 horas com molecada havia ficado famoso pelo vilarejo. Em nossa última parada, no museu das igrejas, com uma exposição de ornamentos originais, fomos questionados pelo pessoal da recepção se realmente apareceríamos no tal jogo. A meninada já estava no local marcado uma hora antes. Atrás do museu, escondidos, enchemos a bola, coloquei a camisa do Brasil e segui para ponto de encontro. A meninada se alvoroçou: “Kaká, Ronaldo, Brasil”. Atravessamos as vielas precárias do vilarejo de casas milenares (construídas há cerca de 500 anos e ainda são habitadas) e encontramos uma faixa pueril de terra na beira de um barranco, o campo improvisado. Seis para cada lado, o jogo começou.

O jogo não era de futebol: sim, a bola rolava, os meninos driblavam, fiz minhas firulas tentando ser um “craque brasileiro” para os meninos. Cada menino chamava o outro pelo nome de um jogador brasileiro, “toca Ronaldo”, “pega Rivaldo”, “cobra Robinho!”. Eu era o Eduardo. Os olhos dos meninos brilhavam com a sensação de time oficial. Em volta do campo, os homens mais velhos, vestidos como mendigos, buscando dignidade, já começavam a se aconchegar. Um sorriso no rosto se abria naquela vida miserável. A disputa para pegar a bola quando caia no barranco era tanta que apareciam dezenas de pretendentes. Os menores estavam loucos para entrar no “campo”. A torcida começou a aumentar e a nossa emoção também. Muitos meninos, muito pequenos, com o rosto cheio de micoses, as mãos carcomidas, muito mal cuidados, sem roupas, alguns com visão já comprometida, vestimentas esfarrapadas. A terra já desmanchava a bola. As moscas, infernais as moscas! Eram grandes. Muitas delas posavam sobre os rostos dos meninos e lá permaneciam. De tão acostumados, eles não sentiam. Veja, isso não é só em Lalibela. Isso vem nos acompanhando em toda essa viagem. Muito bonito ver as paisagens, muito bonito ver os monumentos. Mas realmente sentimos na pele essa dura e cruel realidade. Essa é a África. E nosso coração ficou muito tocado. Para a July foi uma emoção triplicada por estar no meio da “arquibancada” e em contato permanente com as crianças. O meu caso tinha a distração da bola e o trabalho de ator como um craque da bola (não podia decepcionar). Um deles, com certeza o mais afetado fisicamente, tinha por outro lado uma fala tão eloqüente que parecia um enviado especial para tocar o coração de qualquer um pelo mundo. A July fez questão de me apresentá-lo. “Edu, esse é o Djeva”. Ela tinha certeza que ele era especial e merecia uma atenção do “jogador brasileiro”.

O jogo não era de futebol. Esse jogo era da realidade.

2 x 1, segundo os meninos. Fizeram questão de fazer uma foto oficial.

 

Eu estava exausto. Senti vergonha por isso, comparado coma vida dura daquelas pessoas. Isso fez voltar rapidamente as energias e subimos a ladeira pesada e infinita até o hotel. A situação nos exigia uma contribuição adicional. A July estava muito tocada com a falta de livros na escola. Passamos antes então numa vendinha e perguntamos o preço do livro da escola, o livro padrão do governo. Entregamos um livro para o John e outro para os mais velhos, como “uso coletivo”. O agradecimento do grupo foi especial: “Eduardo, se você puder enviar pra gente algumas camisas de futebol, prometemos colocar o seu nome no time. Na cidade tem o time que homenageia o Peter Bachmann, assim podemos jogar contra eles”.  Fiquei tentado. E os meninos nem imaginavam que eu já conhecia o Peter, e sabia de quem se tratava. Dei o segundo passo: comprei uma outra bola, branca de couro ainda mais resistente.

E o restante terá que seguir por correio. Promessa é divida.

Acho que agora deve ter ficado mais fácil entender porque comentei no post anterior que tivemos uma noite difícil, com sonhos (ou pesadelos). Fomos dormir com duas Lalibelas: uma que guarda um patrimônio cultural da humanidade e outra que guarda uma dura realidade da Etiópia. Mais do que isso, uma dura realidade da África.

No dia seguinte pela manhã voltamos para o aeroporto para pegar o vôo de volta para Adis Abeba. Mais uma surpresa do serviço “Africano”: o vôo que estava marcado para as 12 horas havia partido às 10 horas da manhã, ou seja, duas horas antes. “Agora só no dia seguinte”, disse o atendente na maior tranqüilidade. Nem bem comecei a conversar com o gerente, havia um espanhol na mesma situação que não teve muita paciência e foi logo pedindo compensações, hotéis pagos, almoço, etc. Mais ou menos hora depois de uma larga discussão, a empresa informa que às 16 horas um vôo seria desviado para nos pegar e levar até Adis. Claro que continuaríamos num passeio aéreo pela Etiópia, pingando em outras cidades. Ficamos a tarde toda olhando para o “nada” daquele aeroporto e partimos às 17 horas. Atravessamos as montanhas centrais do país numa turbulência que as próprias aeromoças não conseguiam se conter. Adoro ficar na janela, mas olhando para aquelas asas aparentemente frágeis e com pequenos remendos não pareciam a melhor paisagem. Foi tudo bem, não passou de mais uma aventura.

Expedição África “Hôtel des Mille Collines” – Lalibela, norte da Etiópia

“Como pode eu ter feito uma reserva 2 horas atrás e o preço já estar 3 vezes mais caro? Essa é a maior inflação do mundo?”. Com essa frase, reproduzida com um tom premeditado para que todos ouvissem dentro do escritório da Ethiopian Airlines em Adis Abeba, chamei a atenção do gerente. Primeiro ele riu, levantou-se e foi direto até o nosso atendente perguntar o que realmente se passava. O sistema havia “caducado” e constava um preço de passagem bem mais alto do que haviam nos informado. Sinceramente creio que a atendente da outra agência havia informado um preço, mas o sistema acusou “estrangeiro” e na prática deveria ser realmente bem mais caro. O atendente explicou a situação e o gerente pediu que entrasse no sistema e nos cadastrasse como cidadãos Etíopes, assim pagaríamos o preço mais baixo do percurso. Fechamos o negócio e seguimos para a saída do escritório às 21 horas – últimos clientes – com os tickets de viagem entre Adis Abeba e Lalibela nas mãos. Essa cidade fica no norte da Etiópia, aproximadamente 600 kilômetros de distância, local onde estão localizadas as “ligeiramente” conhecidas internacionalmente Igrejas de Lalibela, consideradas patrimônio cultural da humanidade. Com um sorriso enorme, na saída  não podíamos deixar de dizer que estávamos honrados de ser agora cidadãos daquele país. E ela: “só um detalhe: o vôo parte às 7 horas da manhã, mas vocês devem estar lá duas horas antes”. Logo retruquei: “Mas não é um vôo doméstico?”. “Ouça: duas horas antes”.

No dia seguinte acabamos entendendo: a burocracia para entrar no aeroporto é desproporcional. Checa-se a bagagem diversas vezes. Parte desse “checa-checa” deve-se ao país estar numa guerra fria com um país que está ao norte, a Eritréia. As fronteiras estão fechadas e a Etiópia reivindica uma saída para o mar.

Se fosse um vôo direto, o Fokker 50, que parece movido ainda à hélice, chegaria em Lalibela em uma hora. Mas o vôo foi quase um ônibus “pinga-pinga”: parou em três cidades. Fizemos um verdadeiro tour aéreo pela Etiópia e ficou fácil entender porque uma viagem de 1 hora de avião até nosso destino durariam 2 dias de viagem de ônibus. As montanhas pelo caminho e as estradas semi-deterioradas transformam o percurso numa verdadeira internet discada.

Às 10 horas chegamos ao aeroporto de Lalibela. Apenas nosso avião. Pela primeira vez tivemos o prazer de pegar as malas quase que diretamente no avião. Muito prático. Adorei o serviço. Cada um vai lá e pega o seu. Acho que deveria ser adotado no Brasil. Foi a saída do aeroporto mais rápida que realizamos até hoje. Logo na saída havia uma van do hotel esperando.

Nem bem chegamos ao hotel, deixamos novamente as malas e tentamos buscar informações com o recepcionista de como poderíamos visitar as famosas igrejas. Senti uma tentativa de dificultar as coisas, tentando a todo custo empurrar um guia local ou algum pacote. Ficamos surpresos de ele não poder nos dar um mapa da cidade. Como um milagre apareceram dois franceses perdidos por ali que nos deram uma valiosa dica: desçam essa rua e chegarão lá. Descemos a rua desconfiados de que realmente havia alguma coisa naquele caminho. Lalibela, apesar de ser uma cidade, não passa de um vilarejo muito, mas muito pobre, mas com casas e pessoas muito diferentes para nossos olhares ocidentais. Algumas lojinhas muito caquéticas vendiam alguns souvenires, mas não parecia ser uma estrutura turística montada para os supostos turistas que passavam por ali. Era uma rua normal, ou melhor, uma ladeira bem pesada. Depois de encontrarmos a tal bilheteria e pagar pela entrada com direito a visitar o conjunto de igrejas por 5 dias, algo inegociável, ignoramos a recomendação da cidade de que as igrejas fechariam do meio dia até as 14 horas e seguimos o tour sozinhos.

Ficamos estarrecidos com o que vimos: são 10 igrejas esculpidas na rocha, cada uma representando um mandamento, abaixo do nível da rua. Normalmente se comenta que são 11 igrejas, mas na verdade, segundo os locais, uma delas se desmembra em duas. Uma mais impressionante que a outra, ainda em uso pelos mais conservadores. Justamente nesse tal momento de “horário fechado” ocorriam os cultos e pudemos acompanhar as cerimônias realizadas seguindo à risca a mesma tradição há muitos anos. Entre uma igreja e outra, enfrenta-se diversos labirintos construídos também em pedras, com esconderijos, fendas e buracos que ora servem para moradia para alguns que vivem ali dentro, ora servem de sepulcros. Ficamos embriagados pela sensação de “outro planeta”, caminhando pelos labirintos, túneis, participando das cerimônias e circulando as igrejas por todos os lados. A Etiópia guarda algumas surpresas que realmente nos remetem para outro mundo em poucos instantes. Essas igrejas são relíquias perdidas no meio do nada. Foram construídas há aproximadamente 900 anos atrás, uma tentativa dos reis de criar uma nova Jerusalém só para os Etíopes, pertencentes à Igreja Cristã Ortodoxa local. De alguma maneira deu certo. É uma construção monumental, sem dúvida única no mundo, tem um apelo muito forte para a religião deles.

Entre o percurso de um grupo de igrejas e outro, conhecemos algumas crianças do vilarejo. Como estávamos num percurso fora do roteiro, pudemos conhecer crianças mais distantes do assédio turístico. O bate papo com eles foi se desenvolvendo e fomos ganhando confiança. O menor deles, o John, nos acompanhou informalmente por nosso passeio. Vimos sua casa, sua família. Perguntei aos maiores, muito simpáticos, se eles tinham um time de futebol. Rapidamente disseram que sim. Aproveitando a oportunidade, eu perguntei se podíamos marcar um jogo para as 6 horas da tarde que eu daria uma bola de futebol do Brasil. Saíram em disparada.

Nosso passeio terminou na igreja mais conhecida atualmente, num lugar cinematográfico, no alto de uma montanha, cercada de árvores áridas e alguns lagartos de cabeça e calda azul e corpo cinza. Ao lado, um cemitério sem muro espalhado pelo morro. Durante a noite sonhei (ou talvez foram pesadelos?) com esses inebriantes cenários.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Adis Abeba, um olhar sobre a capital da Etiópia

Logo que chegamos ao aeroporto de Adis já entendemos de cara a simplicidade do país. Primeiro porque existem poucas embaixadas pelo mundo, onde a América Latina não está incluída e nosso visto só poderia ser concedido no aeroporto. Pagamos e recebemos na hora, depois de uma burocraciazinha. No saguão do aeroporto internacional, até que parecia um prédio novo, havia não mais que meia dúzia de quiosques vendendo alguns alimentos com mesas e cadeiras diferentes misturadas, parecendo algo realmente improvisado. Nada de taxistas oferecendo viagem, tampouco pessoas importunando turistas. Fomos ilesos até um pequeno estacionamento em busca de um ônibus para a cidade onde um senhor muito, mas muito risonho, disse que ele seria o único meio de transporte. Negociamos um preço, mas me arrependi depois. O preço oferecido originalmente não era alto. Mas o vício (ou virtude?) de negociar acabou prevalecendo. Fiquei com o sentimento de culpa, algo como “como é que você vai negociar com uma pessoa da Etiópia, com toda aquela imagem da miséria informada pela televisão?” Seu Lada azul e branco, herança do período comunista, como todos os demais táxis de Adis, estava caindo aos pedaços. No final da corrida acabei dando a mais do que havia negociado.
Ficamos hospedado num local bem localizado. Trata-se de um hotel estatal, com cerca de 300 quartos(lembrando que a Etiópia passou pelo regime comunista). Era um labirinto grande para chegar até o quarto, mas compensava pela localização, pela limpeza do quarto e pela prestatividade dos senhorzinhos auxiliares do hotel. A internet era muito lenta.
Nosso primeiro passeio pela cidade foi chocante. Uma cidade bem menos estruturada do que imaginávamos (e olha que imaginávamos baixa estrutura). As calçadas são tomadas por pedintes, pessoas doentes e transeuntes muito simples. No primeiro momento nos sentimos num teatro de horrores, mas logo nos lembramos se tratar de seres humanos como nós. De qualquer forma, a única maneira de se locomover era andar fora da calçada, margeando as ruas. Quando parávamos numa esquina, muitas pessoas nos olhavam com um olhar suspeito. Alguns rapazes tentavam me oferecer ajuda, outros querendo oferecer algum tour. Ficamos com medo. Passamos a esconder a câmera, segurando as coisas com firmeza, com medo de algum assalto. O trânsito caótico e o desrespeito aos faróis vermelhos intensificam a sensação de medo. Nosso primeiro “ponto turístico” foi um local que está ficando famoso por se tratar de um projeto que estimula as pessoas a correrem. Recentemente a Rede Globo mostrou uma reportagem nesse lugar como se na Etiópia toda estivesse se tornando uma febre correr. Trata-se da “Meskel Square”, um espaço para treinamento em frente ao centro de exibições da Etiópia. Em Adis vimos pessoas apenas correndo nesse lugar, mas apenas nas primeiras horas da manhã. Ficamos impressionados com o lugar, a sujeira, as pessoas miseráveis em volta, animais sendo pastorados e alguns pedintes nos cercando. Não ficamos muito tempo por ali. Rapidamente corremos para uma igreja, a primeira igreja Ortodoxa que encontramos. Pessoas com roupas rasgadas, outras com roupas tradicionais sujas, provavelmente tradicionais de sua cultura a maior parte idosas, sem cuidado, rezavam em torno da igreja. Os olhares são de pessoas que clamam sem aclamar. Algumas deles, quando nos vêem, oferecem um sorriso, outras se mantêm compenetradas na sua reza, outras expressam um olhar de “preciso de ajuda” e outras que nos passam a sensação de que “não entendo esse mundo”. Continuamos nosso percurso pelas ruas, tentando encontrar o jeito mais confortável de andar por Adis. Foi difícil. Não se consegue andar poucos metros sem esbarrar por uma favela, por pessoas em condições deploráveis e transeuntes com olhares estranhos. Não nos sentimos nada bem. Sentimos-nos excluídos e ao mesmo tempo sem ação. Nessa andança encontramos o Hilton Hotel e entramos rapidamente para nos refugiar. Em poucos minutos estávamos num bar na beira da piscina com todo o conforto do serviço capitalista americano. Ficamos internamente, ou seja, em nosso íntimo em uma situação embaraçosa e novamente paradoxal: “estamos no Hilton na Etiópia, um grande contraste”. Nos reabastecemos e pegamos um Lada de volta para o nosso hotel. Preparamos para uma noite especial: assistir um show de dança tradicional num local muito comentado nos guias de viagem internacional. Novamente pegamos um Lada e estávamos no local indicado. O taxista não falava uma palavra em inglês, tive que guiá-lo. Nem tive tempo de dizer “caro, acho que esse local está estranho” e ele nos deixou e foi embora. De fato estávamos na rua indicada, mas não víamos o tal restaurante. A rua escura, pessoas muito estranhas passando, alguns barracos de favela, bateu certo desespero. Fui até uma portinha de comércio para ver se podiam nos ajudar. Indicaram uma portinhola ali por perto de onde saia um cara bem esquisito. Logo me viu e disse “é aqui”. Talvez até fosse, mas sei que eu e a July saímos correndo (agora entendendo porque a Etiópia está promovendo a corrida) e novamente fomos nos refugiar no Hilton, não muito longe dali. No Hilton, o concerge indicou outro lugar, algo mais “turístico”, como ele mesmo disse. Negociamos com um taxista do hotel e fomos parar num lugar tão ermo quanto a favela do Paraisópolis: numa rua sem saída, eu e a July já com o coração na mão de ver tanta miséria, o chofer disse: “Uh, está fechado”. O lugar parecia um barracão de escola de samba ou um terreiro de umbanda. A July já começou a desconfiar da tal dança típica e insistia para que eu perguntasse ao chofer do que se tratava. Eu dizia: “tem que ser surpresa, senão não tem graça.”.
Fomos parar então num restaurante com comida tradicional, freqüentado por locais, mas um lugar que preserva com classe a tradição etíope de comer. Foi uma noite agradável, mas com o receio de sair muito tarde para enfrentar a sensação de medo espalhada. Mesmo num trajeto pequeno entre a saída do restaurante e o táxi éramos cercados por pedintes, pessoas com todos os tipos de histórias, papéis na mão ou até mesmo simulando colocar comida na boca.

No dia seguinte, novamente seguimos em busca de alguns pontos importantes pela cidade, enfrentando a realidade do local. Não sabíamos quais pessoas eleger para entregar alguma ajuda. Dessa vez estávamos um pouco mais acostumados a andar e tivemos menos medo e mais compaixão
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Nossa primeira parada foi no estádio oficial do time de futebol da Etiópia. O gramado verdinho e bem tratado, mas o pequeno estádio, de tão velho e mau cuidado, que não deixaram a gente tirar foto. Saímos dali, atravessando lama e ruas sujas. Resolvemos arriscar um ônibus para o próximo destino. Interessante que o ônibus se paga pela janela do cobrador, antes de entrar. Faz-se uma fila no ponto de ônibus. Quando entramos no ônibus, a cena foi chocante, de difícil reprodução: as pessoas nos olharam chocadas, alguns se levantaram nos oferecendo lugar, outras abriam um sorriso dizendo um “olá”. O motorista, assustado com o reboliço dentro do ônibus, só saiu com o veículo quando um rapaz traduziu que queríamos ir para o museu nacional. Ali nossa imagem das pessoas começou a mudar. E muito. O medo se foi como um passe de mágica. Percebemos a bondade das pessoas e sua incapacidade de fazer mal a alguém. Talvez aconteça um ou outro assalto, tenho certeza que sim. Mas não era algo generalizado. Estávamos com os olhos de brasileiro. O mesmo brasileiro que anda preocupado com assaltos pelas ruas de São Paulo.

Com outros olhos para a cidade, percebemos na verdade pessoas muito simpáticas e de grande coração. A primeira vista realmente nos pareciam pessoas suspeitas, mas em poucas palavras as coisas mudam impressionantemente. Tratam-se, na verdade de pessoas que adoram ajudar, de contar sobre seu país, de perguntar sobre o nosso e de aprender mais. Um sorriso de um estrangeiro já faz uma grande diferença.
Durante a tarde passeamos pelo imenso mercado local chamado de “Merkato”. Trata-se uma Rua 25 de Março multiplicada por 20. Ele tem o orgulho de dizer que se é o maior mercado da África. E no final do dia, encontramos um prédio que pudemos acessar a cobertura “clandestinamente”. Dali foi possível ter uma visão melhor da cidade, de suas ladeiras cansativas rodeadas de morros, suas casas pobres e pessoas simples, pessoas com roupas tradicionais de sua “tribo” ou de sua religião. Ruas de enormes corações…