Irlanda, segundo dia

No sábado pela manhã andamos novamente pela cidade, visitando o castelo, a universidade principal de Dublin e o Trinity College. Daí
partimos para outra fase da viagem. O interior do país. Alugamos um carro e em três horas, estávamos no outro lado do país, em Galway. Isso sim valeu a pena. Vimos paisagens que nos fizeram sentir em um filme. Para citar alguns, o “PS Eu te Amo” e o “Casa comigo?”. Queríamos chegar no meio da região da Conemmara antes do anoitecer. Um percurso novamente generoso. O silêncio, poucas pessoas, os pequenos sítios, e poucos carros pelo caminho, aqueles corredores delimitando os acostamento das ruas  nos acompanharam por todo o percurso. Alguns lagos pelo caminho incrementavam as paisagens cinematográficas. São aquelas paisagens que por mais que você tenha a melhor câmera fotográfica do mundo não é suficiente para captar esse golpe baixo da natureza. Sim, esse é o golpe: você tem que estar lá para ver com seus próprio olhos, porque o sentir também faz parte, a temperatura, o vento, a sua emoção.

Depois de fazermos um tour de umas 5 horas por Conemmara, voltamos para Galway para passarmos a noite. Não tínhamos reserva, como sempre. Encontrei um hotel no centro da cidade que parecia valer a pena pagar seu preço, não fosse pelo fato de não ter vaga. A July, carregando nosso ouro em sua barriga, ficou esperando no saguão de um outro hotel(também sem vaga), em frente a ponte no centro da cidade enquanto eu buscava alguma coisa. Na frente constava o nome de Hostel. Fui entrando, mais parecia um bar, um pub, muita gente bonita bebendo e conversando. A  música na maior altura. Isso é hotel ou discoteca? Fui atravessando a “festa”, em busca da recepção, a uma decoração ultra moderna. Pensei em desistir quando vi uma plaquinha no chão apontando a recepção onde a festa rolava solta. Como ainda assim eu não a encontrei, gritei para um cidadão que me apontou uma mesa no meio do salão e o recepcionista, um cara que parecia mais um modelo de terno e gravata solta dançava freneticamente com umas moças. Quando consegui enfim abordá-lo, me disse que não havia mais vaga. “Isso aqui é  sempre assim?” , perguntei. “Ah sim, isso é um hotel Relax Lounge”. “Deixe me ajudá-lo a encontrar um hotel.” Em dois telefonemas encontrou uma vaga não muito distante dalí, em um belo cais.

• Cliffs of Moher

Expedição Yellow Submarine – Irlanda

Talvez você tenha ouvido falar que a Irlanda esteja em crise. A Irlanda é um daqueles países que está na lista dos que a dívida está maior do que a própria arrecadação, para manter uma linguagem simples. Então, para manter o costume: Irlanda? Terra do U2? Lugar onde foi criada a cerveja Guinness? Onde fica Dublin, uma cidade efervecente? País que sofreu nas mãos da Inglaterra? Enfim, o fato é que estávamos com bastante expectativa em relação a Irlanda. Para ser mais preciso estávamos com muita expectativa com Dublin. No feriado prolongado da Páscoa aproveitamos para conhecer a Irlanda. Um percurso Londres a Dublin leva um pouco menos de uma hora. Para aproveitar o passeio, preferimos ir de trem curtindo a paisagem. O trem saiu da Elston station em Londres as 9horas da manhã. Ao meio dia estávamos cruzando a costa norte do País de Gales, rente ao mar, até a pontinha da ilha da Gran Bretanha. O ponto final da linha é a cidade chamada Holyhead.A estação de trem está conectada com o terminal de Ferries. Ferries nada mais são do que navios de alta velocidade, com serviço de bordo com cara de cruzeiro, com lanchonetes, pubs, cinema, casa de jogos etc, dentro no barco para você curtir enquanto durar o percurso de duas horas, ligando Gran Bretanha e Dublin, na Irlanda. Ficamos com dó de Holyhead, isso porque por mais que seja uma cidade interessante, acaba sendo uma cidade de passagem: as pessoas apenas saem do trem e entram no navio. Não entram na cidade. Eu a batizei de “cidade dos pelados”. Todo mundo provavelmente já pensou em andar nu na tentativa de atrair os olhares dos visitantes de passagens. Ainda assim, creio que a cidade não consiga atrair atenção. As pessoas querem mesmo ir à Dublin. Atravessar o imenso canal é um percurso agradável. Se você não olha pela janela, quase não dá para perceber que está num barco em alta velocidade. No final da tarde, estávamos rodando com nossas malas por Dublin para encontramos um hotel. Já no percurso da rodoviária até o castelo ficamos impressionados com o tamanho da cidade, não muito grande. Digo, a cidade com certeza deve ser grande mas a cidade “turística” percebemos que era bastante compacta, tudo realmente muito próximo. E nosso tour começou naquela noite mesmo. Ficamos num hotel bem aconchegante em frente a catedral Christchurch. Largamos tudo no hotel, reforçamos as vestimentas de frio e começamos nosso tour pela igreja. Por coincidência estava acabando a missa e… começando a procissão de sexta-feira santa. “Vamos acompanhar?”. Valeu a pena. Seguimos a procissão e tivemos o benefício de passar pelos pontos turísticos da cidade num percurso diferenciado, protegido pela polícia, sentimos um pouco em casa, como se estivéssemos no Brasil. A Irlanda foi dividida em duas nos anos 20. A Irlanda independente é católica, uma das razões para sua independência. A Irlanda do Norte ainda pertence ao Reino Unido e segue a igreja Inglesa. As duas Irlandas estão na mesma ilha. O interessante é que tivemos a impressão de que apesar de as duas estarem separadas econômica e politicamente, em qualquer guia de viagem básico a Irlanda é apresentada como única. É uma estratégia interessante. Diferentemente dos anos 80, quando ocorriam os ataques terroristas pró separatistas do IRA, atualmente existe uma facilidade enorme de trânsito entre as duas Irlandas. O turismo é um setor chave para manter a economia estável. E manter uma boa imagem perante o exterior ajuda ambas as Irlandas. É muito fácil encontrar pacotes de um dia para Belfast, cidade na Irlanda do Norte, e assim como em Belfast para Dublin. Depois da procissão, nos preparamos para a efervescente noite de Dublin. Em vão. Foi até engraçado. Poucas pessoas pelas ruas. Lembre-se que tratava-se da Páscoa, sexta-feira santa, onde fica proibida a venda de bebidas alcólicas. Sem bebida, Dublin, o lugar dos Pubs, simplesmente não existe. Provavelmente vimos uma cidade em um raro momento. Será que isso pesou em nossa impressão de cidade compacta, e com atrações bem abaixo do que esperávamos? Talvez. Mas o charme da cidade tem um lado compensatório. O Irlandês é um fator compensatório. Povo agradável, simpático, receptivo. E afinal, é possível sentir alguma coisa de “crise”  econômica? Olha, difícil dizer. Não parece ser um país muito populoso. Tive um sensação de que está sob medida. Talvez porque estávamos num período atípico, então não sentimos a crise. As ruas pareceram limpas, não vimos cartazes de protestos ou coisas assim.

• Dublin

Expedição Yellow Submarine – Luxemburgo, Remis e Paris

Luxemburgo. Bem, quantas piadinhas tive que ouvir quando comentei que ia para Luxemburgo. Claro, as pessoas se referiam ao técnico de futebol. Injusta referência, pois reduz esse peculiar país a uma estéril conversa. Luxemburgo, o país, tem um belo endereço no mapa: está entre a Alemanha, Bélgica e França. É um dos menores países do mundo. Se não estivesse na Europa, não creio que seria possível manter sua existência como país. Não digo isso pela representatividade de cultura e pela característica de seu povo, mas muito mais pela organização política do mundo. Dificilmente um Estado desse tamanho se estabeleceria como tal fora da estrutura desenvolvida da Europa. Na segunda guerra foi invadido pela Alemanha – praticamente sem resistência – já que o país estava proibido de investir em armamento por conta de um tratado assinado anos antes justamente garantindo sua autonomia.

Para chegarmos a Luxemburgo, pegamos o trem Eurostar de Londres para Paris. Essa foi a primeira vez que usamos o Eurostar. Indescritível. Cada um tem uma experiência diferente com o Eurostar. Acho que vale cada centavo. É muito mais do que uma simples viagem de trem ligando duas grandes cidades: atravessa-se por baixo do Canal da Mancha (vinte minutos embaixo do mar), uma imensa obra de engenharia, cruza-se boa parte da França, partindo e chegando ao centro das duas cidades. Fiquei bastante surpreso em ver que logo que o trem saiu da estação em Londres, entra-se em um túnel que coloca o trem praticamente fora da região central. Num percurso bastante confortável de 2 horas e quinze minutos, chegamos em Paris e alugamos um carro. Seguimos para Luxemburgo, três a quatros horas dalí. No caminho, paramos em Remis, cidade no meio da região de Champagne. Isso mesmo. Lugar de onde vêm as champagnes. Largamos o carro no centro da cidade e saímos caminhando. O primeiro prédio antigo que encontramos pensávamos ser a catedral da cidade. Tiramos várias fotos da fachada, vimos até um grupo de convidados de um casamento sair, entramos no prédio e descobrimos que na verdade era um hotel. Cidade bastante silenciosa, um pouco cenográfica. Andamos mais um pouco e enfim encontramos a verdadeira catedral. Uma das mais impressionantes que já vimos. Não é a toa que era nessa catedral que ocorriam as coroações do reis da França. A Revolução Francesa, como se sabe, extinguiu a monarquia na França mas o franceses lucram ainda e muito com a história deles(dos Reis) e dos castelos que eles deixaram. Fora a catedral, Remis guarda um ar bem interiorano.

Seguimos viagem cruzando o vale Champanhe-Ardenas, plantações extensas e divisões de terras geométricas e arborizadas. Confesso que eu esperava paisagens de “parar o carro”, mas sinceramente passaram bastante discretas. No começo da noite entramos na cidade destino.

Logo que nos acomodamos no Albergue em Luxemburgo, saímos rapidamente para tentarmos aproveitar alguma coisa pela noite. O recepcionista do albergue, um português, recomendou que fôssemos a uma quermesse. Soou bem estranho. “Quermesse?”. Mas pagamos para ver. Na verdade tratava-se de um parque de diversão,  com cara de “permanente”,  não de “temporário”, o que a palavra “quermesse” levaria a crer. Praticamente toda a cidade estava lá. Vaga para parar o carro era impossível. Uma cidade de ruas com direções bastante confusas nos impedia de encontrar vagas próximas ao parque. Não deu para conhecer o parque com nossos pés, mas o lado positivo é que de carro pudemos entrar em ruas bastante interessantes. E deu para perceber que realmente o parque salva a noite por ali: Luxemburgo não parece ser muito agitado; o parque, bastante animado, e com brinquedos radicais, cria uma alegria que neutraliza a arquitetura antiga e intocável. Depois da região do parque, arriscamos seguir uma recomendação de internet sobre um restaurante do outro lado da cidade. Tratava-se de um restaurante no saguão de um hotel. Vazio e pouco expressivo. “A comida deve valer, vamos ver”. “Lamento senhor, mas a esta hora já não temos diversos pratos do cardápio”. Perdemos tempo com essa “dica de internet”. Voltamos para o albergue.

No dia seguinte logo cedo começava o tour tradicional pela cidade. Havíamos escolhido ficar naquele albergue justamente pela posição estratégica para começar esse tour. Mas para quem só tinha um dia como nós, fizemos o que queríamos na medida certa. A nossa caminhada começou às 9 horas da manhã, com um roteiro especial desenhado por nosso amigo português.  Luxemburgo começou com uma cidade construída dentro de um vale. Com o tempo, a cidade foi crescendo e a parte de construções antigas (de 900dc) e a cidade mais nova (não tão nova, mas não tão velho quando a época do Império Romano) foram se misturando produzindo verdadeiras obras de arte. Mas o que particularmente me chamou a atenção foram as imensas paredes de pedras, as encostas das montanhas cercando a cidade baixa, passando a impressão que essas colunas estão invadindo a cidade, como se fosse algo recente. Obviamente é o contrário.Mas a minha sensação, como disse, foi inversa.

Esse tour pela cidade foi, sem sombra de dúvida, umdois mais bonitos e agradáveis que já fizemos. É muito pessoal. É um passeio encantador de um dia contemplando a história, a arquitetura encravada nas rochas, pontes de tirar o fôlego,
imensos muros, e os jardins exuberantes. No final do dia, pegamos o carro e fomos visitar o afastado museu de memória ao soldado americano. Não imaginávamos o que iríamos encontrar. Mas também foi um passeio que valeu a pena. Não somente pelo desenho sincronizado das cruzes representando cada soldado desaparecido, mas pelas paredes com a descrição e mapa dos movimentos das tropas durante a guerra.  O fato é que os alemães ocuparam Luxemburgo por um bom tempo. No final da guerra, os americanos libertaram o país, devolvendo a soberania ao governo de Luxemburgo, refugiado em Londres. Os americanos são definitivamente adorados por ali. Qual enfim a economia de Luxemburgo? Serviços: bancos, bancos e bancos. Grandes bancos, bancos internacionais. Trata-se de alguma maneira de um lugar, assim como a Suíça, que oferece incentivos para grandes bancos.

Depois de um dia corrido em Luxemburgo, voltamos à Paris. Dessa vez sem paradas. Foi bem divertido dirigir a beira do Rio Sena, primeira avenida que entramos logo que acabava a rodovia. Dessa vez em Paris, tínhamos uma reserva. Queríamos fazer um passeio tranqüilo e com menos aventura. Ficamos num hotel bem localizado. Isso nos permitiu sair pela noite e visitar com facilidade a região do Moulin Rouge. Foi coincidência visitarmos a frente do teatro. Estávamos na verdade procurando um restaurante bem próximo a ele.

Tratava-se do restaurante onde havia sido filmado o “O fabuloso destino de Amelie Poulain”. Bem agradável e ainda guarda realmente a configuração do filme. Isso também nos ajudou a andar pela região e ver uma Paris que ainda não conhecíamos.E não conhecíamos muito coisa. No dia seguinte pela manhã procuramos percorrer por ruas que ainda não conhecíamos. Daí nos permitiu conhecer o Centro George Pompidou. Trata-se de um prédio “centro cultural” sem dono. Livre para se criar e circular. Um marco da arquitetura pós-moderna. Existe algo que lhe configura como um prédio democracia cultural, algo que orgulha os franceses. Depois passamos Notre Dame e pela ilha de São Luis, onde procuramos em vão por uma sorveteria “famosa”. Seguimos caminhando até as Galerias Lafayette, provavelmente o maior templo capitalista da terra. Um shopping de altíssimo luxo. Não só pelas lojas que são altamente atrativas, olfativas e visuais, mas também pelo desenho das paredes, lustres, vitrais, que transmite uma conotação de templo, igreja, catedral… do consumo. Não combina muito, mas esse é o fato. O capitalismo acentuado em “templo”. Seguimos pela Av. da Opera cruzando a Opera de Paris, ou o Opera Garnier, uma obra prima a céu aberto e deparamos também com a Igreja de Madeleine, uma suntuosa catedral que começou ser construída em 1764. Daí seguimos pela Rue Du Faubourg-Saint-Honore, onde além de ser a residência oficial do presidente da França, também estão localizadas as famosas lojas de perfume, roupas de luxo, embaixada e obras de arte. Esbarramos com o Louvre, mas dessa vez aproveitamos para explorar o jardim externo. Seguimos por outras ruas desconhecidas até desembocar, no final da tarde, deslumbrantemente, por uma vista que nunca imaginaríamos existir, da lateral da Torre Eiffel. Trata-se de uma ruazinha de bairro, discreta e perdida no mundo (se não fosse ali, claro), uma ligação entre a Av de La Bourdonnais e a torre, uma ruazinha desemboca discretamente num jardim embaixo do monumento. Ficamos de boca aberta. Isso porque normalmente chega-se a torre pela frente ou por trás, ambos seguindo grandes fluxos turísticos.

Mas esse percurso que fizemos tinha um ar de exclusividade. Valeu por todo o passeio. Prometemos voltar ali, apesar de termos curtido a paisagem por um bom tempo… Depois seguimos para parte de trás da torre, cortando o jardim do trocadero e paramos para tomar café da tarde no Carette, lugar tradicional. Curtimos a paisagem de Paris mais uma vez, na velocidade do café e seguimos de metro até o Gari Du Nordi, onde pegamos o trem de volta a Londres.

•Remis, França

•Luxemburgo, Luxemburgo

•Paris, França

Expedição Yellow Submarine – Portugal

Na praça principal de Tui tomamos um taxi para Valença, cidade do outro lado do rio, portanto, Portugal. Nosso ônibus para Porto sairia em duas horas, tempo suficiente para um almoço português numa bela padaria. Parecia um achado. Estamos muito familiarizados com padaria no Brasil, mas tivemos a oportunidade de conhecer uma senhora padaria em Valença, com tratamento de primeira classe. O dono comentou que boa parte de sua família se mudou para o Brasil e é dona de diversas padarias em São Paulo. Faz sentido, ora pois. Nesse assunto os portugueses são craques e esbanjam talento. O atendimento também è impecável, amigável e com preço honesto. Eu não conhecia Portugal, protelei ao máximos essa visita. O fato é que é mais impressionante do que eu imaginava: o Brasil é idêntico a Portugal.

Claro, claro. Portugal nasceu primeiro, então merece um respeito diferenciado. Afinal, deixando de lado toda a polêmica relacionada a questão “descobrimento”, o fato é que os portugueses tiveram o mérito de colonizar uma vasta extensão de terras nas Américas, refiro-me ao Brasil. Talvez não tiveram o beneficio proporcional a essa conquista, fato mais intrigante nos dias de hoje: Portugal é hoje uma economia fraca, modesta quando comparada com as potências européias, apesar de toda a agitada história de navegação e conquistas.  E essa pergunta inevitavelmente te persegue quando se visita Portugal, depois de você já ter como referencia a qualidade de vida de outros países, tais como França e Inglaterra.

Estávamos ansiosos para chegar em Lisboa. Mas uma parada rápida por Porto nos serviu de aperitivo do que Portugal tem para oferecer. Sim, suas ruas, padarias e sua gente nos transportam ao Brasil com certa facilidade. Mas praças bem conservadas, pontes de ferros imensas cruzando imensos vales e igrejas por toda a parte, faz-nos lembrar que estamos em outras terras. Porto merece uma nova visita, com certeza. Mas dessa vez só tínhamos um dia e decidimos que exploraríamos Lisboa. Em Lisboa nos hospedamos num albergue. Segundo uma pesquisa global recente, os albergues de Portugal são os melhores do mundo. Faz sentido. Quartos impecáveis, bom café da manhã e o atendente até fala a sua língua. Um luxo.

Nosso passeio começou pelo Elevador Santa Justa(idêntico ao elevador Lacerda em Salvador) onde pudemos ter uma vista geral do Baixo Chiado. Chiado é o bairro mais tradicional, localizado no centro da cidade. Cortamos o Chiado, cruzamos a estação de trem central do Rossio, e pegamos o bonde 28 na praça Martins Moniz, que nos levou até Olinda em Pernambuco. Brincadeira. Ele noslevou até o Miradouro de Santa Luzia, no alto de um morro, bairro que guarda sua semelhança com Olinda, com vista para o mar e tudo. Alem disso, também passamos pelo Castelo, e isso sim não temos em Olinda. Descemos ladeiras e ladeiras. Nesse percurso ficamos encantados com a diversidade dos azulejos portugueses, algo que nunca vimos em outros países que já passamos.  No fim domorro, chegamos na praça do Comercio, em frente ao rio Tejo. Na própria praça do comercio, seguimos de tram para Belém. Trata-se de um bairro mais afastado de Lisboa, onde se encontra oMosteiro dos Jerônimos e o monumento do descobrimento. Há muito o que se ver em Belém. O monumento do Descobrimento por exemplo, fica bem em frente ao rio Tejo, com uma vista agradável para Lisboa. O mosteiro dos Jerônimos guarda os restos mortais de Camões e Vasco da Gama. A suntuosa arquitetura do Mosteiro e a belíssima Praça do Império logo em frente, servem de boalembrança de que você realmente está na Europa. Em um dia de passeio não è possível ver com detalhes os museus e entender melhor a história de Portugal e a origem da nossa história. Mas saímos com impressão necessária do que Portugal é hoje – não em sua essência – mas em sua superficialidade. Ah, claro, saímos também com o gosto agradável dos pasteis de Belém, feito por quem entende.

Antes de pegarmos nosso vôo, não podíamos deixar de dar uma passadinha para cumprimentar o Fernando Pessoa, em frente ao Café A Brasileira, uma cafeteria tradicional e imperdível.

E ele gentilmente declamou o seguinte poema, os quais dedico as nossas honrosas companhias de viagem, minha mãe e Monique, nossa sobrinha.

Ao longe, ao luar

Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
 
Serena a passar,
 
Que é que me revela ?
 
Não sei, mas meu ser
 
Tornou-se-me estranho,
 
E eu sonho sem ver
 
Os sonhos que tenho.
 
 
Que angústia me enlaça ?
 
Que amor não se explica ?
 
É a vela que passa
 
Na noite que fica.
 

 Fernando Pessoa

No final do dia, pegamos nosso vôo de volta para Londres.

Expedição Yellow Submarine – Santiago de Compostela, Espanha

Santiago de Compostela obviamente nos remete ao caminho de Compostela. Em poucos minutos entrando na cidade já se vê peregrinos e seus tradicionais cajados circulando por lá.

   A paisagem pitoresca medieval de Santiago é o pano de fundo para aqueles que buscam uma viagem espiritual por esse caminho. A história conta que o corpo do Apóstolo Tiago fora encontrado naquele local. E no exato local foi construído uma imensa igreja em forma de cruz, para quem a observa por cima. O peregrino tem a oportunidade de passar embaixo do altar e ver o local onde se encontram os restos mortais de Tiago. É um momento muito especial para cada um. Logo que atravessamos por alí, cada um narrou uma sensação especial. Uma espécie de toque, uma espécie de energia.

As ruas de Santiago e o “vai e vem” de peregrinos “profissionais”(se trata de gente que realmente planejou fazer o percurso com os melhores tênis, roupas e acessórios especiais) exerce um convite para
andar, andar e andar.  A cidade não se limita apenas a imensa igreja de Santiago. No final da tarde, antes de partirmos para outra cidade, levamos um bom tempo procurando uma tal de “Pecados de Santiago”. Sabíamos que se tratava de uma doceria. Queríamos apenas terminar o dia com um pouquinho de açúcar fornecido por algum docinho especial da região. Foi uma decepção quando descobrimos que se tratava de uma loja muito moderna, fora da atmosfera medieval da cidade. Os doces? Eram aqueles docinhos coloridos vendidos nos quiosques de shopping: minhocas, dente de vampiro. Etc. Lamentavelmente todo essa modernidade  foi por água abaixo quando o dono da loja se demonstrou agressivo quando a minha mãe tirou uma foto inocente dos produtos.

Partimos de Santiago sem comer nenhum doce e seguimos para Pontevedra, capital da Galícia.

Passei a minha vida ouvindo sempre a mesma coisa sobre o avô da minha mãe: “ele veio da Galícia, região de Pontevedra”.

Fazer uma visita a essa cidade obviamente tinha um caráter especial. Era uma espécie de conquista. Em apenas uma volta pelo centro da cidade foi possível observar que tudo por alí é antigo o suficiente para que se ele(o avô) eventualmente tivesse passado por alí, com certeza teria visto exatamente o que vimos. Um exemplo é um convento onde abriga uma igreja fundada por nada menos que São Francisco,
bem no centro da cidade. A cidade está bem na foz do rio Lérez, que desemboca no oceano atlântico. É bem provável que a sua localização é que acabou lhe conferindo o status de capital, pois ela é bem menor que Vigo, uma cidade mais moderna e industrial.

Pela noite voltamos para Vigo, onde deveríamos devolver o carro e passar a noite. Logo cedo saímos  para o segundo dia de busca dos documentos em Tui. Em Vigo, por sorte, quando eu comentei com o recepcionista do hotel que estávamos indo para Tui ele me avisou que um taxista estava indo para um local muito próximo, e que poderia fazer o preço da corrida bem abaixo do normal. Se fossemos de ônibus teríamos chegado exatamente as 10 horas, mas acabamos chegando quase duas horas mais cedo. O motorista nos deixou na entrada da cidade, como um trato por conta do desconto. Isso foi ótimo porque tivemos a oportunidade de ver vários peregrinos chegando pela cidade, cortando as avenidas por baixo e subindo as ladeiras até a igreja de Tui, lá no alto. Apesar de estarmos carregando malas, seguimos seus passos pelas vielas, encontrando a igreja pelo caminho inverso que havíamos feito dois dias antes. Nos sentimos “peregrinos”  fazendo o Caminho de Compostela. É claro que isso não nos certifica como tal, mas foi um aperitivo interessante.

As 10 horas estávamos dentro da igreja, em frente a porta do arquivo. Enfim havia chegado o grande momento. Estávamos apreensivos. Quando Roberto apareceu  balançando a chave na mão e dizendo “buenos dias”, desaparecemos por um instante na tentativa de aumentar ainda mais a claridade de nossos pensamentos sobre aqueles documentos: realizamos uma prece no centro da igreja. Quando voltamos para a escadaria da torre, Roberto vinha descendo procurando pela gente. Ele sabia que estávamos ansiosos. Novamente subimos as escadarias da torre, sob os olhares de pessoas retratadas em quadros muito antigos, e entramos na pequena sala de arquivo. Cada um ganhou um posto de trabalho. Roberto desceu com os dois principais livros.

Tinha que estar alí o que procurávamos. Lemos minuciosamente, nome por nome. Enquanto a July checava cada certidão de batismo, eu checava a lista dos nomes envolvidos. Novamente observamos muitos nomes parecidos, mas nenhum com a combinação suficiente para dizer “sim, é esse”.  O tempo foi passando e nada. Era inevitável perder certa atenção naquela busca devido ao ambiente enigmático e sombrio. A imaginação voava constantemente para o passado, perguntando quem havia escrito tudo aquilo, como havia sido escrito, e que afinal onde estaria o tal documento…? Minha mãe e a Monique dispersaram por um instante. Estava ficando realmente cansativo. Cheguei a me sentir numa prova da FUVEST, louco para finalizar a prova e entregar logo. Dessa vez conseguimos terminar antes que a arquivo fechasse e concluímos que as buscas por alí estavam definitivamente encerradas. Se por um lado concluímos que não havíamos achado o documento, por outro tínhamos certeza de que deveríamos excluir aquele lugar e partir para outro. Logo, a busca deverá se seguir em alguma outra oportunidade por outra área, outra igreja, outra sei lá o que. Isso posto, recolhemos nossas coisas e só nos restou agradecer a grande acolhida do Roberto e a bela vista da torre para o rio que separa Espanha e Portugal.

Expedição Yellow Submarine – Galícia, Espanha



Essa não seria uma viagem como as outras. Essa pequena expedição se tratou de uma busca pela história do avô da minha mãe. Prefiro dizer “avô da minha mãe” somente para não dizer outra coisa e passar uma sensação de que é um parente meu muito distante. Bem, para a busca de nossas origens espanholas, tínhamos em mãos uma cópia do documento de chegada de um jovem entre 14 e 16 ou 17 anos no porto do Rio de Janeiro em 1881, com um suposto nome falso. Também tínhamos alguns nomes, provenientes de sua certidão de óbito de 1954: o seu próprio nome e o de sues pais. Além disso, muitas histórias provenientes de pessoas que conviveram com ele até 1954 e outras estórias talvez provenientes da imaginação. São de fato muitas estórias interessantes, que me reservo a não contar aqui porque são realmente extensas ou ainda inacabadas. Além disso, ainda são estórias – até que provemos o contrário. Era justamente o que pretendíamos fazer nessa viagem a região da Galícia, Espanha: tentar encontrar a verdadeira “história”.

Nessa expedição participaram:Eu, Juliana, minha mãe(Joana D´arc Torres e Monique Pereira, minha sobrinha. Essa foi uma viagem realmente planejada, resultado de cuidadosa pesquisa, tendo poucos materiais formais sobre a pessoa a ser encontrada. Então, uma conjunção de dados geográficos(fornecidos pelo tal documento de entrada no país e os comentários de familiares), e diversas trocas de emails entre espanhóis especialistas no assunto,  algumas premissas levaram-me até uma região mais estreita da Galícia, na fronteira com Portugal. Afinal uma busca em toda a Galícia seria uma loucura e levariam muito tempo. Então tínhamos três dias para tentar encontrar vestígios históricos de nossos remotos familiares em locais pré-estabelecidos. Tratava-se portanto, de tentar encontrar a certidão de batismo(naquela época esse era o único registro formal) em algum lugar daquela região.

O nosso percurso “Indiana Jones” começa em Santiago de Compostela. Nosso vôo saiu de Londres as 6 horas da manhã e nos deixou as 9 horas em Santiago. Para facilitar a mobilidade pela região, ignoramos provisoriamente Santiago, alugamos um carro e seguimos diretamente para Tui, uma cidade exatamente na fronteira entre Espanha e Portugal. Se todas as premissas estivessem corretas, a tal certidão deveria estar arquivada em Tui, lugar que por pedido do governo da Espanha deveria armazenar todos os documentos da região  daquela época.

Logo que chegamos no endereço marcado, tivemos uma surpresa e tanto. Era uma igreja medieval, no alto de um morro, com uma vista maravilhosa para o rio Miño, que divide a Espanha e Portugal. Uma igreja com imensas paredes de pedra, parecendo até uma mistura de igreja com Castelo. Como sabíamos que o tempo de pesquisa era curto, entramos quase cambaleando porta adentro, tentando descobrir o tal arquivo. Vendo o nosso desespero, o guardião da igreja nos guiou atravessando a sacristia, passando por duas ou três salas escuras com armários e cabides cheio de vestimentas paroquiais, subindo uma escada dentro de uma torre, onde no alto se encontrava os tais documentos. Roberto, o funcionário guardião dos documentos, nos acomodou em mesas onde outros pesquisadores já estavam sentados realizando complexas anotações. Por duas horas, nos sentimos verdadeiros historiadores, impregnados de pó e tentando decifrar códigos, nomes e qualquer menção ao objeto procurado. Trabalhamos em equipe. As 14 horas, Roberto anunciou o fechamento do local. O local apenas funciona das 10 as 14 horas, quartas e sextas. A continuidade das buscas, pelo menos ali, deveria continuar apenas dois dias depois. Saímos cabisbaixos, não exatamente sentido fracassados, mas sem entender porque haviam tantos nomes, muitos mencionando o tal sobrenome Bolzada, mas nenhum nome fornecendo pista suficiente para uma combinação lógica a nosso favor. Parecia um jogo de loteria. Mas de fato, tudo o que vimos passava a sensação de “está ficando quente, estamos quase achando”.

Almoçamos em Tui e seguimos para Tomiño, uma cidade não muito distante dali. A minha teoria era de o avô de minha mãe teria vivido por alí. As certidões de batismo realizadas em Tomiño haviam sido transferidas para Tui, mas poderia haver alguma outra pista pela cidade. Andando poucos metros pela rua principal é fácil ver a presença de Bolzada por alí. Apenas deixei minha mãe fazer umas compras numa loja e isso foi suficiente para ela realizar algum contato com um suposto Bolzada. Em vinte minutos apareceu um senhor dizendo preservar o brasão da Família por muitos anos. Aqui vale uma ressalva. Bolzada é um sobrenome muito antigo. O que para o brasileiro é uma novidade no idos de 1900, para os espanhóis era algo comum naquela região já há mais de duzentos anos. No caso desse Senhor, por exemplo, segundo ele existem Bolzadas de sua família vivendo no Rio de Janeiro, que chegaram por volta de 1930 e que certamente não apresentam relação com nossa família. Mesmo assim foi um excelente contato e que nos proporcionou um passeio cultural pela sua histórica casa e vinícola. Depois seguimos para a sombria e isolada igreja de Tomiño, colada
num cemitério. O lugar parece parado no tempo. Na porta da igreja, a lista de missas de sétimo dia daquela semana constava dois Bolzadas, só para ter uma idéia. Logo na entrada do Cemitério, lado esquerdo, encontra-se uma cova suntuosa com o desenho do brasão em relevo. Ou seja, mais Bolzadas por alí. Também não havia, aparentemente, nomes relacionados com nossa busca.

Seguimos para um bairro onde o tal documento de entrada no porto mencionava. Percorrendo a rua principal vimos uma construção de pedra datada de 1863. Paramos e chamamos os proprietários. A dona da casa disse que se tratava de uma construção de sua família, que vive ali por muitas gerações. Perguntamos pelos Bolzadas, se ela sabia se havia alguma casa desses familiares. Comentou que a casa dos Bolzadas por alí, no final da rua havia sido demolida e construída uma casa moderna. Por alí, não havia muito mais que perguntar. Como estava ficando muito tarde, seguimos para Vigo, a maior cidade da Galícia. Passamos a noite em Vigo, depois de uma volta em suas simpáticas ruas com o sol das 10 horas da noite.

Pela manhã, voltamos a Tominõ para buscar alguma pista na prefeitura. Fomos orientados a ir ao “Cartório de Paz”. Essa seria mais uma busca arqueológica. O rapaz do cartório foi muito simpático em conceder uma sala apenas para nossa busca. Lemos quase todos os registros de óbitos entre 1881 e 1910, na tentativa de encontrar algo sobre os bisavós da minha mãe. Nada.

Como tudo havia fechado(horário Espanhol). Seguimos para Santiago de Compostela. Não poderíamos ir para aquela região sem conhecer um lugar tão importante para história da Espanha.


Expedição Yellow Submarine – Milão e Como

No domingo, úlltimo dia de passeio pela Itália, não tinhamos mais a companhia da Alessandra e da Sinara. Como não havíamos conhecido Milão, então preferimos dar uma esticadinha até Como (uma cidade italiana próxima a Suíça) pela manhã e voltarmos na hora do almoço para Milão e conhecer o que fosse possível da cidade até o horário do vôo. A cidade de Como fica uma hora de Milão. Ela está localizada relativamente perto dos Alpes Suíços. A cidade está situada entre montanhas e em frente a um belíssimo lago. Caminhar em volta do lago é passeio turístico mais comum por ali.

Contudo, preferimos seguir a dica de um amigo italiano que viveu na região desde a infância até ele terminar a faculdade. Subimos um morro ao lado do lago, onde pudemos ter uma vista de tirar o fôlego. Para chegar até o topo é necessário passar por ruazinhas bem irregulares e estreitas, com casas belíssimas e regada por todo famoso charme italiano. Como era período que antecedia a Páscoa, vimos algumas famílias voltando da missa carregando seus raminhos pelas ruas, uma combinação clássica da vida do italiano: família e catolicismo. O catolicismo na Itália parecer ser uma instituição instalada em seu DNA. Não digo isso apenas porque o Vaticano está na Itália, mas realmente porque o italiano parece ter o catolicismo em sua alma, como algo incontestável, tal como viver em família, proteger a família, e viver de bem com a vida. Realmente aprende-se muito com o italiano. Parece que eles sabem viver, estão sempre de bem com a vida, sorrindo e demonstram confiança no que fazem, e fazem com um toque humano que realmente parece carregar anos de experiência, desde os romanos, passando pelo renascimento. Desde um simples café até um carro, sempre buscam colocar um toque de maestria, imprimir sua marca, sua classe e bom gosto. Ficamos um bom tempo curtindo a paisagem de Como, justamente refletindo sobre o que os italianos tem a nos ensinar.  E logo depois, sentindo os bons ares da montanha,  voltamos novamente para a parte baixa de Como, atravessando ruas charmosas, cruzando com aquelas Mamas(aquelas mães italianas) carregando sacolas de plástico cheia de verduras e bengala em cesto de vime. Não à toa que várias celebridades de Hollywood tem casa de veraneio por alí, como é o caso do George Clooney. Na hora do almoço estávamos de volta à Milão, bem em frente ao castelo medieval. Ao visitá-lo descobrimos que ele já foi tomado por tudo quanto é povo. Até mesmo Napoleão Bonaparte, líder francês, chegou a comandar suas tropas por alí.  Depois visitamos a imponente Catedral de Milão, também conhecida como o Duomo de Milão, e a galeria Vitório Emanuele. Tivemos a oportunidade de andar por Milão, sentir sua arquitetura arrojada, misturando o antigo e o toque charmoso do novo. Chamou a atenção a arquitetura antiga de prédios “pesados”, estilo palácios, um justaposto ao outro, com detalhes requintados e o charme das construções italianas, com suas janelas, floreiras e varandas.  Essa  arquitetura misturada com o trânsito bagunçado e a irregularidades do asfalto com paralelepípedos, linhas de trams ( aqueles bondes que parecem um vagão de trem andando pelas ruas),  e seus faróis demorados, passavam uma sensação de passeio pelo mar, a deriva dos ventos. Fiquei realmente encantado com esse estilo muito particular da cidade. Dois lugares guardei como preciosos e pretendo voltar um dia: a Via Giovani Boccaccio e a Via Corso 22 Mayo.

Esse passeio pela então, Itália chegava ao fim. Ficamos honrados por termos tido a companhia da Alessandra e da Sinara nesse passeio inesquecível pela Toscana e Liguria. Antes de partir, demos uma passada rápida no hotel onde elas estavam hospedadas para desejar uma boa viagem de volta ao Brasil.

Expedição Yellow Submarine – Lucca, Pisa, Cinque Terre e Gênova



Chegamos em Lucca quase meia noite. O nosso hotel ficava localizado dentro da cidade medieval. A Lucca antiga é uma mini cidade medieval, dentro de uma muralha construida entre 1500 e 1600, ainda preservada, que oferece uma atmosfera arquitetônica e um modo de vida totalmente fora da correria da vida moderna.  Quando ainda estávamos na cidade moderna prestes a entrar na cidade antiga, chegamos a comentar que parecia se tratar de um condomínio fechado “medieval”, não muito diferente de um Alphaville. Nosso hotel estava instalado numa área bem privilegiada, próximo a praça principal, do lado de dentro das muralhas. Naturalmente era um hotel num prédio antigo – difícil prever o ano de sua construção – mas devido ao seu tamanho, quantidade de salas imensas,  lugares escuros e ambientes silenciosos foram suficientes para despertar a imaginação.  Isso foi uma espécie de diferencial. Giovanni, o recepcionista, ascensorista, guardador de malas e vigia do hotel, foi muito atencioso em seus serviços, o que incluiu indicar lugares maravilhosos pela cidade para tomarmos café da manhã. Infelizmente não seguimos sua dica, e acabamos tomando café numa ala anexa ao hotel. O café da manhã foi mediano, cumpriu parcialmente seu papel. Mas quando saímos pela cidade, vendo as ruas estreitas, os italianos andando naquelas bicicletas antigas carregando bengalas e pão doce, o cheiro das maravilhosas padarias em pequenas portinholas, ecoaram como uma brutal decepção quando comparamos com o café da manhã que havíamos tomado.

Felizmente, toda essa sensação amarga se foi logo após nos enveredarmos pelos becos da cidade. Lucca foi como um brinde especial. Um lugar conquistado pelos romanos  e por muitos povos que passaram por alí. Uma cidade fechada ainda em funcionamento.

 

 




Seguimos viagem até Pisa. O percurso de 30 minutos foi muito agradável devido aos belos campos cheios de flores e árvores do mediterrâneo pelo caminho. O sol também contribuía. Não demorou muito estávamos de cara com a torre de Pisa, o acesso mais fácil que imaginávamos. Normalmente as pessoas passam por Pisa apenas para tirar foto da famosa torre torta. Daí normalmente fica apenas aquela imagem da torre ao fundo. Mas o lugar tem muito mais que a torre. Mesmo em volta da torre, tem um gramado verdinho, um convite a um “pique-nique” ou ao simples “sentar e contemplar” outros três monumentos renascentistas(o que inclui o Duomo ou Catedral de Pisa) e uma muralha medieval cercando a cidade antiga.  A brincadeira fica por conta de quem tira a melhor foto da torre. Uns ficam segurando ela pelo ar, outros abraçam,. Etc. Para quem não sabe, a torre foi calcada por baixo e não vai inclinar mais dó que  já está.


Pisa finalizou nosso passeio pela região da Toscana. Dalí seguimos viagem  pela costa do mar da Ligúria, fazendo o caminho de volta para Milão. Mas propositalmente ainda passaríamos por belezas preservadas pelo patrimônio. A primeira parada nesse percurso foi em La Spezia. Essa è uma cidade portuária. Em seu porto é exportado um produto que praticamente vale ouro. No percurso entre Pisa e La Spezia já era possível ver a extração e estoque desse ”ouro”: trata-se do mármore carrara. Sim, o mármore carrara vem dessa região e era possível ver imensos estoques das placas vindas das montanhas de carrara da Itália. Ficou fácil entender porque nesse percurso víamos mansões espalhadas pelas montanhas, em lugares que pareciam ter difícil acesso. Mas tratam-se de montanhas de carrara.

Em La Spezia demos uma voltinha rápida pelo píer, no centro da cidade. Mas logo fomos buscar um lugar para comer. Tivemos sorte. Aleatoriamente resolvemos entrar por um restaurante familiar bastante aconchegante bem em frente ao mercado a céu aberto no centro da cidade. Saímos com a sensação de que realmente havíamos provado o sabor da Itália, feita pelas mãos de uma família italiana, em cozinha caseira. Com as energias renovadas, paramos logo em seguida no alto de uma montanha onde podíamos avistar toda a cidade. Foi uma parada para tomar café, sem cafeteria. Daí seguimos para a estrada estreita ziguezague, beirando o penhasco,  margeando o belíssimo mar da Ligúria para chegarmos nas graciosas vilas de Cinque Terre.  A primeira vila era a de Riomagiore.  Paramos na estrada, numa parte alta que podíamos avistar a vila, as montanhas e o mar ao fundo. São vilas de pescadores de difícil acesso, feitas de casas ou predinhos de três andares coloridos, com  varandas e janelas enormes de madeira, com roupas ou toalhas de mesa estendidas. As casas são aconchegadas na montanhas. Puxa, eu não queria dizer isso, eu não queria dizer, eu não queria dizer isso, mas realmente parecem “favelas de luxo”. Desculpe-me, eu falei. Não estou depreciando, mas essa também é uma constatação. Mas não estou dizendo isso negativamente, pelo contrário. Realmente é muito bonito. Normalmente as pessoas chegam de trem, diretamente dentro da vila, sem ter a oportunidade , as vezes, de ver a vila de longe. Também fazem caminhadas entre as vilas, cortando as montanhas. Como não tínhamos tempo, continuamos nosso percurso, até Vernazza, outra vila. Dessa vez resolvemos descer a pé até o mar. Trata-se de um percurso muito agradável, onde é possível ver as plantações de olivas pelo caminho até chegar na Vila.  Depois de chegarmos pertinho do mar e sentir a “agitação” do lugar, bastante movimentado pelos turistas que chegavam e saíam de trem, passamos por um café de um italiano casado com uma brasileira, logo na saída da vila.



Fizemos todos os ziguezagues necessários e voltamos para a auto estrada. Nosso objetivo era chegar antes do anoitecer em Gênova. Visitar Gênova era um sonho desde o ginásio. Tenho certeza que tem alguma lição do Ginásio que você não esquece. Mas a que eu não esqueço é que “antes do descobrimento da América, todos os navios mercantis que queriam ir da Europa até as Índias, precisavam passar por Gênova e Veneza”. Bem, Veneza eu já conhecia. Mas faltava Gênova.  E eu ficava intrigado porque Gênova parecia ter menos importância histórica que Veneza. Ledo engano meu. Talvez não seja tão divulgado como destino turístico, mas definitivamente Gênova foi uma surpresa para mim.

Gênova é a capital da região da Ligúria, na Itália. O encanto por Gênova começou logo na entrada da cidade, quando era necessário atravessar extensos túneis, cortando imensas montanhas, com uma vista aérea da cidade, com o porto ao fundo. Nossa caminhada pela cidade começou pela Via Balbi, uma rua repleta de palácios, da mesma família, todos considerados patrimônio da humanidade. Gênova foi uma cidade repleta de mercadores e banqueiros muito ricos durante a idade média. Não é só a Via Balbi que preserva diversos palácios, mas também uma outra via muito conhecida é a Garibaldi, provavelmente a rua mais importante de Gênova. Os palácios de 1500, todos minuciosamente restaurados,  a rua estreita, consegue fornecer a dimensão da riqueza vivida por aquele lugar durante aquele período.  Alí viviam os mercadores do mundo. Aqueles que se beneficiavam com o comércio internacional. Eles bancaram grandes navegações, guerras e o desenvolvimento das artes em geral. Nosso percurso passou pelo porto, onde vimos um veleiro preservado, e pelo centro da cidade, passando pela praça Ferrari, palácio Ducalle e chegamos ao Portão Medieval, local onde, segundo consta, Cristóvão Colombo brincava quando era criança.


Depois de quatro horas de caminha por Gênova, pegamos estrada e seguimos de volta à Milão, onde jantamos no restaurante preferido da Alessandra e da Sinara. O garçom era um senhorzinho simpatia que não gostava de papo. O negócio dele era “aponta aqui o prato e eu pego para vocês”. Uma figura, mas sem perder a elegância.





Expedição Yellow Submarine – Florença

Itália, o redescobrimento. Dessa vez nosso passeio seria diferente. Pela primeira vez teríamos companhia em uma de nossas expedições: Alessandra, prima da Juliana; e Sinara, amiga da Alessandra. Ambas vieram para Milão visitar a maior feira internacional de móveis&design&decoração do mundo, completando esse ano 50 anos. Nada como viajar com duas arquitetas pelas terras do renascimento….

Nosso tour pelo norte da Itália começou em Milão. Chegamos quinta- feira pela noite, e logo no aeroporto tivemos a “agradável” surpresa de perceber que havíamos esquecido a carteira de habilitação em Londres. Todo o roteiro que havíamos planejado de carro estava indo por água baixo. Já no taxi para o albergue em Milão, fomos maquinando um plano B, percursos por trem, parte em ônibus, etc. No dia seguinte, logo cedo, quando encontramos com nossas companheiras de viagem, tivemos a agradável notícia que a Sinara estava com sua a habilitação. Santa Sinara! Habbemus Habilitacion! Habemmus Carro! Corremos para a estação de trem, onde as nossas amigas arquitetas tiveram uma visita relâmpago e pegamos mais um companheiro de viagem: um Fiat 500, vermelho, novinho. Teto solar e novas tecnologias indecifráveis, com o fato de morrer a cada ponto morto…como forma de economizar gasolina. O vermelhinho foi muito útil. Depois do Trânsito “farolesco” de Milão, pegamos a estrada cruzando as fazendas de Emilia Romana, uma região de agricultura bastante desenvolvida.
Tenho um carinho especial pela região, sem mesmo ter pisado por ali antes. Emilia Romana serviu parcialmente de argumento para minha monografia na faculdade de economia. Essa região se tornou um bom exemplo de que se o lugar explora sua vocação de maneira organizada, o desenvolvimento econômico pode acontecer mais rapidamente e por longo prazo. A minha idéia era justamente nesse sentido: um plano econômico
para o Brasil de maneira que cada cidade ou região de fato se desenvolvesse a partir de sua vocação. No caso de Emília Romana, algo que se desenvolveu muito naquela época era a produção de batatas.  No caminho vimos as tais fazendas-cooperativas, com pequenos prédios rústicos como sede (todas curiosamente iguais), grandes cestos de palha, vistos repedidas vezes ao longo da auto-estrada, provavelmente esperando a próxima colheita.


A primeira parada foi Bologna. Deixei as meninas nas duas torres… e prometi voltar ali 10 minutos depois. O que seria uma volta no quarteirão, virou um passeio por becos medievais, por lugares parecidos com aqueles que
servem de cenário para perseguições em filmes de ação, quando o filme se passa na Itália. As lambretas sempre atravessando quem está perseguindo e sempre as barracas de frutas voam pelos ares. Bologna foi apenas um aperitivo.

A atmosfera renascentista tomou conta do passeio. Para cada um Florença tem um significado. Florença é uma daquelas cidades que compete com Jerusalém, com Roma, com Cairo. Não compete com Londres, Nova Iorque ou até mesmo Paris. Ali o negócio é outro. Claramente, a céu aberto vê-se um lugar que transformou o mundo. É dali para o mundo. E é fácil entender os seus efeitos. De forma muito resumida, Florença foi um lugar onde nobres patrocinaram o redescobrimento das obras dos povos antigos, tais como os gregos e romanos. No mesmo sentido, houve ali o florescimento da idéia de que o homem é o centro do universo, um ser belo, completo, criador. A cidade cresceu sobre a força do patrocínio artístico, atraindo talentos de todos os lugares. Estamos falando nada menos que Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Donatello, Rafael, e muitos outros. A própria igreja também patrocinou as mais belas artes, justamente buscando retratar em pinturas, esculturas, vitrais, as passagens bíblicas, santos e o culto ao homem, um ser belo, completo e criação de Deus.


Depois de batermos cabeça para encontrar um lugar para estacionar, deixamos o carro dentro da estação de trem e partimos para nossa primeira parada: na praça onde está localizada a Basílica Santa Maria Novella, a primeira grande igreja de Florença. Sua fachada é uma obra de arte, um mosaico finalizado em 1470.

Depois, seguindo uma dica da Alessandra, passamos a procurar uma perfumaria com o mesmo nome da igreja, não muito distante dali. Tratava-se de um lugar pitoresco. Era simplesmente a farmácia mais antiga da Europa, em funcionamento por “apenas” quatro séculos. A decoração ainda é renascentista e os materiais utilizados na fabricação ainda são à base de ervas e processo semi artesanal. Na sessão de vitaminas,

perguntei para a atendente se ela tinha algum calmante, remédio escolhido aleatoriamente. Ela abriu uma gaveta, pegou uns papéis em formato de pergaminho, apontou para um vidrinho meio fosco e com poucas pílulas e começou a ler os componentes. Sua descrição parecia aquelas fórmulas de bruxaria. Felizmente ela não chegou a dizer “duas cabeças de morcego, rabo de pavão Hindu”, etc. Não levei o calmante mas todo o ambiente interno da farmácia mais a tranquilidade do lugar ajudou a fornecer mais energia para a continuidade do passeio.

Logo depois estávamos cruzando a Igreja dos Medicis(familia importante em Florença que praticamente patrocinou o renascimento) e a igreja de São Lourenço. Mas a atração a céu aberto mais imponente é a Catedral de Maria Del Fiore, também conhecida como Duomo. Também é conhecida como “igreja do avesso”, e definitivamente isso é verdade. Todos os detalhes em mármore no lado externo refletem a loucura de construções monumentais difíceis de explicar tal como também é o caso das pirâmides do Egito, por exemplo.                           Os mais famosos artistas da renascença assinam os detalhes dessa igreja. Em seguida, tivemos a oportunidade de visitar a estátua de David, no Palácio Della Academia, obra de Michelangelo. Como era sexta-feira, e a entrada era gratuita, não houve a necessidade de passarmos pela bilheteira, o que daria certa ansiedade para ver a principal peça do museu. Mas como a entrada foi direta, rapidamente estávamos diante da estátua de David: algo
realmente imponente e a altura de sua fama. Foi a sensação inversa de quem vê pela primeira vez o quadro da Monalisa. Como se sabe, o quadro está no museu do Louvre, guardado a sete chaves, distante do público e que passa uma sensação de menor que as pessoas imaginavam. David foi uma agradável surpresa para mim. Saímos do museu e continuamos nosso percurso nas ruas medievais de Florença.  Entramos no palácio Veccio, e passamos por baixo das famosas passagens da via Ninna e Passagem Delli Uffizzi, ao lado do museu onde está armazenado o maior acervo do renascentismo da época. Desembocamos no rio Arno, onde tínhamos a melhor vista
para a Ponte Veccia, um dos cenários mais românticos do mundo, onde a tradição é colocar um cadeado na ponte, como forma de representar o amor eterno por uma pessoa. Dalí corremos para  a Praça Michelangelo, do outro lado do rio, na parte alta da cidade, onde pudemos ter uma vista maravilhosa da cidade com o por do sol ao fundo.

Florença foi como uma experiência intensa de arquitetura, história e arte. Com certeza uma semana talvez ainda fosse pouco para uma cidade tão rica e inspiradora.

Pela noite, exaustos, jantamos numa taverna medieval, com uma bandinha “tô começando agora” como música ambiente. Mais um tipo de brusqueta entrou para nossa lista. Simples mas convincente.  E partimos para nossa próxima parada, seguindo pela Toscana: Lucca.

Expedição Yellow Submarine – Chichester e Guildford

Rolls-Royce. Certeza que é uma marca que você já ouviu falar…. Pois é. Quando eu era criança alguém comentou que o Rolls-Royce era fabricado com as mãos, um processo artesanal. Uh. Aquilo ficou na minha cabeça. Sabe-se, obviamente que é um carro bem caro, aliás o mais caro do mundo.  E quando eu estava na faculdade outro fato sobre o Rolls-Royce também me marcou. A marca, inglesa(fundada por volta dos 1900, havia sido adquirida por uma empresa estrangeira,  a BMW (a maior parte ficou com a BMW e apenas um modelo ficou com a VW. Esse fato marcou a época porque a lógica era que os ingleses supostamente é que deveriam comprar outras empresas, e ali era uma posição inversa, reflexo do início da inevitável globalização.

Então, sábado pela manhã, logo cedo, surgiu uma vontade de vermos de perto a história do Rolls-Royce. A fábrica que produz o modelo Phantom está localizada no sul da Inglaterra. Logo cedo, pegamos um trem para Chichester, mais ou menos duas horas e meia de viagem. Chichester é uma cidade localizada no sudeste da Inglaterra. A planta da cidade foi desenvolvida em forma de cruz, herança dos Romanos que estiveram por ali por muito tempo. A Catedral de Chichester foi construída no século XI e disputa o ranking das maiores da Inglaterra. Seu sino, curiosamente, está localizado numa torre separada da catedral. E, envolta da igreja, algo também curiosamente muito normal no Reino Unido, diversos túmulos espalhados pelo jardim. Logo depois que passamos pela Igreja, atravessamos a rua principal, a East Street, cruzando a Market Cross, o monumento que fica exatamente no meio das ruas que formam a cruz.

Eu tinha mais ou menos idéia de que a fábrica ficava numa estrada, próximo de algumas fazendas. Como não esbarramos com nenhum ônibus para aquela região, resolvemos seguir a pé. Não foi uma caminhada tranqüila. Os carros passando a mais de 120 por hora numa estrada estreita. Mas não tínhamos escolha. Seguimos caminhando, andarilhos pela beira da estrada. Algumas vezes os carros tinham que esperar nós passarmos por trechos mais estreitos. Aquela situação de fato não combinava com o lugar, nem mesmo com o percurso para uma fábrica de carros de luxo. Depois de mais ou menos 1 hora de caminhada, estávamos na frente da fábrica, no meio de uma estrada. Vendo todo o modelo de negócio da Rolls-Royce, ficou fácil entender que era impossível imaginar que alguém caminharia da estação de trem até a fábrica. Acho que essa foi a primeira vez que isso aconteceu. O modelo de negócio é bem simples. Exatamente em frente a fábrica existe um aeroporto, o aeroporto Goodwood. O interessado em comprar um veículo simplesmente pousa com seu jatinho, atravessa a rua(transportado por uma Rolls-Royce, claro), e é recepcionado numa belíssima e moderna fábrica(digo, arquitetura moderna). Quem olha para a fábrica, vê a recepção no centro, mas também consegue ver a produção através de imensos vidros. Na recepção, o interessado escolhe todos os detalhes do seu futuro carro: cor dos estofados, tipo de tecido, quais as letras que estarão escritas nos estofados, o cheiro, onde ficará o porta copos, etc…O comprador também pode acompanhar toda a produção. Mas dificilmente ficará ali todo o tempo para fazer isso. Normalmente, ele escolhe o carro e os detalhes, pega o avião de volta para sua casa (Miami, Nova York, Tóquio, ou qualquer lugar do mundo) e volta um ou dois mêses depois para ver a fase final de produção. Nesse momento, ele percorre a produção acompanhando o acabamento. Não é permitido tirar foto da produção. Noventa por cento da produção é manual. Dez por cento é mecanizada. A lataria do carro é esculpida. Sim, uma verdadeira escultura feita manualmente por um artesão. Depois de passar pela fábrica, fomos até o aeroporto. Trata-se de um aeroporto de pequeno porte, mas muito aconchegante.

O aeroporto fica dentro de um autódromo. Esse autódromo serve paracorridas tipo “Stock car” como também para testes de carros. Fiquei tentado por um serviço oferecido por ali: um vôo de trinta minutos, onde você pode pilotar o avião.

 Claro, é uma viagem com co-piloto e o preço: britânico. Eram 14 horas e tínhamos ainda outra cidade para visitar, o bilhete do trem já estava comprado. Para ganharmos tempo e voltarmos rapidamente para a estação do trem, aproveitamos que um taxi acabava de chegar ao aeroporto e voltaria vazio para a cidade e barganhamos metade do preço. Era uma taxista simpática. Dentro do taxi curtindo a paisagem de volta, a taxista perguntou de onde éramos. Quando dissemos “Brasil”, ela parou, ficou pensativa, e depois de uns dez segundo, emendou: “nossa, mas, vocês vieram de muito longe…o jato de vocês consegue fazer um vôo direto do Brasil até Chichester…?”…

Logo desfizemos o mal entendido… ”Não, veja, não chegamos no aeroporto de avião…estamos apenas passeando, vindo de Londres…”. Bem, pelo visto ela está acostumada a receber pessoas do mundo todo naquele aeroporto, chegando por avião particular.

A cidade que planejamos visitar era Guildford. Era uma dica do Stuart, um colega. De Chichester à Guildford não era uma linha direta. Era necessário trocar de trem em dois lugares. Mas “dois lugares”, viraram quatro, pois havia um trecho em manutenção. Corremos contra o tempo. A meta era chegar em Guildford antes do anoitecer. Tivemos que descer do trem em uma certa cidade, pegar um ônibus e seguir viagem por uma hora até outro trecho. Depois, mais três ou quatro estações até chegamos a Guildford e saímos praticamente correndo pelas ruas, subindo uma ladeira imensa para chegar até um monte onde pudemos ter uma vista maravilhosa da região, justamente a dica do Stuart. Guildford é uma cidade charmosa, onde abriga uma imensa catedral. É uma espécie de cidade-dormitório:  os habitantes trabalham em Londres, afinal está mais ou menos uns 40 minutos de trem. Tem um centro bem agradável, com um comércio requintado na Guildford High Street(onde está localizado o prédio ícone da cidade: o Guildhall) e bons restaurantes. Abriga um pequeno castelo construído por volta do ano 1000 (hoje é um museu) rodeado por um belo jardim. Não tivemos muito tempo para explorar ainda mais a cidade, mas ficamos com a imagem intrigante da belíssima vista do monte e o seu gramado impecável. O frio era intenso e a noite  nos chamava de volta para a Londres.