
No fim da história, Lalibela se apresentou como duas cidades. A primeira já narrei no relato anterior, as impressionantes igrejas de Lalibela, ainda não descoberta por nenhum filme do “Indiana Jones”, tal como a cidade de Petra, na Jordânia já foi descoberta.
Agora vamos para a segunda cidade.
Quando chegamos ao aeroporto de Lalibela pegamos uma van para a cidade, no topo de uma montanha. Nessa van, que também haviam outras pessoas que estavam no único vôo para a cidade, tivemos a oportunidade de conhecer o Peter Bachmann, um milionário suíço, um senhor com certa idade, que tem uma fundação com vários projetos beneficentes em Lalibela e outras cidades da Etiópia. Enquanto a van subia o vale até a cidade (ela fica no alto de uma colina), Peter dizia, com seu alemão puxado, tentando praticar seu espanhol: “Ediuarrdo, veja essas pessoas pelas
ruas: elas têm que carregar as coisas nas costas numa distância de quase 20 kilômetros. Tenho um projeto especifico para aumentar o número de burricos pela cidade”. No meio do caminho, Peter fez questão de visitar uma vila a qual também oferecia suporte. Entramos em uma casa feita de barro, circular, coberta de palha. Algumas mulheres em volta secando sementes que não conseguimos reconhecer. Visitamos uma barbearia também instalada em uma casa de barro, muito pequena e escura, que Peter disse estar ajudando. “Eduardo, você sabe, você é economista: você
precisa gerar uma “faísca” econômica, criando comércio, oferecendo serviços, etc.”. De fato Peter tem razão e parabenizamos sua atitude e contribuição, bastante generosa. Também sentimos ele transparecer um certo orgulho em ser o centro das atenções pelo fato de estar ajudando as pessoas, uma espécie de personalidade local. O fato é que a cena da barbearia me chocou. Cortando o cabelo, um rapaz com uma máquina de cortar cabelo na mão acertando o cabelo de um local, na mais simples e precária situação; ao lado, em pé, o Peter Bachmann, um senhor de cabelo branco, ouvindo algo do seu assistente local da fundação. Na minha cabeça rapidamente veio a geografia: “estamos diante do país mais rico e mais pobre do mundo: Suíça e Etiópia”.
Algo me tocou naquela situação. Ainda inexplicável. Seguimos o percurso com a postura expansiva do Peter, sua mulher e sua equipe. Visitamos outros projetos pelo caminho. Contudo, como estávamos muito interessados em visitar as tais igrejas, não pudemos acompanhar Peter em supervisão a todos os projetos. Tivemos que nos separar.
No final da tarde fomos perceber que o jogo marcado para as 6 horas com molecada havia ficado famoso pelo vilarejo. Em nossa última parada, no museu das igrejas, com uma exposição de ornamentos originais, fomos questionados pelo pessoal da recepção se realmente apareceríamos no tal jogo. A meninada já estava no local marcado uma hora antes. Atrás do museu, escondidos, enchemos a bola, coloquei a camisa do Brasil e segui para ponto de encontro. A meninada se alvoroçou: “Kaká, Ronaldo, Brasil”. Atravessamos as vielas precárias do vilarejo de casas milenares (construídas há cerca de 500 anos e ainda são habitadas) e encontramos uma faixa pueril de terra na beira de um barranco, o campo improvisado. Seis para cada lado, o jogo começou.
O jogo não era de futebol: sim, a bola rolava, os meninos driblavam, fiz minhas firulas tentando ser um “craque brasileiro” para os meninos. Cada menino chamava o outro pelo nome de um jogador brasileiro, “toca Ronaldo”, “pega Rivaldo”, “cobra Robinho!”. Eu era o Eduardo. Os olhos dos meninos brilhavam com a sensação de time oficial. Em volta do campo, os homens mais velhos, vestidos como mendigos, buscando dignidade, já começavam a se aconchegar. Um sorriso no rosto se abria naquela vida miserável. A disputa para pegar a bola quando caia no barranco era tanta que apareciam dezenas de pretendentes. Os menores estavam loucos para entrar no “campo”. A torcida começou a aumentar e a nossa emoção também. Muitos meninos, muito pequenos, com o rosto cheio de micoses, as mãos carcomidas, muito mal cuidados, sem roupas, alguns com visão já comprometida, vestimentas esfarrapadas. A terra já desmanchava a bola. As moscas, infernais as moscas! Eram grandes. Muitas delas posavam sobre os rostos dos meninos e lá permaneciam. De tão acostumados, eles não sentiam. Veja, isso não é só em Lalibela. Isso vem nos acompanhando em toda essa viagem. Muito bonito ver as paisagens, muito bonito ver os monumentos. Mas realmente sentimos na pele essa dura e cruel realidade. Essa é a África. E nosso coração ficou muito tocado. Para a July foi uma emoção triplicada por estar no meio da “arquibancada” e em contato permanente com as crianças. O meu caso tinha a distração da bola e o trabalho de ator como um craque da bola (não podia decepcionar). Um deles, com certeza o mais afetado fisicamente, tinha por outro lado uma fala tão eloqüente que parecia um enviado especial para tocar o coração de qualquer um pelo mundo. A July fez questão de me apresentá-lo. “Edu, esse é o Djeva”. Ela tinha certeza que ele era especial e merecia uma atenção do “jogador brasileiro”.
O jogo não era de futebol. Esse jogo era da realidade.
2 x 1, segundo os meninos. Fizeram questão de fazer uma foto oficial.
Eu estava exausto. Senti vergonha por isso, comparado coma vida dura daquelas pessoas. Isso fez voltar rapidamente as energias e subimos a ladeira pesada e infinita até o hotel. A situação nos exigia uma contribuição adicional. A July estava muito tocada com a falta de livros na escola.
Passamos antes então numa vendinha e perguntamos o preço do livro da escola, o livro padrão do governo. Entregamos um livro para o John e outro para os mais velhos, como “uso coletivo”. O agradecimento do grupo foi especial: “Eduardo, se você puder enviar pra gente algumas camisas de futebol, prometemos colocar o seu nome no time. Na cidade tem o time que homenageia o Peter Bachmann, assim podemos jogar contra eles”. Fiquei tentado. E os meninos nem imaginavam que eu já conhecia o Peter, e sabia de quem se tratava. Dei o segundo passo: comprei uma outra bola, branca de couro ainda mais resistente.
E o restante terá que seguir por correio. Promessa é divida.
Acho que agora deve ter ficado mais fácil entender porque comentei no post anterior que tivemos uma noite difícil, com sonhos (ou pesadelos). Fomos dormir com duas Lalibelas: uma que guarda um patrimônio cultural da humanidade e outra que guarda uma dura realidade da Etiópia. Mais do que isso, uma dura realidade da África.
No dia seguinte pela manhã voltamos para o aeroporto para pegar o vôo de volta para Adis Abeba. Mais uma surpresa do serviço “Africano”: o vôo que estava marcado para as 12 horas havia partido às 10 horas da manhã, ou seja, duas horas antes. “Agora só no dia seguinte”, disse o atendente na maior tranqüilidade.
Nem bem comecei a conversar com o gerente, havia um espanhol na mesma situação que não teve muita paciência e foi logo pedindo compensações, hotéis pagos, almoço, etc. Mais ou menos hora depois de uma larga discussão, a empresa informa que às 16 horas um vôo seria desviado para nos pegar e levar até Adis. Claro que continuaríamos num passeio aéreo pela Etiópia, pingando em outras cidades. Ficamos a tarde toda olhando para o “nada” daquele aeroporto e partimos às 17 horas. Atravessamos as montanhas centrais do país numa turbulência que as próprias aeromoças não conseguiam se conter. Adoro ficar na janela, mas olhando para aquelas asas aparentemente frágeis e com pequenos remendos não pareciam a melhor paisagem. Foi tudo bem, não passou de mais uma aventura.


