Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Adis Abeba, um olhar sobre a capital da Etiópia

Logo que chegamos ao aeroporto de Adis já entendemos de cara a simplicidade do país. Primeiro porque existem poucas embaixadas pelo mundo, onde a América Latina não está incluída e nosso visto só poderia ser concedido no aeroporto. Pagamos e recebemos na hora, depois de uma burocraciazinha. No saguão do aeroporto internacional, até que parecia um prédio novo, havia não mais que meia dúzia de quiosques vendendo alguns alimentos com mesas e cadeiras diferentes misturadas, parecendo algo realmente improvisado. Nada de taxistas oferecendo viagem, tampouco pessoas importunando turistas. Fomos ilesos até um pequeno estacionamento em busca de um ônibus para a cidade onde um senhor muito, mas muito risonho, disse que ele seria o único meio de transporte. Negociamos um preço, mas me arrependi depois. O preço oferecido originalmente não era alto. Mas o vício (ou virtude?) de negociar acabou prevalecendo. Fiquei com o sentimento de culpa, algo como “como é que você vai negociar com uma pessoa da Etiópia, com toda aquela imagem da miséria informada pela televisão?” Seu Lada azul e branco, herança do período comunista, como todos os demais táxis de Adis, estava caindo aos pedaços. No final da corrida acabei dando a mais do que havia negociado.
Ficamos hospedado num local bem localizado. Trata-se de um hotel estatal, com cerca de 300 quartos(lembrando que a Etiópia passou pelo regime comunista). Era um labirinto grande para chegar até o quarto, mas compensava pela localização, pela limpeza do quarto e pela prestatividade dos senhorzinhos auxiliares do hotel. A internet era muito lenta.
Nosso primeiro passeio pela cidade foi chocante. Uma cidade bem menos estruturada do que imaginávamos (e olha que imaginávamos baixa estrutura). As calçadas são tomadas por pedintes, pessoas doentes e transeuntes muito simples. No primeiro momento nos sentimos num teatro de horrores, mas logo nos lembramos se tratar de seres humanos como nós. De qualquer forma, a única maneira de se locomover era andar fora da calçada, margeando as ruas. Quando parávamos numa esquina, muitas pessoas nos olhavam com um olhar suspeito. Alguns rapazes tentavam me oferecer ajuda, outros querendo oferecer algum tour. Ficamos com medo. Passamos a esconder a câmera, segurando as coisas com firmeza, com medo de algum assalto. O trânsito caótico e o desrespeito aos faróis vermelhos intensificam a sensação de medo. Nosso primeiro “ponto turístico” foi um local que está ficando famoso por se tratar de um projeto que estimula as pessoas a correrem. Recentemente a Rede Globo mostrou uma reportagem nesse lugar como se na Etiópia toda estivesse se tornando uma febre correr. Trata-se da “Meskel Square”, um espaço para treinamento em frente ao centro de exibições da Etiópia. Em Adis vimos pessoas apenas correndo nesse lugar, mas apenas nas primeiras horas da manhã. Ficamos impressionados com o lugar, a sujeira, as pessoas miseráveis em volta, animais sendo pastorados e alguns pedintes nos cercando. Não ficamos muito tempo por ali. Rapidamente corremos para uma igreja, a primeira igreja Ortodoxa que encontramos. Pessoas com roupas rasgadas, outras com roupas tradicionais sujas, provavelmente tradicionais de sua cultura a maior parte idosas, sem cuidado, rezavam em torno da igreja. Os olhares são de pessoas que clamam sem aclamar. Algumas deles, quando nos vêem, oferecem um sorriso, outras se mantêm compenetradas na sua reza, outras expressam um olhar de “preciso de ajuda” e outras que nos passam a sensação de que “não entendo esse mundo”. Continuamos nosso percurso pelas ruas, tentando encontrar o jeito mais confortável de andar por Adis. Foi difícil. Não se consegue andar poucos metros sem esbarrar por uma favela, por pessoas em condições deploráveis e transeuntes com olhares estranhos. Não nos sentimos nada bem. Sentimos-nos excluídos e ao mesmo tempo sem ação. Nessa andança encontramos o Hilton Hotel e entramos rapidamente para nos refugiar. Em poucos minutos estávamos num bar na beira da piscina com todo o conforto do serviço capitalista americano. Ficamos internamente, ou seja, em nosso íntimo em uma situação embaraçosa e novamente paradoxal: “estamos no Hilton na Etiópia, um grande contraste”. Nos reabastecemos e pegamos um Lada de volta para o nosso hotel. Preparamos para uma noite especial: assistir um show de dança tradicional num local muito comentado nos guias de viagem internacional. Novamente pegamos um Lada e estávamos no local indicado. O taxista não falava uma palavra em inglês, tive que guiá-lo. Nem tive tempo de dizer “caro, acho que esse local está estranho” e ele nos deixou e foi embora. De fato estávamos na rua indicada, mas não víamos o tal restaurante. A rua escura, pessoas muito estranhas passando, alguns barracos de favela, bateu certo desespero. Fui até uma portinha de comércio para ver se podiam nos ajudar. Indicaram uma portinhola ali por perto de onde saia um cara bem esquisito. Logo me viu e disse “é aqui”. Talvez até fosse, mas sei que eu e a July saímos correndo (agora entendendo porque a Etiópia está promovendo a corrida) e novamente fomos nos refugiar no Hilton, não muito longe dali. No Hilton, o concerge indicou outro lugar, algo mais “turístico”, como ele mesmo disse. Negociamos com um taxista do hotel e fomos parar num lugar tão ermo quanto a favela do Paraisópolis: numa rua sem saída, eu e a July já com o coração na mão de ver tanta miséria, o chofer disse: “Uh, está fechado”. O lugar parecia um barracão de escola de samba ou um terreiro de umbanda. A July já começou a desconfiar da tal dança típica e insistia para que eu perguntasse ao chofer do que se tratava. Eu dizia: “tem que ser surpresa, senão não tem graça.”.
Fomos parar então num restaurante com comida tradicional, freqüentado por locais, mas um lugar que preserva com classe a tradição etíope de comer. Foi uma noite agradável, mas com o receio de sair muito tarde para enfrentar a sensação de medo espalhada. Mesmo num trajeto pequeno entre a saída do restaurante e o táxi éramos cercados por pedintes, pessoas com todos os tipos de histórias, papéis na mão ou até mesmo simulando colocar comida na boca.

No dia seguinte, novamente seguimos em busca de alguns pontos importantes pela cidade, enfrentando a realidade do local. Não sabíamos quais pessoas eleger para entregar alguma ajuda. Dessa vez estávamos um pouco mais acostumados a andar e tivemos menos medo e mais compaixão
.

Nossa primeira parada foi no estádio oficial do time de futebol da Etiópia. O gramado verdinho e bem tratado, mas o pequeno estádio, de tão velho e mau cuidado, que não deixaram a gente tirar foto. Saímos dali, atravessando lama e ruas sujas. Resolvemos arriscar um ônibus para o próximo destino. Interessante que o ônibus se paga pela janela do cobrador, antes de entrar. Faz-se uma fila no ponto de ônibus. Quando entramos no ônibus, a cena foi chocante, de difícil reprodução: as pessoas nos olharam chocadas, alguns se levantaram nos oferecendo lugar, outras abriam um sorriso dizendo um “olá”. O motorista, assustado com o reboliço dentro do ônibus, só saiu com o veículo quando um rapaz traduziu que queríamos ir para o museu nacional. Ali nossa imagem das pessoas começou a mudar. E muito. O medo se foi como um passe de mágica. Percebemos a bondade das pessoas e sua incapacidade de fazer mal a alguém. Talvez aconteça um ou outro assalto, tenho certeza que sim. Mas não era algo generalizado. Estávamos com os olhos de brasileiro. O mesmo brasileiro que anda preocupado com assaltos pelas ruas de São Paulo.

Com outros olhos para a cidade, percebemos na verdade pessoas muito simpáticas e de grande coração. A primeira vista realmente nos pareciam pessoas suspeitas, mas em poucas palavras as coisas mudam impressionantemente. Tratam-se, na verdade de pessoas que adoram ajudar, de contar sobre seu país, de perguntar sobre o nosso e de aprender mais. Um sorriso de um estrangeiro já faz uma grande diferença.
Durante a tarde passeamos pelo imenso mercado local chamado de “Merkato”. Trata-se uma Rua 25 de Março multiplicada por 20. Ele tem o orgulho de dizer que se é o maior mercado da África. E no final do dia, encontramos um prédio que pudemos acessar a cobertura “clandestinamente”. Dali foi possível ter uma visão melhor da cidade, de suas ladeiras cansativas rodeadas de morros, suas casas pobres e pessoas simples, pessoas com roupas tradicionais de sua “tribo” ou de sua religião. Ruas de enormes corações…

Deixe um comentário