Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Adis Abeba, Etiópia

Hoje é dia 25 de fevereiro de 2002. Não estou brincando. Hoje é dia 23 de fevereiro de 2002. Pelo menos aqui na Etiópia. Esse país é tão impar na África, ou melhor, no mundo que tem um calendário próprio. Aliás, também tem horário próprio. São 8 horas de diferença. Ou seja, 8 horas no horário utilizado pelo resto do mundo, para eles é na verdade 2 horas. Isso porque eles contam 2 horas depois do sol nascer, algo como 6 horas da manhã. Da mesma forma, quando são 7 horas da noite, na verdade para eles é 1 hora, ou seja, 1 hora depois que o sol se pôs. É uma confusão. Quando se pergunta quando vai partir o ônibus, por exemplo, tem que ficar atento pois eles comunicam em horário local.

Essa diferença de calendário deve-se ao fato da Etiópia adotar o calendário Juliano (calendário que foi corrigido no século 16 pela igreja católica mas não aceito pela igreja ortodoxa Etíope). Atualmente são 8 anos de diferença, e também significa que eles têm 13 meses no ano (12 meses com 30 e um mês com 05 dias). A Etiópia é toda assim…diferente, literalmente um outro planeta.

Em Adis Abeba, nossa primeira parada nesse país, tivemos a prazerosa oportunidade de visitar dois museus muito interessantes, que nos ajudaram a formar uma imagem mais completa do que significa esse país: o museu nacional, com todas as ilustrações do que é o país e um museu mais etnológico. O primeiro demonstra algo que suplanta qualquer imagem que ainda temos guardado sobre aquele terrível momento de fome dos anos 80. Falar em Etiópia no Brasil é como se fosse sinônimo de pessoa magra. Infame, mas é verdade. Quem não se lembra da música “We are the World”?. Isso porque as imagens chocantes daquela época realmente retratavam uma situação real do país, mas que ocorreu num momento de crise interna.

Aqui vale um parêntesis para entender melhor esse povo e o que realmente aconteceu.

Vamos pelo começo do começo: a Etiópia se auto entitula como o berço da humanidade, ou seja, onde surgiu o Homo Sapiens. Não é uma atitude prepotente, mas uma série de descobertas vem demonstrando isso. No interior da Etiópia foi descoberto a Lucy, um esqueleto de pré-Homo Sapiens, que deve ter algo como 230 mil anos de idade, que está guardada no museu da cidade junto com uma centena de “provas” e fotos de sítios arqueológicos ainda em estudo por instituições internacionais. Esse sim foi passeio que é difícil encontrar pelo mundo. De fato a Etiópia tem bons argumentos para se sentirem na linhagem dos “primeiros” na terra: a terra do Adão e Eva. Que todo mundo veio da África isso todo mundo já havia ouvido, agora é mais preciso dizer que todos viemos da Etiópia.

Contudo ser o berço da humanidade não é algo tão comentado por aqui, pelo menos nas ruas. O que inflama o patriotismo, algo que eles realmente gostam de dizer é que o café foi uma criação da Etiópia. Os árabes passaram por aqui levando o produto e daí foi para o mundo a tal “coffee arábica”. Eles costumam dizer: “O café é um presente da Etiópia para mundo”. Pode até ser, mas não posso atestar ser hoje o melhor café (eles também afirmam isso). Mas posso atestar consistência nessa história: eles bebem muito café, tal como tomamos no Brasil. E é uma honra para qualquer um ser convidado para tomar café na casa do outro. E tem mais: você até pode achar brincadeira: eles tem umas lojas de café em Adis Abeba chamada Kaldi’s Coffee, que tem a fama de ser igual ao Starbucks. Dois fatos interessantes pudemos confirmar: um é que Kaldi´s é realmente uma réplica da Starbucks, escrito com as mesmas cores e letras, inclusive; dois é que eles estão processando a Starbucks por terem copiado duas bebidas deles. É serio, isso virou uma disputa internacional(lembrando que NÃO existem empresas multinacionais tais como as de fast foods na Etiópia).

A Etiópia é o único país da África que não foi colonizado. Isso é um fato que merece ser repetido para se entender o impacto disso: “a Etiópia é o único país da África que não foi colonizado”. Ou seja, todos os demais – não é necessário dizer, mas vale o reforço, todos que passamos até agora – tiveram a influência militar, política, ideológica dos paises europeus, ora escravizando, ora extraindo recursos da natureza e impondo seu jogo capitalista, e mais recentemente, socialista.

Uma pincelada na história recente do país, fatos que marcaram, foi a ocupação italiana no período de 1936 até 1941, pelo regime fascista do Mussolini e que foram expulsos pelos Etíopes. Coincidentemente, chegamos em Adis Abeba num dia de semana. Segundo fontes da internet, não havia feriado na Etiópia em março. Mas como eles estão em calendário próprio, acabou que chegamos em fevereiro, data que eles comemoram a expulsão dos italianos. Na Universidade da Etiópia tivemos o prazer de ver o museu explicando cada detalhe desse momento histórico para eles e encontramos alguns pracinhas pelas ruas. Nesse período de ocupação, o rei da Etiópia, o muito bem relacionado Haile Selassie, ficou muito famoso pelo mundo defendendo seu país nos quatro cantos e se tornou o mártir da vitória contra a Itália. Por esse motivo se tornou um Deus da religião Rastafari, adotado curiosamente do outro lado do mundo na Jamaica. Em 1974, um grupo de esquerda patrocinado pela URSS, na guerra fria, implementou o socialismo no país. Não podemos dizer que antes disso o país estava em boa situação, mas o fato é que com a nova organização política socialista acabou ruindo com a agricultura, o que levou famosa crise de miséria e falta de comida ocorrida nos anos 80 que marcou o mundo. Com essa crise de fome, sob os olhos do mundo todo, acabou levando o país a ter um suporte internacional mais forte, sendo a sede, por exemplo, de organismos internacionais tais como o escritório de Desenvolvimento Econômico das Nações Unidas para a África. Estivemos por lá visitando as instalações. Um guarda muito simpático nos deixou andar pelo moderno prédio que já recebeu diversas personalidades do mundo. Nos anos mais recentes, a Etiópia tenta se desenvolver democraticamente. É uma missão difícil como tem sido com toda a África. Economicamente o país vive da subsistência. A maior parte da agricultura é tocada por uma espécie de “comunas”: as terras são administradas coletivamente por micro zonas, gerando comida para a comunidade. A geografia não ajuda muito, poucas partes do país são férteis. Basta uma seca mais longa e todo mundo pode passar fome. Uma das missões diárias de cada pessoa é conseguir ter comida para o dia. Triste e real. Para tentar gerar riqueza e sair da estagnação o país vem se aproximando muito do Japão e China, tentando se tornar um exportador de matéria prima, ainda muito pouco explorada.

E só para reforçar a “imparidade” da Etiópia, fala-se aproximadamente 83 línguas, isso porque abarca uma séria de etnias, espalhadas pelos seus quatro cantos e que tem um alfabeto bonito de se ver, mas impossível de se compreender. Basicamente o país é dividido em oito grandes grupos étnicos. A língua mais falada é a Amharic (não é o aramaico). Pouquíssimas pessoas falam o inglês, somente aquelas que acessam os turistas, como normalmente acontece em qualquer lugar do mundo. Os mais pobres aprendem o inglês por uma questão de sobrevivência, senão nem mesmo conseguem obter um trocado com os estrangeiros. As diferentes etnias preservam muito da sua cultura, há centenas de anos. No museu e pelas ruas ficou claro que são povos tradicionais, com bagagem histórica bastante rica e que seguem sua cultura a risca. Fiquei encantando com a culinária e a música. Pela primeira vez nessa viagem vimos algo de realmente diferente em termos de comida, música e dança, com todo o respeito aos demais países. Depois de termos nos embrenhados em lugares bastante suspeitos com um taxista (a noite é meio sóbrio andar pelas ruas, explicarei melhor em outro e-mail), ruas de favelas, buscando um restaurante “turístico” que felizmente estava fechado, fomos para um restaurante local, organizado, limpo, mas “não turístico”. Tivemos o prazer de provar um dos pratos mais típicos, a “injera”, que você tem de comer com as mãos. Mas antes de você se servir, duas “garçonetes” trazem um bule de prata, grande e bonito, com água quente para lavar as mãos, enquanto a outra segura uma cesta de palha colorida (muito tradicional na Etiópia), contendo toalhas para secar as mãos. Para pegar a comida utiliza-se uma espécie de massa de panqueca. O jantar é enriquecido com a música local, alternada com danças típicas que a Juliana, quem tem paixão por apreciar e praticar a arte da dança, ficou de queixo caído, e alguns músicos que pareciam cantar de trás para frente.

A religião predominante é o cristianismo, mas também existem uma boa parte de mulçumanos, judeus e crenças tribais. Mas como já disse, a Etiópia é um país que tem um povo de personalidade forte, orgulhoso, logo todas essas religiões tem uma adaptação Etíope. No interior do país, por exemplo, por falta de recursos, o islamismo não é exatamente praticado em mesquitas. E também tem igreja cristã própria, muito forte e com uma prática fervorosa pelas ruas: a Igreja Ortodoxa Etíope. Com papa próprio (na verdade eles chamam de Patriarca) e que fica baseado em Adis Abeba. Isso é bem interessante: quando estivemos em Jerusalém tempos atrás, quando andávamos próximo ao local da crucificação, um lugar muito disputado pelas diferentes vertentes cristãs pelo mundo, nos deparamos com um monastério Etíope, num lugar de destaque. Ficamos muito curiosos: da Etiópia só tínhamos a imagem das pessoas com fome, etc. Um dos motivos para estarmos aqui foi justamente essa ligação com o fato da nossa curiosidade em Jerusalém. Descobrimos aqui uma igreja muito forte, com igrejas espalhadas pela cidade, suntuosas e com uma “missa” muito peculiar: enquanto o “padre” (é que não descobrimos o nome, pode ser um pastor ou talvez um guia espiritual) realiza a missa lá dentro, com um alto falante externo, somente as mulheres ocupam a igreja, descalças, com lenço cobrindo a cabeça, e o restante das pessoas, inclusive as mulheres que não conseguiram entrar, rezam do lado de fora. Muitos beijam as paredes e portões da igreja. De quando em quando, realizam um movimento para frente que dá vontade de imitar. Como as pessoas ficam espalhadas pelo quintal da igreja, cada um no seu canto bastante compenetrados, segurando um terço, fica um desenho meio fantasmagórico em volta da igreja. E isso pode ocorrer ao meio dia, como presenciamos. Se bem que visitamos umas três ou quatro igrejas em outros horários e também presenciamos a mesma cena.

O fato é que o fervor religioso é bastante latente pelas ruas. Acho que isso é proporcional à vida difícil que eles levam por aqui. Boa parte dessa dificuldade está relacionada ao fato da Etiópia ser muito isolada do mundo. É um país de baixa aderência a globalização. Somam-se a instabilidade política, dificulta o acesso de empresas internacionais que poderiam impulsionar alguma coisa. Não existe praticamente supermercado em Adis Abeba. Isso se deve principalmente pela cultura muito própria, por tudo aquilo que já comentei aqui (calendário próprio, diferentes etnias, etc.), o que bloqueia globalizaçao. O fato de o país não ter representatividade no comércio mundial também se deve a sua falta de organização e infra-estrutura para alavancar esse eventual progresso. O insucesso de sua experiência socialista agravou os problemas e levou a um atraso que somente um milagre para que o quadro se reverta no curto prazo. E milagre tem a ver com religião. Daí o fato de a prática religiosa estar crescendo enquanto o país continua estagnado.

Um comentário em “Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Adis Abeba, Etiópia

  1. Parabéns, Eduardo, pelo seu lindo, claro e emocionante relato sobre a Etiópia.
    “Saudades de onde não conheço”, agora digo: saudades de onde conheço. Lá estive e fiquei apaixonado por tudo que vi. Andei o país de norte a sul e de leste a oeste, e então posso dizer: Saudade, saudade!!! Eduardo, somos felizardos em poder conhecer lugares assim, e principalmente por gostar de Geografia, tendo sempre o mapa mundi na cabeça e nos pés. Um forte abraço.

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