Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Partindo de Nairobi, Quênia

Nairobi está praticamente na linha do equador. Sua altitude é pouco mais de 1400 metros. Desde Johanesburgo o calor vem nos acompanhando, cada vez mais crescente. Aconteceu em Nairóbi um milagre refrescante: além do tempo fechado com chuva, tivemos uma noite e um dia de frio. Talvez tenha alguma coisa a ver com o El Ñino dessa região, mas o fato é que ficamos espantados, e parece que o povo local também, com esse presente de inverno no verão.

Curtimos a cidade com esse clima que literalmente não combina com o lugar. Continuamos tomando os devidos cuidados de evitar qualquer entrada na estatística de Nairobbery, e continuamos nosso tour pela cidade. Dessa vez o passeio foi livre de agentes e pessoas nos perseguindo. Talvez o clima houvesse desanimado o pessoal. E como não havia ninguém atrás da gente ficou mais fácil observar a cidade. Sinceramente, excluindo os lugares realmente tumultuados, nos sentíamos tranqüilos andando pela cidade.

Nesse percurso tivemos algumas surpresas, a principal delas foi visitar o campus da Universidade do Quênia. Além de um lugar de arquitetura agradável, moderna, os gramados muito bem tratados, tornam o ambiente “democrático”, onde alguns tomam sol, outros simplesmente conversam em turmas enquanto outros estudam. Um cenário bem diferente do corre-corre da cidade. Imensas placas dentro do campus indicam “Aqui está livre de corrupção”. Isso faz parte de uma campanha nacional para diminuir as excessivas e escancaradas propinas e subornos. O intrigante é saber quem está atestando o campus de que ele está livre de corrupção….

Depois do Campus, uma visita ao mais importante parque local, o Ibirapuera deles, o “Ururu parque” e logo ao lado o “Central Parque”. Alguns monumentos tentam reservar alguns fatos importantes do país. Um monumento, em especial, chama atenção pelo seu apelo a  justiça, encravado em frente a corte judiciária do Quênia. Uma passada na “City Market”, uma espécie de mercado municipal que “inferniza” turista, tentando vender de tudo. Depois tivemos o imenso “prazer” de se juntar ao rush do final de dia. Isso não foi nada agradável. Milhares de pessoas pelas calçadas e carros que não respeitam a sinalização. Aqui quem pára no farol vermelho toma uma buzinada de quem vem atrás. Atravessar a rua é um verdadeiro safári sem jipe. E as Matatus e os micro ônibus é que não param mesmo. Aliás, nesse horário da tarde o que mais impressiona além do trânsito confuso, é a quantidade de pessoas esperando na fila para pegar o ônibus. Algumas delas é impossível encontrar onde começa. Isso porque até recentemente uma das maiores conquistas do país (veja, do país), foi a regulamentação do transporte público, principalmente as matatus.

Nossa partida da cidade estava marcada para a madrugada do dia seguinte. Antes disso precisávamos encontrar de todo o jeito algum restaurante típico do Quênia. Ficamos impressionados com a recomendação geral sobre um restaurante que fazia um churrasco típico. Não ficamos atraídos nem um pouco, com a certeza de se tratar de uma “armadilha para turista”: algo caro e com baixo retorno. Na noite anterior já havíamos rodado toda a cidade e acabamos comendo num restaurante tradicional chinês. Afinal, como a culinária Queniana parece ter uma grande influência da culinária indiana e um pouco da chinesa, para garantir um bom jantar, acabamos mesmo indo jantar  no chinês recomendado por “chefs” internacionais. Foi saboroso mas nada de mais. Algo que o China in Box também faria. E mais uma vez essa noite rodamos a cidade procurando algo típico. Curiosamente nem mesmo pelas ruas de Nairobi e tampouco pelos lugares que passamos por terra, pelo interior, encontramos alguma comida diferente. Parece estar claro que a culinária dessa região foi fortemente influenciada, e a escassez de produtos (devido à própria condição de miséria e precária agricultura e pecuária) não tem favorecido a criatividade na cozinha. Talvez as tribos, com menos contato com o mundo urbano tenha algo mais típico, mas o acesso até elas é muito difícil e demorado. Não basta chegar lá e dizer “I am from Brazil”, tem que ter um guia, etc.

Era nossa última noite, demos mais uma chance para os quenianos. Mesmo dando mais uma chance, tivemos mesmo que ceder a um prato de comida italiana. Para não ficar em branco estou levando grãos de café e chá. Vamos ver.

Depois do espaguete apimentado, arrumamos as coisas para a partida. Às 11 horas da noite fui procurar um taxista para nos levar ao aeroporto, único meio de transporte naquele horário. Todos os táxis são muito velhos, esse não era diferente. Depois de uma estressante negociação, e ele bastante ansioso em nos levar, colocando as malas apressadamente, saímos cortando as ruas da cidade já muito vazia. Quando o veículo saiu do perímetro urbano o taxista saiu abruptamente da estrada, entrando num posto de gasolina escuro e desativado. Eu e a July nos olhamos: “já era, isso deve ser uma cilada”. Ficamos com o coração na mão, prontos para qualquer coisa. O taxista rodeou o posto, encostando a cabeça no vidro dianteiro como quem busca ler alguma coisa. Depois disso, enfrentou alguns intermináveis metros de terra esburacada, aumentando a nossa apreensão, e voltou para estrada. Por duas vezes repetiu tal movimento em dois postos seguintes. Um deles, inclusive funcionando. Ficamos sem entender. Tentou explicar numa língua incompreensível e seguimos. Fácil perceber que procurava por combustível, mas estranhamos que parecia não conhecer os postos daquela região. E por que não parou para abastecer no posto que estava funcionando? Será que estava pesquisando preço? Para que dar um susto daqueles?

A aventura com o taxista continuou. Bem na entrada do aeroporto, poucos metros antes da chancela do estacionamento, alguns policiais faziam uma blitz. Quando o taxista viu os policiais com a lanterna na mão, balançou a cadeira engolindo seco. Era visível que estava preocupado. Parou o veículo, logo o policial estava em sua janela pedindo para sair do carro. O motorista, todo desconsertado, tinha dificuldade para a abrir a porta. Saiu pelo outro lado. Ele conversou todo o tempo com a cabeça baixa. O policial não parecia estar muito envolvido com a história contada. No momento que o porta-malas se abriu, de dentro do carro dava para ver o dinheiro sendo transferido do taxista para o policial. Estávamos presenciando a corrupção local. Não dá nem para dizer que isso é propriedade exclusiva do Quênia, obviamente, mas é que esta história teve um agravante: Logo que o carro encostou no aeroporto, o pobre taxista, com seu carro todo remendado, novamente foi abordado por mais homem de farda. Pagamos a corrida e fomos saindo de fininho, vendo a situação se repetir e o taxista com o rosto “cheio de lágrimas”. Ainda assim, teve a força e a polidez de dar “boa viagem”, de dentro da jaula dos leões. Infelizmente não podíamos socorrer.

Às 4:30 da manhã, pegamos um vôo da Etiópia Airways para Adis Abeba. Depois de um dia pesquisando como chegaríamos em Adis por terra, descobrimos que seria uma viagem insólita. Quatro dias seria a melhor previsão, enfrentando os piores buracos das estradas do Quênia e as inexistentes estradas da Etiópia.

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