Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – Nairobi, Quênia

Curioso: Arusha também tem a ver com Ruanda. É uma cidade base para safáris e escaladas do Kilimanjaro. Mas a cidade tem entrado no noticiário internacional por outro motivo. É no centro de convenções de Arusha que foi montado o auditório do julgamento dos criminosos do genocídio de Ruanda. O julgamento é internacional, por isso está fora de Ruanda. Como se tratam de dezenas de acusados, o julgamento vem se estendendo há anos, com prazo para acabar em 2010. Será?

Não pudemos curtir muito a cidade, por dois motivos: pouco tempo e a forte alcunha de cidade “ultra perigosa”. Para se ter idéia do perigo, no inicio da noite, a recepcionista do albergue, a Arishaa (provavelmente se alguma agencia de modelo visse a Arishaa pessoalmente levaria ela para fazer um teste como modelo. Talvez a foto postada ao lado não consiga retratar realmente a sua beleza e altura),uma simpatia de gente, recomendou que pegássemos um táxi para andar menos de duas quadras para chegar a um restaurante. Seguimos a recomendação. Pudemos realmente constatar a sensação de perigo pelas ruas escuras da cidade.

No dia seguinte só houve tempo para tentar trocar toda a dinheirama local em dólares para pegarmos um shuttle para Nairobi, no Quenia. Shuttle é uma palavra bonita, em inglês, que os  “locais” dão para um microônibus velho, apertado e sujo. Numa correria pela cidade, com as malas na mão, chegamos na hora que o tal shuttle estava saindo. Haviam nos informado que a viagem duraria entre 4 e 5 horas. Olhando no mapa, achei até muito. Mas a realidade constatou algo muito pior: as estradas eram péssimas. Havia muitos trechos de terra, no meio da savana, outros trechos com asfalto esburacado e pouco espaço para o carro da outra mão. Mais ou menos uma hora de viagem, tivemos que nos apertar dentro do micro ônibus para comportar os passageiros do ônibus que havia saído antes do nosso e quebrado no caminho. Não bastassem mais pessoas, também havia mais malas. O microônibus viajou arreado mais ou menos umas 8 horas (isso 8 horas!), bem mais do que havia sido prometido. Novamente uma travessia de fronteira sombria e miserável. Muita gente pedindo dinheiro, muitos Maasais tentando vender de tudo. As mãos dos Maasais entravam na van por todas as janelas e frestas. Os muzungus são atormentados a todo o momento. Eles chegam a colocar os produtos em nosso colo e dizem se tratar de um presente. Passa uns 5 minutos gritam “tantos Shillings (moeda da Tanzânia)” e ficamos numa saia justa para devolver o produto.

Novamente, como em boa parte das viagens pelos paises que passamos, a falta de infra-estrutura é parcialmente compensada pela natureza. A paisagem da savana nesse percurso é colorida pelo povo Maasai. Olhando de longe, devido sua vestimenta feita de tecidos enrolados no corpo – tecidos muito próprios deles – com saias, um cajado na mão, alguns carecas, outros com fiapos de cabelo na frente, se sobressaem como uma espécie de “Super-herói” da savana. Alguns, inclusive, usam uma capa de cor laranja. Agora, olhando de perto, os Maasai se tornam anti-herói:  são carrancudos, quase sempre mercenários, não tem um olhar amigável, tampouco gostam de conversar. Ficamos com uma imagem, pode até ser deturpada, de um povo arrogante.

Depois do passeio pelos buracos imensos nas estradas do Quênia, chegamos no final do dia em Nairobi, a capital.

Nossa chegada foi novamente conturbada devidos os insistentes agentes de hotéis, safáris ou de táxi. Algumas vezes, confesso, perco a paciência. Teve um senhorzinho que me perseguiu pela cidade toda. Primeiro esse senhor me ofereceu um tour para não sei onde, daí me pediu para eu passar pelo escritório dele depois que eu me intalasse no hotel. Nos instalamos no hotel, e saímos andando para conhecer a cidade. O senhorzinho apareceu num lugar inusitado, já bem longe, me lembrando que eu deveria passar pela agência dele. Duas horas depois, eu nem me lembrava mais, estávamos no supermercado, novamente apareceu o senhorzinho….

A July acha que eu atraio esse tipo de gente oferecendo coisas. De fato eles não saem do meu pé.

Nairobi é maior cidade do Quênia. Ela está praticamente na linha do Equador. Apesar disso, felizmente, o céu tem ficado nublado e ajudado a refrescar um pouco. Para turistas, Nairobi é conhecida como “Nairobbery”, uma junção de Nairobi com roubo. Todo o cuidado é pouco.

Normalmente a gente só ouve falar em Quênia porque eles vivem ganhando a corrida da São Silvestre. Quem não se lembra de Paul Tergat, vencedor de umas cinco vezes? Apesar desses super corredores, o Quênia é um país pobre, foi colonizado pelos ingleses, e que até 2005 passou por um processo de piora dos indicadores econômicos e sociais impressionante. Isso tudo devido a disputas internas de poder e uma tentativa de transformar o país numa verdadeira democracia. Em 2008 foi necessário uma intermediação internacional para transferir o poder para o presidente eleito. Algo que fiquei surpreso: o país é na verdade uma junção de tribos que migraram para essa região. Foram quatro tribos importantes, onde se inclui os “Maasais”, já comentando por aqui. O curioso é que a maior parte da população está mais inteirada com sua cultura e sua relação com a tribo do que propriamente com o país “Quênia”. E isso é facilmente percebido pelo interior do país, onde está a maior parte da população.

A expectativa de vida é aproximadamente 52 anos, com uma pobreza e falta de saneamento básico bem espalhadas pelo país. Nairobi é uma cidade ligeiramente organizada. Não se vê pela cidade nada internacional, a não ser o hotel Hilton. O centro da cidade é beneficiado pela sede do governo, um centro de conferência e alguns parques que oferecem um charme adicional. Estivemos no topo do centro de conferência, um prédio de um 27 andares. Na recepção, o atendente pegou uma chave velha e nos levou para o topo do prédio, passando por um elevador moderno e três lances de escadas escuras. Fomos parar exatamente no heliporto. Daí sim deu para ter uma noção melhor da cidade.

Depois de um tour pela cidade, partimos para o passeio que havíamos protelado até agora: um safári. Pegamos então uma matuta (como são chamadas as vans no Quênia) em direção ao Parque Nacional de Nairobi, onde os “Big Five”(leão, rinoceronte, búfalo, leopardo e elefante) vivem livremente, em estado selvagem. Mas nesse safári não veríamos elefantes.

Nossa idéia era fazer o safári promovido pela própria empresa “não lucrativa” que administra o parque. Eles oferecem esse tipo de tour (muito bem pago, claro) todos os domingos. Para nossa surpresa, não havia passeio nesse dia por o motorista estava doente. Ficamos na mão. Estávamos na entrada do parque, não podíamos entrar, mas também não queríamos de jeito nenhum desistir. Depois de uma hora de espera aparece um rapaz com o veículo apropriado para o tour. Felizmente outras três americanas estavam na mesma situação e dividiram as despesas com a gente. Pronto, bastava colocar o chapéu de safári e entrar no parque. Esse é um dos passeios com preços mais salgados que já vi em todo o planeta! É desproporcional, tanto o preço do transporte quanto do parque. E é realmente um verdadeiro jogo para ver quem consegue ver um animal. No primeiro kilômetro dentro do parque fica todo mundo tenso, um suspense até vermos o primeiro animal solto. O passeio fica legal quando o motorista levanta o teto e é possível ficar em pé, vendo todos os ângulos. O percurso dura umas 3 horas, felizmente; isso porque realmente demora para encontrar os bichos. Mas quando o negócio esquenta, chega-se a cruzar lagos cheio de hipopótamos, leões passeando despreocupados com a fartura de impalas pelas savanas e rinocerontes aos montes, como se fosse uma fazenda de vacas.

A graça do passeio, pelo menos para mim, foi observar os beduínos. Realmente são muito divertidos. Mas também não se resiste às girafas, que é possível vê-las correndo, algo realmente impossível num zoológico. Nesse tipo de passeio é necessário um binóculo, não só porque os bichos podem estar longe, mas porque dá para ver melhor o que estão fazendo. É possível ver, por exemplo, um leão preparando a caça. O sabor do passeio está nesse jogo e na sensação de estar desprotegido na savana, no meio da “selva”. Esse realmente deveria ser algo que todo mundo deveria ter a oportunidade de fazer um dia.

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