Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De Moshi para Arusha, Tanzânia

Curtimos Moshi e a paisagem do Kilimanjaro. Além da parada estratégica nessa cidade, ela também nos serviria de “portão de passagem” para outro país de percurso terrestre muito tortuoso para chegar até ele: Ruanda. O percurso de ônibus seria muito demorado devido a necessidade de contornar o lago Vitória, que divide Ruanda, Uganda, Quenia e Tanzânia. Depois de uma cansativa busca, descobrimos um vôo direto entre Moshi e Kigali, capital de Ruanda. Pelo telefone, fizemos uma reserva para o dia seguinte, às 15 horas, e tratamos de nos preparar para encontrar uma maneira barata de acessar o aeroporto “Kilimanjaro”, cerca de 30 kilômetros de Moshi. Só depois que fizemos a reserva fomos descobrir que o aeroporto não era tão acessível como imaginávamos. Estávamos na mão dos taxistas. Também precisávamos resolver outra questão: o pagamento deveria ser feito no aeroporto, em cash, e em Shilling, moeda da Tanzânia. Fomos correndo (correr aqui é como correr numa sauna) para o único caixa eletrônico que realiza saque internacional. Tendo em vista um valor limite para saque, teria que realizar uns três. Consegui realizar dois. Na terceira tentativa, “cartão bloqueado”. Fomos embora com a certeza que se tratava de um limite máximo do cartão para aquele dia.

No dia seguinte acordamos cedo para ficarmos focados em buscar rapidamente as duas soluções: saque e transporte para aeroporto. Nova tentativa de saque e nada. “Precisamos ligar para o cartão”. Corremos (na sauna) até a central telefônica. O cartão de crédito informa que você pode ligar de qualquer lugar do mundo “a cobrar”. Ficamos mais de uma hora para descobrir que a Tanzânia não faz ligação “a cobrar”. E, sui generis, não existe operadora que realiza a ligação. Tentamos nos controlar. A única maneira foi pagar uma senhorinha que tinha um telefone ligado com o mundo todo, dentro de um cabeleireiro. Pagamos por minuto só para ouvir o óbvio: “Senhor Eduardo, bloqueamos o seu cartão porque o Sr. realizou dois saques seguidos. Pareceu-nos suspeito. Inclusive enviamos um telegrama para sua casa”. Isso porque eu havia informado antes a central do cartão de crédito que estaria nesses paises….Bem, cartão desbloqueado, saque realizado. Sentimos como verdadeiros milionários, com um bolo enorme de dinheiro. Era fácil entender o limite por saque: a máquina não conseguiria fornecer mais notas.

O outro problema, o transporte, contornaríamos em duas fases: pegar uma mini van até a estrada e lá veríamos o que fazer. Comentamos isso com um taxista, um dos zilhões que nos importunavam permanentemente, juntamente com os incansáveis vendedores de tours, e ele aceitou um valor mais justo pela viagem. Esse foi gente fina.

Nos despedimos da hospitalidade do Zebra Hotel, que nos proporcionou uma boa vista da cidade, e saímos. Às 12 horas, uma hora depois, cortando as mais tenebrosas estradas, sob um sol de rachar, conforme havíamos combinado com a agente de viagem da Ruanda Airways (isso mesmo, Ruanda tem uma empresa aérea), estávamos na frente do escritório da empresa, com o bolo de dinheiro na mão, no aeroporto Kilimanjaro. É um aeroporto modesto, quase uma rodoviária de uma cidade pequena no interior do Piauí. Depois de uns 30 minutos aparece o funcionário da empresa. Calmamente ele abre a porta, vai jogando a chave em cima da mesa, senta em frente seu micro e eu digo: “Vim acertar a passagem para Kigali, vôo de hoje à tarde”. E ele: “Olha Sr, tivemos um problema com o vôo e ele partiu essa manhã”. “O quê? Como assim?  E quando sai o próximo?”. “Em três dias”.

Não sabíamos se deveríamos ficar aliviados por não termos pego o vôo, dado que havia dado um problema (e o que seria exatamente esse problema?), mas o fato é que deveríamos decidir rapidamente por alguma alternativa. Um passo havia sido dado: estávamos num aeroporto. Excluindo a tal “Ruanda Airways”, que só teria um vôo em três dias e é a companhia mais barata, as demais empresas são caríssimas. Aceitamos então aumentar o orçamento da viagem para Ruanda, realizando uma conexão em outro lugar. Esperamos até as 17 horas, na lista de espera de todos os vôos: todos lotados. Restou-nos então seguir por terra, outra rota: aproveitamos que uma van da Ruanda Airways seguiria até Arusha, a maior cidade da região, decidimos ir até lá e passar uma noite.

Ir para Ruanda tem um sabor especial para mim. Não estou sendo macabro, tampouco sádico ou infame. O que aconteceu em Ruanda foi uma das maiores tragédias da história recente. Não sei o quanto você conhece sobre o que aconteceu em 1994 em Ruanda. Talvez você tenha assistido o filme “Hotel Ruanda”, ele retrata muito bem aquele momento de horror. Se não assistiu, corre na locadora. Tenho certeza que ainda existe uma fita por lá. Resumidamente, o fato histórico se passa em Kigali, um verdadeiro massacre, um genocídio, onde uma tribo(Huntus) simplesmente tentou dizimar a outra(Tutsis) a base da facada. Mais de 800 mil morreram. Isso ficou conhecido como “genocídio de Ruanda”. O principal hotel da cidade, o Hotel des Mille Collines, se tornou um centro de controle dos estrangeiros, principalmente pessoas envolvidas com ajuda humanitária, que tentavam ajudar os feridos. Naquele momento, todos os paises deram as costas a Ruanda, algo que facilitou as atrocidades, levando o homem a cometer atos de violência beirando a selvageria. Os estrangeiros que prestavam ajuda humanitária já ha certo tempo instalados em Kigali também deixaram o país. O Hotel se tornou uma espécie de zona neutra e tendo essa condição, muitas pessoas buscavam se esconder nele sob o consentimento clandestino do gerente. Muitas dessas pessoas sobreviveram ao massacre.

O sabor especial de visitar Ruanda na atualidade não é desenterrar essa história, mas sim a lição que ela deixou para a humanidade. Como uma espécie de “dor na consciência”, os paises ricos vem tentando reerguer aceleradamente Ruanda. A palavra “genocídio” também obriga as nações unidas a dar um suporte especial. Isso entre outras coisas é que me atraem por lá. Mesmo com todo esse passado, a pergunta que mais ouço por aqui é “você vai ver os gorilas em Ruanda?”. É que Ruanda tem parte dos poucos gorilas que ainda existem no mundo.

Se por um lado não estivemos lá ainda, por outro conheci o Juan, um rapaz de uns 25 anos e vive em Kigali, que também perdeu o vôo “virtual” das 15 horas e estava dentro da van indo para Arusha. A diferença entre eu e ele naquele momento era de que ele havia comprado a passagem e eu tinha apenas uma reserva. Então ele estava sendo suportado pela empresa aérea para ser enviado em um vôo bem mais caro de outra companhia no dia seguinte.

Juan tem uma cicatriz enorme na cabeça, vitima de uma facada no período do genocídio. Procurei não tocar no assunto, mas ele mesmo foi se embrenhando por ele. Disse que o país não fala mais no assunto do terror 1994, mas um museu local retrata muito bem os acontecimentos, com fotos e filmes da época. E que hoje as duas tribos vivem juntas, numa grande harmonia. Olhando para trás, eles não conseguem entender de onde partiu tanto ódio para ter acontecido o que aconteceu. O país é muito agradável para se viver, a criminalidade não existe, as pessoas estão bastante confiantes com o desenvolvimento econômico, a agricultura (uma rara exceção na África) está indo bem, etc. E de fato ele confirmou o suporte internacional por conta de uma sensação de “dor na consciência”.  No fim da nossa conversa, me deixou as portas abertas: “se for a Kigali, por favor, me procure”.

Um comentário em “Expedição Africa “Hôtel des Mille Collines” – De Moshi para Arusha, Tanzânia

  1. Juli,

    Vc nessa foto está parecida comigo !!! rs
    Tomei um “susto” quando eu vi (pensei: o que eu estou fazendo ai ???)

    Bjs,
    Cris

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