Segundo dia em Johannesburgo. Noite passada eu havia conversado um pouco com o dono do albergue, rodeado de seus dois cachorros (que pelo tamanho um deve ser da raça “cavalo” e o outro da raça “leão”, ambos andam soltos pela casa, desengoçados e com muita sede), sobre a minha missão no domingo: visitar o Soweto. Soweto (que significa South West Township) é um bairro afastado da cidade que ficou famoso por se tornar um dos maiores guetos do mundo, local onde os negros se apinharam dura te o apartheid, se fortalecendo no período de resistência, uma espécie de “Cidade de Deus”. Depois do fim do apartheid em 1993, o governo passou a tentar desenvolver a região, com casas populares, infra-estrutura, etc. Hoje é uma espécie de favela do Heliópolis, com algumas casas de classe média na entrada do bairro, com pinceladas de peculiaridades como o morro da mangueira. Assim como no morro da mangueira, de acordo com a instrução do dono do Albergue, deveríamos fazer uma visita com um guia. Na manhã de hoje, partiria um tour programado que passaria por diversos pontos do Soweto e que voltaria no final do dia. “Tour? Isso não me agrada muito”. O tour passou pelo albergue e ficamos para trás. Ligamos para um “carro particular” que havia nos transportado no centro da cidade ontem(o que seria um táxi no Brasil) mas o motorista disse que só passaria para nos pegar ao meio dia. Perderíamos duas horas. Resolvemos ir com as próprias pernas. Deixamos tudo de valor para trás e só levamos o essencial. Novamente pegamos a lotação Van(curiosamente eles chamam aqui de “táxi”) e fomos para o centro. No centro, uma mocinha muito simpática nos guiou até a próxima lotação que ia até o Soweto. O percurso é bem longo e tivermos a oportunidade de passar em frente ao Soccer City, onde será a abertura e final da copa(ainda em construção).
Quando ficar pronto ficará realmente muito bonito. A aposta do governo é que o estádio vai ajudar a desenvolver a região(realmente vai precisar de muito desenvolvimento). A lotação entrou no bairro famoso e nos deixou no começo da rua da antiga casa do Nelson Mandela, hoje um museu. Subimos a rua rapidinho, procurando o aglomerado de turistas que estavam realizando visitas em grupo ou com guia. O guia do museu foi muito simpático e se demonstrou realmente interessado em explicar a vida do Mandela: “Vocês conhecem o Mandela?”, perguntou. “Sim”. “Então, quando ele nasceu?”. “Bem…”. “É já vi que vocês não conhecem…”. E começou a bibliografia de frente para trás e trás para frente, ao mesmo tempo que mostrava os cômodos da casa. Mandela e sua família viveram ali antes de ser preso. Foi uma parada importante aquela.
Saímos pela rua pensando como seguiríamos para o próximo passo. De fato o que eu mais ouvia era de que era muito difícil explorar o imenso bairro sem ter um guia. Resolvemos subir a rua do Mandela a esmo, sem destino. Logo encontramos uma escola e ficamos no portão observando que algumas pessoas vestidas com trajes típicos estavam entrando por ali. O pessoal passava pela gente e para nossa surpresa todos nos cumprimentavam com um “olá” ou “sejam bem vindos”. Ali começamos a sentir uma África do Sul diferente. A última pessoa que estava entrando, um rapaz, foi um dos mais enfáticos e parecia realmente preocupado em ser acolhedor. Resolvi abordá-lo. “Como podemos conhecer os outros pontos do Soweto?” Awmanda foi muito simpático e disse que nos levaria até a casa da Winie, ex-mulher de Nelson Mandela. Desceu a rua com a gente, cumprimentando os amigos da rua, entrou a direita e foi subindo um morro bem estranho. Seguimos ele na mesma confiança das pessoas que estavam com ele entrando na escola. Atravessamos o morro e demos de cara com a mansão e mais uma dezena de crianças que pularam no nosso colo pedindo água e dinheiro. Era uma mistura de carência com miséria. Era uma situação complicada.

Elas literalmente pulavam em nosso colo e queriam andar com a gente, descendo o morro. A Juliana carregava no colo uma menina enorme. Eram crianças adoráveis, literalmente não sabíamos lidar com a situação. Tiramos várias fotos. Ao mesmo tempo, estávamos muito preocupados com o lugar que o Awmanda estava nos levando e das pessoas aparentemente estranhas que encontrávamos pelo caminho literalmente ermo. Por outro lado, o morro nos proporcionava uma belíssima vista, para todo o Soweto e para o bairro Orlando, ao lado. A situação se agravou quando o nosso amigo disse que ninguém passeava pelo Soweto da maneira que nós estávamos indo, assim como “free-lancer” . E passou a caminhar pelo bairro, pelos pontos importantes como o museu do conflito que ficou famoso internacionalmente devido a disputa entre estudantes do Soweto e a polícia quando o governo havia decido oficializar o Africaner como língua oficial no ensino, em substituicao ao ingles, sendo que os estudantes lutavam para que as duas linguas fossem oficiais. Aproximadamente 700 estudantes foram massacrados em1976 e o local do massacre, um simbolo forte do inicio da resistencia ao apartheid e que virou um museu. Dizem que esse evento deu ainda mais força para Mandela quando ele esteve na prisão(só lembrando que Mandela ficou 27 anos preso, saiu da prisão em 1993 e se tornou presidente em 1994. Mandela tem uma das vidas mais incríveis do século, e ganhou um Nobel da paz incontestável). Awamanda também nos levou a antiga casa do Bispo da igreja anglicana Desmond Tutu que também ganhou um prêmio Nobel, e que também morou na mesma rua do Mandela. Isso é raro e histórico: dois prêmios Nobel no mesmo lugar. Outros passeios ficaram de brinde: demos uma passadinha para cumprimentar dois amigos moçambiquenhos do Awmanda: um que tem uma barbearia e outro que tem uma barraca de frutas. Ambos trabalham 24 horas por dia para tentar juntar alguma coisa e enviar para suas famílias em seus paises. Do Soweto, pegamos uma lotação para Orlando, que tambem havia sido palco das disputas com estudantes.
Lá encontramos um cartão postal da Africa do Sul: dois tanques de energia enormes, coloridos. De fato era impossível caminhar por aquela região sem ter um guia ou um “local” acompanhando. Felizmente, alem da companhia, Awmanda se demonstrou uma pessoa bastante esclarecida e muito a par da economia e política. Comentou que estava começando um curso de marketing na universidade de Johannesburgo, uma excecao para moradores do bairro, segundo ele. No momento que o encontramos na escola, ele estava indo para uma reunião da igreja católica sobre programas sociais da comunidade. Em nosso bate papo foi enfático em afirmar que o apartheid ainda existe: o desemprego no Soweto é enorme e brancos só empregam brancos. Até mesmo negros muitas vezes empregam brancos. Segundo ele, Johannesburgo está dividida agora em ricos e pobres, mas os pobres são negros. Alguns negros se tornaram ricos. Mas não existe branco pobre. Locais que os pobres freqüentam, tais como a cidade antiga, os brancos e negros ricos não freqüentam, nem mesmo de carro. Eles estão confinados em bairros ricos, bem distante da cidade. Tendo esse contexto como pano de fundo, a mistura dos brancos e negros poderá acontecer, mas será uma jornada longa e, por enquanto, a diferença econômica é uma barreira enorme para isso. Continuamos nossa jornada pelo bairro, caminhando entre os morros sob o peso do sol escaldante nas costas e reserva de agua na mao e encontrando muitos pobres e falta de infra-estrutura pelo caminho. Eu já nem perguntava mais o que as pessoas achavam da copa do mundo. Sinceramente comecei a ficar envergonhado. Percebi que era uma evento que as pessoas não têm a noção do que vai se passar por ali, muito perto deles: um paradoxo tão grande, quanto o circuito de fórmula 1 em São Paulo se passar ao lado de uma favela em Interlagos: um evento ULTRA capitalista com milhares e milhares de pobres em volta, a menos de 100 metros. O que para nós pode ser uma festa, para eles é um evento que passa ao largo dos seus problemas diários. Pelo menos pelo percebi isso caminhando por Johannesburgo. Talvez com o periodo da copa o negocio seja diferente. Continuando o percurso, o nosso amigo ficou para trás mas sem antes garantir que realmente estivessemos na lotação que nos levaria a um passeio que tinhamos muita expectativa. Nossa peregrinação pelo lado oeste da cidade finalizara no mais terrível dos museus do mundo: o Museu do Apartheid. Logo na entrada, para chocar as pessoas, duas entradas: um para brancos, outros para negros. Tudo foi feito para chocar: muros enormes com arames farpados, enormes identidades com classificação de etnias “brancas” ou “negras”. Apesar de chocantes, ainda assim saí com a sensação de “pegaram leve” com os ingleses. Isso porque o objetivo do museu não era exatamente mostrar quem provocou a terrível situação, mas sim ser uma mensagem de paz, de tolerância, de reconciliação, democracia, ou seja, algo que seja melhor pela frente e não ficar mostrando os detalhes da desgraça para trás. Até porque, se olharmos os negros ainda vivendo na miséria e apinhados em lugares com falta de infra-estrutura, ficará bem mais claro a constatação do Awmanda. No final do dia aproveitamos para conhecer o Sandton, bairro no norte da cidade, justamente onde nos informaram ser o “gueto” dos ricos. Ficamos impressionados com a suntuosidade do lugar: parques maravilhosos, conjuntos residenciais luxuosos e diversos shoppings de luxo desde Channel até Gucci. Nesse lugar encontramos os turistas profissionais, aqueles que simplesmente pegam o avião até Johannesburgo e automaticamente entram em outro vôo para o safári mais próximo.

E talvez até saiam dizendo por ai que visitaram a cidade andando por Sandton. Quem cai de para quedas nesse bairro pensa que a África é maravilhosa, da mesma forma que muitos desavisados passeiam pelos jardins em São Paulo e pensam que conheceram todo o Brasil. Na volta para o Albergue todo a problemática do dia anterior: pegar uma lotação até o centro da cidade e tentar encontrar aquela que nos levaria realmente de volta. Já estava tarde. O risco era ainda maior. Tivemos a feliz companhia de um policial (ou segurança, não descobrimos) que estava na mesma van e ouviu o nosso desespero para chegar até o outro ponto de lotação. Logo que saímos da van, numa multidão estilo “Rua General Carneiro”, sua voz enfática: “não precisa de pânico”, e abriu o jaleco mostrando seu distintivo e sua arma. Fomos com ele até o ponto, desviando das pessoas pelo caminho, cruzando umas 5 ou 6 quadras. Um santo. Voltamos para o Albergue para nos prepararmos para o dia seguinte.