Caros,
“Sedex dez” é 10! Exatamente às 10 horas da manhã sexta-feira, data da partida, a Juliana recebeu das mãos do entregador dos correios nossos passaportes vindos de Brasília. Alessandro, meu irmão, mais uma vez nos ajudava a obter os vistos numa sucessão de embaixadas, que talvez ele mesmo nem imaginasse que existisse. Inteligentemente Alessandro colocou no “sedex dez” para ser entregue em São Paulo, casa dos meus pais, justamente para garantir que chegasse em nossas mãos na sexta-feira. Tendo em vista os problemas que o Correio estava enfrentando durantes as sucessivas chuvas, eles não garantiam a entrega em outro lugar no prazo “anunciado”. Como não havia ninguém na casa dos meus pais para receber a encomenda, Juliana ficou de plantão a manhã toda e me ligou por volta das 9:45: “Du, são quase 10 horas e nada ainda, acho que vamos ter que acionar o plano B”. Felizmente nem precisou. Devemos essa ao Alessandro.
Enfim, depois de quase 10 horas de viagem, saímos de São Paulo pela sexta-feira, final da tarde e chegamos em Johannesburgo sábado pela manhã. Um vôo tranqüilo mas com uma temperatura muito quente dentro do avião. Ficamos sem saber se a South Africa Airways estava economizando energia ou se realmente os africanos não gostam de ar condicionado (isso porque, apesar de ser bem moderno, também não havia ar condicionado no aeroporto de Johannesburgo). E o clima de copa do mundo? Bem, mesmo no aeroporto, que é um lugar “welcome turist” não sentimos um clima de “está chegando a hora”. Claro que é possível encontrar diversas propagandas dos patrocinadores, mas em termos de assistência ao turista, o negócio ainda é bem amador: é até possível encontrar algumas pessoas treinadas para oferecer instruções ao turista, mas conversando com elas podemos perceber que tem muito mais boa intenção do que exatamente proporcionar boa informação.
Como sempre, a maior dificuldade quando se chega em grandes cidades é transportar-se de maneira barata entre o aeroporto internacional e a cidade. Como sempre, procuramos pegar um transporte público. Contudo, segundo havíamos nos informado já no Brasil, não era nada seguro sair andando de malas para fora do aeroporto. Dessa vez entrei em contato com um Albergue que dizia fornecer um “transfer” gratuito. Logo que chegamos entramos em contato acordando o suposto motorista. Disse para esperarmos na “plataforma” e que ele viria com um carro branco, mas não disse quanto tempo levaria para ele chegar lá. Ficamos esperando mais ou menos 1 hora, com terrível sensação de que o motorista já havia passado por ali e não havia nos visto. Abordamos praticamente todos os carros brancos que passavam e foi uma experiência e tanto: nem todo mundo falava inglês. O fato é que a África do Sul não tem uma língua oficial: eles falam 11 línguas. Em Johannesburgo, especificamente, a maioria fala inglês e é sim uma espécie de língua oficial, mas na prática o negócio é outro: deparamos, inclusive, com muitas pessoas que falam inglês aprendido na fase adulta. O percurso até o albergue levou uns 25 minutos pela auto-estrada. O albergue fica no lado leste da cidade, no fim de uma viela de uns 500 metros, cheia de casas relativamente bem ajeitadas e protegidas por tudo quanto é tipo de arames e circuitos de segurança. Muitas pessoas pensam que Johannesburgo é capital da África do Sul. Na verdade ela é capital econômica, tal com São Paulo está para o Brasil. O país tem na verdade 3 capitais: uma executiva (Pretória), legislativa(Cidade do Cabo) e legislativa(Bloemfontein). Fácil entender: isso foi uma estratégia para distribuir poder entre o país de forma a mantê-lo unido. Como se sabe, África do Sul é uma mescla de culturas, da herança histórica da colonização, o que resultou na separação de branco e negros, no famoso (e lamentável) apartheid, diferentes línguas e religiões. Daí fica fácil entender porque muitas pessoas acabam viajando para cá e se tornar inevitável descrever pessoas como brancas ou negras, não exatamente porque isso é preconceito ou resquício de apartheid, é justamente porque ainda existe uma separação, ou o que se chama de apartheid teórico. A África do Sul, assim como o Brasil, é bastante conhecida também por sua violência. Antes de chegarmos aqui imaginávamos ter todos os treinamentos necessários para andar pela cidade justamente por vivermos em São Paulo. Bem, logo que deixamos as malas no albergue e saímos peregrinando pela cidade, vimos que a coisa era muito, mas muito diferente: Primeiro foi o SERMÃO, isso mesmo, um sermão em letras maiúsculas do dono do Albergue sobre não andar pelo centro da cidade porque, segundo ele era perigoso. Juro que ouvi o sermão com um certo ar de “esse cara não tem idéia de que São Paulo é a mesma coisa”. Somo “craques” em tomar cuidado por aí. Descemos a viela do albergue até a avenida principal sob o peso dos arames farpados duas vezes maiores que São Paulo. Logo na avenida, mão inglesa, diga-se de passagem, esperamos por uns 10 minutos por uma van (exatamente igual a uma lotação em São Paulo). Não havia ponto de ônibus, o passageiro acena e ela para em qualquer lugar. “Aonde vocês vão?”, perguntou o motorista, com a van lotada. “Centro da cidade: Carlton building”. Entra aí. Na van só haviam negros, e sinceramente não gostaram nada nada da nossa companhia.
Tive que ir na frente porque não havia espaço atrás. Além do motorista, havia um rapaz ao lado, que imaginei que fosse o cobrador por estar recebendo o dinheiro do pessoal. Na verdade descobri depois que quem ia na frente dava uma mão para o motorista. Esse suposto cobrador praticamente me fuzilou com os olhos durante toda a viagem. Abriu as pernas para ocupar todo o espaço e ainda por cima me deu o troco com a maior animosidade do mundo. Para tentar quebrar o gelo, quando vi no caminho uma moça usando a camisa do Brasil, apontei e disse Brasil! Simplesmente me ignoraram. Realmente o clima dentro da van não era bom. Quando chegamos no destino, uma espécie de praça da Sé com rua direita, fomos logo subindo o tal “topo da África”, um mirante estilo “Terraço Itália” bem no centro da cidade, em cima do Carlton, prédio com 50 andares. A vista é maravilhosa. É possível ver muito bem os quatro cantos da cidade, inclusive os dois estádios sedes da copa do mundo( só por curiosidade, a África do Sul tem com exceção pelo fato de ter dois estádios sedes na mesma cidade), daí dá para entender a importância econômica que tem a cidade de Johannesburgo; Depois dessa vista maravilhosa, passeamos por um shopping dentro do mesmo prédio e resolvemos sair na rua, caminhando pela rua direita. Ficamos espantados pois não encontramos nenhum branco.
O centro estava bem movimentado, mas somente negros, com a exceção de alguns gatos pingados de turistas no topo do prédio. O calçadão não passava de um shopping a céu aberto, com lojas populares e muita gente. Alguns olhavam para gente com certa estranheza, mas nenhum situação de assédio turístico ou qualquer outra manifestação. Nos sentíamos andando pela cidade, tal como fazemos em São Paulo. Somente umas três quadras depois resolvi sacar a máquina e bater uma foto da July em frente a um prédio. Não demorou 5 segundos e apareceram dois policiais desesperando. “Onde vocês estão indo?” “Posso ajudá-los?”, praticamente ofegantes. “Bem estamos andando pela cidade…”. “Saiam daqui imediatamente, aqui não é seguro para vocês!”. Daí voltou novamente a imagem de São Paulo e a tal da expertise…e logo emendei: “mas que tipo de problemas podemos enfrentar?””; “Com certeza vocês serão roubados, será através de arrastão ou individualmente”. Se não foi até agora, vai ser daqui para frente.”. O policial praticamente nos obrigou a entrar num táxi particular e pediu para o motorista nos levar a um lugar seguro. Disse que eu queria ir para a zona financeira e lá chegamos em uns 10 minutos. Na avenida principal da zona bancária, uma rua charmosa, prédios típicos de bancos, paramos para tomar um café numa esquina charmosa. Nos sentíamos presos. E agora: não podemos andar? Vamos ter que viver de táxi? Resolvemos chamar o Richard, um rapaz negro e muito simpático para conversar. Ele nos afirmou categoricamente que se fossemos para o sul não teríamos problema. E assim saímos em caminhada novamente pelo centro da cidade até o outros pontos turísticos populares. Nesse percurso ficamos impressionados pela quantidade de mendigos por duas praças que passamos. De fato, áfrica do Sul vem enfrentando uma recessão forte, desde junho de 2009 e o índice de desemprego vem subindo. Mesmo com a afirmação do Richard, era impossível andar com tranqüilidade. A sensação de permanente “barra pesada” nos acompanhava pelo percurso. Para evitar qualquer contratempo, abandonamos as calçadas e passamos a andar pela rua, desviando dos carros e das pessoas. Evitávamos ruas vazias, tentávamos nos esconder dentro das roupas. Era engraçada a sensação de que estávamos na África e que deveríamos estar com medo da savana, cheia de leões, mas estamos com medo das pessoas. Foi um passeio bastante desconfortável mas inevitável. Quando chegamos ao Theater Market, um teatro charmoso com cafés e complexo artístico muito antigo, planejamos nossa volta ao Albergue.
Tínhamos na cabeça que deveríamos estar de volta antes do anoitecer. Precisávamos antes passar pela estação rodoviária para planejar os nossos próximos passos de viagem. Um policial, muito simpático mas também com pouco inglês, fez questão de colocar o treinamento “copa do mundo em prática”, e nos levou até a lotação que nos levaria até a estação. Depois de um tour pelos guichês da rodoviária, saímos para realizar o processo de volta para o lar. Daí começou a bater o desespero. O sol praticamente partindo e não encontrávamos a van que nos levaria de volta, tampouco um lugar seguro aberto que nos acolhesse. Quando vimos estávamos justamente no lugar onde o policial havia nos expulsado, e passamos a correr pelas ruas, perguntando para todas a lotações que passavam se elas nos levariam até o bairro do albergue. E o clima de “barra pesada” ia aumentando. Quando chegamos até a van, finalmente, já era noite. Uma cena me marcou. Antes de entrar na van, coloquei a mão no bolso para pegar o endereço. Dois rapazes que passavam me viram fazendo o movimento e pararam para olhar se se tratava de algo de valor, suponho. Felizmente o coordenador da van abriu a porta e nos jogamos no fundo, garantindo dois lugares. Voltamos caladinhos e sem movimentos. O silêncio da van só foi quebrado quando eu gritei “stop”, no lugar mais próximo da viela do Albergue, lugar completamente escuro. Nem vou comentar a velocidade que corremos para chegar a nossa fortaleza. Havia um grupo de viajantes fazendo um churrasco e o dono do albergue ficou. Na maneira que fomos recepcionados pelo dono do Albergue deu a impressão que éramos os últimos que haviam chegado e que já havíamos passado do limite segurança.
Ainda estou com uma pulga atrás da orelha. Será mesmo que a cidade é tão perigosa ou tudo está sendo ampliado pelo zelo excessivo e pela nossa imaginação? Na site da BBC de hoje, coincidentemente, tem uma entrevista com a secretária de administração de Johannesburgo alegando que existe um exagero imaginar que a cidade é perigosa. Ela admite que o perigo é de uma cidade grande, num país subdesenvolvido (a África do Sul tem expectativa de vida de 50 anos, é efetivamente um país pobre, com economia dependendo da extração do ouro e diamante, coisa que vem produzindo a mais de 200 anos e de turismo, principalmente gerado pelos safáris), mas que é muita coisa é preocupação exagerada. O fato é que, com violência ou não, é possível ver claramente os resquícios históricos do relacionamento brancos e negros, fortalecidos pelo lamentável apartheid.
Abracos