Expedição ao Oriente Médio – Cairo, Egito – última parada

Salam,

Em nossa primeira noite no Cairo, deixamos as malas no albergue e fomos direto para o mercado Khan el Kalili, um centro de bazares que fica no meio do antigo bairro islâmico (estranho essa separação, já que o país é todo islâmico). Andar pela cidade a noite não é um coisa fácil. O comércio fica aberto até de madrugada, parece uma 25 de março permanente até umas 3 horas da manhã, em larga escala, tomando a cidade, com movimento de carro (e muitas buzinas) como se fosse de dia. Em nossa primeira noite de sono, tivemos a impressão de que o país havia ganhado a copa do mundo e passou a noite comemorando. Tudo parece funcionar até tarde. O nosso albergue fica num prédio de uns 20 andares no centro da cidade. No andar do albergue tem alguns consultórios de dentistas. Eram mais ou menos 23:30 e haviam pacientes aguardando na sala de espera, como se fosse 6 horas da tarde. Como já havíamos conhecido diversos mercados nas cidades que já havíamos visitado, o Khan el Kalili que normalmente é uma grande novidade, ficou meio que uma agenda cumprida, apesar das diversas mesquitas pelo caminho. Como o bazar é imenso e de difícil entendimento onde se está, acabamos nos perdendo e fomos parar num lugar que tirou a monotonia: uma rua de periferia, cheia de bares de narguilés, comidas típicas, carros velhos, lugar nada turístico. No Brasil certamente nunca entraríamos nessa rua, era quase uma favela. Infelizmente o Egito não está vivendo um bom momento financeiro. Os salários são muito baixos, e praticamente mantidos por gorjetas. Para tudo o eu fazem, pedem gorjeta. O guarda que dá uma simples informação, também espera um troquinho. O turismo diminuiu para bem menos da metade do que havia 3 ou 4 anos atrás, isso devido aos ataques terroristas aos turistas provocados por grupos que querem tirar o presidente do poder. A maior parte da economia está baseada no turismo. Além disso, a população cresce rapidamente, para se ter uma idéia a população atual é de 80 milhões de habitantes para um país do tamanho do Pará ou Mato Grosso, sendo que a maior parte do país é região de deserto. Andamos por meia hora por esse labirinto, insistindo em não perguntar para ninguém onde era a saída quando deparamos com uma imensa muralha construída para proteger a cidade no período medieval.

No dia seguinte, sexta-feira, um domingo para o mundo islâmico, fomos enfim visitar as pirâmides. Ir até lá ou é de táxi, ou é de táxi. Para evitar as exaustivas intervenções dos egípcios, contratamos um taxista indicado pelo albergue. Favorecidos pelo trânsito ligeiramente mais calmo do “domingo”, o senhor muito simpático, que fez diversas estratégicas para obtermos as melhores vistas da cidade: o imenso rio Nilo, enormes mesquitas, e as pirâmides, observadas cerca de uns 5 quilômetros da cidade. Quando chegamos ao parque das pirâmides, o nosso amigo nos levou para um escritório, todo fechado com um mapa do parque Giza (onde ficam as pirâmides) pregado na parede. Um rapaz, com uma ponteira na mão, foi nos acomodando no sofá e começou uma aula sobre o percurso, enfatizando as distâncias entre as pirâmides, etc. Já no finalzinho da aula: “Então, o senhor e a senhora percorrerão de camelo esses 200 metros , depois mais 50 metros de cavalo…”. Tava com cara de cilada para turista… “Muito obrigado, mas adoramos andar a pé”. Infelizmente, dizer isso e ir embora não foi suficiente. Eles nos acompanharam, insistiram, alegaram que você vai ter câimbra, que vai ter insolação, etc. Esse lado da viagem pelo Egito realmente é bem estressante, estou apenas relatando um caso aqui. Dali para frente, ficou por conta dos nossos pés, até realmente decidirmos e negociamos dar uma voltinha de camelo em frente as pirâmides. Nessa experiência rápida, já pude prever uma das próximas viagens: atravessar o Saara até a Líbia, de camelo.

As pirâmides são maiores do que imaginávamos, realmente uma obra de construção tão intrigante quanto as muralhas da China. A paisagem ao fundo é recheada pelas areias do Saara. Depois das pirâmides, não se vê mais nada, apenas dunas e dunas de areia. O calor nos acompanhou no percurso. Depois de 2 horas, quando estávamos fazendo o caminho de volta ao portão de entrada, começou literalmente uma tempestade no deserto. A areia veio com muita força. O negócio era fechar a boca e os olhos, ficar parado esperando as ondas de ventos passarem e depois caminhar um pouco. O cabelo chegou a ficar duro. Na parte da tarde visitamos Saqara, com outras pirâmides e mais um cemitério imenso de sarcófagos.

Cairo é o final de percurso dessa expedição. Passando pelo mundo árabe, ficou uma sensação de permanente irmandade entre eles. Quando um taxista não conhece uma rua, ele pára o carro, grita para um vendedor lá no fundo da loja “Salam Aleiko” e o sujeito vem rapidamente ajudá-lo, ou de onde estiver. Eles se ajudam de uma maneira como se formassem uma família estendida, como se se conhecessem há muito tempo. Adoram negociar, barganhar e discutir preço, mas não parecem ter o espírito de competitivade á flor da pele. Não vai convencê-los  se você disser que o visinho tem um preço mais barato. São pessoas temerosas a Deus e ritualísticas: para se ter uma idéia, durante uma negociação com o dono de uma loja, ele parou e disse que precisava ir, pedindo desculpas e tal, e vimos ele entrando na Mesquita logo após a musica tradicional. Ficamos sozinhos na loja. Fomos embora, claro.

Considerando todas as invasões e intervenções que os paises do Ocidente já realizaram no oriente médio (veja o caso recente dos EUA no Iraque), eles têm medo constante do ocidente, tal qual o ocidente tem medo deles (levando em consideração os ataques terroristas). Com exceção de Israel, mais desenvolvido, os paises que passamos são pobres, mas tal como o Brasil, reservam áreas de luxo onde os ricos tem suas horas de prazer; o poder pelas armas e pela ideologia é muito grande: com exceção de Israel, todos os outros paises espalham por todos os lados a foto do presidente o do chefe de estado. Vamos sentir falta da sensação de clipe da MTV em tempo real, uma somatória de música e paisagem em movimento: dentro do táxi, ou dentro do ônibus, andando pela cidade ao som de música árabe, das musicas das mesquitas chamando o povo para rezar, e das buzinas constantes dos carros. As paisagens naturais entre uma cidade e outra vieram de brinde nessa viagem; ou melhor, já valeria a viagem toda. As paisagens de tirar o fôlego foram as colinas em Teerã, o leste da Turquia, o deserto entre Aleppo e Damasco na Síria, os Montes do Líbano, a vista do Monte Nebo, o deserto de Negev e o Mar vermelho na orla de Eilat, em Israel, o monte Sinai (impressionante) e o mar mediterrâneo em Beirute. Lidamos com situações que conflitavam com nossa cultura, com nosso esquema de viagem: a bondade do povo e a relação capitalista: mais de uma vez, tanto no Irã quanto na Síria, o taxista, dentro de sua simplicidade, feliz por estar com um estrangeiro (ou brasileiro), falando poucas palavras do inglês, no final da corrida quando eu perguntava o preço, ele dizia: “me dê qualquer coisa”; isso quando não dizia, não precisa pagar nada. A quantidade de “welcome” que recebemos foi incontável. Vamos sentir falta dos mercados, fascinante observar o que vendem e como negociam; delicioso observar como se comportam, como abastecem o estoque, como tratam o cliente: primeiro uma hospitalidade calorosa e fraterna, depois se houver a venda, ótimo; caso contrário, ficarão feliz do mesmo jeito. Somente o Egito e parte de Jerusalém, pelo volume de turistas, estão mais contaminados com o esquema lojas “Babuch”, tentando vender a qualquer custo.  Vamos sentir falta da impressionante e surpreendente multicultural, multiarquitetural, multireligionsa Jerusalém. Eu até pensei em dizer “esqueça Paris, esqueça Roma, esqueça Barcelona, visite primeiro Jerusalém”. Mas pensando bem, numa crescente, Jerusalém, para não tornar as demais cidades em atrações menores, Jerusulém tem que ficar mesmo mais para o final. Pegamos o vôo de volta ao Brasil hoje, com conexão em Amsterdã.

Salam

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