Salam,
Passamos a noite em Tel Aviv apenas para descansarmos e partirmos para o sul de Israel. Andamos um pouco pela cidade à noite e sentimos bem menos luxo do que imaginávamos encontrar, mas encontramos muito modernismo. Tel Aviv é capital financeira de Israel, completamente oposta a Jerusalém, e já foi bombardeada algumas vezes, dentre elas na guerra com o Líbano e na guerra do Golfo. Ficamos hospedados num bairro de grande concentração de arquitetura moderna, bastante influenciada pela escola de Bauhaus, da Alemanha, e conotam um prazeroso passeio pelo bairro com vistas para prédios com certa geometria artística e tecnológica. Tel Aviv tem, em comparação com o resto do mundo, a maior concentração de prédios com essa influência. Logo pela manhã, pegamos um ônibus apara Eilat, 5 horas de viagem. Durante o percurso, avistamos novamente o mar morto, agora pelo lado de Israel, cruzamos o deserto lunar de Negev e encontramos diversos Kibutz pelo caminho. O ônibus também entrou numa cidade chamada Bersheva, a mais desenvolvida dessa região, e que até o mês passado estava sendo bombardeada durante o conflito com a Faixa de Gaza. Aliás, Gaza está uns 70 kilômetros dali. Eilat é um a cidade que pretende ser uma Miami dessa região. Diversos luxuosos resorts e hotéis internacionais se instalaram ali, proporcionando um luxuoso aproveitamento do Mar Vermelho. Ela é a ultima cidade ao sul do Israel e faz fronteira com a Jordânia e o Egito. Chegamos no final da tarde na cidade, num calor de Manaus. Corremos até a parte fronteiriça com a cidade jordaniana de Aqaba, onde a cerca de fronteira atravessa a praia. Nesse trecho é possível ver um contraste interessante: as mulheres do lado de Israel com maravilhosos biquínis e as do lado da Jordânia completamente cobertas. Curtimos o por do sol nesse local, acompanhados de dezenas de fotógrafos, com máquinas fotográficas ultra-potentes tentando tirar fotos de um bando de pássaros. Pelo que entendemos, os pássaros (não descobrimos o nome) se movimentam juntos, bem no final do dia, realmente fazendo um desenho bonito pelo céu. O final do dia passeamos pela orla no estilo passeio na feirinha de praia. Ao lado do nosso albergue curiosamente um restaurante de Carne Brasileira. Tratava-se de um israelense que morou no Brasil e tenta realizar o mesmo corte de churrasco brasileiro.
Pela manhã partimos para o Egito. Novamente todo o ritual de travessia, só que dessa vez amenizada pela vista maravilhosa do mar vermelho e as montanhas ao fundo. O mar tem um cor especial (não é vermelha): em suas bordas, cerca de uns cinco metros (isso deve variar conforme a maré) tem uma cor azul bem clarinha; para dentro um azul bem escuro, maravilhoso! Depois da travessia a pé, já novamente no mundo árabe, em 5 minutos caminhando estávamos na cidade chamada Taba, bem na base do monte Sinai, onde segundo o velho testamento, Moisés recebeu os dez mandamentos. Pegamos um ônibus em direção a Cairo, 7 horas de viagem. Tanto o percurso de Tel Aviv a Eilat, quanto o de Taba até Cairo, escolhemos viajar de dia: todas as paisagens são de tirar o fôlego. Esse último trecho, em particular, viajamos quase em pé, de tanto que ficávamos tentávamos aproveitar a vista dos dois lados: subimos o monte Sinai, um desfiladeiro entre rochas enormes, que quando atingimos o topo, ganhamos uma vista panorâmica para o Mar Vermelho. Atravessamos o deserto do Sinai, passamos pelo Canal de Suez, famoso por separar a Ásia da África e por ligar navios com rapidez entre a Europa e Ásia. Chegamos em Cairo no final do dia e já pudemos perceber uma cidade bem mais desorganizada, com transito caótico, e muitos ambulantes espalhados. Na saída da rodoviária, paramos o primeiro táxi que vimos pela frente: um Lada preto, antigo, bem pequeno. O taxista abriu a porta malas e eu já ia colocando as malas quando ele fez sinal para parar e percebi que o step já ocupava todo o espaço. Pensei: “Uh vou ter que pegar outro táxi, esse aí perdeu a corrida”. O taxista, mudo, na maior naturalidade, pegou as duas malas hiper-pesadas e colocou em cima do carro, ultrapassando o tamanho do teto. Ele pegou uma corda, amarrou e “vamos embora”. Tentamos não rir, mas foi difícil segurar. Ficou um clima meio sem graça dentro do carro até o nosso albergue no centro de Cairo.
Algumas gafes dessa viagem, desde o Irã até aqui:
Em Eilat encontramos um mestre cuca holandês, que mora uns 20 anos na cidade, e durante um bate papo, ele se interessou em saber qual é o prato mais famoso do Brasil e como se faz. Eu não sei fazer, mas arrisquei explicar. Depois de um tempão explicando, qual a origem do prato, onde se come, e eu já estava na metade da receita quando então chega na cereja do bolo do prato: os pertences do porco, pois se tratava de uma feijoada; daí ele disse: “veja bem, judeu não come porco….”
Só me restou entregar para ele meu último saquinho de massa preparada de pão de queijo. Dá para uns 40 pãezinhos. Ele foi embora entusiasmado.
Outra gafe foi em Aman, na Jordânia. É muito comum no mundo árabe, colocar a foto do patriarca da família dentro do recinto comercial. Para criar um clima de familiaridade, eu costumo perguntar quem é a pessoa da foto. Ele normalmente diz “é meu pai” e a pessoa enche o peito de orgulho, às vezes até conta um pouco a história da família, muito interessante. Em Aman, eu sabia que a pessoa da foto nesse caso não era pai da pessoa, era de fato uma pessoa conhecida. Eu sabia quem supostamente era, mas não sabia se estava viva, se era o pai ou o filho, etc. A pergunta não deveria ser essa mas foi :“Quem é essa pessoa?”, perguntei para o recepcionista do hotel. Ele, que também era o dono disse: “Como ‘quem é essa pessoa’, eu me nego a responder tamanha a obviedade”. Era o rei da Jordânia.
Outra foi uma tentativa de encurtar o ensinamento do Islamismo sem ter um vínculo familiar de longa data. Perguntei para um rapaz qual o primeiro passo para uma pessoa se tornar mulçumana. Ele gaguejou e disse não entender a pergunta. Deixei para lá. Perguntei a outro rapaz em outra oportunidade. Também desconversou. Só depois, lendo algo sobre “como se relacionar com o povo árabe”, uma dica era nunca perguntar como se tornar um mulçumano. Eles só respondem para quem eles tem um relacionamento de confiança duradoura.
Essa gafe não foi minha: no hall de entrada de Israel, área de liberação de vistos, numa fila havia um senhor bem velhinho Jordaniano, com a cabeça coberta de xadrez vermelho e branco e tudo, com passaporte na mão e calças arreadas, praticamente cobrindo o sapato. O que, calças arreadas aqui? Ficamos olhando a cena com estranheza um tempão. Ele até chegou a olhar para gente, sem nenhuma expressão. Ficamos sem entender. Só depois vieram dois rapazes – acreditamos que eram seus filhos – e imaginamos que disseram “pai, suas calças estão quase no chão” e foram levantando a calça dele. O que ocorreu é que o senhor havia esquecido o cinto no detector de metais que ele havia passado antes da fila e esqueceu de colocar de volta. Que figura. Salam