Expedição ao Oriente Médio – Jordânia e Israel – Aman e Jerusalém

Salam,

Nosso segundo dia na Jordânia foi dedicado a Aman, sua capital e onde vive o rei. Os monumentos arquitetônicos mais relevantes estão relacionados aos praticamente intactos legados da invasão romana: o teatro romano e a citadel (forte ou fortaleza). O citadel, em cima de um morro (muito parecida com a de Aleppo, na Síria) preserva as colunas romanas e a igreja bizantina. Uma vista panorâmica para toda a cidade, suas casas cor de areia e quadradinhas preenchendo os morros, e uma caminhada pelas ruínas, são brindes de um passeio histórico de grande riqueza. O teatro romano, na parte baixa, praticamente intacta, se mistura com a paisagem atual como se tivesse sido construído há muito pouco tempo. Além desse passeio, os bazares de Aman são regados a peças de ouro, especiarias e antiguidades e as maravilhosas mesquitas que brilham como ouro.

Logo depois do almoço, pegamos as malas e partimos para a estação de ônibus, atravessando a cidade, buscando um ônibus para Israel. Novamente fomos vítimas das informações ruins: por conta do Shabat (prática judia de não trabalhar após o por do sol da sexta até o por do sol do sábado) a fronteira estava fechada e só abriria no dia seguinte pela manhã. Ganhamos uma tarde em Aman. Aproveitamos então para conhecer a parte moderna da cidade. Como as informações são desencontradas, resolvemos pegar qualquer ônibus que passasse por nossa frente e cumprir seu itinerário até o final e voltar. Passamos por lugares surpreendentes, jamais descritos em qualquer guia turístico. Descobrimos uma ponte nova na cidade, maravilhosa, similar a ponte construída sobre a Marginal Pinheiros em São Paulo. Atravessamos a pé, por baixo da ponte umas duas vezes só para garantir boas imagens de uma arquitetura que vai ficar para a história.

Dia seguinte, bem cedo começamos o processo de travessia de fronteira da Jordânia para Israel. Sabíamos que não seria rápido e muito fácil, principalmente para nós, que havíamos passado por países “inimigos” mortais de Israel. Novamente atravessamos a cidade de Aman, pegamos um micro-ônibus até a fronteira, passamos pela saída da Jordânia. Para atravessar a zona fronteiriça era necessário pegar um ônibus de viagem. Pela modernidade do ônibus parecia que a viagem duraria mais de um dia, mas era no máximo, 10 minutos (com preço de um dia!). O ônibus atravessa o rio Jordão sobre uma ponte novinha, a Rei Hussen, e logo está na porta de entrada de Israel, mais precisamente, Cisjordânia. Só para lembrar, Israel invadiu em 1949, logo após criação, a Cisjordânia, “teoricamente” um território onde deveriam viver os palestinos. Israel ocupa essa região até hoje, o que é motivo para uma série de ataques terroristas que vemos diariamente no noticiário (carros bombas, etc). Parte de Jerusalém e algumas cidades santas como Jericó e Belém fazem parte da Cisjordânia. Yasser Arafat (lembra?) era o líder dos palestinos. Isso aconteceu em meio a um guerra entre os países que se opuseram (e ainda se opõem) a criação de Israel, justamente os países que visitamos até aqui. Logo que chegamos ao território de Israel (ou Cisjordania) deu para perceber que o negócio realmente é perigoso. Vários soldados realizando revistas, portas e mais portas de detector de metais, vários soldados espalhados, portas de chumbo muito altas e largas. Quando a soldado (isso mesmo, uma mulher) leu que passamos por Irã (ela quase teve um surto), “Turquia? Síria? O quê, vocês foram ao Líbano?”. Depois disso, a novela começou. Ela não sabia o que fazer. Inicialmente ela até tinha ficado feliz que éramos brasileiros, mas com aquelas manchas nos passaportes, ela não sabia o que dizer. Outra funcionária aconselhou ela ligar para um superior. Logo nos pediu para preencher um formulário especial e aguardamos por uma hora. Um soldado nos chamou e começou uma sabatina: Por que você foi para o Irã? Por que você foi para Turquia? Você conheceu alguém nesses paises? Você tem algum outro passaporte? Perguntas e mais perguntas…Tivemos que descrever toda a viagem, detalhe por detalhe, provas e mais provas….Esperamos mais uma hora, sem saber o que ia acontecer…havia um senhor canadense que já havia passado pelo controle e pretendia dividir um táxi com a gente, mas foi embora com a expressão “ih acho que vocês estão meio encrencados…bye”. Vinte minutos depois da perda da chance de ratear o táxi aparece um homem com nossos passaportes na mão, concedendo a liberação. Enfim tínhamos o passaporte da alegria…Em 15 minutos já estávamos num ônibus passando ao lado de Jericó, cruzando o deserto da Judéia. Ali começava uma saga ao mundo antigo e religioso que mexe muito com a cabeça e o espírito. Difícil explicar, porque dali para frente todos os nomes são bíblicos e é como se toda a imaginação que você teve até ali sobre o seu aprendizado religioso fosse colocado em evidência com a realidade. Para citar um exemplo, eu mesmo imaginava o deserto da Judéia de um jeito e na verdade é outro.

Logo depois de passarmos por Jericó, chegamos ao tão esperado lugar. Difícil explicar, realmente foi emocionante e muito diferente do que imaginávamos: Jerusalém é única, não existe igual. O ônibus nos deixou fora da muralha de Jerusalém. Entramos na cidade antiga e nos hospedamos numa tradicional casa de hospedagem cristã, bem em frente ao Citadel (fortaleza) onde Poncio Pilatos lavou as mãos. Essa hospedaria é tão silenciosa que nos proporcionou verdadeiros momentos de sono profundo e aconchegante.

Nosso primeiro passeio pela cidade não podia ser diferente: a via sacra. Fizemos todo o percurso, parando e refletindo em cada uma das quatorze estações. A primeira e a última, sem dúvida, as mais emocionantes, guardando o devido respeito com as demais. Apesar de ser um lugar de muitos peregrinos, tivermos a sorte de ficar praticamente a sós na primeira estação e refletir por um bom tempo sem sermos interrompidos. Infelizmente, os mercadores e guias trafegam pela via, atrapalhando a concentração e o entendimento das demais estações. Ficamos impressionados com a igreja que abriga o local da crucificação, morte e local em que Jesus ficou após a sua morte e antes da ressurreição. Essa igreja é um momento de profunda reflexão, de difícil despedida. As mesmas pedras tocadas por Jesus podem ser tocadas por todos os pelegrinos, num silencio muito respeitoso, o que sinceramente me espantou. Imaginávamos encontrar pelegrinos exaltados; muito pelo contrário, muito silencio, piedade, respeito e nada de tumulto.

Depois que saímos da igreja seguimos nossa caminhada para continuarmos conhecendo as outras áreas de Jerusalém. A velha Jerusalém é um lugar de alta complexidade histórica e religiosa. Ela é dividida em 4 partes: o bairro dos Cristãos, justamente onde está a via sacra e a Citadel (Fortaleza); o bairro Armênio; o bairro Mulçumano, onde está a maravilhosa e a mais bonita mesquita que já vimos até aqui, conhecida como “cúpula de pedra”, e as ruas e mercados idênticos aos que já descrevi aqui sobre os paises árabes que passamos; e o bairro judeu, onde está o muro das lamentações. Para entrar no bairro judeu tem que passar por diversas revistas e detectores de metal. A maior parte dos ataques acontece nesse bairro. O muro das lamentações é alvo fácil, pois os judeus se reúnem para fazer pedidos especiais no único muro que restou de um antigo templo. Ficamos um bom tempo entre eles, junto ao muro, tentando entender o significado daquela reza, daqueles movimentos para frente e para trás várias vezes, do terno e chapéu preto, mas foi difícil. Existe uma área que em frente ao muro é coberta e reserva uma pequena biblioteca. Tentando entender 1% dessa cultura, abri um livro numa página aleatória e dizia o seguinte: “Se existe alguém com uma grande enfermidade ou que ela esteja em situação de muito perigo, o Rabino aconselha que essa pessoa troque totalmente de nome”. E logo abaixo, constava o mesmo conselho em hebreu, a língua oficial de Israel. Faça sua interpretação pessoal.

Nosso primeiro dia terminou no exigente e rigoroso silêncio da pousada que fecha suas portas impreterivelmente as 23 horas.

Salam

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