Salam,
Saímos do nosso hotel em Damasco rumo à Beirute no final da tarde. Em Damasco, ficamos estranhamente hospedados num hotel “mais estrelas” e bem tradicional em Damasco. Aoportunidade se deu da seguinte maneira: logo que havíamos chegado na cidade, fomos direto para o endereço de algumas casas que hospedam estrangeiros. A referência para chegar nessas casas era justamente o tradicional hotel “Al-Majed”, um hotel com arquitetura típica, bem no centro da cidade, na rua de trás do gabinete do presidente, mas um bairro residencial. Quando chegamos na frente do hotel, um homem com “jeito” de taxista nos perguntou o que estávamos procurando. Mostramos um papel com o nome escrito em árabe. Pegou o telefone e ligou para não sei quem. Quando terminou a ligação, disse que já estava tudo combinado e que esperássemos atrás do hotel que um homem chamado Jilhad ia nos encontrar lá. Logo consenti, para na verdade me livrar dele. “Que história é essa de encontrar com alguém atrás do hotel…”, pensamos. Então mudamos a estratégia. Só para facilitar a busca, entramos no hotel Majed, perguntando o preço (caríssimo, nem vou falar o preço, por que “caro” é relativo para cada um). Como já sabíamos que não íamos nos hospedar lá, por ser um lugar seguro a July ficou na recepção enquanto eu saí pelas ruas procurando um outro lugar. Mais ou menos uma meia hora depois, voltei com o a certeza de ter encontrado um lugar de acordo com o que pretendíamos, um outro “meia estrela”, ocupado pelos tradicionais mochileiros internacionais (nessa região não existem os tradicionais albergues). Quando nos preparávamos para sair do saguão do hotel, eis que um senhor, muito parecido com o John Malkovich (para não dizer idêntico, cheguei a pensar que era ele) me perguntou se eu estava à procura dele. Eu disse que não. Ele disse que ele era o homem que haviam ligado para ele 1 hora atrás sobre o quarto que procurávamos. Como eu não sabia o que poderia ser aquilo, despistei dizendo que eu já tinha outro hotel. Ele perguntou qual e fingi não saber o nome. Achei muito estranho toda aquela negociação no saguão do hotel, afinal o Malkovichi era um intermediário de quartos na região. Mas não é que o nosso grande ator entra na recepção do hotel e fala não sei o que e volta me dizendo que seu estava interessado em pagar algo que era muito mais barato que a espelunca que ficaríamos. Aceitamos com pé atrás, estava estranha aquela história. O fato é que o John era o gerente do Majed e logo ordenou que nossas coisas fossem levadas para o bem decorado quarto pela quantia modesta que me propôs. Paguei adiantado para não ter dúvida. Mas ficamos com a pulga atrás da orelha e imaginando histórias: “será que pensam que somos espiões?”; “Será alguma armação?”; “Será que estão perdendo clientes para os quartos da região?” Não entendemos e o fato é que o John era um distinto cavalheiro e falava igual ao ator americano, fazendo nos sentir no filme “O céu que nos protege”, filme este que me inspira a viajar pelo mundo até hoje.
O ônibus-de-rua-de-viajem saiu às 14 horas do terminal norte de Damasco. O objetivo era atravessar a fronteira e chegar em Beirute, Líbano, 4 horas previstas, mas levou duas horas a mais. Mais uma vez os rituais de saída e entrada de paises. Na saída da Síria, uma surpresa: todos tem que pagar uma tal taxa de negócio. Antes de chegar à inspeção de saída, todos os demais passageiros pagaram a taxa e ficou a dúvida se estávamos incluídos ou não. Quando fomos informados que devíamos pagar, já não tínhamos mais moeda local e foi uma correria para conseguir trocar dólares e agüentar a cara feia dos demais passageiros quando nós fomos os últimos a chegar ao ônibus. Não bastasse isso, não tínhamos visto de entrada para o Líbano, novamente uma canseira, filas e mais filas e mais cara feia do pessoal do ônibus. “Desculpa aí, galera”. Todo o stress foi compensado pela parada de ônibus logo após a fronteira, já no Líbano, vendendo tudo quanto é delícias originais da comida árabe, a preços módicos. A paisagem até Beirute era o que esperávamos: uma vista composta por um vale, os famosos Montes do Líbano, formado por colinas cobertas de neve e uma vegetação escassa e seca. A paisagem é decorada por mansões e palacetes e a produção de vinhos.
O Líbano é um país com um território pequeno, talvez um pouco menor que o Rio de Janeiro, como referência. Já foi invadido pela Síria e por Israel. Tal como os demais paises árabes (excluindo Jordânia e Egito), não reconhecem a existência de Israel. Apesar de fazer fronteira com Israel, internamente o Libanês diz que faz fronteira com a Palestina. Mesmo sendo um país pequeno, o povo libanês se orgulha de ter em seu território uma variedade grande de opções de lazer e cenários geográficos: montanhas onde praticam o ski, maravilhosas praias, maravilhosos campos para caminhadas e lugares históricos (antes de Cristo) para visitar.
Contudo, o que mais surpreendeu foi a sensação de estarem em permanente guerra, um clima tenso: ficamos impressionados com quantidade de tanques de guerra espalhados por Beirute(muito comum andarem em comboio pela cidade, se misturando com as luxuosas Mercedez), pelos soldados armados com metralhadoras e demais equipamentos nas esquinas e, o mais interessante e antagônico, os bankers montados nas esquinas (isso mesmo, bankers, ou seja, esconderijos de sacos de areia onde o soldado fica atrás com a metralhadora na mão). Era paradoxal e constrangedor passearmos pelas modernas ruas da cidade, entre gente muito bonita e elegante, andar pelas lojas de marcas caríssimas e ter que passar na frente de um tanque de guerra (com soldado em cima em posição de ação) ou uma trincheira. Eu e a July éramos permanente suspeitos, sem saber. Não é comum encontrarmos turistas pela cidade (a não ser os árabes de outros paises), então olhavam pra gente com cara de certa suspeita. O agravante é que usávamos mochilas e de quando em quando pediam para revistar. Qual o motivo de todo esse armamento? Bem, os ataques terroristas já são conhecidos de todos (homens bombas, carros que explodem, etc). O Herzerbola, grupo terrorista palestino, é uma ameaça permanente para o governo e, além disso, Beirute é a capital financeira do mundo árabe e uma espécie de Europa na Arábia, o que exige uma segurança reforçada tal como existe para proteger os cofres da suíça. Os árabes endinheirados não sentem um tratamento “árabe” quando estão na Europa, então investem para ter o mesmo luxo mais perto deles. Logo, a cidade é extremamente luxuosa e charmosa, com ruas parecidas com a Champs Elise de Paris, uma orla para o mar mediterrâneo tão romântica quanto a de Barcelona e carros pelas ruas tão luxuosos quanto Zurich na Suíça, mas carrega essa sensação fantasmagórica de guerra(apesar de um reforma geral nos prédios, ainda é possível ver alguns bombardeados durante a guerra civil). Infelizmente não dá para andar pela cidade e esquecer que a qualquer momento qualquer coisa pode explodir. O clima de filme de 007 fica permanentemente no ar, com espiões em cima do prédio e tudo. Eu confesso que mais nos chamou atenção foi isso do que na parte histórica da cidade. 
Como nosso shared táxi só partiria para Aman, capital da Jordânia à meia noite, tivemos dois fins de noites para curtir em Beirute. A primeira noite em restaurante típico e a segunda regada a Starbuks, porque já estávamos com saudade do ocidente.
Salam