Expedição ao Oriente Médio-Turquia & Alepo, Siria

Salam Aleikom,

Logo após atravessarmos a fronteira para a Turquia, depois de percorremos uns 30 quilômetros, estávamos em Doğubayazit, uma cidade ao leste da Turquia habitada por curdos. Não se sabe ao certo qual a origem do povo curdo, mas se sabe que surgiram antes de Cristo no atual país Curdistão, mas ainda é possível encontrar alguns deles vivendo no Irã, Iraque, Síria e Turquia. Ficamos a manhã toda em Doğubayazit esperando a saída do ônibus para o sul. Estava um frio próximo à zero, uma chuva que aumentava a sensação térmica para abaixo de zero mas com uma paisagem de tirar o fôlego. A cidade é pequena, pobre, mas com um cheiro de pão por todo o canto e uma amabilidade especial das pessoas. Entramos numa escola primária para conhecer e logo o diretor foi procurar o professor de inglês para nos recepcionar. As crianças festejaram nossa chegada, atrapalhamos a aula. Interessante foi observar o contraste das roupas simples das crianças e os ternos impecáveis do corpo docente. È um povo bastante simpático, hospitaleiro e bastante trabalhador.

A cidade é muito simples, mantendo o estilo Mesquita, rua de comercio, banco, escola e policia, mas com cartão postal ao fundo estonteante: o monte Ararat (5137m), um dos maiores do mundo, o maior da Turquia, margeia majestosamente o horizonte, branco e imponente. Quanto à vestimenta, a Turquia não obriga que as mulheres usem o scarf, pelo contrário, a Turquia já é considerada bastante liberal.

O Monte Arat foi só o começo de uma série de paisagens turcas que nos mantiveram acesos e aquecidos apesar da neve. Felizmente partimos às 12 horas, ainda dia, para uma viagem de 16 horas, cortando todo o leste e seguindo para o sudoeste. Durante o percurso era possível ver pela janela uma paisagem de montanhas dos dois lados, coberta por neves e alguma vegetação relutante e alguns trechos com vilarejos,  mesquitas e palácios. O ápice da viagem foi o percurso em 20 km/h(a neve não permitia maior velocidade) em volta do lago Van (pronuncia-se Yan). Esse percurso foi uma agradável surpresa, pois se somavam as colinas um maravilhoso e imenso lago.

Curioso é à noite o ônibus parar em frente uma mesquita para que todos rezassem. Nosso tour cortando metade da Turquia terminou em Guziantep O ônibus nos deixou num terminal as 4:30h da manhã, num frio que congelava os ossos e seguiu viagem para o Mediterrâneo. Não havia tempo para conhecer a cidade. Uma hora depois pegamos uma shared Van para a fronteira, outra cidade, Killes, 1 hora de viagem. A paisagem de morros verdes, árvores capengas e forte vento gelado. A despedida da Turquia foi triste. Queríamos ter tempo para conhecer Istambul, mas não estava mesmo no roteiro e ficará para uma próxima.

Cada fronteira é de um jeito. Passamos pelo controle de passaporte da Turquia e um soldado disse que deveríamos seguir em frente, percorrer um quilometro e meio sem sair de jeito nenhum da estrada e logo encontraríamos a entrada da Síria. Durante esse percurso, carregando nossas malas em águas barrentas, pudemos ver nos campos em volta da estrada as placas “Campo minado”. Foi um percurso demorado, frio e calafrio nas pernas. Não tivemos nenhum problema no controle do lado da Síria, mas a chuva castigava. O barro dava nojo. Logo que a chuva passou, andamos por uns metros e um soldado, bateu num vidro dentro da sua sala e nos chamou. “Que estranho”. Entramos em sua sala e dissemos que era do Brasil. O soldado, que parecia ser o responsável pela fronteira pediu para trazer chá, me ofereceu cigarros (neguei e ele disse, “mas você não é do Brasil?”, como se no Brasil todo mundo fumasse) e ficamos ali conversando por uns 20 minutos sobre futebol, “Riou di Janeirou” e Palmira, a cidade natal do soldado. Quando estávamos partindo, ordenou aos soldados que parassem algum carro que estivesse atravessando a fronteira para nos dar uma carona até a cidade mais próxima. Um rapaz que havia sido parado, nos levou até Aazaz sem entender nada. O percurso de shared van até Alepo, a cidade do nosso amigo da 25 de março, o Fadi, era de mais uma hora. Ali já começava uma paisagem de agricultura de “beira de estrada” com um deserto infinito, a base de cor de areia mas feito de pedregulhos.

A chuva não parava. Nosso primeiro encontro com Alepo estava se tornando crítico pela somatória de intempéries: muito frio e chuva. Ficamos receosos de não conhecer uma das primeiras cidades do mundo por completo. Depois de uma manhã brigando com chuva e ruas mau sinalizadas, conseguimos um espaço em frente ao hotel Baron, no centro da cidade. O hotel Baron, um centenário hotel, já hospedou Agatha Cristie e Laurece das Arábias e sua arquitetura, não muito restaurada, torna uma fotografia colorida em “preto e branco”, tal como há 40 ou 50 anos atrás. Ficou faltando apenas os camelos estacionados na porta.

Alepo é uma cidade de difícil classificação histórica. É atualmente a segunda maior cidade da Síria, na era medieval era uma cidade que mediava os negócios da região dos rios Tigres e Eufrates, produtos que vinham das Índias ou de Damasco e seguiam a caminho de Constantinopla (atualmente Istambul). Quando as rotas das Índias começaram a seguir pelo Mar Vermelho ou pelo sul da África, a cidade se enfraqueceu, mas guarda riquezas culturais e arquitetônicas que coloca no chinelo o Coliseo de Roma. Atualmente a cidade é centro comercial da Síria para produtos relacionados a cereais especiais tais como castanhas, pistaches, azeitonas, damascos, figos secos. É muito comum encontrar pelas ruas todo o tipo de cereais, os mesmos que encontramos no mercado municipal de São Paulo. Aqui eles comem isso como quem come pipoca.

70% da população da cidade é Mulçumana, principalmente árabe, mas também são curdos. É muito comum por aqui ver mulheres com os rostos totalmente cobertos, usando chador e scarf cobrindo até os olhos (como se sabe que não é um homem?). Por outro lado, também vemos mulheres bem “modernozas”, já usando jeans e suas belíssimas e fortes maquiagens e homen vestindo na cabeça o lenço tradicional lenço “keffiyeh”, quadriculado branco com vermelho, igual o Yasser Arafat. De vez em quando vemos também com a bata e jeitão de Sheik.

Os demais 30% da população se dividem entre Armênios, bósnios e turcos (os judeus foram expulsos após a construção de Israel, mas interessante é que suas casas continuam desabitadas e preservadas pelo governo). Alepo também abriga uma grande comunidade Cristã, sendo possível ver igrejas pela cidade. Apesar da língua oficial da Síria ser o Árabe, os cristãos de Alepo falam o Armênio. As religiões são espalhadas entre os bairros. O bairro Jdeiha, nosso passeio do primeiro dia pela noite, acolhe a comunidade cristã, regado por igrejas e casas antigas dividas por becos, pelas  maravilhosas e criativas lojas de jóias(a Síria é um pais onde se negocia as jóias de ouro e prata entre as mais baratas do mundo) e deliciosas e originais opções “Habbi´s” pelas ruas. O interessante é que aqui eles usam um espécie de forno de pizza para esquentar as esfihas, mini-pizzas, etc e manipulam tudo(literalmente tudo com as mãos, sem luvas).

O ponto turístico mais famoso da cidade é o “Citadel”, uma imensa fortaleza no alto de um morro( cercada por um fosso, tal qual nos desenhos animados), construída no século XVIII e que não fosse por um terremoto em 1822 poderia ainda estar totalmente intacta. No alto do Citadel é possível ver toda a cidade, com seus prédios baixos cor de areia e morros desérticos em volta, uma paisagem tão panorâmica quanto a que pode ser observada pela Torre Eifel em Paris. Os demais passeios ficaram ofuscados pela magnitude do Citadel. Apesar disso, passeamos, como usual na região árabe, pelo principal Mesquita da cidade, erguida em 700 d.c  e pelos medievais hotéis boutique do centro da cidade. No segundo dia meia noite, pegamos um trem para Damasco, capital da Síria. A hospitalidade de Sírio tem sido bastante agradável e a segurança e submissão aos mandamentos tão leais quantos o iranianos. Sentimos-nos bastante seguros e confiamos muito no povo daqui. Um fato interessante aconteceu quando pegamos um táxi para a estação de trem. Nem mesmo levantamos a cabeça para pedir um táxi, já havia na esquina um rapaz fora do carro com a porta aberta, como se estivesse esperando pela gente. Dissemos que queríamos ir à estação (mostramos um papel escrito em árabe), ele guardou as malas, paguei adiantado e quando fomos entrar no carro os pinos das portas estavam abaixados, logo a porta não abria. Ele ligou o carro e já ia saindo. Ficamos desesperados, tentei segurar a porta e a July já ia ensaiar um grito (Pensamos: “Filho da mãe, vai roubar nossas malas”). O rapaz parou dois metros depois, minhas mãos ridiculamente tentando segurar o carro. Respiramos aliviados: ele apenas estava melhorando o espaço entre a porta e a guia, para facilitarmos o nosso acesso ao carro, um cavalheiro. Nos sentimos envergonhado por duvidar dele e rimos até a estação, relembrando a história, reflexo da nossa mente acostumada com o Brasil.

Salam

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