Salam,
Sete horas depois, sexta-feira, dia que eles consideram “domingo”, estávamos de volta ao meia estrela em Teerã para resgatarmos nossas malas e partirmos. Nosso amigo Mussavi só chegaria 13 horas e chegamos 7 horas da manhã. Como precisávamos dele para definirmos passagens para nosso próximo passo, tomamos a manhã para recarregarmos a bateria. Quando ele chegou foi logo realizando suas ligações para definir como iríamos para a Síria. De avião era impossível, somente se alugássemos um. A grande dificuldade é que daqui alguns dias será comemorado o ano novo persa (No- Rooz) e é tradição que todos passem a virado do ano novo juntos com familiares e o primeiro dia do ano não podem ficar dentro de casa, devem sair, na calçada ou pela cidade, pelas ruas. Logo todos estão retornando ao Irã e os ônibus que ligam Irã e Síria não estão conseguindo somar o número de passageiros suficientes e, nem mesmo o trem entre Teerã e Damasco (na Síria) tem a confirmação de que sairá na próxima segunda. Mesmo assim, Mussavi acreditava que ainda poderia ter um ônibus direto (ele só não tinha certeza se ele iria por Bagdá ou pela Turquia). Como queríamos sair ainda nesse dia, Mussavi dividiu as tarefas. Fomos para a rodoviária procurar o suposto ônibus enquanto ele checava ônibus para as fronteiras. Depois de atravessarmos a cidade, vasculhamos toda a rodoviária. Foi uma confusão: tinha gente entendo que queríamos ir para Moscou (devido a pronúncia Damasco) e gente pensando que éramos Russos. Um rapaz fez de tudo para nos ajudar: nomeou um senhor de muletas, parecia um sobrevivente de guerra, para percorrer toda a rodoviária em busca de informação. Ficamos sem graça. Ele foi a quase todos os guichês por um bom tempo. Quando enfim encontramos a empresa que organizava a tal viagem, descobrimos que talvez saísse um ônibus no dia seguinte. Talvez? Uh, complicado. Além disso, informou que o percurso deveria ser pela Turquia porque a fronteira com o Iraque estava fechada. Que pena! Só passa jornalista, iraquiano com familiares e ajuda humanitária. Alertou que deveríamos ter visto para a Turquia (o fato é que o único país que não conseguimos visto foi para a Turquia, por falta de tempo. Mas confirmamos na embaixada no Brasil de que aceitariam brasileiros sem visto). Frio na barriga. O rapaz ligou para Mussavi explicando a situação e me deu o telefone em seguida. –Eduardo, esquece, você vai ter que ir até a fronteira da Turquia e lá você vê. Tínnhamos pouquíssimo tempo. O ônibus para a fronteira sairia às 18 horas. Foi apenas o tempo para pegar as malas e dar um abraço no pessoal do meia estrela. O hotel está localizado numa região de concentração de lojas de peças de automóveis, muito parecida com a Barão de Limeira em São Paulo. Agora tínhamos pela frente 12 horas de viagem até Maku, na fronteira com a Turquia, viagem percorrida num Mercedez. Felizmente havíamos dormido muito bem pela manhã.
Mal saímos do ônibus em Maku, já entramos num shared táxi para a fronteira. Por um lado temos sorte por conta do No-Rooz: só havíamos nós atravessando a fronteira, o que encurtaria em 1 hora algo que comumente leva seis. Quando o policial iraniano carimbou “saída” em nosso passaporte, ficamos gelados. Ali ia começar a prova dos 9 se entraríamos ou não na Turquia. A July com terço na mão. Essa foi a travessia de fronteira mais fúnebre de todas, somando a um frio congelante. Parecia que estávamos saindo de um presídio. Nos dirigimos a uma cabine, onde havia dois portões paralelos enormes separados por meio metro. O policial abriu o primeiro portão, ordenou que entrássemos e fechou em seguida. Ficamos ali confinados entre os portões, sem pátria, por 1 minuto. Adorei. A July com seu terço.
Estávamos deixando para trás um país de excelente hospitalidade, com pessoas que aparentemente seguem a risca os mandamentos, tem bom coração e disposição para ajudar a todo o momento. O atendimento no comércio é impecável, desde a borracharia da esquina quanto à loja de tapetes mais caro. A prática do “Tarof”, uma espécie de oferta em busca de estreitar relacionamento (para citar um exemplo, algumas vezes os taxistas oferecem a corrida de graça, isso mesmo, de graça! Mas o politicamente correto é você insistir em pagar. Somente um rapaz de Shiraz não aceitou de jeito nenhum. Ele ficou tão orgulhoso de estar transportando brasileiros que chegou a ligar pelo celular para duas pessoas. Quando íamos saindo do táxi, ele fazia o gesto de bater os dedos na testa, e ir fazendo voltinhas até na altura do queixo, assim como se fizesse reverência)… O Tarof é uma prática muito antiga entre os persas. É um país de rituais diários provocados pelo islamismo (Exemplo: rezar três vezes ao dia ou bater a meia, segurando ela com as mãos, dentro do banheiro antes de sair) e de rituais de fortalecimento de relacionamento que é uma delicia apreciar. Tivemos o prazer em observar o dono do meia estrela, na seu modesto negocio, recebendo vendedores e algumas amigos em sua sala de espera. Existe todo um ritual que compreende conversa, tomar chá, de valorização da família, dos costumes e de senso de familiaridade. O dono do hotel se sentia orgulhoso porque tem um amigo Libanês que mora no Brasil e também quando nos apresentava para os amigos dele. Amigo para eles é amigo mesmo. Vamos sentir saudade da boa sensação de fraternidade nas ruas. Era muito comum observar meninos andando abraçados, jovens de mãos dadas e chegamos a ver dois policiais de dedos mindinhos entrelaçados. Existe o lado radical, de fato o adultério é castigado com apedrejamento e o homossexualismo com morte ou apedrejamento, além das mulheres terem que pedir permissão ao marido para dirigir. Mas não vimos pelas ruas sinais de repressão, vimos poucos policiais. Vamos sentir falta da constante musica islâmica, nos bares, nas ruas, no metrô (teve um fato curioso um dia no metrô. Era tarde da noite e sem mais nem menos um senhor fala uma frase e o vagão inteiro repete outra frase, unissonamente, parecendo uma torcida de futebol. Isso se passou umas quatro vezes seguidas, com outras frases. Isso nos pareceu uns pais com mesmo pensamento e objetivo, seja ele qual for, certo ou errado, do nosso ponto de vista).
O minuto se passou.
O segundo portão se abriu, um rapaz nos aguardava. A primeira coisa foi checagem de mala. De onde vocês são? Brasile? Uma singela festividade. Fomos enfim direcionados para o policial de entrada. Olhou o passaporte…Brasile? Falou espantado. Ih, dançamos, pensamos! Mas só apenas disse. Moça, não estou reconhecendo você pela foto, você está na Turquia, por que você não tira esse negocio da sua cabeça? Carimbou e respiramos aliviados. Saímos da fúnebre fronteira o frio já próximo ao zero grau. A neve cobrindo todas as colinas em volta, numa paisagem de cartão postal. Estávamos literalmente num vale. Depois de negociarmos “turcamente” nosso transporte até a cidade mais próxima, partimos para uma sessão permanente de foto e filmagem, Não imaginávamos encontrar um lugar de paisagens naturais tão bonitas e românticas.
Salam