Salam,
Shiraz. Deixamos para trás a cidade das flores, dos poetas e dos músicos, um lugar encantador entre as montanhas Alla-o-Akbar (também uma espécie de Cordilheira dos Andes) e a secura do largo rio khoshk. Cidade que quase foi completamente destruída pela invasão mongol liderada pelo Ghengis khan (pronuncia-se “renrishãn”). Deixamos para trás algumas histórias. Uma delas, numa intervenção solitária nesse texto, será narrada pela July: Na Mesquita Atiq, uma edificação construída em 1352, a única que guarda um alcorão no meio do páteo, logo depois que entramos em pouco tempo fomos abordados por um rapaz que passava pelo local. O rapaz ficou interessado em treinar seu inglês e começou a conversar com o Eduardo. Logo nos primeiros minutos de conversa foi possível identificar que se tratava de um rapaz com cara de poucos amigos, solitário, talvez por isso sobrasse mais tempo para falar um inglês afiado. De pronto percebi que se tratava daquelas abordagens ciladas em que a pessoa gruda no pé e não larga mais. Fui distanciando-me, escondendo-me atrás da máquina fotográfica. O Eduardo parecia inicialmente interessado em conversar com o rapaz, eu não entendia o porquê, pois eu logo achei que ele tinha cara de louco. Abordei a dupla mais de uma vez para tentar tirar o Eduardo da enrascada, mas ele permaneceu enrolado…e assim a conversa prolongou-se por muito tempo. Quando finalmente o Eduardo resolveu despedir-se do rapaz, eis que ele o olha fixamente e diz: “Não, eu vou continuar com você!” O Eduardo: “Não, não, eu agora vou andar bastante para conhecer outros lugares…” Ele: “Não tem problema, eu quero continuar com você…”. Eu continuei como observadora apenas constatando a minha intuição feminina: com esta cara de louco, sabia que ia dar rolo. E deu! A cena era esta: Eduardo tenso de tanto tentar se desfazer do rapaz. Quando o rapaz viu que não mais lograria êxito na sua conquista de amizade ou sei lá o que (a sua expressão era de amor à primeira vista…), eis que ele estende a mão para cumprimentá-lo e, de mãos dadas, o rapaz aproxima-se dele em direção ao seu rosto… eu pensei: Meu Deus, ele vai dar um beijo na boca do Du !!!!! A reação foi imediata o Eduardo esquivou-se e disse que no Brasil os homens não se cumprimentavam assim. Mas ele ignorou, repetiu a cena e finalmente realizou seu desejo: beijou-o, carinhosamente em suas duas bochechas… dois beijinhos… rsrsrs…eu não aguentei a cena….Ufa, não foi na boca! Mas a cara do Eduardo foi impagável… sabe aquela cara que o gato faz quando se prepara para a defesa?! Corpo esquivado, olhos esbugalhados, mas não teve jeito: colocou o rabinho de gato arisco entre as pernas e foi contemplado por dois derradeiros beijos…
Ta bom…Histórias…voltando. Saímos de Shiraz às 11 horas da noite rumo a Esfahan. Foram 7 horas de viagem mal dormidas. A qualidade dos ônibus daqui do Irã são divididos pelo nome das fabricantes. Um ônibus leito é conhecido como “Volvo”; o “Scania” é um executivo o “Mercedez” é mais simples e duro. Só conseguimos passagem no Mercedes. Aproveitamos então para descansar antes de sairmos de Shiraz, pois a viagem seria longa e cansativa. Logo no começo, colocaram um filme iraniano. Aqui vale um comentário especial. O cinema iraniano vem se tornando popular no mundo, participando e ganhando prêmios internacionais. O cinema é uma paixão para o persa. Depois da revolução islâmica de 1976, aumentou mais ainda a produção interna, já que desestimularam e até proibiram exibições de filmes ocidentais. Passamos por diversos cinemas, tanto em Teerã, quanto em Shiraz e nenhum filme internacional estava sendo exibido. Quem quer assistir o filme americano, por exemplo, pode comprar no camelô ou mesmo baixar na internet. O que se comenta aqui é que os melhores cineastas estão se dedicando as produções que visam ganhar prêmios internacionais e que nem sempre retratam fielmente a realidade local, e que ,curiosamente, não cai no gosto do público interno. Comentei sobre um filme chamado “Táxi”, que assistimos em São Paulo, e que mostrava um dia de trabalho de uma mulher que é motorista de táxi. O filme durou cerca de 1:30 hs e a câmera ficou fixada na parte da frente do táxi(igual ao táxi do Gugu), de maneira que mostrava os passageiros e um pouco da cidade. Nem preciso falar do comentário que ouvi aqui: basta dizer que não vimos nenhuma mulher motorista de táxi, o que nos surpreendeu muito.
Nossa primeira constatação em Esfahan é que havíamos perdido nosso principal guia de viagem. Ficamos cegos por algum tempo. Não tínhamos um mapa da cidade e tampouco uma central de atendimento turístico estilo Europa. O jeito foi ir pela intuição. Pegamos um ônibus, o mais lotado, imaginando que ele nos levaria ao centro da cidade. Era cedo, 6 horas da manhã. Fui muito bem recepcionado pelo motorista, não recebeu o pagamento e ainda achou um canto ao lado dele para ficar observando a cidade. Já a July, que estava na parte de trás, obrigatoriamente, se mistura num monte de mulher de roupas negras e apertadas. Nossa única comunicação era através dos gritos em português, o que facilitava a não mistura da musica islâmica permanente, os murmurinhos e barulhos dos carros. Descemos onde a maioria desceu. Tentamos vários contatos buscando pistas das melhores atrações, mas em vão. Continuamos andando e arriscamos entrar num mercado (mesmo estilo de Teerã, só as padarias estavam funcionando). E fomos andando pelos formigueiros arquitetônicos. Diferentemente de Teerã, os corredores desse mercado são interrompidos por passagens por bairros, mas bairros também formados por labirintos de formigueiro, com casas sempre amarelo-barrento. Como era muito cedo, foi um passeio delicioso pelos becos, os mesmos becos de Veneza mas com arquitetura islâmica. Tive vontade de voltar a esse lugar algum dia para realizar novamente essa caminhada, tão solitária, enriquecedora espiritualmente e encantadora. Felizmente o passeio inesquecível nos levou intuitivamente até o ponto principal da cidade: A praça do Iman (Iman significa líder. Só recebem o título de Iman os 12 profetas que tinham o direito de interpretar o alcorão. Khomeini, por exemplo, é um Iman, mas puramente honorário). Essa é uma das maiores praças do mundo (510metros por 165m), foi construída em 1612, foi tombada pela Unesco e apresenta uma das melhores harmonias urbanas (traços islâmicos, excelente jardinagem e palácios em volta). Não muito longe dali, conhecemos o Husseini, um simpático rapaz que nos mostrou a produção de tapetes e a pintura dos fios. Foi um passeio interessante pelo mundo escondido por trás dos bazares (também existe um formigueiro em Esfahan). O pai do Husseni realiza pinturas em miniaturas, um trabalho de maestria e paciência. Sua loja é umas das mais caras de Esfahan. Almoçamos num restaurante típico da cidade e visitamos as duas maravilhosas pontes (hoje só atravessam de pedestres), símbolos da cidade, construídas em 1600, com trinta e três arcos. Encontramos pela cidade uma brasileira que vive nos EUA e é casada com um iraniano. O curioso é que ela sugeriu que experimentássemos o mesmo sorvete que ganhamos em Shiraz (segundo ela o nome é Faludê, o sorvete com lascas de não sei o que). O resto do dia tomamos um café (realmente café não é com eles) no cinco estrelas Abbasi Hotel, com um jardim interno que representa as maravilhas de Esfahan, construídos no século XVII. Partimos de Esfahan a meia noite. Tentamos sair no único trem, mas já não havia mais lugar. Pelo menos dessa vez pegamos um Volvo, um ônibus leito.
Salam