Salam khobi (outra expressao para oi)
Nosso terceiro dia foi dedicado ao monte Arborz. O monte Arborz é muito parecido com as cordilheiras dos Andes. Para se ter uma idéia, o cenário de Teerã é muito parecido com Santiago do Chile. A cidade fica na parte baixa e ao fundo, ao norte (uma espécie de serra da cantareira gigante) um conjunto de montanhas com as pontas cobertas de neve. Essas montanhas escondem o mar Cáspio, que olhando pelo mapa, para um leigo, parece significar 1 hora de viagem até lá, tal como São Paulo-Santos. Ledo engano: 6 horas de viagem, porque somam-se as subidas e descidas da montanha.
Depois de uma manhã de planejamento de passagens para os dias seguintes –liga pra cá, liga pra lá – para os próximos dias com o Mr Mussavi, mesmo termos acordado quase 5:30 da manhã, somando o café da manhã especial do hotel meia estrela – chá ou café (tipo Nescafé bem fraco), pão feito com uma massa densa com formato de dois pães de forma, um do lado do outro, com direito a dois para cada um. Os ovos, estalados ou cozido á vontade. O hotel tem dois ajudantes, além do coordenador Mussavi: um é bem carrancudo, faz o serviço mas está sempre mal humorado e é dono da cozinha (não gosta quando eu entro lá para bisbilhotar). O outro, é um rapaz, que anda sorrindo o tempo todo, mesmo nos momentos em que tem de levar malas pesadas nas costas pelas infinitas escadarias do hotel. Ambos andam de chinelo e meia. No saguão, sempre sentado lendo o jornal e resolvendo burocracias de gerenciamento, o dono do hotel e provavelmente “dono” do Mr Mussavi. Não posso imaginar que o Mussavi só trabalhe por dinheiro, levando em consideração que entra no trabalho às 8 horas e sai às 23hs, e tamanha sua atitude e prestatividade. Ele em si, já é uma atração turística.
Quando enfim saímos pela manhã com o roteiro em mente da missão de chegarmos ao Monte Arborz, somando diversas trocas de transportes e infinitos bilhetes em persa (ou farsi, como costumam classificar a língua local) escrito pelo nosso grande amigo, demos uma passadinha para trocar dinheiro. Algo que havíamos nos esquecido: o banco só aceita notas de dólar em excelente qualidade. Foi um martírio ficar provando que a nota estava boa, que o Tomas Jéferson estampado na nota estava bonitão, etc. Enfim, novamente ricos (com um monte de nota enchendo a pochete), atravessamos a cidade: 10 estações de metro, um shared táxi (você vai com outras pessoas) até o bairro norte (daí já começamos a ver os “Jardins” e a “Oscar Freire” de Teerã), outro shared táxi, um ônibus e finalmente, finalmente um ESPETACULAR teleférico. Já no ponto de partida do teleférico era possível ver a cidade lá em embaixo. Teerã não tem prédios altos e, excluindo a poluição, a cor da cidade é predominantemente bege: a cor das baixos edifícios ou são brancos ou são beges; quase sempre são decorados com a geometria típica do islamismo, assumindo um colorido nos azulejos, ou ladrilhos que nos remetem a era medieval, a era do florescimento arquitetônico da alta idade média dessa região. Além disso, alternam-se na paisagem as diversas cúpulas de variados tamanhos e cores que adornam as mesquitas .
Na parte mais próxima das montanhas era possível avistar as suntuosas casas dos mais endinheirados, já uma espécie de tentativa forçada de “construção”(talvez nem projetado por um arquiteto) misturando elementos da arquitetura medieval com elementos da arquitetura moderna, típico de uma sociedade de novos ricos. Mas luxo mesmo era a vista para a natureza: cada vez que o teleférico subia, a vista das montanhas (e o frio, claro!) ia subindo exponencialmente. Felizmente o teleférico é fechado, um bondinho para quatro pessoas. Não imaginávamos que o teleférico subiria tanto: a subida levou 30 minutos, com um cenário de tirar o fôlego. Infelizmente não consegui obter (ou entender) a altura que chegamos tampouco a altura que o teleférico atingia em relação ao chão. Mas era para ficar com gelo na barriga somando os barulhinhos quando passava por cada torre de sustentação.
No ponto mais alto, já totalmente coberto por neve, havia um abrigo e diversas estudantes em uma espécie de excursão. No momento em que elas descobriram que éramos estrangeiros, fomos assediados como celebridade. Elas cercavam a Juliana para tirar fotos e faziam um monte de perguntas impossíveis de entender ao mesmo tempo em que elas apreciavam sua aliança e faziam o entrelaçamentos dos dedos mindinhos. Suponho que se tratava de algo relacionado ao casamento. Elas ficaram ofegantes, alvoroçadas. Nos cercavam estéricas. Algumas tentavam praticar o inglês com as mesmas perguntas “step-by-step”. Quando falamos do Brasil, novamente os gritos de Káká, etc, Eu perguntei: “E o Lula?” Elas: “Lula? No. Káká, Ronaldo, etc”. Apesar da euforia, curtimos a vista e as velhas brincadeiras de neve. A volta foi tranqüila, mas cansativa. Antes de chegarmos ao hotel, passamos no Museu dos Mártires, onde eu supunha encontrar fotos e documentos da guerra Irã-Iraque, conforme haviam me informado. Não encontramos nada sobre isso, apenas um passeio sombrio, regado à música fúnebre islâmica, em três andares de histórias tristes de pessoas que morreram em guerra ou na revolução. Importante frizar que esse museu fica em frente a antiga embaixada dos EUA (atualmente abriga o quartel general da revolução islâmica). A maior parte estava escrita em Persa, para facilitar. Essa parada exigiu que acelerássemos o passo. Corremos de volta ao hotel (estamos ficando craque nisso e posso dizer que vicia – me faz lembrar da minha vida de office-boy quando eu tinha 14 anos, coisa que ninguém acredita, só o Renato, meu irmão, porque foi quem me arrumou o emprego) desviando das motos e muita gente (o Irã é considerado um país populoso com 70 milhões de habitantes e vem crescendo aceleradamente desproporcional ao seu tamanho. O metro, ônibus e ruas estão sempre cheias de gente. Fila é comum. As mulheres, apesar de ficarem separadas nos transportes, ao contrário do que se imagina, o que daria mais conforto, ficam na verdade comprimidas. A separação está desproporcional).
Enchemos nossas mochilas para nossa próxima etapa, deixando as malas pesadas no subsolo do “meia estrela”. Atravessamos o trânsito caótico e lento, somando ao pior mapa que já tivemos que interpretar (sem dúvida, o mapa de Teerã é péssimo, com uma escala mentirosa e desproporcional e o o farsí é muito difícil de decorar. Muitas ruas não existem no mapa e o que é pior: uma linha de metrô inteira não está ilustrada no mapa. Por outro lado, para ter uma idéia da qualidade do metrô, ele é muito parecido com o de São Paulo, inclusive relativo ao número de linhas e a modernidade das estações).
Às 19 horas pegamos um vôo para Shiraz, sul do Irã, cidade próxima ao Golfo pérsico e Kwait. A viagem levou 1:30hs, cruzando mil kilômetros, e logo na entrada do avião da companhia turca Mahan Air, modelo desconhecido (posso dizer que não era Boing, Airbus, Fokker e muito menos Embraer) pudermos perceber o que viria pela frente: uma ventania tão forte que quase fechou a porta do avião. A melhor maneira de se sentir calmo nessa hora é olhar para as pessoas ao lado: se elas estão tranqüilas é porque é sempre assim e sempre deu certo. Assim, chegamos em Shiraz. Lamento nao ter enviado nenhuma foto. Infelizmente a internet e muito lenta(discada).
khodahafez (ate logo)
be omid didar (nos vemos)