Saímos sexta-feira rumo a nossa expedição ao Oriente médio. Depois de 10 horas de viagem chegamos em Amsterdã as 11 horas da manhã de sábado e aguardamos o vôo para Teerã as 15:30 horas. Antes de nos juntarmos definitivamente ao grupo que ia embarcar em nosso vôo, passamos duas vezes por eles para analisar qual o comportamento, as roupas e se as mulheres já estavam usando o “chador”, aquele véu que cobre o rosto das mulheres, obrigatório em solo Iraniano. Vimos que só as mulheres mais velhas usavam. A Juliana preferiu segurar o kit(ou melhor, o “chador” – véu e capa preta que vai até o tornozelo) enrolado debaixo dos braços, como se fosse para uma piscina segurando uma toalha.
O vôo foi pontual, pelo menos em sua partida. Duração prevista para 6 horas de viagem, e com as quatro horas de fuso entre São Paulo e Amsterdã, somariam ainda mais 2 horas de fuso. Vôo tranqüilo, com excelente serviço de bordo mas… na metade do caminho, já havíamos cruzado toda a Alemanha, o piloto informou que o avião apresentava um “problema técnico” e que voltaria para o ponto de origem, retornando as 3 horas percorridas. O clima ficou meio tenso…, as aeromoças passavam de fileira em fileira acalmando os mais velhos. “Que problema técnico?” “Se tem problema, por que não pousa imediatamente?” “Por que voltar tudo para trás?” Eu já havia ouvido falar que pela lei Européia(não sei se é mundial) que qualquer problema em vôo, a aeronave deveria voltar ao país de origem. Claro que vai depender do problema técnico, sob julgamento do piloto.
Em nenhum momento o problema foi explicado, mas o piloto parecia seguro de que estava fazendo a coisa certa.
Quando chegamos em Amsterdã, havia outro avião a nosso espera. Partimos lá pelas 22 horas e chegamos em Teerã no final da madrugada, 4 graus e nada para espiar pela janelinha durante o pouso. Felicidade geral, “chegamos em nossa terra, Alá”.
Nenhum contratempo. Aeroporto novo, muito moderno e bom atendimento. Fica a uma hora de Teerã e é mais uma das centenas de homenagens ao Aiatolá Khomeini.
Esse nome é familiar, não? Um dos objetivos dessa expedição é tentar tirar a imagem formada por centenas e dezenas de “Jornais Nacionais” da Rede Globo sobre o oriente médio mostrando imagens de homens bombas, Aiatolá do não sei o quê, Hussens, Palestina, Gaza…um monte de palavras relacionadas ao medo e terror.
O Aiatolã Khomeini foi o líder da revolução islâmica do Irã de 1979. Ou seja, ele tomou o poder e implantou uma republica islâmica, a primeira do mundo, um país governado por lideres islãmicos. O país também tem presidente, mas ele é comandado por esses líderes.
No próprio aeroporto trocamos dólares por moeda local. Saímos com um pacote enorme de dinheiro pensando que estávamos ricos: o dólar vale muito, mas o fato é que o Irã não corta os zeros faz muito tempo. Para ter uma idéia, 1 dólar vale 9000 Rial(moeda do Irã, com pronuncia muito parecida com nosso Real). Não descobrimos nenhum ônibus urbano que nos levassem para a cidade, então usamos a estratégia de tomarmos um táxi até a estação de metro mais próxima. Já no táxi pudemos ter um pequeno aperitivo do que vinha pela frente em relação ao o comportamento dos motoristas da cidade. Sem cinto de segurança e altíssima velocidade. Estrada muito boa. Quando estamos chegando à estação, ao lado dela, vimos um monumento gigantesco que era impossível não comparar com a Aparecida do Norte. O guia de mão informava a nossa suspeita de que ali se tratava de um ponto turístico que já poderíamos aproveitar para ganhar tempo. O negócio era deixar o sono de lado e carregar as malas até lá. Para ganhar tempo, mesmo com as nossas malas, andamos até lá. Tratava-se do maior complexo islâmico do mundo, um lugar de reza e que também guarda os restos mortais do Khomeini. Tinha várias entradas e as únicas explicações em persa. Na primeira tentativa de entrada, encontramos uma padaria onde os pães eram feitos abertamente, muito próximos aos clientes. Eram fabricados diversos tipos de pães, mas um deles era o mais vendido. Era uma massa fina, parecida com massa de pizza, mas bem mais fina e com bolhas, mas em tamanhos enormes. As pessoas compravam grande quantidade, levando folhas e folhas nos braços, sem nenhuma proteção. Comecei a filmar aquela produção. Logo um dos rapazes me pediu para filmar ele e outro lá no fundo me pegou pelas mãos e me levou para trás do balcão. Quando disse a palavra mágica “Brasil” o negócio virou uma festa. “Ronaldo”, “Ronaldinho” “Kaka”. Colocaram um pão e um confeito de cada tipo dentro de um saco e me entregaram. Nos deliciamos num pic-nic –caminhada as deliciosas amostras.
Não havia muitas pessoas em volta da imensa mesquita, mas já era possível ver a movimentação de mulheres com roupas negras e somente os olhos aparecendo. Na porta havia um guarda volumes e guarda sapatos. A entrada era separada entre homens e mulheres. Lá dentro havia um imenso espaço preenchido por tapetes(persas, claro), quase que como um campo de futebol. No meio do campo, ou melhor, do salão, repousa os restos mortais do Aiatolã, morto em 1989(lembra?)
Depois do templo, com cúpulas maravilhosas, ainda ao lado da estação, passamos pelo cemitério dos combatentes da guerra Irã –Iraque (lembra? Aquela guerra sem fim dos anos 80?). Pois é, são mais de cem mil pessoas mortas…
Depois de passeio, pegamos o metrô e fomos até o cento da cidade em busca no nosso Hotel(não existe albergue no Irã. Tentamos ficar na casa de algumas pessoas, mas elas não nos aceitaram na útlima hora por conta das preparações de ano novo, que virá daqui a dez dias, segundo o calendário milenar – muito antes de Cristo – do calendário Persa).
À primeira vista, logo que colocamos a cabeça para fora da estação, bem no meio do centro da cidade, parecia que o país havia sido tomado pelos moto-boys de São Paulo, numa revolução. É moto para tudo quanto é lugar, para todo o lado, inclusive calçada e contramão. Somam-se a isso, os carros em alta velocidade, um atrás do outro, sem parar. Não existe semáforo, ou isso é raridade aqui. Atravessar a rua é uma constante roleta russa. Ninguém pára na faixa. A única maneira é ir se jogando aos poucos no meio do trânsito, caso contrário vai ficar no mesmo lugar o dia inteiro. O trânsito é caótico e vítima da gasolina barata(nem vou escrever o preço para ninguém ficar com inveja. Lembre-se que o Irã é o segundo maior produtor de petróleo do mundo).
Depois de idas e vindas e dificuldade de decifrar as ruas com nomes persas, finalmente chegamos ao nosso hotel, que de estrela só tem o Mr Musavi, recepcionista. Enquanto aguardávamos a liberação do quarto(só depois das 14 horas) fomos para nossa primeira experiência com a comida local (rúcula com nabo, pão para umas 20 pessoas!, arroz com galinha e tempero local. O mais interessante é que o charme do prato é que a rapa do arroz, aquela crosta do fundo da panela é colocada sobre o prato, de cabeça para baixo) e passamos por um parque tipo “Ibirapuera”. O que mais nos chama a atenção é a combinação do verde das árvores e jardins com as mulheres em roupas pretas, todas cobertas em grupos, fazendo pic-nic. Nesse nosso primeiro dia pudemos perceber que esse é um povo que gosta de viver enturmado, que as mulheres andam em sua maioria sempre em grupo. No transporte público as mulheres e homens não se misturam. Há sempre um vagão do metro só para homem e outro para mulheres. No ônibus, na parte da frente ficam os homens na de trás, as mulheres.
Á noite fomos ver a famosa e antiga embaixada(fechada) dos EUA(com pinturas contra os EUA, claro!). Nesse primeiro dia pudemos perceber que os iranianos não gostam de ser chamados de árabes, mas sim de persas. “Persas”, ok, vamos parar com “Irã” – isso já é um bom começo para tirarmos a imagem ruim dessa região. Então, voltando, estamos aqui conhecendo os persas…