Sul da China: de Shangai a Hong Kong

Tem sido difícil encontrar tempo para escrever. Vamos dormir mais

de uma da manhã e acordamos muito cedo. Tudo é tão diferente e

os pontos turísticos ainda estão sendo descobertos. A verdade é que

o turismo para nós brasileiros é menos os indicados nos guias de

viagem e mais andar pelas ruas e descobrir sozinhos coisas

diferentes.

Depois de mais de 18 horas de viagem, mais um trem, deixamos

Xangai rumo a Hong Kong, completando assim, toda a costa da

China. Nosso último passeio em Xangai foi uma visita a torre

GiMAO, o terceiro maior prédio do mundo. Não subimos ao topo, o

tempo estava muito nublado, mas valeu a visita as suas instalações

luxuosas, sede inclusive da Vale do Rio Doce na China. O que nos

encantou muito em nosso último dia foi o Museu Xangai, onde

interessantemente, ao contrário de um tradicional museu, neste caso

a maior parte do que o museu mostra ainda acontecerá. É que dos

cinco andares, três são dedicados ao futuro: gigantescas maquetes,

detalhando os novos arranha-céus e pontes fabulosas de como será

a Xangai 2010(será e está sendo feito, não é promessa de campanha

eleitoral) e a organização da reunião mundial dos paises. Está sendo

construído um complexo mais de 10 vezes maior que o Anhembi

para comportar todos os países. Também pela manhã, no centro da

cidade, havia um senhor ameaçando se jogar de um prédio (mais o

menos do oitavo andar). Logo que o bombeiro chegou, começou o

aglomerar da multidão. Armaram um colchão inflável gigante

enquanto ocorria a negociação. Tem acontecido muito o suicídio nas

grandes cidades chinesas por conta da falta de emprego. Não vimos

o desfecho da história, ficamos por lá uma hora. Já estávamos

mendigos: com brutalidade, expulsando-os das lojas com gritos e

força física. Nesse evento do centro da cidade, vimos os chineses

rindo da situação.

Em nosso albergue conhecemos o Santiago, um advogado

colombiano com um Q de Che Guevara (ou talvez, mais parecido

com o Gael Garcia Bernal, ator mexicano), que já veio a trabalho

para China algumas vezes e resolveu ficar uns dois meses estudando

mandarim, língua falada na China. Carrega sempre consigo um

livrinho relacionado ao comunismo e mantem fotos do Fidel Castro e

de sua esposa nos poucos espaços de sua beliche. Uma pessoa

bastante sóbria, calma e de bom coração. Nessa viagem, veio

comprar um barco encomendado por um empresário colombiano

(que ele pressupõe ser envolvido com a droga). Depois da compra e

do despacho, realizado em Hong Kong, foi para Xangai procurar o

melhor curso de mandarim. Para sua surpresa, o curso na verdade

tem duração de um ano. Resolveu ficar. Em nosso último dia entrou

todo feliz no albergue porque havia encontrado finalmente um

apartamento ao lado do curso para ser dividido com um chinês. No

final do dia se mudaria para lá. “Foi Deus, não?”, nos disse parado

em nossa frente, muito calmamente em seu espanhol sem vírgulas.

“Por Deus!”. “Vocês acreditam em Deus, não?”. Logo depois de

falamos sobre nossa religiosidade, a Juliana perguntou se ele estava

com saudades da esposa. Ainda não havia se movimentado,

mantinha a mesma face da última pergunta. Pensou um pouco e

logo se via que ainda não era algo resolvido internamente, seus

olhos apenas se encheram dágua. Cinco minutos depois, quando fui

ao banco trocar dinheiro, o ouvi conversar em espanhol ao telefone.

Mais quinze minutos, voltando do banco, pela rua, cruzo com o

já se misturando como fumaça no meio da multidão. Não o vimos

mais. Era quinta-feira, nosso último dia, partimos pela tarde rumo a

Hong Kong. Infelizmente desistimos de visitar a Unilever Xangai pois

descobrimos que a única maneira seria pegar um táxi, pois não havia

acesso de ônibus, metro, bicicleta e também a pé (é que fica cercada

de rodovias, mesmo dentro da cidade). Só que táxi ficaria muito caro.

A paisagem entre Xangai e Hong Kong torna a viagem rápida. Há

muito que ver pela janela, compensando a dificuldade da língua dentro

do trem (e os chineses são bem reservados, só querem saber de

talharim de manhã, tarde e noite). O sul da china é a região mais

industrializada, justamente onde o trem corta fora a fora. O que se vê é

uma mescla de agricultura, com milhares de camponeses (o famoso

camponeses chinês, com seus chapéus lig-lig e barracas para dormir) e

galpões industriais. Além disso, o trem também passa na terceira

maior cidade chinesa, a Guangdong, onde estão concentradas 90% das

indústrias de falsificação. Hong Kong está situado, na verdade em uma

continente. Internacionalmente, Hong Kong é conhecida hoje como a

China Capitalista (ou china democrática) e o restante da China

conhecida como a Republica popular(ou China continental). É

importante saber um pouco sobre alguns elementos históricos sobre

Hong Kong: em XX, depois de uma guerra com a Inglaterra, a

Inglaterra ficou apenas com o território de Hong Kong. Em 1997, a

colônia foi devolvida a China, com a condição de que a China não

poderia mudar o sistema econômico local por 50 anos. A partir de

1970, Hong Kong se torna um dos tigres asiáticos, grupo de paises

com crescimento anual muito rápido.

A minha idéia original era ir até Hong Kong, depois voltar 2 horas de

viagem até Guangdong. Mas logo que saímos de Xangai fomos

avisados que nosso visto já não valia mais para voltar à China. Deveria

requerer outro, pois eles tratam a China continental ainda como algo

separado de Hong Kong. Requerer outro é muito caro e demorado.

Estamos espantados com Hong Kong.

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