Shangai e “Chapéu” Chinês

Com chuva paulista, o calor tem dado uma trégua aqui em Xangai. Até a quinta-feira ficaremos aqui para tentarmos conhecer também as cidades

onde está instalado o porto de Pernambuco). Eles têm um escritório aqui para

aumentar a movimentação do porto no Brasil. Esse escritório pertence a um

chinês, Dr. Chen, que viveu no Brasil por uns 17 anos, e que foi o pioneiro em

levar a acupuntura para nossa terra. Ele nos mostrou uma série de

reportagens de revistas brasileiras com entrevistas com ele. Não conhecíamos

ninguém nesse escritório tampouco havíamos ligado antes agendando nossa

visita. Só tínhamos o endereço. Quando abriram a porta e souberam que

éramos brasileiros, nos convidaram imediatamente para tomar um café (sim

um café, não chá) e ficamos a tarde toda conversando. Tem um brasileiro

trabalhando com eles, o Rodrigo, um rapaz muito bacana, que se dispôs a

conversar um pouco sobre o trabalho deles em detalhes, desvendando mais

um pouco sobre o quebra-cabeça chinês. O escritório faz a intermediação

entre empresas brasileiras interessadas em comprar produtos da China. A

fórmula deles é a seguinte: a esposa do Dr. Chen, a Lou, mulher de uma

fineza milenar, fecha a negociação com as fábricas chinesas e o Rodrigo é

responsável pelo contato com o brasileiro, povo que ele conhece bem.

Fizeram questão de nos levar para jantar num restaurante Brasileiro, o Latino,

que já teve a presença de famosos como o Airton Senna, Pelé e a seleção

brasileira. A Juliana aproveitou para tirar o gosto de comida chinesa

apimentada, se deliciando com pão de queijo e salada brasileira. Foi uma

noite muito agradável. Andar com nativo é outra coisa. Levaram-nos de carro

no final da noite e ficaram surpresos com o preço do nosso hotel (na verdade

um Albergue), felizmente muito bem localizado.

Segundo o Rodrigo, todos têm uma história para contar de algum “chapéu”

tomado de um chinês. É ditado popular entre os brasileiros que se relacionam

com os chineses de que “ninguém sabe nada sobre os chineses, mas eles

sabem tudo sobre nós”. Ele estava se referindo a área de negócios,

especificamente em negociação de preços, de falta de qualidade de alguns

produtos, de apropriação indevida de idéias, etc. De fato, é difícil entender

esse povo com detalhe, para saber se estão te enrolando.

Na China eu e a Juliana nos sentimos pop stars. É muito comum os chineses

ficarem olhando os estrangeiros com olhares como se nunca tivesse visto um

e sempre cochicham entre eles. Para eles ainda é uma novidade. Perdemos as

contas das vezes que meninas pedem para tirar fotos com a gente. No inicio

chegamos a achar estranho, mas depois entendemos que para eles é como

um autógrafo, algo que eles vão mostrar na escola, no grupo de amigos.

Interessante também é quando fazemos as nossas fotos: eles copiam tudo,

querem fazer a mesma pose, no mesmo lugar, com os mesmos gestos.

comum tentarem trocar algumas frases em inglês e quando a

gente entende, eles dão uns pulinhos de alegria. Todo mundo, até

o mais velhos, quando fala um “thanks”, fica maravilhado. É uma

cena interessante.

Ontem eu e a Juliana estávamos numa livraria e apareceram duas

estudantes. Meninas simpáticas, usando frases básicas do inglês,

interessadas no Brasil. Todas essas estudantes demonstram um ar

de ingenuidade, de desconhecimento do mundo, mas sempre

defendendo sua pátria. Ficamos ali conversando um tempão, já

eram umas 8 horas da noite. Uma delas nos convidou para o “TIM

Festival”, que segundo elas, já ia começar, ali perto de onde

estávamos. Eu e a July adoramos a idéia. Perguntamos quem ia

cantar. Elas disseram “Não, não é TIM Festival” é “Tea Festival”, ou

seja, um festival de chá. Segundo elas isso é bem tradicional e

acontece a cada 4 anos. Bem, estávamos no calçadão da cidade e

não estávamos fazendo nada mesmo, vamos lá para ver.

Continuamos nossa conversa até chegarmos à casa de chá, bem

localizada, arquitetura chinesa com jovem com roupa lig-lig como

recepcionista. Sentamos numa mesa para 4 pessoas, numa sala

bem decorada, com vários vidros com diferentes ervas de chá

dentro sobre a mesa. Não parecia haver mais ninguém no local,

estranho para um festival tão tradicional. Tudo bem requintado,

mas “qual o preço?”, perguntei. Um silêncio de estranheza. Só a

Juliana não estranhou. Uma das meninas me explicou como seria:

em cada rodada seria servido um tipo de chá e o preço por pessoa

seria 20 reais, cada rodada. Seriam dezenas de rodadas. Ali me

lembrei de um famoso golpe no Brasil conhecido como “Boa noite

Cinderela”. Trata-se de colocar sonífero na bebida e depois

acontece o roubo. Mas era uma sensação confusa porque

estávamos, desde Frankfurt, totalmente livres de desonestidade, já

acostumados. E as tais estudantes, tão gentis… Mas pesou a

brasilidade: “Bem, meninas, We LOOOOOOOOOOOOve Tea, love,

love, love but”(ou seja, amamos chá)…bem, disse que tínhamos

que ir embora, agradecemos e saímos. Saímos com o gosto da

dúvida. Precisávamos tomar um chá de esquecimento. Quando

chegamos ao Albergue, logo na entrada, no primeiro painel, um

amigáveis levam estrangeiros para tomar chá num suposto Festival de Chá e no final a conta fica exorbitante”. Ficamos aliviados porque não tínhamos mais

dúvida. Acho que o chapéu que tomamos dos chineses, seguindo a frase do Rodrigo, ficou com o melão que pagamos 6 reais na fronteira da China com

Mongólia, sendo que valia menos de um real. Hoje à noite, novamente algumas meninas queriam tirar foto com a gente. Só tiramos porque logo apareceu

a mãe delas sorridente. Só falta estarem colocando a mãe também no festival do Chá, aí já é demais…

Hoje de manhã, perdemos a manhã inteira procurando a Unilever Xangai. Não quero trabalhar nas férias, mas trata-se de um prédio modernista que

estava muito curioso em conhecer. Perdemos a curiosidade. Com o mapa na mão, encontramos a rua, mas não encontramos o prédio. E ninguém

conhecia. É tão moderno o prédio que ele deve ser invisível; existem todas as numerações na rua mas não existe o número do prédio da Unilever. A

chuva e falta de orelhão público nos expulsaram de outras tentativas. Bom mesmo é ficar olhando os prédios futuristas dessa cidade. Impressionante

saber que 20 anos atrás Xangai era apenas uma cidade rural.

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