Shangai e Entendendo a China

Sábado, último dia em Pequim. Na sexta-feira pela noite, seguindo

todas as recomendações de todos os guias de viagem e o apelo dos

cartazes em todos os lugares espalhados pela cidade, inclusive no

Albergue, resolvemos ceder e ir até uma ópera. Calma aí. Não é uma

ópera estilo Teatro municipal de São Paulo. Ópera aqui tem de tudo:

uma mistura de canto, dança, mímica e acrobacia. O preço é de

Broadway. É um espetáculo muito antigo e tradicional. Segundo o

nosso guia, o lugar recomendado, uma casa de Chá, tinha

apresentações 4 vezes ao dia, sendo a última as 21:30. Junto com a

apresentação, um chá bem servido e com a seguinte descrição do

autor: “um teatro-salão de chá de onde se ouvem risos: são

palhaços, acrobatas, mágico, todos envolvidos em uma alegria

geral.”. Da mesma forma que o Pinóquio caia nas mesmas

armadilhas, seduzido pelos interceptadores de plantão, eu e a Juliana

fomos até o teatro às 21 horas para tentarmos pegar a última

sessão. Adoramos teatro, vale o investimento caro. Na recepção,

conforme o mesmo guia, um rapaz a caráter China in Box: “Hello

(alegremente)Can I help you?”. Expliquei o que queríamos e me

disse que na verdade só existia uma sessão por dia e que a última já

estava terminando, faltava apenas meia hora para acabar. Se

estivéssemos interessados em comprar o ingresso para o dia

seguinte, poderíamos subir e tomar um chá enquanto o espetáculo

terminava. A casa é bem bonita, bem caracterizada, todo mundo

vestido lig-lig e com fotos de vários estadistas. O salão estava cheio,

todo mundo fotografando e bebendo chá. Logo vimos do que se

tratava pelos descompassos dos acrobatas: um show para turista.

Dos 30 minutos que assistimos não havia nada de sofisticado,

apenas pulos encenados e muito show de iluminação. Se é só para

tirar foto, tudo bem, também tiramos. Ficamos decepcionados com o

guia, mas pelo menos saiu barato.

Dia seguinte, sábado, acordamos mais tarde para termos um dia

Templo dos Lamas, um palácio de 1964 com cinco pátios

simboliza os laços com o Tibet. É considerado o templo budista

mais importante da China, com uma estatua do Buda que está no

Guiness Book devido ao seu tamanho. Tudo protegido por mais de

100 monges. É um lugar muito bonito, arborizado, calmo mas

com muita fumaça de incenso. Felizmente, em nosso último dia o

calor deu uma trégua e o dia estava nublado. Fez muito calor nos

últimos dias e um calor abafado.

Voltando para o Albergue para pegar nossas malas, passamos

antes para nos despedir do Mao Tse-Tung embalsamado. Após a

sala onde repousa, é chocante a quantidade de quinquilharias que

vendem com sua imagem. Fazem capitalismo com ele, justamente

ele, “O Grande Timoneiro”, líder da revolução comunista de 1949.

Um último passeio de Trici (bicicletas táxi) entre o Albergue e o

Metro. Muito romântico: para nossa surpresa, o “Senhorzinho” fez

um caminho entre vielas de casas que nos remeteram a Veneza,

totalmente diferente dos cheiros e desvios de pessoas no caminho

tradicional. Pagamos a mais, por recompensa.

Ficamos estarrecidos com a quantidade de gente na estação de

trem. Era como se estivéssemos saindo com as malas no final do

jogo entre Flamengo e Fluminense no Maracanã. Muuuuuuita

gente. E o Chinês não respeita fila, não respeita faixa de pedestre,

tem costume de cuspir na rua a toda hora, de arrotar sem rodeios,

de soltar pum no elevador denunciando a autoria… Tudo normal.

Perguntei umas 50 vezes para mais 50 chineses onde eu deveria

pegar o trem. Chegamos lá. Para nossa surpresa, salão de

embarque bem chique. O trem e a estação bem diferentes da

Rússia, e muito mais parecida com o Europeu. Trem silencioso,

moderno e de alta velocidade, mas os assentos não eram camas.

Não deu para ver nada lá fora. Foram 12 horas de viagem até

controlador de ticket averiguando meu bilhete e falando várias coisas

em chinês (o chinês tem essa mania, fala, fala, fala e depois parece

que não serve para nada). Concordei com tudo e tentei dormir.

Chegamos em Xangai hoje pela manhã. Já no percurso do albergue

sentimos os ares da Megalópole. Xangai, a capital financeira da

China, é uma megalópole com arranha-céus, porto, trem de altavelocidade

e paisagem futurista. Nosso Albergue fica bem pertinho

dos dois principais pontos turísticos, a rua Bund e Nanjing.. A Bund

tem a melhor vista dos arranha-céus. O Terceiro maior prédio do

mundo está aqui, junto com a torre de televisão. A paisagem é bem

futurista e com visita obrigatória de dia e de noite. A noite é como

uma festa de ano novo. Tudo iluminado com milhares de pessoas na

margem do rio. A Nanjing o centro de consumo. Hoje é domingo

mas parecia uma segunda-feira normal, milhares de pessoas pelas

ruas, um consumo fervoroso.

A cidade de Xangai é a cidade que mais cresce no mundo, com

velocidade exponencial. Os prédios brotam da noite para o dia. Não

tem nada a ver com Pequim. Aqui não se constrói prédio por

construir; todos são diferentes, revolucionários e imponentes, sem

perder os conceitos básicos chinês do Feng Shui e o dragão na

entrada. Esse foi nosso passeio por hoje.

Vale entender um pouco mais sobre a China…

Acho que é importante todos entenderem um pouco o que está

realmente por trás de tanto desenvolvimento. Por que afinal tantos

países ricos estão preocupados com o desenvolvimento da China e

por que esse país poderá ser o mais rico no futuro? A minha idéia é

dar uma visão de dentro para fora, ou seja, da China para fora,

baseado no quebra-cabeça que estou tentando montar aqui in loco.

Os chineses sofreram muito nos séculos 19 e 20: passaram por

diversas guerras, incluindo a Segunda Guerra Mundial e disputas

mais específicas com a Inglaterra e Japão, e uma Revolução

Comunista em 1949. O que está no inconciente coletivo atual é que o

povo não quer mais sofrer, agora ele quer bem estar e construir o

futuro. A partir de 1978, com a morte de Mão Tse-Tung, o governo

chinês começou a permitir a criação de empresas, com a condição de

mínimo de participação de 51% para investidor local chinês e

máximo de 49% para empresa estrangeira. A China tem uma

de pessoas e devido essa massa de gente, o salário é muito baixo

(o Brasil tem 1,7 milhões de habitantes). A negociação salarial é

praticamente entre o empregado e o investidor, não existe salário

mínimo e nem limite de horas trabalhadas (existe problema

também nas condições de trabalho). Os Chineses trabalham muito

sob o lema de serem “melhores em tudo”. Essa é a propaganda

que mais se vê por aqui: a propaganda do governo estimulando o

patriotismo e a “serem melhores em tudo”, principalmente melhor

que o Japão, país que eles declaradamente odeiam, sem rodeios.

Enfim, como o custo é baixo, a capacidade intelectual muito alta

(escola do Estado gratuita e muita gente estudando fora do país), a

vontade de trabalhar muito alta (não há greve e o lema “melhor

em tudo”) e a posição geográfica da China, as empresas

multinacionais vêm transferindo sua produção para cá. Depois

disso, o governo, informalmente, estimula as empresas locais a

copiarem esses produtos. Isso mesmo, copiarem: a mesma

máquina que faz o Nike original é a mesma máquina que faz a

cópia em outra fábrica, praticamente ao lado. Em alguns casos, a

cópia é feita na mesma fábrica. Como o governo estimula as

empresas copiarem? Concedendo crédito e fingindo que não está

vendo (afinal é ilegal dentro do comércio internacional). Por que o

governo estimula a cópia? Primeiro porque é necessário arrumar

emprego para muita gente; segundo porque depois que essa

empresa aprende a fazer a cópia, ela aperfeiçoa (o Ipod cópia é

mais avançado que o original), ganha o know-how e lança a

própria marca e passa a vender, no primeiro instante, ao mercado

consumidor chinês (não se esqueça: 1,4 bilhões de consumidores

potenciais) de forma legalizada. Ou seja, nasce teoricamente ilegal

e depois legaliza a empresa. E esse estímulo à cópia está em tudo,

literalmente tudo: copiam eletrônicos, calçados, roupas, plantação

de flores, frutos e até adereços de carnaval. Tudo. O governo

patrocina viagens para chineses saírem copiando pelo mundo. Isso

é a forma de gerar o desenvolvimento para o futuro. Ironicamente,

o que o governo chinês está fazendo em relação as processo de

cópias não foi diferente do que o Japão fez no século XX.

Além do desenvolvimento industrial (inclusive dos falsificados),

justamente onde estou indo, o governo também criou política de crédito

(taxas muito baixas de longo prazo) para quem quer investir em

pequenos negócios(serviço, turismo, etc). Hoje é muito comum estar na

periferia de uma grande cidade, como Xangai, e pensar que está no

centro da cidade, de tantas lojas e quantidade de consumidores. De fato,

o consumo é fervoroso. Claro, também porque ficou reprimido por muito

tempo. Os McDonalds e as lojas (inclusive de marcas) estão sempre

lotadas. Além do salário ganho em grandes quantidades de horas

trabalhadas (férias apenas 1 semana por ano), o governo concede crédito

a taxas muito baixas. Fácil o porquê: as pessoas guardam em poupança

30% do que ganham, é um costume geral. Logo, os bancos (só o

governo chinês tem banco aqui) ficam abarrotados de dinheiro (muito

dinheiro, juros baixos). As empresas crescem 10% ao ano (lembre-se,

parte das empresas detêm 51% da sociedade com a multinacional e

outras são 100% chinesas), muitas praticamente devido ao crescimento

de consumo dentro da China. Com o dinheiro, constroem prédios

gigantescos de escritórios e sedes de empresas. Com taxa de crescimento

de 10% ao ano, a bolsa de valores chineses atrai muitos investimentos

externos e vale dizer que o modelo de bolsa criado pelos chineses é mais

seguro do que os de outros lugares do mundo.

O governo tem o controle de tudo. Controle da natalidade: ainda uma

família só pode ter um filho. Controle sobre a informação: não se pode,

por exemplo, acessar blogs na internet (é verdade, não consigo acessar!).

O país é um misto de comunismo com capitalismo. Só é permitido ter

propriedade privada nas cidades. No campo, tudo pertence ao governo. O

governo concede licença para pequenos produtores rurais e decide tudo o

que deve ser plantado (existe um preocupação enorme com a alimentação

e desenvolvimento de saneamento básico nessas regiões). A taxa de

analfabetismo ainda é uma informação desencontrada. Já encontrei zero e

também 15%. 80% dos chineses acreditam em crenças populares, não

tem religião. O comunismo tentou aniquilar tudo.

Só existe um partido político, o partido comunista. Não existe eleição para

nada e o povo chinês tem um respeito enorme pela autoridade. Quando a

oposição e não se fala em política nas ruas. É fato que o Chinês

está muito ocupado com trabalho e trabalho e melhoria de vida.

Esse é o motor da China e que toda essa conjunção somada a força

desse povo milenar e ancestral, poderá levar esse país

aceleradamente a maior potência mundial.

“E o Paraguai?” “E a 25 de março?” Talvez alguns de vocês devem

estar se perguntando. Os produtos que entram no Paraguai são

importados via Taiwan. Taiwan é uma ilha ao lado da China e a

China se declara dona de Taiwan. Taiwan não aceita, mas também

não reclama. Quem vai reclamar com um dos maiores exércitos do

mundo? Bem, Taiwan trás da China os produtos que vão para o

Paraguai. O Paraguai compra Containeres fechados de produtos

(parte é falsificado, parte original mas que está quase fora de linha,

são produtos sem garantia) que vem da China meio que por vista

grossa da polícia. É um mercado que funciona assim: vai pagar a

vista? Então leva esse container agora e fechado. O Paraguai leva.

Existe uma tese de que isso é uma lavagem de dinheiro chinês. O

chinês precisa girar rápido o dinheiro para justificar algum negócio,

então vende containeres fechado a preço barato. Faz sentido pelo

seguinte: o preço de uma máquina digital da Sony (que tem 70%

de chance de ser uma cópia) na 25 de março é de 600 reais (eu fui

lá e cotei) e o preço da mesma máquina aqui na China é de….600

reais (convertendo claro). Deveria ser mais barato na China, não?

O fato é que a China vende para o Paraguai o container fechado a

preço muito convidativo, o Paraguai importa pelo porto de Santos e

coloca a venda na Cidade Del Leste, ao lado de Foz do Iguaçu. O

Brasileiro vai lá e traz para vender na 25 de março sem pagar

imposto.

Bem essas são minhas impressões econômicas até aqui.

Sinceramente, precisei vir pessoalmente para ter certeza de

algumas coisas. Vou enviando as peças do quebra-cabeça,

conforme conseguir encontrar.

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