Estava previsto a chegada do trem às 7 horas da manhã em Ullan-
Battor. As 5:30 fomos acordados pela Provodnitsa, pedindo os
lençóis e já tomando os travesseiros. Ela queria adiantar a parte dela
para chegar já com o trem organizado. Logo abrimos as cortinas na
cabine e vimos o que não esperávamos: uma paisagem
permanentemente cartão postal. Já estávamos em terras Mongóis por
umas boas horas, mas infelizmente passamos a maior parte pela
noite. O que víamos era um campo verdinho, montanhas
arredondadas com gramado bem acertado (parece um imenso, mas
imenso campo de golfe de clube milionário). Em espaços muito
distantes um do outro havia uma cabana branca em formato circular
com um grupinho de gado e cavalo pela porta. Algumas cabanas
continham camelos. Estávamos diante daquilo que nos apaixonamos
nessa viagem: o Gher. O fato é que mais de 50% da população da
Mongólia é nômade e vive em Ghers, ou seja, cabanas que,
dependendo da estação do ano ou do clima, mudam de lugar
quando bem entendem: é livre. Lembrando que a Mongólia também
era socialista até o inicio dos anos 90, o Estado continua sendo dono
da maior parte das terras do país. Praticamente não existe
agricultura, a terra não é boa e o clima não ajuda e a Mongólia tem a
mais baixa densidade demográfica do mundo. O Gher encanta pela
sua liberdade, e pelo casamento da sua arquitetura e organização
com a paisagem natural. Nesse pequeno percurso até chegarmos a
Ullan-Battor ficamos admirando a paisagem com aparecimento do sol
Logo que saímos do trem encontramos a Bumma, mongoliana colega
de classe do Renato no curso que ele fez no Japão dois meses atrás.
Foi fácil identifica-la, ela estava com um cartaz imenso com a
impressão dos nossos passaportes (a primeira página do passaporte e
o visto) que eu havia enviado por mail tempo atrás para ela comprar o
passe de trem para a Pequim. Com aquele cartaz com foto de
documento parecíamos muito mais procurados pela polícia…mas isso
era a minha maldade brasileira.
A Bumma é uma simpatia. Tem um inglês 1,5, mas isso não impediu
nem um pouco nossos entendimentos. Logo ela foi convidando a gente
para um carro onde havia um rapaz esperando no volante.
Entendemos pelas poucas palavras dela que ele era um motorista
particular. Mostramos o endereço do albergue e eles nos levaram até
lá, foi ótimo porque teríamos que andar por muito tempo com aquelas
malas e dificilmente encontraríamos um albergue tão escondido,
apesar de ficar no centro da cidade. Dias antes, a Bumma, tentando
ajudar, havia me enviado umas opções de hotéis com preços módicos,
segundo ela, de aproximadamente uns 80 dólares a diária. Ela quase
caiu para trás quando eu disse que o albergue custava 4 dólares por
noite… e esse albergue era bem legal, estava cheio de viajantes do
mundo inteiro, bem localizado e com um atendimento amigável. Os
preços começam a deixar os valores altos que enfrentamos na Rússia…
Teríamos dois dias pela Mongólia, infelizmente meu visto durava
pouco e não havíamos encontrado passagem para Zamyn-Uud,
da Mongólia com a China, para mais dias. Todo mundo dessa região quer
ir para China para fazer compras ou passear. Além disso, é verão…
A Bumma convidou a gente para um passeio, e nos pegou no Albergue
às 11 da manhã. Não pude conter a alegria quando ela disse que iríamos
ao parque nacional do Terelj, distante uns 100 km da capital. Já estamos
planejando fazer esse passeio, mas íamos desistir porque o transporte até
esse lugar é muito caro e de difícil acesso para quem não vai por pacote.
Agora, fazer o passeio com nativo é outra história. Então, a Bumma e o
motorista nos levaram até Terejl. Fizemos questão de pagar a gasolina e
a entrada no parque. Foi difícil convencê-los. O passeio foi maravilhoso,
o parque é maravilhoso. Ele conta com uma paisagem fantástica e
novamente os Ghers espalhados. Como disse, com nativo é outra
história: andamos de camelo, fomos até um templo budista no alto de
um morro, andamos a cavalo (lembrando que a Mongólia ama cavalo,
eles são especialistas nesse animal), almoçamos num restaurante com
comida típica (ali eu perguntei para a Bumma se ela tinha irmãos e ela
apontou para o motorista, ou seja, a comunicação tarda mas não falha),
bebemos leite de égua (difícil de falar que é gostoso, mas eles bebem
isso a todo instante) e visitamos um Gher de verdade, não Gher para
turista ver. Ficamos a tarde toda com eles, tirando fotos e bebendo
iogurte e andando a cavalo. São pessoas simples, de muito bom coração.
Adoramos essa parte. Isso sim é o socialismo puro! O nômade do Gher
vive com família, mantem a tradição (a cabana tem uma divisão interna
idêntica com outras cabanas, com disposição dos móveis e
responsabilidades bem definidas). Sua subsistência vem dos animais: se
come ou se comercializa. E quando quer, muda de lugar. Antes de
sairmos do parque a Bumma e o irmão nos levaram até a construção da
estátua do Gengis khan (primeiro rei da Mongólia conquistou um império
que ia da China até a Europa; por favor, sei que é difícil, mas não façam
referência irônica com aquele antigo grupo musical, alíás o Mongoliano
vive corrigindo a pronúncia, a pronúncia correta é algo como “Rengis
Rã”). No final da noite, se juntou com a gente outra amiga do Renato, a
Uelun, e fomos conhecer uma discoteca e claro, tocaram uma música
brasileira: “esse samba é misto de maracatu, é samba de preto velho, é
samba de preto tu”. Acho que as meninas que pediram…ficamos até de
madrugada.
No dia seguinte saímos para conhecer Ullan-Battor. Interessante é que
essa cidade cresceu mesmo após o fim do socialismo e as pessoas, por
Até 20 anos atrás, segundo a Uelun, também outra pessoa muito
simpática, com nível de inglês 5, a cidade se resumia a uns quatro
quarteirões de prédios residenciais modelo Stálin e um quarteirão com
a sede do governo e serviços estatais. Ela mesma morava num desses
quarteirões porque o pai dela era envolvido com o governo.
Novamente enchi de perguntas enfadonhas sobre o período socialista,
e foi bem interessante ouvir o ponto de vista arquitetônico.
Subimos num mirante para ver a cidade, fomos até o museu de
história natural (tem diversos dinossauros montados com ossos
encontrados no deserto do Gobi, no sul da Mongólia. Segundo consta,
esse foi o último habitat de vida de dinossauros na terra). Sem dúvida,
um museu que valeu a pena visitar. Almoçamos novamente num
restaurante típico: sempre começa com chá misturado com leite
(sempre no finalzinho sobram um pozinho fino), depois uma sopa com
trouxinhas com carne de carneiros e o prato final, quatro pastéis de
carne de vaca. A Juliana tomou uma sopinha de galinha bem básica e
um peixe padrão. Antes de embarcamos para Zamyn Uud, a Bumma e
Uelun nos levaram para um templo budista (80% dos mongolianos
são budistas, 5% são ateus e 5% outros) e nos presentearam um
maravilho quadro que aparece um Gher no meio do deserto. A
despedida foi difícil e emocionante. Ficamos dois dias maravilhados
com a soma de bondade, simplicidade e paisagem. A maior parte dos
turistas endinheirados de toda parte do mundo que encontramos vem
para cá se aventuram por uns 20 dias pela Mongólia, viajando a
cavalo, morando em Gher, algo que realmente vale a pena. Sabíamos
que estávamos deixando para trás outras paisagens não exploradas,
mas que ficarão para uma próxima vez. Além disso, ficamos muito
sensibilizados com a hospitalidade das meninas e preocupação
permanente em nos agradar (felizmente era um fim de semana).
Sabíamos que era impossível manter o nível de cordialidade que o
Renato tem com as pessoas, mas nos esforçamos com as boas
maneiras ensinadas pelo Zaya, inclusive com o abraço ensinado por
ele. O trem partiu às 16 horas do domingo rumo a Zumy Udd, muitas
pessoas na estação se despedindo, a imagem intrigante foi o trem já
andando e de quando em quando, algumas pessoas pegando algum
líquido dentro de um vidrinho com colher e espalhando ao vento.
Pensamos ser algo para dar sorte e precisávamos: teríamos pela frente
a viagem até a fronteira, para depois tentar atravessar até a China e
depois chegar em Pequim, mas ainda não sabíamos como.