Deixamos Irkutsk pela noite de quinta-feira rumo a Ullan-Battor, capital da
Mongólia. Mais um dia e meio de viagem (36 horas).
A viagem entre Irkutsk e Ullan-Battor foi bastante cansativa. O que
poderia diminuir o cansaço é a oportunidade de contornar metade do lago
Baikal e pelo menos ver pela janela a cidade de Ulan-Ude, capital da
Republica da Buriatia (é bem estranho mesmo: é uma republica
autônoma, mas pertence à Rússia), mas infelizmente não encontramos
passagem para viajar de dia. O cansaço se deveu mais pela burocracia
entre as fronteiras da Rússia e Mongólia do que pela distância. Eu já sabia
que esse seria o momento mais delicado da viagem, pelo fato dos
militares de fronteira Russa criarem problemas só para receberem algum
dinheiro ou por apenas cumprirem tudo literalmente a risca, não deixarem
Entre Irkutisk e Ulan-Ude um rapaz (23 anos) da Mongólia e seus
dois ratinhos dentro da gaiola dividiam a cabine com a gente.
Arranhava um inglês nível 0,5. Ficou muito entusiasmado quando
descobriu que éramos brasileiros e se dispôs a conversar através de
desenho, mímica, o que fosse. Foi uma tarde divertida e novamente
esclarecedora sobre as minhas perguntas enfadonhas sobre o
socialismo e sobre sua cultura.
Além disso, Zaya nos ensinou um pouco de etiqueta Mongoliana
(fizemos questão de aprender porque íamos encontrar uma amiga
do Renato, meu irmão, que estava nos esperando em Ullan Battor).
Entendemos que Zaya é arquiteto e projeta casas de madeira e que
já traz pronta da Buriatia para vender em Ullan Battor. Mesmo sem
falar, dava para ver a pureza de sua alma, o seu entusiasmo pela
vida, pelo seu país (mas não como exatamente um país, no sentido
de economia-política, mas como uma família-Mongólia). Ali eu e a
Juliana começávamos a entender uma pouco mais de que o lugar
que estávamos indo não era só um lugar de passagem, como
imaginávamos, mas um lugar além da geografia. Pensávamos que
teríamos a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre a vida
de Zaya na cidade, mas infelizmente, numa varredura prévia da
polícia Russa, Zaya e seus ratinhos “rossa-rossa” tiveram que descer
em Ulan-Ude, a estação seguinte, para regularizar seu visto.
Embarcaria dois dias depois em outro trem. Nesse momento fiquei
emocionado. Assim, deixamos com ele o abraço Mongoliano que
ele nos ensinou (estende-se os braços na frente do outro e se
aperta o inicio do antebraço) e seguimos viagem até a fronteira.
Ficamos cinco horas na fronteira da Rússia (pior é que isso já
estava previsto no tempo de viagem demonstrado no bilhete)
olhando para uma paisagem deserta. Acho que toda essa demora é
proposital só para tudo se tornar um ritual turístico bem marcante:
o fato é que se parece muito com o dia de se apresentar ao exército
brasileiro, lá com nossos 18 anos, para realizar os exames de
admissão. O exército russo faz uma pressão sem igual. Todos ficam
dentro do trem apreensivos, sem saber quando será a sua vez para
receber o carimbo de permissão de entrada. Ninguém explica nada;
de repente vários militares entram no trem e entregam o papel para
dúvida, mas tem medo de perguntar). Consta lá, por exemplo, que devemos declarar dinheiro, mas não determinava um valor mínimo. Essa
dúvida era minha: declaro? Não declaro? Parece até que eu tinha muito dinheiro! Todos devem ficar dentro da cabine, mas parece que de vez em
quando alguém sai com um boato de que podia sair do trem e andar um pouco pela estação fronteiriça. Quando resolvi sair, claro, apareceu
repentinamente vários militares andando rapidamente na direção do meu vagão e gritando para mim apontando o dedo. Obviamente que eu
estava tomando um “FICA NO SEU LUGAR”. Entrei rapidinho dentro do trem na minha cabine e tomei outro sossega leão da Juliana: “eu não falei
para você sossegar aqui, menino?”. E o ritual continuava: fecharam todas as janelas e persianas do trem, formando um ambiente de “vou torturar
e ninguém vai ver” e começa: preenche isso, preenche aquilo, senta, levanta, deixa eu ver se o seu rosto é igual o do passaporte, carimba aqui,
carimba ali, entra guarda, sai guarda, enfim, cinco horas depois, trem liberado. Atravessa a fronteira (eu adoro atravessar fronteiras!!), e paramos
no lado Mongol por mais duas horas. Mesma burocracia mas sem pressão policial. Preenche isso, preenche aqui, deixa ver o visto, carimba,
carimba e carimba. Pode passar. Enfim, trem liberado e noite entrando, a sexta-feira acabando. A chegada em Ullan Battor estava prevista para
sábado pela manhã.