Realmente não temos conseguido parar para enviar os e-mails
diariamente, na seqüência de nossos passeios, ora porque não
estamos encontrando internet nos horários mais oportunos ora
porque estamos em trânsito. Então agora estamos enviando uma
seqüência de e-mails. Espero que não percam o
acompanhamento…
Construída ao longo de 25 anos (1891-1916) com trabalho
forçado de milhares de condenados, a Transiberiana foi uma das
grandes obras de engenharia da humanidade no século passado e
continua a ser um desafio para viajantes de hoje, sejam eles os
obstinados moradores da Sibéria ou turistas em busca de um
destino exótico. O fato é que essa ferrovia tem uma
representatividade impar na integração da Rússia, ligando o leste
ao oeste, cidades inóspitas, vilarejos intactos (que descobri que
vivem alheios a política desde os tempos dos Czares). É claro que
a transiberiana não é só para passageiros: o transporte de
passageiros, na verdade não dá lucro (o Russo paga, inclusive,
do que o estrangeiro) e é subsidiado pelo transporte de produtos
manufaturados e matérias primas (a ferrovia está em processo de
privatização). Além disso, torna a Rússia mais próxima do Japão e Coréia e
até mesmo dos Estados Unidos, através do Porto de Vladvostok.
Impressionante: são mais de 9 mil quilômetros de ferrovia! Dimitri ficou para
trás e ficamos com os montes Urais (bem menores do que imaginávamos) na
janela e novos companheiros de cabine: um casal de aproximadamente 55
anos, que falava um inglês 0(zero) ou, como eram siberianos, abaixo de
zero. Mesmo assim, tentamos a comunicação. Tinham o jeitão de gente da
roça brasileira: pessoas muito simples, mas da roça (ou seria melhor dizer da
pesca) da região da Sibéria. Infelizmente ficou difícil anotar seus nomes,
repedidos mais de cinco vezes. Mas temos uma gravação. O trem mal
fechou as portas e o homem abriu uma garrafa imensa de Vodka. Já foi
servindo, colocando um copo cheio até a boca, e dizia “iá”, “iá”,
provavelmente deve ser “toma”, “toma”. Como não bebo nem cerveja, fiz um
pequeno gesto com a mão no estômago como se estive com problema na
barriga e não podia beber. Pra quê? Ele fuçou dentro de uma sacola e achou
dois comprimidos numa embalagem bem esquisita. Entregou-me. Quando
ele virou as costas, não tomei nada e guardei os comprimidos. Passou uns
minutos, iniciou uma conversa como se eu a Juliana fossemos amigos de
longa data e falássemos russo, foi sacando da mesma sacola uns peixes
contorcidos (defumados) e secos (isso é muito comum nessa região, é um
aperitivo com cerveja. Engraçado é que eles carregam de baixo do braço
como quem carrega um jornal). Não teve jeito, tive que experimentar.
Quando acabei um, lançou outro enorme sobre a mesa. Acho que comi
muito rápido o primeiro… Não bastassem os peixes, começou a sessão
Pepino: eles comem pepino igual tomam água. Toda hora, cru e sem cortar.
Novamente fiquei todo empepinado. A Juliana já estava se escondendo…Eles
ficaram até a hora de dormir se divertindo com nosso dicionário de russoportuguês.
Para usá-lo, desenterraram uns óculos do tempo dos czares!!
Também deixamos com eles um postal do Rio de Janeiro e deixaram com a
gente uma foto da família. Exigiram que escrevêssemos alguma coisa em
português porque queriam mostrar para a família. Na madrugada, partiram.
No terceiro dia de viagem, fomos acompanhados por dois estudantes (inglês
nível 3,5) e pela paisagem repetida da Taiga (são árvores longas, galhos
verdes claros, a mata não é fechada como na Amazônia. Dizem que a
Amazônia e a floresta da Taiga são os pulmões do mundo). Como os
estudantes não estavam sozinhos, então nossas conversas não eram tão
intensas. Mas deu para obter mais uma visão sobre os acontecimentos na
lugar para o desfecho teórico e intelectual do trecho, com a
companhia de uma turma de funcionários de uma empresa que
promove o sistema de pagamento bancário na Rússia. Em nossa
cabine um novo e grande amigo: Michael, inglês nível 9,5. Michael, 26
anos, russo de Novasibirk, capital financeira da Sibéria, pai cientista
Russo contratado pela Ford (na Alemanha), estava indo para Ulan-
Ude, cidade depois de Irkutisk, para ensinar aos empresários a
utilização do sistema de pagamentos russo. Ele representa exatamente
o bom momento da Rússia: está progredindo rápido na carreira,
enxerga grandes oportunidades de crescimento e não quer sair da
Rússia nem de Novasibirsk. Para se ter um visão geral do que é a
Rússia hoje, do que pude abstrair dos relatos dessa viagem e
confrontar as estatísticas mostradas pelo Michael e sua clareza sobre a
economia e política, a Rússia é um país que ainda não é exatamente
democrática (tem apenas 20 anos sua democracia), a economia
apresenta grandes oportunidades de crescimento, como abrir um
negócio, mas é necessário pagar as taxas governamentais e ainda
pagar “por fora” o que onera o capital duplamente; crescer na
carreira, através de empresas multinacionais é a grande oportunidade,
mas ainda existe o receio de investimentos no país, por conta da
insegurança; apenas 12% do país pagam impostos!! a economia é
praticamente informal (então, como o governo tem dinheiro?).
Petróleo. Quando o preço vai bem, a economia vai bem; muitos
novos ricos estão surgindo, o que agrava as diferenças sociais; a
escola esta piorando; e só para finalizar, o mais velhos querem voltar
para a época socialista: é fácil de entender o porquê, pois naquela
época o governo dava tudo e não havia exigência no trabalho. Bem,
não dá para fazer uma tese por aqui. É só uns pontos para relato.
Com a turma do Michael, eu a Juliana pudemos experimentar da farta
variedade de frios da Rússia. Eles montaram diversos cafés dentro da
cabine e convidaram a gente. Por sorte, dentre eles, havia uma moça
que já havia visitado o Brasil e que adoraria morar em São Paulo: as
portas estavam mais abertas para gente. Nossos cafés eram
acompanhados pela música saudosista que o Provodnitsa, controlador
do vagão, colocava enquanto ele limpava o tapete do corredor (era
um limpezinha bem meia-boca feita com aspirador de pó, porque o
tapete era muito sujo. Valia mesmo era ver o empenho dele com
aquela música que nos fazia lembrar dos filmes da segunda guerra).
Descemos em Irkutisk e eles seguiram viagem.