Irkutsk é uma cidade silenciosa, como um chuvisco de neve. Está
localizada no quilômetro 5200 da ferrovia. Nasceu praticamente com a
chegada dela no final de 1800 e se desenvolveu mais com o
aparelhamento estatal no período socialista, especialmente no governo de
Stalin. A arquitetura é formada por uma mistura de prédios Stalinistas
(de no máximo quatro andares) e casas de madeira. Está localizada nas
margens do Rio Angara, rio que nasce no norte da Rússia e deságua no
Baikal. Nessa cidade é que está localizada a famosa prisão que no
ocidente ficou famosa a frase “vou te mandar para a Sibéria”. De fato é
um lugar bastante inóspito mas enigmático.
Chegamos em Irkutsk 3 horas da manhã, horário bem complicado.
Tínhamos apenas dois endereços de albergues, precisamos encontrá-los,
mas não tínhamos nenhum mapa da cidade. Chegamos a andar pela
estação perguntando como fazíamos para chegar aos tais endereços, mas
ninguém entendia por estava escrito com o alfabeto romano. Como o
tempo estava correndo e precisamos dormir um pouco para curtir a
cidade, o jeito foi apelar para táxi. Essa foi a parte que tivemos mais
medo até aqui. Pegamos um motorista parecido com o Frankstein, dentro
de um Lada, um carro bem apertadinho para ele. Negociei com o ele o
valor previamente, apenas mostrando os rublos. Ele não falava nada de
inglês. O carro saiu em disparada da estação, rumo a um dos endereços
que ele parecia conhecer. Primeiro ele ia deixar outro passageiro e
conversavam tanto que em alguns momentos pensamos que iam nos
assaltar. Ficamos gelados, eu e a Juliana, olhando um para o outro no
banco de trás. Deixou o passageiro e foi retornou para o outro lado da
cidade para nos deixar. Foi um tour de alta velocidade, pena que de
madrugada. O carro pára, ele olha no mapa, olha no guia de ruas, olha
em tudo quanto é lugar, esbraveja umas palavras em russo que
aumentava o medo. Repentinamente saia do carro e sumia na escuridão
das calçadas cheias de árvores e pouca iluminação. Quando ele voltava
para o carro, mais esbravejo e olhar de inconformismo. Todo o seu
tamanho, o carro pequeno, tornava uma cena interessante: se contorcia
todo, meio sem jeito, para retomar o volante. O momento mais crítico
para nós foi quando entrou com o carro numa rua de terra no meio do
matagal, andando numa escuridão por uns 200 metros. Mais um pouco,
o terço que a Juliana segurava ia se esmigalhar em suas mãos. Mas tudo
não passava de uma tentativa desesperada de encontrar o tal endereço.
E Nada. Eu e a Juliana nos olhávamos e estávamos loucos para
dizer para o taxista em Russo: “desculpa aí ter trazido um endereço
tão difícil”. Mas preferimos ficar assobiando e olhando para o lado
como se todo o transtorno não fosse com a gente (não estávamos
entendendo nada do que ele dizia, mesmo). Resumo da história: já
eram 5:30hs, e ele nos deixou num prédio (modelo socialista de
Stalin, construído uns 40 anos atrás) que disse ter certeza que era
lá, mas não havia nada de albergue. Aí a primeira surpresa: o preço
que havíamos negociado era por pessoa…dancei, sem saber.
Dormimos um pouco no hall do prédio até que apareceu um
“camarada” (segunda surpresa: o povo de Irkutsk é bem camarada,
no bom sentido, dos “camaradas” comunistas) que nos levou de
Jipe até o Albergue, uma quadra depois.
Dormimos um pouco pela manhã e fomos enfim conhecer o Lago
Baikal. Para chegar, é necessário pegar um microônibus no centro
de Irkustk, que nos leva até a cidade de Listvyanka, nas margens do
lago. O lago Baikal é o maior lago de quantidade de água doce do
mundo (20% do mundo), menos por sua extensão (600km) mais
pela profundidade. É um vista bonita mas não excepcional. No
inverno deve ser bem diferente. Vimos fotos de carros andando
pelo lago todo congelado. O frio chega a 30 graus abaixo de zero.
Como é verão, pensei até em nadar no lago, mas mesmo assim,
estava muito gelado(faz no máximo 15 graus). Descobrimos então
que o que realmente vale nessa região é caminhar pelos vilarejos
em volta do lago. Simplesmente delicioso e tudo muito simpático.
Andar lá não cansa. Quase 99% dos turistas do mundo que vem
para essa região são praticantes de caminhada de longa distância
(ficam 10 dias acampando entre vilarejos se guiando pelo lago). De
fato, essa foi a parte mais legal: as vilas começam no lago e sobem
sobre as montanhas, as casas sempre com as chaminés saindo
fumaça e cheiro de comidinha (de verdade, não é só para turista
ver!); cachorros bem grandes para avisar a chegada de um, quem
sabe, urso ou raposa. Para se ter uma noção, lembra um pouco
Paranapiacaba exponencialmente maior…(claro que no verão, pois
no frio, é neve até dentro do nariz). Voltamos para o Albergue no
final da noite, depois de perdermos duas horas em vão procurando
o ponto de ônibus. Novamente fomos resgatados por outro “camarada” que se prontificou a nos levar em casa, vendo nosso
desespero. Era tão “camarada” que quando nos deixou, pois a mão no
peito (reverência tradicional na época socialista, quando se encontrava
outra camarada) e abaixando um pouco a cabeça, como algo de “missão
cumprida”.
Em nosso segundo dia em Irkutisk aproveitamos para conhecer a cidade.
O Rio Angara, provavelmente com a largura do Tietê, mas 200% limpo,
traz o encanto para a cidade. A cidade é bem, é bem, é bem… feita para o
frio rigoroso (a cidade fica toda coberta de neve em 80% do ano!!): não
há colorido, as casas são de madeira, bem fechada, as lojas são discretas
e é difícil até encontrar um restaurante. Tudo tem duas portas, uma
seguida da outra, propositalmente para se proteger do frio. Em tudo
quanto é lugar tem água quente: é fácil tomar um chazinho…O transporte
coletivo dentro de Irkutsk é bem antigo, tem de tudo: ônibus elétrico,
Tram(trem com dois vagões andando pelas ruas) e ônibus caindo aos
pedaços. Em compensação são bem baratinhos (uns 30 centavos de Real).
Curioso são os carros: 60% dos carros são provenientes do Japão (eles
compram carros usados, muito mais barato. Vai um Land Rover aí? Um
Land Rover ano 2006 por apenas 27 mil reais…). Mas como se sabe, no
Japão a direção é ao contrário, mas é permitido dirigir na Rússia pelo lado
contrário na mão ocidental. Enfim é uma bagunça…