Dimitri foi a primeira surpresa da viagem de Moscou a Irkutsk, na Siberia. Um “camarada” de uns 35 anos, que estava viajando com a família na capital apenas para tratar de assuntos do banco, onde trabalha. Falava um inglês de
entendimento nível 6(não vou falar meu nível, aqui só eu dou a nota para os outros!) e ficou muito interessado em conversar, em saber sobre o Brasil e se prontificou a abrir tudo sobre sua cultura, sobre a vida na cidade do interior e
a responder minhas enfadonhas perguntas sobre o socialismo (importante lembrar que a Rússia era socialista até o início da década de 90). Foi extremamente educado e paciente. Na primeira vez que o trem parou por uns 20 minutos numa estação inusitada, Dimitri sinalizou que podíamos tomar um ar lá fora. As Babuscas (a palavra significa Mãezonas, mas são mulheres que vendem comidas na estação de trem) oferecem de tudo. Se abrir a carteira e comprar uma coisa, todas pulam em cima do comprador para ver se ele quer mais alguma coisa. Elas também vendem comidas prontas (confesso que estava louco para comer e isso já era algo que tinha em mente desde São Paulo. Mas Dimitri, infelizmente, infelizmente relatou como aquilo era feito…ou seja, estragou justamente aquilo que dava o gostinho para a comida). Bem, continuando… nesse meio tempo, Dimitri me disse que era muito comum o transporte de mísseis naqueles trilhos, mas não sabia dizer
de onde vinham para onde iam. Aconselhou-me a sempre tirar foto apenas do nosso trem, para evitar problema com a polícia ou o exército. Além disso, me explicou sobre a situação da Rússia, sobre a economia, como era o período soviético, como era a vida no socialismo, na escola, sobre esporte, religião, etc (esses detalhes vou deixar um pouco para os próximos e-mails) e algumas dicas para durante a viagem de trem: não beba nada que oferecerem (pode ter algum sonífero); não comer nada do que venderem durante as paradas (ninguém sabe do que é feito, como por exemplo, oferecido pelas Babuscas) e a explicação para motivo pelo qual o trem, de quando em quando parava por uns 20 minutos em estações especificas, no meio do
nada: para isso, Dimitri, com toda a paciência, riscou no chão com uma moeda toda a linha transiberiana, e dividiu-a em 10 partes, demonstrando que cada parte significava a mudança de distribuição de energia elétrica dentro da Rússia e, então, a necessária troca de locomotiva. Além disso, essa troca de locomotiva permite que a troca do maquinista, cumprindo sua jornada de trabalho.
Dimitri também se demonstrou bastante otimista com o período “democrático” (como eles costumam dizer sobre o período após o socialismo) e vem obtendo destaque no banco onde trabalha, crescendo na carreira, algo impensável 30 anos atrás. Enquanto conversávamos, sua esposa ficava alheia a nossa conversa: dormia, sai da cabine, andava para os lados e a July acompanhava atentamente pescando as frases que entendia. Tomamos vários chás em família ao longo de nosso primeiro e intenso dia de conversas que não acabavam. Pensávamos ter encontrado bons companheiros de viagem, pelo menos até bem próximo de Irkutsk, mas infelizmente, para nossa surpresa, quando entramos nos montes Urais, lá pelas 21horas(ainda de dia), Dimitri e família desembarcaram. Deixamos com eles um postal do “Reio die Dianeiro” (como eles pronunciam a capital carioca) e nosso mail. Esse postal não é do tamanho postal. É um pouco mais cumprido. No momento que dei para eles, já fora do trem, muitas pessoas que estavam em volta vieram ver, reconhecendo a foto. Ficamos emocionados com o interesse e a expressão de “Bonito, Maravilhoso”, “Brezil”. Ainda faltava pouco mais de três dias de viagem.