Enfim, depois de quatro dias dentro do trem, chegamos a Irkutsk, cidade no coração da Sibéria, ao lado do Lago Baikal, o maior lago de água doce do mundo. Está sendo muito difícil começar a relatar como foi nossa viagem de quatro dias entre Moscou e Irkutsk. Não é como dizer apenas que “fizemos uma boa viagem”, “a paisagem é muito bonita”, “foi cansativo”, “foi divertido”, etc. Esse é justamente o coração dessa viagem: a oportunidade de se conectar com o “povo” com aquilo que realmente representa cada país. Ok, Moscou é uma cidade conhecida no mundo todo, e é natural todos esperarem que qualquer visitante diga: “o Kremlin é maravilho”; “Existe um Mcdonalds em frente a Praça Vermelha”; “o povo Russo tem cara amarrada”; “as igrejas são maravilhosas”, etc. Mas o fato é que isso não reflete a Rússia, a verdadeira Rússia, assim como o Pão de Açúcar, por si só, não representa o que é o Brasil. Em nosso último dia em Moscou, acordamos bem cedo e fomos para o que eles chamam de “City Moscou” ou a “Nova Moscou”. Trata-se, na verdade de prédios modernos que ainda estão sendo erguidos em sua maioria. A Juliana não gosta muito de velharia e pediu para sair da cidade com uma boa imagem dela. Os prédios são realmente modernos, novas pontes especiais para pedestres (fechadas, com calefação e lojas) estão sendo construídas sobre o rio Moscou. Estava muito calor, como nos dias anteriores, andamos muito a manhã inteira e fomos parar novamente no centro velho para nos despedirmos do Lênin. Ele mandou um abraço para o Hugo Chaves e aproveitamos para comprar umas Matrioskas (são aquelas bonequinhas, uma dentro da outra, todas pintadas à mão, iguaizinhas). O mini-dicionário Russo-Português-Russo nos valeu a primeira economia quando mostramos para o vendedor a palavra “desconto” na língua dele. Ele entendeu rapidinho. Excelente, agora só faltava irmos até o hotel, pegarmos as coisas e embarcarmos no trem das 13h10min horas. Essa ida e vinda do centro até o hotel e hotel até a estação de trem nos valeu uma boa despedida do metrô de Moscou. Eu já estava ficando especialista nas estações… É claro que o trecho entre o Hotel até a estação do trem era o de maior sacrifício: nem todas as estações tinham escada rolante então eu tinha que carregar as malas (duas malas enormes) num sob e desce dentro da sauna (muito quente e eles não usam ar condicionado, lembra?). Bem, chegamos finalmente à estação, claro que com duas horas de antecedência. Eu não poderia perder por nada aquele trem. E cada vez que alguém nos dizia “chega cedo porque entender a estação é meio complicado”, eu aumentava vinte minutos de segurança. Logo reconheci que era a mesma estação de um documentário da Discovery que eu tinha assistido anos atrás em que o jornalista mostrava o aviso luminoso da estação informando: Beijing. Eu havia acreditado muito nisso naquele momento, aqui estávamos para provar isso. Havia muitos policiais averiguando passaporte em todas as entradas da estação. A Juliana estava sempre apreensiva sobre esse assunto, me pedindo sempre para ser discreto nas fotografias, não chamar a atenção porque ela não queria nenhum inconveniente. Mas conseguimos driblar com facilidade, esperando o momento em que todos os policiais estavam ocupados revistando alguém. Era só passar rapidinho, no meio da multidão. Só para ficar mais claro o motivo da preocupação com os policiais é que não tínhamos nada a temer: estamos bem regulamentados, com visto, etc. mas é comum na Rússia o policiais criarem pequenos obstáculos para eles receberem uma gorjeia. Vimos mais de uma vez, um viajante pagando caixa de cigarro para os policiais. O trem estava marcado para 13h10min horas. Duas horas antes, no luminoso já constava o número do nosso trem, mas ainda não constava a plataforma. Sabíamos que o trem sairia no horário e tudo o que pudesse ser feito para não errarmos o vagão e acertarmos nossos lugares, tínhamos que fazer o máximo de antecedência. Mas isso só gerou ansiedade. O número da plataforma só apareceu as 12: 50 horas e toda a multidão, com tudo quanto é tipo de mala foi em arrastão em direção dela. E lá fomos nós
andando em passos curtos, no meio da
multidão, em direção ao provável lugar onde
deveria parar vagão número 13. O trem ainda
não estava lá, mas íamos contando os vagões
com o trem ao lado. E nessa peregrinação,
carregando nossas malas íamos checando tudo:
“o bilhete ta aí?”,” máquina fotográfica?”, “sacola
de MatriOOOOOOOOOuskas?”. E o trem
finalmente chegou: 13 horas. E veio parando,
parando, parando e fomos observando que
esquecemos o famoso provérbio “os últimos
serão os primeiros”: o vagão número 13 na
verdade era o primeiro, de forma que quando o
trem partisse, ele se tornaria o último. Saímos
em disparada, atropelando todo mundo,
trocando “Sviniti”(desculpa) com “spasiba”(com
licença) e sai da frente “Matrioooooooooouska”!.
Enfim, chegamos, o controlador do vagão,
conhecido como “provodnitsa”, olhou com o
mínimo de detalhes nossos bilhetes e permitiu a
entrada. E daí por diante foi somente a
dificuldade de sabermos onde seria nossa
cabine. Andamos umas três cabines, todas
completas (então não era a nossa) e na terceira
resolvi perguntar à uma moça – dentro da cabine
estava essa moça, o marido e uma menina de
uns 10 anos. Ela olhou com detalhe o bilhete,
re-olhou, olhou para o marido com os olhos
fixos por uns 3 segundos e disse “here” ,”here”,
It´s here”. Aceitamos: entramos na cabine com
nossas coisas, mas ficamos preocupados, não
entendendo todo aquele cruzamento de olhar e
cochichos com a língua Russa… Bem, é muito
por hoje,
continuaremos depois…