MOCKBA BTOPOÑ OCTAHOBKM

Não se preocupe que o título desse e-mail não está errado e nem seu computador está com problema. É apenas a substituição do nosso alfabeto pelo alfabeto cirílico, utilizado pelos russos. O título é “Moscou – segunda parada”. Mas esse é um aperitivo proposital para vocês entenderem nosso drama para encontrarmos os nomes das ruas e das estações de metrô corretas.

Chegamos ontem aproximadamente 6 horas da manhã. Nossa primeira tarefa era sair do aeroporto e encontrar um jeito barato para ir à cidade (é como ir do aeroporto de Guarulhos a São Paulo). A única informação que tínhamos é que a única maneira era de táxi e deveríamos negociar antecipadamente. Outra informação: cuidado com os gatunos. Os valores informados não eram muito convidativos. Então, a técnica era desviar do assédio dos taxistas e sentar um pouco no saguão do aeroporto fingindo esperar alguém, afinal precisávamos entender o terreno. Tempinho depois sai sozinho dando uma volta pelo aeroporto procurando saber outras formas de transporte. Encontrei a mina de ouro e praticamente todos os que estavam no meu avião. Ahhha! Peguei vocês, Hein? Então quer dizer que vocês também não vão de táxi e ninguém veio pegar vocês? “Não se preocupem, minha família também já fez isso comigo”… Então encontrei o mapa da mina: duas linhas de ônibus urbanos, bem escondidinhos, que nos levariam até a estação de metrô mais próxima. Aí ficou fácil, com metrô estaremos em casa!

Busquei a Juliana, e saímos correndo com nossas malas, com nariz empinado, negando todos os taxistas que nos cercavam. Foi difícil negar um passeio pelo Lada antigão, mas foi interessante a viagem de ônibus sanfona entre o aeroporto e a cidade. Sinceramente, não foi muito diferente do ônibus Paraíso -Cidade de Tiradentes em São Paulo. Mas foi em Moscou, com paisagem diferente, sem perigo de assalto, com a expectativa de “onde vamos descer?”. Bem, o fato é que ali dentro daquele ônibus dava para perceber que o povo russo é muito parecido com o brasileiro. Bem, não sei dizer sobre o que falam… mas são bastante conversadores e sorridentes.

Depois que encontramos o hotel, tivemos que dormir no saguão por toda a manhã até liberarem a entrada no quarto. Por mais que o corpo pedisse cama, não podíamos desperdiçar metade do dia. Então saímos pela cidade, quebrando a cabeça com o metrô. Estou gostando muito desse jogo de encontrar as estações: é bem melhor que videogame.

Realmente o metrô de Moscou é surpreendentemente eficiente. Não se compara com a modernidade do Japão. O moderno do Metrô de Moscou é sua experiência. A capacidade de manter qualidade no serviço com “ar” de antiguidade (os trens fazem muito barulho, chegam até apagar a luz entre uma estação e outra). Mas apesar de muito antigo, serve toda a cidade, num emaranhado de linhas, com freqüência de trens espantosa (acho que não chega a 30 segundos) e com tudo muito, mas muito rápido(inclusive as escadas rolantes, as crianças adoram!!!). Além disso, as estações são verdadeiras obras de arte: tem diversas estátuas, cúpulas e túneis que parece até que estamos dentro de esconderijos de um castelo. Todas as estações estão em Russo. Nosso mapa, ao invés de ter o nome em Russo escrito, traz a pronúncia. Então, algumas vezes eu consegui acertar ouvindo o condutor do trem. Outras vezes, vai por tentativa e erro.

Mas a cidade não tem apenas o metrô. Tem o Kremlin, onde fica o presidente e o congresso da Rússia. Na verdade, o Kremlin é uma imensa fortificação erguida em 1150 no centro da cidade (com uma muralha ao redor, parecendo com antigos castelos feudais) repleta de prédios governamentais, palácios e catedral. Nossa tarefa é encontrar o melhor ângulo para tirar uma foto. Infelizmente não existe mais aquela sensação de medo que provavelmente existia no período socialista. A praça vermelha, em frente ao Kremlin, tem um shopping ainda estatal que serve de vitrine para as marcas mais luxuosas do mundo. E bem em frente ao Shopping repousa o corpo embalsamado de Lênin.

Amanhã vamos até lá para ver o corpo do Lênin. Ontem e hoje estava fechado.

Interessante é que a cidade está bastante movimentada de turistas, mas são turistas da própria Rússia. Encontramos os mesmos japoneses de sempre, com máquina fotográfica na mão, sempre correndo, enfileirados, comprando alguma coisa, etc. Tenho certeza que devem ser os mesmos que já encontramos em Foz de Iguaçu ou no Rio de Janeiro, e que vocês já encontraram. Mas a maior parte são os Russos visitando a própria capital. É fácil entender: a Rússia é o maior país do mundo e duas vezes e pouco maior que o Brasil. Viajar para eles é conhecer o próprio país. E isso é interessante porque é fácil perceber que o povo Russo é bastante nacionalista e muito prático. Não existe ainda consumismo, modismo de outros países, ou qualquer admiração à outra cultura. Eles são eles mesmos, buscando criar um país para eles mesmos. É fato que do tamanho que eles são, eles são “o mundo”. Sinceramente, acho pouco provável eles colocarem no currículo algo do tipo “gostaria de conhecer outras culturas”. Eles são assim, sem serem arrogantes.

Como de praxe, hoje andamos muito. E o sol de 30 graus nos acompanhou. Pois é, Moscou com calor, não imaginávamos tanto. Temos sede permanentemente, parece que não vence. Por sorte encontramos um pessoal da Unilever distribuindo Ice Tea na frente do parque Gorki. Valeu uma passadinha mais de uma vez. Hoje também visitamos o teatro Bolshoi (está em reforma) e diversas catedrais. Amanhã ainda andaremos por Moscou pela manhã. No início da tarde partiremos para a Sibéria. Serão quatro dias de viagem dentro de um trem, a primeira parte da Transiberiana. Acho que nesse percurso não conseguiremos enviar nenhum e-mail. Mas em nosso primeiro dia em Irkutsk, na Sibéria, mandaremos notícia. A lembrança que vai ficar de Moscou é a emoção de um Economista estar no primeiro lugar onde nasceu o império socialista, inspirado em Karl Marx; onde começou e terminou a URSS; e onde a história política e econômica ainda se constrói com direito a comentários respeitosos pelo mundo. E a emoção de uma pessoa que sonhava ser bailarina, a Juliana, entusiasmada como uma criança que ganha a primeira bicicleta, vendo o Bolshoi, o sonho de qualquer bailarina.

Apesar de o capitalismo estar em franca expansão, ainda lhe resta a Moscou a arquitetura socialista dos prédios residenciais (estilo ala residencial de Brasília) e um “ar” meio secreto, de mistérios, dos carros pretos de luxo com vidro fumê que entram e saem de ruazinhas silenciosas, misteriosas, dentro da cidade. Essas ruazinhas decodificam muito do que é a Rússia, pelo menos de Moscou, pelo menos na minha imaginação.

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